Simpósio 9 | Mundo Social e Pandemia

Piet Mondrian. Composition n. VII, 1913. Solomon R. Guggenheim Museum, Nova York

O Blog da BVPS publica hoje o nono post do simpósio internacional Mundo Social e Pandemia, uma parceria com a revista Sociologia & Antropologia e a Sociedade Brasileira de Sociologia (SBS). A organização é de Andre Bittencourt (UFRJ e editor do Blog da BVPS) e Maurício Hoelz (UFRRJ e editor de S&A).

No simpósio, sociólogas e sociólogos do Brasil e do exterior responderam a um questionário com 4 perguntas, elaborado com a expectativa de indagar as diferentes dimensões sociais da pandemia e os desafios que ela representa para a sociologia. Mundo Social e Pandemia sai às terças e quintas no Blog da BVPS, sempre com as respostas de 5 colegas. Para ver os outros posts da série, basta clicar aqui. As versões originais das contribuições enviadas em inglês e francês são disponibilizadas nesta página, que será sempre atualizado. Para acompanhar as atualizações do Blog, siga nossa página no Facebook.

Hoje teremos como convidados/as:

Göran Therborn, professor emérito da Universidade de Cambridge, Inglaterra. Autor, entre outros, de Cities of Power e The Killing Fields of Inequality.

Soraya Vargas Côrtes, professora titular do Departamento de Sociologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Foi Presidente da Sociedade Brasileira de Sociologia (2013-2015). Autora, entre outros, de Participação e saúde no Brasil e Öffentliche Verwaltung in Brasilien und Deutschland (organizadora).

Rodrigo Santos, professor do Departamento de Sociologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Autor, entre outros, de “Trabalho e Ação Sindical em Redes Globais de Produção” e “Desenvolvimento econômico e mudança social: a Vale e a mineração na Amazônia Oriental”.

Hiro Saito, professor da Escola de Ciências Sociais da Singapore Management University. Autor, entre outros, de History Problem: The Politics of War Commemoration in East Asia e “Cosmopolitics: Towards a New Articulation of Politics, Science and Critique”.

Luiz Augusto Campos, professor do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP-UERJ). Autor, entre outros, de Ação Afirmativa: conceito, história e debates (em colaboração) e “Biblioteca Bourdieusiana ou como as ciências sociais brasileiras vêm se apropriando de Pierre Bourdieu” (em colaboração).

Boa leitura!

 

1. Sociólogos/as e cientistas sociais, em geral, estão se mostrando mobilizados/as para produzir e compartilhar interpretações sobre os efeitos sociais e políticos da pandemia. A teoria sociológica está equipada para enfrentar o desafio de compreender/explicar o fenômeno?

Göran Therborn: De forma geral, a maior parte da sociologia e das ciências sociais parece pouco preparada para compreender e explicar a pandemia do Coronavírus. Que teoria sociológica é convocada pela pandemia? Duas, antes de tudo, nenhuma delas muito desenvolvida. Uma é a teoria, e um corpo de descobertas de pesquisa, da interface entre o social e o biomédico, como interagem e afetam um ao outro. Ela demandará uma perspectiva empírica mais ampla do que a biopolítica governamental foucaultiana, mais relacionada aos estudos anglo-saxões em saúde pública e à medicina social sueca. Focada nas inter-relações entre desigualdade social, doenças e riscos de saúde predominantes, trajetórias de vida e saúde, má saúde e mortalidade. A epidemiologia, que se desenvolveu numa investigação sóciomédica pioneira feita por acadêmicos britânicos como Michael Marmot e Richard Wilkinson, não tem sido nem uma subdisciplina reconhecida da sociologia, nem uma vizinha transdisciplinar de primeira ordem. A outra teoria convocada e, a meu ver, também em falta é uma teoria compreensiva, multidimensional do mundo contemporâneo. A análise do sistema-mundo de Immanuel Wallerstein foi uma contribuição histórica, mas ela não foi desenvolvida para incluir o ecossistema planetário, o que agora é necessário. A mesma limitação, além de outras, vale para a literatura sobre globalização.

