Homenagem a Jether Pereira Ramalho (1922-2020)

Jether 1

Publicamos hoje a homenagem da BVPS ao professor Jether Pereira Ramalho, falecido há um mês, no dia 28 de junho, aos 98 anos de idade. Como evidenciam os depoimentos abaixo, que recolhemos de alguns de seus amigos, colegas e alunos, em sua longa vida Jether Ramalho foi múltiplo, mas sempre fiel aos valores da educação, da justiça e da democracia. Foi professor do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ; ator fundamental do movimento ecumênico latino-americano; um dos fundadores do Centro Ecumênico de Documentação e Informação (CEDI) e editor de sua revista, Tempo e Presença. Sempre alerta, foi voz combativa durante a ditadura militar, formou gerações de cientistas sociais e atuou no trabalho de base de comunidades religiosas e movimentos sociais.

Além dos depoimentos, ao final deste post trazemos um texto do próprio Jether Ramalho, “O papel dos ‘malditos da terra’”, publicado originalmente em 1986, mas que se revela extremamente atual.

Agradecemos a José Ricardo Ramalho por parte das imagens que ilustram este post, pertencentes a seu acervo pessoal, bem como pela oportunidade de divulgarmos o texto de autoria do seu pai, para o qual ele fez uma pequena introdução. A outra fotografia é de Yvonne Maggie, a quem também agradecemos.

Convidamos todas e todos para acompanharem nossas atualizações no Instagram e Facebook.

Abaixo publicamos os depoimentos de:

Michel Misse, professor Titular do Departamento de Sociologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Yvonne Maggie, professora Titular e Emérita do Departamento de Antropologia Cultural da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Eurico de Lima Figueiredo, professor Titular e Emérito Instituto de Estudos Estratégicos Universidade Federal Fluminense.

Leonardo Boff, ecoteólogo, filósofo, escritor e membro da Iniciativa Internacional da Carta da Terra.

Zwinglio Mota Dias, professor do Departamento de Ciência da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora e pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil.

Glaucia Villas Bôas, professora Titular do Departamento de Sociologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Carlos Rodrigues Brandão, professor Titular e Emérito do Departamento de Antropologia da Universidade Estadual de Campinas.

Carmen Felgueiras, professora do Departamento de Sociologia e Metodologia das Ciências Sociais da Universidade Federal Fluminense.

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Em memória de Jether Pereira Ramalho, por Michel Misse

Jether foi o nosso primeiro professor de Sociologia. Fomos a primeira turma de Ciências Sociais a iniciar o curso no velho prédio do Largo de São Francisco, em março de 1970. Lembro-me que fiz a minha inscrição para o vestibular ainda na primeira sede do IFCS, na casa que pertencera a Joaquim Nabuco, na rua Marquês de Olinda, em Botafogo. Tive que apresentar minha identidade a um jovem soldado armado de metralhadora que guardava a entrada do prédio. O prédio havia sido ocupado pelas forças da ditadura e o novo diretor, nomeado, aprovou a mudança do IFCS dali para o antigo prédio da Engenharia, no Largo de São Francisco. O clima era dos piores possíveis, principalmente para muitos de nós que vínhamos do movimento secundarista e do ativismo contra a ditadura. Éramos uns cem alunos que, somados aos que haviam passado para Filosofia e História, entrávamos na “Nacional”, como ainda se dizia na época. A Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil havia sido extinta três anos antes e substituída por várias faculdades e institutos agrupados no CFCH – Centro de Filosofia e Ciências Humanas da agora renomeada UFRJ.

Nosso primeiro contato universitário com a Sociologia deu-se, portanto, já no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais e já neste mesmo prédio onde o IFCS continua até hoje. Então não sabíamos que Jether e a maioria de nossos professores, quase todos ainda muito jovens, estavam a substituir os antigos catedráticos e seus assistentes, reformados, exilados, aposentados ou cassados pela ditadura nos anos anteriores. Há uma foto, tirada ainda na Marquês de Olinda, em que quase todos os nossos primeiros professores aparecem: Jether Pereira Ramalho, Gilberto Velho, Yvonne Maggie, Luitgarde Cavalcanti, Liana Cardoso, Eurico de Lima Figueiredo, Venúsia Cardoso, José Jeremias de Oliveira… Estão todos em torno da então diretora do IFCS, a antropóloga Marina São Paulo e Vasconcelos [ver foto ao final do depoimento]. Jether era o mais velho, tinha se diplomado cirurgião dentista muitos anos antes, mas foi buscar no curso de Ciências Sociais na FNFi, onde ingressou após o golpe de 1964, os questionamentos sociológicos de sua prática evangélica, quando os caminhos da ação pastoral que realizava se fecharam, com a perseguição à CEB – Confederação Evangélica do Brasil, então dissolvida. Convidado pelo Prof. Evaristo de Moraes para lecionar em seu lugar numa de suas disciplinas, viu o grande mestre ser perseguido pela ditadura e ser aposentado compulsoriamente pelo AI-5.