A experiência da Covid-19 é a maior experiência consciente global na história humana. Algumas outras epidemias foram mais devastadoras, por exemplo a gripe “espanhola” originada no Kansas, EUA – até o dia 7 de maio a contagem de mortos da Covid-19 ainda é menos de dois terços das morte anuais por malária. No entanto, temos uma experiência simultaneamente comum, ainda que diferenciada, em (até agora) 212 países e territórios no mundo. A pandemia reúne uma sociedade global sem precedentes, interdependente, interconectada, interativa e dividida, trancada por dentro e por fora.

Soraya Vargas Côrtes: O interesse de pesquisa sobre o tema é crescente e muito expressivo. No entanto, como a pandemia está em andamento e seus efeitos sociais e políticos são apenas parcialmente conhecidos, há que aguardar para que investigações consistentes venham a ser realizadas em diferentes escalas – mundial, referente a grandes regiões do mundo, nacional, infranacional e local. A teoria sociológica oferece um instrumental robusto para a análise dos processos sociopolíticos desencadeados na epidemia. A sociologia histórica oferece subsídios para o exame de paralelos com pandemias que ocorreram no passado. Combinada à sociologia da saúde e a abordagens teóricas clássicas, pode auxiliar na análise de como se constroem e expressam medos coletivos de contágio e morte que, muitas vezes, avivam preconceitos e estigmas associados a certos grupos sociais. Há a atribuição de julgamentos morais direcionados a características pessoais ou comportamentais de indivíduos e grupos que são vistas como responsáveis pelo adoecimento. Nesse sentido, os que adoecem seriam culpados pela doença. As sociologias da saúde e da ciência também têm tratado de um fenômeno que se tornou saliente no contexto da epidemia: o saber biomédico, que se expressa na crescente medicalização de inúmeras dimensões da vida social. Esse saber está em disputa com outros saberes pela atenção dos governantes para que suas propostas sejam as escolhidas para embasar a adoção de políticas públicas. A sociologia das profissões e das políticas públicas contribuem para que se possa analisar a dinâmica interna do campo do saber médico. Períodos de epidemia fortalecem os subcampos da epidemiologia e das doenças infectocontagiosas, frente às especialidades que tratam individualmente das doenças e da administração do sistema médico-financeiro responsável pela produção de bens, insumos e serviços, que eram dominantes nos tempos passados de relativa bonança econômico-sanitária.

Rodrigo Santos: Eu acredito que a sociologia, de modo geral, está equipada para explicar os impactos sociais e políticos da pandemia, tanto de um ponto de vista teórico, quanto a partir de trabalhos empíricos. Embora eu não tenha proximidade com as subáreas da sociologia que se relacionam à saúde, minha crença nessa capacidade explicativa se baseia, principalmente, na capacidade, já demonstrada, das abordagens construcionista sociais e suas aplicações a situações de crise, ambientais, econômicas e políticas. Além disso, a reflexão propriamente moderna sobre integração e solidariedade sociais e seus desdobramentos contemporâneos ainda tem muito a aportar na compreensão de contextos como os que estamos vivendo.

Hiro Saito: Penso que a teoria sociológica capaz de dar conta desse desafio tem que ser cosmopolita, pública e reflexiva. Para entender os impactos políticos e sociais da pandemia de Covid-19, precisamos abraçar o que Ulrich Beck chamou de “cosmopolitismo metodológico” para investigar a multidão de redes, mecanismos e processos pelos quais a pandemia reverbera através de fronteiras nacionais. Ao mesmo tempo, essa sociologia cosmopolita tem que ser publicamente orientada, abordando diretamente as questões urgentes para as preocupações dos cidadãos, em vez de se orientar por debates disciplinares específicos abrigados num ambiente acadêmico. Para avançar essa sociologia pública e cosmopolita, precisamos ser reflexivos de nossas próprias práticas – nomeadamente as próprias instituições, como universidades e associações profissionais, às quais essa produção sociológica está acoplada. Por exemplo, de que maneira podemos incluir questões públicas no processo de condução de pesquisa sociológica sobre os impactos da pandemia? E que público(s) deve(m) ser incluído(s) quando os impactos da pandemia são totalmente transnacionais? Para praticar uma sociologia pública e cosmopolita, portanto, precisamos reimaginar e transformar as estruturas de nossa própria produção de conhecimento.