Jether entrou sério no anfiteatro do terceiro andar naquele dia de março de 1970, toda a turma já sentada e ansiosa com a primeira aula, primeiro contato universitário pós-colégio, a expectativa nervosa de um mundo relativamente desconhecido. Apresentou-se, explicou como seria o curso de introdução à sociologia e pediu que lêssemos, durante o curso, e fichássemos (explicou o que era um fichamento de livro) um livro recém-saído, A imaginação sociológica, de Charles Wright Mills. Publicado pela Editora Zahar um ou dois anos antes, no Brasil, Wright Mills desancava o positivismo sociológico, as grandes teorias, o empirismo abstrato e nos brindava com um texto que marcou toda a nossa geração: “Do Artesanato Intelectual”. O convite para retornar aos clássicos, refazer o caminho percorrido pela sociologia, ligar o conhecimento à ação, tudo isso teve a forma de um batismo, um batismo talvez avançado demais, mas ao mesmo tempo respeitoso com a inteligência daqueles jovens ali sentados, espremidos naquelas carteiras enfileiradas, ansiosos por saber o que era, afinal, essa tal de sociologia. Muitos de nós conhecíamos superficialmente o marxismo, a psicanálise, alguns livros de história, pouca coisa mais, talvez um Donald Pierson de manual. Fomos apresentados abruptamente a Talcott Parsons e a  Lazarsfeld com um texto que, ao mesmo tempo, os compreendia e os criticava. Estávamos aprendendo logo de saída que a sociologia é isso, compreensão e crítica do mundo social e de seus pensadores, conhecimento e ação a partir de uma disciplina acadêmica que exigia rigor e objetividade de seus epígonos.

O estilo docente de Jether não escondia, na retórica e nas brincadeiras a que se permitia conosco, as virtudes de um homem experiente e simples. Logo o vimos como um Mestre, em quem podíamos confiar. Alguns disseram que ele era pastor protestante, soubemos também que um filho seu, José Ricardo, era nosso colega. De certo modo, e digo que consultei outros colegas a respeito, havia, para além de José Ricardo, uma paternidade que nos englobava, que nos recebia.

Uns dois anos depois reencontramos Jether em nova disciplina, Sociologia III. A ementa do curso era sobre Instituições Sociais. Ele dividiu a turma em grupos, cada grupo com uma instituição: família, estado, escola, igreja… Foi um curso bastante dinâmico, que ainda é lembrado por muitos de nós. Mas um acontecimento marcou especialmente esse curso e nos apresentou definitivamente a Jether. Num certo dia, hoje fora do espaço e do tempo, todos advertimos que havia um sujeito na sala de aula que não pertencia à turma. Alguns de nós já havíamos sido presos por dias ou semanas, o clima era o pior possível e sabíamos que havia informantes infiltrados no IFCS. Eremildo Viana, o antigo diretor da FNFi que delatou seus colegas à ditadura, ainda circulava pelos corredores com a empáfia de chefe do departamento de História. Era ainda uma eminência parda junto ao então cauteloso e conservador Diretor Eduardo Prado de Mendonça.

Em plena aula, à luz do dia, Jether se dirigiu ao informante e perguntou se ele estava matriculado no curso. Diante do evidente balbucio do flagrado, Jether pediu, educada mas firmemente, que ele se retirasse da sala, o que ele fez de imediato. Toda a turma, aliviada, queria aplaudir, mas conteve-se emocionada com a tranquilidade com que Jether, em segundos, continuou a aula do ponto em que estava.

São muitas as histórias que elogiam em seu intercurso o jeito com que Jether lidava com situações difíceis, algumas vezes verdadeiramente situações limites. Além de professor no IFCS, ficamos depois sabendo de sua imersão no ecumenismo e no apoio aos movimentos sociais através do CEDI (depois, Koinonia, o Centro Ecumênico de Documentação e Informação) e de outras tantas iniciativas, como o CESEEP (Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e Educação Popular). Foi um dos principais assessores das Comunidades Eclesiais de Base da Igreja Católica e editor da revista Tempo e Presença.

Nunca o perdemos de vista desde que foi nosso professor nos já longínquos anos 70, e não só por causa de José Ricardo Ramalho, que sempre nos atualizava sobre ele. Teve uma vida longa e enquanto suas forças o permitiram, esteve constantemente presente, atuando sempre nos desafios que os movimentos sociais e o seu ecumenismo o mobilizasse. Nós, da turma de 1970, participamos das homenagens que lhe foram prestadas há alguns anos, uma delas em um auditório lotado do Bennett. Um livro foi lançado em sua homenagem e nele figura a expressão, de Rubem Alves, que talvez resuma a personalidade e o caráter de nosso primeiro professor de sociologia: “Jether, Pastor da Esperança”.

Turma formatura
Foto do dia da formatura no IFCS, em dezembro de 1968, no jardim da antiga casa da Rua Marques de Olinda, em Botafogo, onde então ficava o Instituto. Jether Pereira Ramalho é o segundo em pé, da esquerda para a direita. Ao final do post indicamos os demais presentes. Acervo pessoal de Yvonne Maggie.