Em resumo, a pandemia abriu espaço para que sociólogas e sociólogos acelerem o avanço da teoria sociológica numa direção cosmopolita, pública e reflexiva. Mas esse avanço só será possível se sociólogas e sociólogos ao redor do mundo aumentarem seus esforços coletivos para derrubar as barreiras entre sociologias nacionais, entre universidades e o público, entre teoria e prática.

Luiz Augusto Campos: É difícil dizer neste momento. As características próprias da pandemia minaram sobretudo as interações facea face na esfera pública, atingindo em cheio um dos fundamentos de reprodução da vida social. Nesse sentido, a teoria social pode ajudar muito a compreender as possíveis consequências da pandemia. Por outro lado, tais interações migraram para outros espaços, sobretudo virtuais, ainda pouco conhecidos e considerados pelos nossos processos de teorização. Trata-se de uma situação ambivalente.

 

2. Como a sua área de pesquisa especializada pode contribuir para a reflexão sobre diferentes dimensões desse fenômeno?

Göran Therborn: Nunca me interessei muito por autopromoção, então essa questão é de certa maneira difícil ou constrangedora de responder. No entanto penso que duas áreas, entre várias de uma carreira razoavelmente longa, são pertinentes para a situação atual. Em primeiro lugar a sociologia global; enquanto um anti-imperialista comprometido desde os nove anos de idade (a guerra da Coreia) sempre tive uma curiosidade e comprometimento globais. Academicamente, isso resultou em várias contribuições multidimensionais para a compreensão do nosso mundo, como por exemplo os trabalhos The Status Syndrome, de Michael Marmot, e The Spirit Level, de Richard G. Wilkinson e Kate Pick. Apesar disso, interesses ecológicos e climáticos recentes não foram integrados, e a economia política e geopolítica o foram majoritariamente em fragmentos ocasionais, apenas. Em segundo lugar, meu trabalho sobre desigualdade, especialmente The Killing Fields of Inequality e uma série de artigos em livros e revistas, fez um esforço explícito para incluir saúde e mortalidade – o que eu chamo de desigualdade vital – em discursos e práticas de (des)igualdade. Ele desenvolve uma concepção tridimensional da desigualdade humana, derivada de uma concepção de três dimensões do ser humano e inspirada por, se não exatamente seguindo, Amartya Sen.

Um organismo vivo suscetível a dor e prazer, saúde e doença, e a uma expectativa de vida variavelmente delimitada, sujeito a desigualdade vital determinada socialmente; uma pessoa reflexiva, com ou sem autonomia, que pode ser ignorada ou reconhecida, respeitada ou humilhada, que pode ser privilegiada ou discriminada, sujeita a desigualdade existencial;um ator que persegue objetivos, com recursos variados, de renda e riqueza, de contatos sociais, de poder, em resumo, sujeito a desigualdade de recursos. As três dimensões interagem e se interconectam, mas cada uma tem um peso específico em diferentes períodos do curso de vida humano, suas dinâmicas particulares e diferentes trajetórias de desenvolvimento, e, portanto, têm de ser combatidas de diferentes formas. O mais importante é trazer assuntos referentes ao desenvolvimento, à vulnerabilidade e resiliência humanos, à saúde e doença para o mainstream da sociologia.

A análise de classe, outro interesse importante para mim, também teve sua relevância confirmada pela pandemia e sua divisão social específica: a classe média alta trabalhando na segurança de seus lares, os trabalhadores “essenciais” alimentando e cuidando da mesma e de seus pais enquanto correm risco de contágio, os trabalhadores comuns desempregados ou dispensados, os trabalhadores diaristas e vendedores sem poupança que perdem seu sustento, e acima de todos esses a burguesia cobrando seus aluguéis em segurança e planejando suas explorações pós-pandemia.