 

Yvonne Maggie

Jether Pereira Ramalho e Lucilia Garcia Ramalho amigos mais queridos e companheiros na jornada da vida. Saudade enorme. Conheci Jether na faculdade Nacional de Filosofia em 1965. Um ano depois do golpe de 1964 fizemos uma greve em favor da integração dos estudantes chamados excedentes. Estudantes que tinham passado no vestibular, mas não havia como entrar no curso por falta de vagas. As lideranças mais velhas da FNFi se posicionaram contra o movimento. No comando da greve junto com Jether insistimos em levar a cabo a proposta de exigir a incorporação dos excedentes. Lembro-me com muita nitidez do dia em que no final da tarde, na porta do prédio na Av. Antônio Carlos, no centro do Rio de Janeiro, onde funcionava a faculdade, liguei para o meu colega Jether aflita com a pressão que se fazia para que terminássemos a greve. Jether atendeu com o seu carinho de sempre e insistiu para que levássemos adiante o nosso intento. Foi dessa forma que os vinte estudantes que haviam passado no vestibular foram integrados à nossa turma. Depois dessa, outras atividades neste período fizeram com que a amizade com o meu colega, mais velho, se fortalecesse e se tornasse uma aliança de toda a vida.

Nossa formatura em 1968, realizada alguns dias antes do golpe, foi feita no gabinete da diretora Marina São Paulo de Vasconcelos de saudosa memória. Terminada a faculdade Jether foi convidado a ser professor de sociologia e eu de antropologia do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais em 1969. O IFCS foi uma das instituições mais visadas pelos órgãos de segurança. Lutamos juntos ao longo desses anos difíceis para formar estudantes nas nossas disciplinas e defende-los da intensa repressão.

Jether foi um sociólogo de grande atuação unindo a militância com a produção acadêmica e formando gerações de estudantes que foram espalhando a boa sociologia pelo Brasil. Estimulava colegas e estudantes a escrever e publicar. Editando a revista Tempo e presença ao longo de muitos anos, nos legou um conjunto expressivo de contribuições sobre temas centrais da vida brasileira.

Lucilia e Jether continuarão vivos na minha memória e as lembranças de nossos encontros em Bento Ribeiro, em Laranjeiras ou em Pedra Sonora junto com José Ricardo e Neide são recordações mágicas que fizeram com que os laços de afeto se estendessem à amizade que perdura entre seus netos Emiliano e Tomás e meu filho Domingos de Leers Guimaraens.

 

Eurico de Lima Figueiredo

Conheci Jether Pereira Ramalho no início de 1965, quando fui seu colega no primeiro ano do curso de Ciências Sociais da então Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil, hoje Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Eram anos difíceis. Logo no começo do curso, a turma teve séria altercação com uma professora, cujo nome não merece ser lembrado, adepta do regime autoritário que, naquela época, aprofundava-se no Brasil. Nesse episódio, Jether logo mostrou as características marcantes da sua personalidade. Exibindo equilíbrio e moderação, mas também firmeza e assertividade, e sendo o mais velho da turma, mostrou estar em sintonia com seus colegas mais jovens, que não se conformavam com as posições arbitrárias e repressivas que invadiam os meios universitários. Ficou sendo uma referência, uma liderança. Ao nos formarmos em 1968, ocorreu a reforma universitária daquele referido ano. As novas diretrizes acabaram com a formação seriada e implantaram o sistema de créditos. Para ser posta prática, exigia uma nova categoria de professores, chamados “auxiliares de ensino”. No então recém criado Instituto de Ciências Sociais e Filosofia da UFRJ foram contratados cinco docentes nesse nível, tomando-se como critério os alunos com melhores médias nas áreas de Antropologia, Ciência Política e Sociologia. Na primeira, assumiram Gilberto Velho e Yvonne Maggie; na segunda, eu mesmo; na última, José Jeremias de Oliveira e Jether Pereira Ramalho. Iniciamos todos juntos a nossa carreira docente, logo quando se agudizava no país a repressão política, após a Edição do Ato Institucional nº 5, em 13 de dezembro de 1968, ano em que nossa turma se formou. Fomos colegas, na qualidade de estudantes e professores, entre 1965 e início de 1974, quando fui sumariamente demitido da universidade, acusado de “comunista”, ao pleitear meu doutoramento na Universidade de Oxford, no Reino Unido, com bolsa da Fundação Ford. Nesses quase dez anos, convivemos quase que diariamente, compartilhando ideais, inquietudes e dificuldades de toda sorte. Jether se distinguia pelo que era: a voz pausada, a argumentação lúcida, a dedicação e a competência com que se dedicava ao magistério. Ganhou consideração, respeito e admiração dos seus pares e alunos.

Segui, embora de longe, sua carreira, seja como intelectual brilhante, seja como líder preeminente no âmbito de sua atuação religiosa. Nessa última, Jether destacou-se como um dos principais articuladores do CEI (Centro Ecumênico de Informação) e como um dos fundadores do Centro Ecumênico de Documentação e Informação (CEDI). Presidiu o Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e Educação Popular (CESEEP)  e foi editor da Revista Tempo e Presença, direcionada às comunidades religiosas, aos movimentos sociais, aos sindicatos e às organizações políticas comprometidas com as causas da justiça social e da democracia em nosso país.

Jether viveu quase cem anos. Uma existência voltada para à família que tanto amou, para o trabalho na academia e na política que tanto serviu, para a vida religiosa, que tanto se dedicou. Na ausência, ele estará sempre presente na memória de todos aqueles que tiveram a oportunidade e o privilégio de usufruir de seus conhecimentos e de sua radiosa humanidade.