Soraya Vargas Côrtes: Tendo em vista que as ações governamentais alcançam praticamente todas as dimensões da vida em sociedade, a sociologia das políticas públicas busca subsídios em outras subáreas da sociologia e em diversas áreas de conhecimento. Para análise da epidemia são particularmente relevantes os estudos das sociologias da medicina, da saúde e histórica, alguns de inspiração foucaultiana, que examinaram a constituição e institucionalização do saber médico e a ampliação do poder da biomedicina sobre o regramento moral nas sociedades contemporâneas. Pesquisas inspiradas nesse debate podem abordar disputas em curso sobre quais políticas devem ser adotadas no enfrentamento da epidemia. Apesar de alguns governantes e segmentos da população minimizarem os perigos da Covid-19, o medo do contágio e da morte e a confiança no saber médico, como um imperativo cultural robusto, podem estar obstaculizando a implementação de políticas baseadas na noção de que seria desejável que o contágio ocorresse rapidamente para que houvesse imunização coletiva, reduzindo assim os riscos de depressão da economia. A sociologia das políticas públicas combinada a outras subáreas da sociologia também pode auxiliar na análise de possíveis mudanças de inflexão nas políticas de saúde provocadas pela epidemia. Ao final do século passado, as ideias liberais, dominantes em agências internacionais e em muitos governos, defendiam a necessidade de diminuir o tamanho do Estado. Concomitantemente, observava-se a existência de controle crescente de doenças contagiosas e a prevalência de doenças crônico-degenerativas (cardiovasculares e neoplasias). Em tais circunstâncias, as políticas de saúde tendiam a enfatizar a necessidade de mudança de hábitos individuais e a focalizar gastos públicos no tratamento de doenças crônico-degenerativas. Epidemias como a do HIV e, de forma mais dramática, da Covid-19 podem estar provocando a necessidade de mudança rápida e mundial nos padrões de ação estatal sobre como tratar da saúde e das doenças.

Rodrigo Santos: No âmbito dos meus temas de investigação, uma compreensão apropriada da escala global da pandemia de Covid-19 e de seu enfrentamento não pode passar ao largo da sociologia econômica e da economia política, particularmente no que concerne aos riscos e disputas envolvidos na produção alimentar de tipo industrial, a sua fragmentação geográfica funcional e, mais recentemente, à (des)construção de capacidades produtivas e tecnológicas de massa associadas a insumos e bens farmacêuticos e médicos de elevado valor agregado e alta complexidade – como demonstra a situação de escassez de respiradores, a explicitação da dimensão logística vinculada a sua disponibilização e os conflitos políticos em torno de sua aquisição e uso.

Hiro Saito: De maneira consistente em relação à minha resposta à primeira pergunta, meu projeto de pesquisa atual busca contribuir com a reflexão sobre o papel das universidades na atenção aos desafios da pandemia e de outros problemas globais urgentes como a mudança climática, crises de refugiados e desigualdades econômicas. Especificamente, tenho examinado as transformações organizacionais das universidades nas décadas mais recentes diante do crescimento da comercialização e internalização do ensino superior no mundo.A questão que me motiva é a que diz respeito a como proteger e avançar a missão universitária de produzir conhecimento como um bem público global e servir como um foco de debates críticos em esferas públicas transnacionais. Essa missão pública, eu acredito, é crucial para atender aos desafios lançados pela pandemia e por outros problemas globais. Meu projeto de pesquisa, portanto, tem como objetivo identificar efeitos positivos e negativos do crescimento da comercialização e internalização em sua relação com a missão pública das universidades e então explorar políticas e práticas possíveis e capazes de potencializar os efeitos positivos.

Em outras palavras, por meio desse projeto de pesquisa, tenho o objetivo de proceder da reflexividade à performatividade. Ao melhor entender as transformações em curso nas universidades enquanto infraestruturas da produção de conhecimento no mundo contemporâneo, espero apontar para caminhos pelos quais é possível fazer intervenções efetivas para direcionar as transformações numa direção mais pública e cosmopolita. Essa será uma contribuição indireta mas decisiva, no longo prazo, para a construção das nossas capacidades coletivas e institucionais para compreender diferentes dimensões da pandemia e de outros problemas globais.