 

Leonardo Boff

Jether e  Lucília foram ao longo de toda uma vida, entranháveis amigos nossos, meu e de minha companheira Marcia. Tínhamos o maior respeito e carinho por eles. Era um casal bíblico, símbolo de fidelidade e de sabedoria dos anciãos do passado cristão. Com o Jether e mais alguns brasileiros como o Frei Betto fizemos nos anos 80 uma viagem  à China a convite do governo de lá. Jether participava ativamente das discussões no tocante à temas  de sociologia e do diálogo inter-religioso.

Para mim pessoalmente uma palestra que o Jether Ramalho deu no Instituto Franciscano de Filosofia e de Teologia em Petrópolis nos começos do ano 70 do século passado me abriu para o lado sócio-analítico da Teologia da Libertação. Havia já escrito o “Jesus Cristo Libertador” publicado em 1971, mais fundado na exegese bíblica e menos no quadro de uma consideração sócio-analítica. Nesta sua palestra, para mim fundamental, pois discorreu sobre como funciona a sociedade montada sobre a ideia equívoca do desenvolvimento econômico puro e simples. Mostrou os três modelos: o clássico neoliberal de crescimento linear; os países ricos correm mais e mais e nós apenas caminhamos trás deles,com desvantagem pois nosso desenvolvimento é um desenvolvimento do subdesenvolvimento. Num segundo passo mostrou um mesmo mundo divido entre os desenvolvidos, aquela porção opulenta e pequena do Norte, os USA e a Europa, e os subdesenvolvidos ocupando grande parte do círculo dentro do qual todos estávamos. A relação nossa face aos desenvolvidos era de dependência, o que nos mantinha no subdesenvolvimento. No terceiro momento mostrou como nós éramos excluídos do sistema e fora dele. O desafio não era mais se desenvolver mas mudar o tipo de sociedade para que nela todos pudessem ser incluídos com participação e justiça. Isso implicava um processo de libertação histórico-social na direção de outro tipo de sociedade. Aqui se impunha uma libertação, vale dizer, uma ação que liberta a liberdade cativa.

Nesse compromisso entrava a colaboração da mensagem libertária cristã, do Êxodo, dos profetas e de Jesus: a libertação integral. Foi então que se me abriram os olhos para o que seria a verdadeira tarefa da Teologia da Libertação. Não bastava apenas a inspiração cristã. Faltava a necessária mediação sócio-analítica para entender como funciona a sociedade e definir quem seriam os protagonistas: os próprios oprimidos, quando conscientizados e organizados  e nós seus aliados com uma clara opção pelos pobres contra a pobreza e em favor da libertação. Só com esta articulação, entre fé e política, a libertação seria viável e eficaz.

Essa lição de Jether Ramalho foi fundamental para a minha própria elaboração posterior da Teologia da Libertação.  O que estou testemunhando agora, nunca o tinha feito antes, por falta de oportunidade. Mas é ora de fazer a ele este meu reconhecimento público.

Além desta contribuição teórica, estivemos juntos no grupo de Emaus, de cristãos que há mais de 40 anos se reúnem duas vezes ao ano para nos situarmos na realidade social e eclesial. Ai Jether sobressaia por suas análises certeiras e sempre no interesse dos pobres e dos oprimidos. Ao seu lado  estava sempre atenta e ativa a  querida e doce Lucília. Nos grandes encontros nacionais das Comunidades Eclesiais de Base Jether era uma presença de respeito e de garantia do caráter ecumênico do cristianismo vivido na base.

Muito se poderia contar sobre nosso convívio sempre terno e fraterno. Não havia palestra no Rio ou lançamento que fazia de algum livro sem que Lucília e Jether estivessem lá presentes em sinal de amizade, de solidariedade e de companheirismo.

Se alguém entre nós pudesse merecer o título maior que a tradição judaica dá a algumas pessoas notáveis por seus méritos e serviços ao povo e à presença transformadora da fé bíblica é Jether Pereira Ramalho: um justo entre as nações.   Isso ele era e será sempre para a nossa memória.

 

A travessia de Jether Pereira Ramalho, por Zwinglio Mota Dias

Segundo uma definição de Rubem Alves “os profetas não são videntes que anunciam um futuro que vai acontecer. Profetas são poetas que desenham um futuro que pode acontecer. Profetas sugerem um caminho”. Esta definição se enquadra perfeitamente ao itinerário de vida de meu querido amigo e companheiro Jether Ramalho. Mais um profeta dos tempos modernos que resolveu encantar-se há poucos meses de completar 98 anos!! Nessas nove décadas de vida entregues à luta por direitos e pelo bem-estar dos mais vulneráveis, sempre acompanhado e apoiado por sua querida Lucília, Jether procurou expressar com o maior rigor possível seu compromisso com o Evangelho.

Convivi e trabalhei com Jether por longos anos quando nos tornamos irmãos numa mesma família ecumênica, pois nunca deixamos de sonhar os mesmos sonhos de um mundo humanizado e a experimentar a mesma perplexidade diante da força destruidora da vida que nosso sistema de (des)organização  social nos apresenta. Com muitos outros amigos e amigas, irmãos e irmãs, estivemos juntos na grande aventura da vida procurando promover, organizar e consolidar grupos, comunidades e entidades ecumênicas. Ou seja, organizações que reuniam, e ainda reúnem, pessoas sensibilizadas e interessadas em contribuir para a superação de inimizades, discordâncias, concorrências e autoavaliações hipertrofiadas de igrejas, denominações, lideranças eclesiásticas, sindicais e políticas voltadas sobre si mesmas e avessas ao reconhecimento do valor da alteridade e da diversidade.

Nessas iniciativas Jether demonstrou sempre ser um exímio mobilizador e articulador de vontades e de sonhos dispersos, fomentando e inspirando a criação de organismos capazes de ajudar na materialização histórica dos ideais ecumênicos tais como o Centro Evangélico de Informação (mais tarde denominado Centro Ecumênico), ISAL (Igreja e Sociedade na América Latina), Centro Ecumênico de Documentação e Informação (CEDI), Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e Educação Popular (CESEP), Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos (CEBI), Agência Ecumênica de Notícias (AGEN),  Koinonia – Presença Ecumênica e Serviço, para nomear alguns.

Reconhecido internacionalmente por seu compromisso com a proposta ecumênica, especialmente aquela articulada pelo Conselho Mundial de Igrejas Jether tornou-se uma referência obrigatória no âmbito do movimento ecumênico no Brasil e na América Latina. O filho de um destacado Pastor da Igreja Congregacional brasileira veio a tornar-se uma referência ecumênica significativa para um destacado setor da Igreja Católica Romana. Seu comprometimento com os esforços em favor da unidade dos cristãos e do diálogo inter-religioso o levou a perceber, muito cedo, a dimensão política da inflexão das comunidades de fé na vida da sociedade. Seu imenso e profundo legado de respeito e cuidado pelos mais vulneráveis sem dúvida será motivo de inspiração para muitos! Jether vive!!!

 

Solidariedade e gratidão, por Glaucia Villas Bôas

Jether pertencia à turma de 1965 do curso de ciências sociais da antiga Faculdade Nacional de Filosofia. Era uma turma querida, apreciada pelos professores. Muitos de seus alunos seguiram a carreira de cientistas sociais. Lembro-me ainda de alguns deles nas assembleias em que discutíamos o que fazer contra a ditadura: Gilberto, Yvonne, Eurico, Miriam, Jether, Jeremias, Margarida, Manoel, Marcos, Liana, Ana Maria.  Eu os via como aluna da turma “mais nova”, que entrara na faculdade em 1966.  Soube depois que se formaram em 1968.

A promulgação do Ato Institucional No. 5 interrompeu os nossos laços de coleguismo. Fui afastada do curso e a vida seguiu seu rumo. Mas, em 1974, procurei Jether, por indicação de Yvonne e Gilberto. Vivia uma situação limite de perseguição política com minha a família, marido e duas crianças pequenas. Relembro com lapsos e muita emoção desse reencontro. Jether me disse que fizesse contato com a Oekumenisches Werk alemã, setor da Igreja Luterana, que sob a direção do Pastor Heinz Dressel, acolhia estudantes brasileiros e chilenos com problemas políticos.

Vivemos seis anos na Alemanha, “tempo” que ressoa, ainda hoje, nas minhas recordações. Jether e eu nos tornamos colegas no Departamento de Ciências Sociais do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, em 1980. Só então podemos conversar. Havia muito o que contar. Um dia me pediu para ministrar uma disciplina sobre Movimentos Sociais para o curso de Ciências Sociais. Como professora horista, eu dava cursos para outras unidades da UFRJ.  Me lembro que fiquei contentíssima e preparei as aulas com entusiasmo. Não era tema de meu domínio, mas o curso “rendeu” tanto que, outro dia, uma ex-aluna me entregou um caderninho com suas anotações de aula.

Ao longo do tempo, Jether e eu ficamos amigos. Admirava sua firmeza e generosidade. Era uma alegria encontra-lo com Lucília, casualmente, na rua General Glicério, depois que me mudei para as Laranjeiras. Um sentimento profundo de gratidão me unia a ele desde aquele encontro durante a ditadura.

 

Jether e Lucília
Jether e Lucília Ramalho. Acervo pessoal de José Ricardo Ramalho

 

Carlos Rodrigues Brandão

A respeito de Jether Pereira Ramalho eu quero dar um depoimento pessoal. Creio que outras pessoas haverão de lembrar dimensões ecumênico-militantes e sociais da vida desse companheiro querido.

Conheci Jether em 1969. Nós nos encontramos na PUC do Rio onde eu, fugido da polícia-política de Goiânia, onde era então professor, fui completar o meu curso de psicologia. Direto e franco como sempre, ele me apresentou um programa de aprofundamento e de divulgação do pensamento de Paulo Freire, de seu método de alfabetização e da educação popular, entre grupos de alguns países da América Latina. Aceitei de imediato, cumpri o programa e em algumas viagens, fui acompanhado do próprio Jether.

Ingressei no CEDI através dele.  E foram anos e anos de trabalho conjunto e em equipe. Boa parte desses anos nos os vivemos quase “clandestinamente” em tempos da ditadura militar.  Ao redor da mesa, na casa cedida pelas irmãs do Colégio Sion do Rio de Janeiro, vivi junto a Jether e outras pessoas de nossa equipe anos e anos de um amoroso e imenso aprendizado com uma pessoa que me marcou como poucas outras em minha vida. Tive mestre em universidades e tive orientadores de mestrado e de doutorado. Devo muito a eles. Mas se tive um grande e verdadeiro mestre “para além da academia, ele foi Jether Pereira Ramalho

Entre sério e brincalhão eu, que era da “vertente católica” do CEDI, costumava chamar Jether de: “o meu pastor”. E foi isso o que ele foi. E é isso o que ele permanece sendo: um pastor, quando o pastor é “um mestre de vida”. E um mestre, quando o mestre é também um querido amigo. Um companheiro.

Anos mais tarde, depois de dissolvido o CEDI, continuei convivendo ainda com ele, quando ia ao Rio de Janeiro. Segui aprendendo de seu afeto e de sua diretas e precisas ideias.

Na casinha do Colégio Sion e nos outros vários outros locais onde convivemos e trabalhamos juntos, lembro-me sempre de Jether, atento e sério do começo ao final de nossas reuniões de trabalho.  E mais de uma vez eu disse a ele que um dos documentos mais completos e sérios sobre a realidade que vivíamos então, eram as suas “agendas”, em que ponto-a-ponto ele anotava todo o essencial de nossas reuniões.

Escreveu pouco e mesmo nas reuniões falava pouco. Escreveu o essencial Coordenou por anos uma revista essencial. E, ao final de nossas longas reuniões, quando ele falava, falava sabiamente… o essencial.

Algumas pessoas que me foram bem mais do que “o meu pastor” partiram nos últimos anos: Tomás Baldoino, Rubem Alves e, agora, Jether.

De quem ele foi – e segue sendo, ainda e sempre, espero – e do que ele fez e, mais ainda, do que nos fez-saber-fazer, e de tudo o que eu partilhei com ele, e aprendi dele, não há como esquecer…

… A não ser dizendo: “Gratidão, companheiro Jether…  meu pastor!”

 

Carmen Felgueiras

Jether Ramalho foi o primeiro professor que conheci no curso de Ciências Sociais do IFCS, para onde me transferira, vinda da ECO-UFRJ, nos tumultuados anos 70. Lembro da primeira aula. Jether sentado próximo aos seus alunos e alunas para introduzir as leituras dos capítulos de Sociologia, teoria e estrutura de Robert Merton. Fiquei fascinada com a novidade da bibliografia e mais ainda com a postura afável, acolhedora, mas extremamente séria do professor. No meu entusiasmo, enfrentei o trabalho de exegese dos textos do semestre como um passeio na praia. Mais do que isso, o ambiente muito pouco hierarquizado (havia as notas, claro…) de ensino e aprendizagem que Jether punha em prática certamente nos ajudou a enfrentar os duros anos da repressão do regime militar às instituições universitárias e ao movimento estudantil que vivíamos. Sinto que aquelas primeiras impressões perduraram. E de tal modo que, se ao longo do tempo pude inspirar-me em vários excelentes professores, tenho agora a grata surpresa de perceber o quão fundamental, predominante mesmo, foi o estilo de Jether Ramalho na formação de minha persona docente. A ele, os meus mais sinceros agradecimentos.

 

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O papel dos “malditos da terra”, por Jether Pereira Ramallho

Jether 2

Acervo pessoal de José Ricardo Ramalho

O contexto econômico e político brasileiro nos anos 1970 e 1980 se confundia com o contexto latino-americano. Na “era das ditaduras”, o papel desempenhado pelos setores progressistas das igrejas, no combate à injustiça e na crítica às desigualdades sociais foi fundamental, e exigiu uma mudança de postura com relação às diferenças de rito e de interpretação teológica. O movimento ecumênico internacional, portanto, tornou-se um instrumento decisivo de contestação política e de atuação entre os perseguidos políticos – trabalhadores, intelectuais, populações inteiras marginalizadas pelas políticas econômicas e pela repressão policial e militar.

O texto de Jether Ramalho, que apresentamos a seguir, escrito no final dos anos 1980, reflete este movimento e revela o seu engajamento pessoal. A combinação entre o trabalho acadêmico e o exercício político por intermédio da igreja fortaleceu as atividades às quais Jether se dedicou na maior parte da sua vida, sempre em busca da integração entre diferentes credos religiosos e entre diferentes igrejas em torno de uma ação pastoral ecumênica voltada para a transformação da realidade social.

José Ricardo Ramalho (UFRJ)

 

 

O papel dos “malditos da terra” [i]

Por Jether Pereira Ramalho

 

Vivemos, sem dúvida, dias muito desafiantes. Em todas as conversas, no noticiário dos meios de comunicação social, nas famílias, nas escolas e nas igrejas comenta-se, preocupadamente, a profunda crise social que atravessamos. Mas crise não é, necessariamente, algo negativo. Pode significar uma encruzilhada, um momento de tomar uma decisão, de fazer opções, construir uma nova síntese, iniciar um novo processo. E isso não é fácil.

As crises questionam, muitas vezes, certos valores já adquiridos, sedimentados, interiorizados. Colocam em discussão algumas legitimidades. A crise que atualmente vivemos apresenta, no entanto, certas singularidades. Nos grandes momentos críticos da história a agenda das discussões, a faceta indicadora dos questionamentos, sempre foi colocada pelos povos dos países mais ricos e poderosos do mundo. Isso ocorreu, por exemplo, na Reforma Protestante, na Revolução Francesa e no surto industrial da Europa.

No atual momento histórico temos, contudo, um quadro diferente. São os países pobres, “os malditos da terra” – para usar uma expressão de Frantz Fanon –, as pequenas “republiquetas de bananas” que estão desafiando valores e conceitos dados como conquistados tinham sido, de certa forma, impostos pelos setores dominantes dos países chamados desenvolvidos. O que está causando perplexidade é que esse questionamento oriundo desses países está atingindo profundamente a sociedade global. Vai ao cerne das questões, e apresenta também aspectos muito inovadores.

Grande parte das propostas totais da sociedade, tanto no campo social, político e econômico quanto no eclesial, sofrem questionamentos posto que não correspondem mais às exigências das novas situações. Trabalha-se na construção de outras alternativas, o que naturalmente  vão se constituir em elementos geradores de crise para o que já está estabelecido. Velhas formas resistem, enquanto podem, ao surgimento de novas ideias. E lutam, tenazmente, para conservar suas posições, usando todos os instrumentos que estejam ao alcance, mesmo aqueles que, por questões de princípio, condenavam.

Não é, porventura, a isso que estamos assistindo, estarrecidos e revoltados nos dias atuais? Vejamos no campo dos modelos de sociedade. Uma grande questão para os países ricos está sendo colocada pela Nicarágua. Um pequeno país, de menos de 3 milhões de habitantes, com 50% da população abaixo dos 15 anos, produtor de banana, café e algodão, pobre e pequeno, constitui-se em ameaça ao grande império do mundo de hoje, os Estados Unidos da América do Norte. A administração Reagan considera-o uma real ameaça ao seu país e,quebrando todos os sedimentados conceitos do Direito Internacional, toma medidas arbitrárias e violentas que produzem revolta e espanto em todos aqueles que ainda acreditam na justiça e na paz. Mas, por que a Nicarágua é uma ameaça? Simplesmente porque representa e indica uma alternativa aos grandes modelos políticos do mundo de hoje. E isso a coloca como o elemento central da chamada crise centro-americana.

E se esse modelo for bem-sucedido? E se o planejamento econômico norteado pela lógica das maiorias der resultado positivo, resolvendo os problemas básicos da população? E se possibilitar a construção de uma verdadeira democracia, que não se caracterize somente por eleições diretas mas proporcione plena participação popular e venha a se constituir em uma sociedade aberta, pluralista e democrática? Como deixar de ter êxito um modelo independente, que não esteja sujeito às normas, determinações e jugo dos grandes interesses do poderoso vizinho do norte? Naturalmente, essa alternativa passa a ser vista como ameaça, como estímulo a outras possibilidades, e na visão dos dominadores precisa ser derrotada urgentemente. Para isso, todos os recursos passam a ser considerados como válidos.

No campo eclesial, fenômeno semelhante também ganha força. E, coincidentemente, também tem origem no Terceiro Mundo. Nos últimos vinte anos vão surgindo ênfases distintas na prática pastoral, com novas formas de ser Igreja. E essa caminhada das Igrejas vai exigindo, concomitantemente, novo pensar teológico, nova exegese bíblica. Começa então a ganhar corpo e consistência o que se denomina Teologia da Libertação. Não constitui um produto acabado, pronto para ser consumido; antes, caracteriza-se por ser processo dinâmico de reflexão teológica da prática e dos questionamentos de uma igreja comprometida com o Evangelho e com os pobres. Não foi uma teologia elaborada nas grandes bibliotecas e academias de afamados centros teológicos dos países ricos. Não possui, possivelmente, o clássico rigor científico aprofundado conhecimento linguístico. É fruto da experiência dos pobres das igrejas dos países subdesenvolvidos. O seu centro mais poderoso localiza-se na América Latina.

Essa alternativa teológica e essa nova forma de Igreja amedrontam as estabelecidas e seculares estruturas do Vaticano. Tamanha ousadia desses pobres e ignorantes campos eclesiásticos não pode ser tolerada. Deve ser tratada com rigor e com atos de poder. Essas vozes insólitas devem ser caladas. Precisa-se abortar, com rigor e rapidez, o surgimento dessa alternativa. E mais uma vez aqueles que amam a paz e a justiça observam estarrecidos uma ofensiva de violência e autoritarismo contra aqueles que procuram viver e refletir as situações concretas do seu povo, dentro de uma perspectiva evangélica e motivados pelo seu compromisso com o Cristo.

Ainda no campo eclesial, desafiando as tradicionais igrejas evangélicas, vemos o aparecimento de um forte protestantismo eminentemente popular. Nas periferias das cidades, nas favelas e mocambos, nos pontos de ruas das mais pobres zonas rurais, surgem, como cogumelos, as mais variadas formas de igrejas chamadas pentecostais. Todas com presença majoritária das camadas mais pobres de nossa população. Seus pastores não têm instrução acadêmica, sua liturgia é desordenada e barulhenta, seus hinos ferem os finos ouvidos, tanto na métrica como na música, o culto é demorado e sem ordem, e as interpretações bíblicas fazem corar qualquer exegeta medianamente preparado. Há também, sem dúvida, alguns aproveitadores que iludem a fé desse povo simples para sua própria promoção, auferindo, inclusive, lucros materiais. Mas por que o nosso povo pobre aceita sua mensagem e estilo de trabalho? Não é possível desconhecer esse fenômeno, nem depreciá-lo, estigmatizando-o como sendo de seitas inferiores e desprezíveis. Estas, no fundo, questionam velhas fórmulas acabadas, sabedorias sedimentadas e apontam para a necessidade da busca de elementos novos no campo do protestantismo. Sem dúvida,estão causando desconforto para estruturas que tiveram amplo significado em determinado momento histórico e sob situações conjunturais diversas. O espírito da Reforma está exigindo novos momentos para as igrejas protestantes e abertura para se entenderem novas propostas.

No campo político também surgem novos aspectos característicos da crise em que vivemos. Hoje não se concebe mais o poder como fruto do acordo entre elites privilegiadas. Entra em cena um novo protagonista: os movimentos populares. Levanta sua cabeça e sua voz. Sem pedir licença começa a conquistar espaços e direito de interferir nas grandes questões da sociedade. E os poderosos não sabem o que fazer com esse intrigante personagem. Sempre estiveram acostumados a resolver os problemas a partir de sua ótica. Como compartir e até se sujeitar a um novo poder que vai tomando força e coragem, que tem outros interesses e outra visão de mundo? Não é possível para nenhum analista político pensar em uma nova sociedade sem levar em conta a participação popular em todos os níveis de decisão. É ingrediente novo que está influindo nas sociedades de hoje e até mesmo nas nossas igrejas. Temos que confessar que ainda não sabemos trabalhar com essa nova alternativa. Ela questiona profundamente nossas estruturas, nosso conceito de poder e de sabedoria e vai, naturalmente, produzir crises e questionamentos. Mais uma vez, a origem da crise e a pauta das questões vão situar-se nos países e nos povos subdesenvolvidos.

Poderíamos ir refletindo e apresentando outros exemplos dessa crise que desafia a tradicional ética cristã. A limitação deste artigo não nos permite aprofundar mais o tema. Cremos que as pistas indicadas nos dão ideia da singularidade e profundidade do momento que vivemos. Quando a Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil escolheu o lema “Por Jesus Cristo, paz e justiça”, ela teve a sensibilidade para as características da crise que vivemos. Partindo da perspectiva do Cristo, como poderíamos entender a paz? Certamente ela não se conservaria apenas quando os “poderosos” da terra assinassem, em Genebra, tratado de uso das armas atômicas. Nem ainda quando os governos fortes fizeram acordo sobre suas zonas de influência. Nem mesmo quando, no mundo, as chamadas guerras convencionais deixassem de ter cara pública. Para nós, os cristãos, a paz é algo muito mais profundo e duradouro. Vai ao fundo das relações entre os homens e com Deus. Lembremos a expressão do apóstolo Paulo aos Efésios quando afirma: “Ele (Jesus Cristo) é nossa paz”, pois foi capaz de derrubar o muro da separação entre os homens. Aí se está construindo uma paz verdadeira. Fica a pergunta: Como estamos cooperando com Ele nesse plano de paz? Aumentando os muros de separação que já são fortes e poderosos em nossa sociedade, com as barreiras de classes sociais, cor, sexo, raça e religião, ou lutando por uma sociedade mais igualitária, fraterna e democrática? Temos tido coragem de entrar nessa luta, que assume formas muito concretas no nosso viver diário, em nosso Brasil?A busca da verdadeira paz, aquela que o Senhor nos ensinou, nos vai colocar no centro da crise dos nossos dias. E, como indivíduos e como Igreja, não podemos nos omitir a esse chamado.

Mas a paz não pode existir sem a prática da justiça. É dissociação impensável. Nunca seria a paz de Jesus Cristo. Também a justiça está exigindo um aprofundamento maior em nossos dias e em nossa terra. Ela não se manifestará somente com o aperfeiçoamento das normas jurídicas ou com a elaboração de uma nova constituição. Não poderá se resumir às relações individuais, terá de enfrentar a forma de estruturação da sociedade. E nada é mais injusto do que as relações sociais estabelecidas no Brasil. A comprovação dessa afirmativa está ao alcance dos nossos olhos, no campo e na cidade. Mas, para nós os cristãos, a justiça está intimamente ligada à construção do Reino de Deus. E Jesus foi muito claro nesse ponto: buscai, primeiramente, o Reino de Deus e sua justiça” e este mandamento se constitui em um permanente desafio para as igrejas no Brasil.

 

Nota:

[i] Revista do Centro de Elaboração de Material da IECLB, São Leopoldo, Ano VIII, No 1, 1986 (Ano Internacional da Paz). Republicado no livro Uma presença no tempo: a vida de Jether Ramalho, Ramalho, José Ricardo (Org.), Oikos Editora, São Leopoldo, 2010.

 

 

Na foto da turma formada em 1968 estão presentes, segundo a descrição gentilmente oferecida por Yvonne Maggie:

Primeira fileira em pé Eurico de Lima Figueiredo, Jether Pereira Ramalho, moça não reconhecida, Benjamin, Gilberto Velho, Ney, Venúsia,  moça não reconhecida, Nigri.

Segunda fileira em pé da esquerda para a direita. Moça desconhecida, Eva Spitz, Liana Cardoso, Luitgard de Oliveira Cavalcanti, Alcione, rapaz não reconhecido, Janete Mandelblat e  José Jeremias de Oliveira Filho.

Fileira sentada da esquerda para a direita. Laudicéia, Yvonne Maggie, D. Marina São Paulo Vasconcelos (Catedrática de Antropologia e diretora do IFCS que foi cassada em 1968), Vera e moça não reconhecida.

 

 

* Os textos publicados pelos colaboradores não refletem as posies da BVPS.

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