Luiz Augusto Campos: Trabalho em duas frentes temáticas: os estudos de raça e a organização acadêmica das ciências sociais. No primeiro caso, temos muito a contribuir. Dados de outros países sugerem que populações racialmente discriminadas são as mais atingidas, mas isso ainda não se refletiu nos dados brasileiros. É preciso frisar que essa maior vulnerabilidade racial é explicada por fatores eminentemente sociológicos e não biológicos dos grupos discriminados. A segunda linha de pesquisa tem a ver com as questões que vocês levantam que colocam muitos desafios: como as ciências sociais podem contribuir com esse momento?

 

3. A pandemia estaria provocando mudanças sociais, políticas e/ou culturais profundas? Ou acelerando tendências já em curso? Se sim, é possível vislumbrar os contornos das sociedades pós-Pandemia?

Göran Therborn: A pandemia está majoritariamente salientando, aprofundando e acelerando processos já em curso. Processos de alargamento da desigualdade vital intranacionais e de desigualdade de recursos em geral, de fim (desde a crise financeira de 2008) da globalização neoliberal orientada pelos mercados, e da sua substituição por um mundo geopolítico mais centrado nos Estados, tendendo em direção a uma guerra entre Estados Unidos e China, fria ou de fato. Mas essa aceleração certamente levará a um mundo diferente depois da pandemia.

O mundo pós-pandêmico provavelmente incluirá dois cenários. Um deles seria um mundo de 1945, ávido por um fim do pesadelo da pobreza, desigualdade e violência e uma oportunidade para construir um mundo melhor, menos desigual, menos injusto, mais democrático. É o que está no horizonte de um Esclarecimento Igualitário emergente de toda uma falange de economistas renomados, incluindo Thomas Piketty e pelo menos quatro ganhadores do prêmio Nobel, e por um amplo espectro de forças sociais progressistas, incluindo minorias esclarecidas da burguesia como por exemplo o London Financial Times. 

O outro cenário provável lembraria aquele da Euro-América de 1932. As forças da desigualdade, xenofobia, ódio nacionalista e violência não foram derrotadas, e em alguns lugares ou países foram fortalecidas pela crise. De outro lado, forças igualitárias e pacíficas também foram reforçadas pelo fracasso do neoliberalismo hegemônico. Num cenário de 1932, depois da pandemia, haverá duas opções contrastantes, a reforma pacífica, democrática e igualitária – escolhida então pelos EUA e Escandinávia – ou o nacionalismo violento e odioso, uma estrada tomada naquela ocasião pela Alemanha e quase todos os países do leste europeu.

Soraya Vargas Côrtes: A pandemia, afirmam os especialistas em epidemias virais, é uma entre muitas, devido ao aquecimento global e o desflorestamento bem como ao contato entre seres humanos e animais na produção de proteína animal destinada ao consumo. Dentre as mudanças que se podem vislumbrar está o aceleramento de processos já em andamento. Estão em curso: a alteração do centro de poder político, cultural e econômico mundial do Ocidente para o Oriente; tendências nacionalistas, frequentemente associadas a traços xenófobos, em contraste com a realidade de cadeias produtivas fortemente mundializadas; a redução da importância dos mediadores tradicionais nas democracias liberais (partidos, sindicatos, grande mídia) combinada a diversificação e proliferação de novos; o enfraquecimento de instituições e da crença coletiva na legitimidade das democracias liberais; a virtualização dos meios de informação e de contato social associada ao avanço tecnológico que viabiliza o tráfico rápido de grande volume de dados pela internet. Já é possível observar o aumento da tensão entre organizações privadas e estatais que podem exercer controle sobre os indivíduos e grupos através dessas tecnologias de informação e comunicação e os indivíduos e grupos que são contrários a esse controle. O confinamento, a restrição a reuniões e aglomerações pode vir a produzir uma alteração nas ‘etiquetas sociais’, pelo medo do contágio. Porém, mais importante pode ser a construção de novos repertórios de ação coletiva virtuais e a produção de regras mundiais mais restritivas de relacionamento em mídias sociais. Uma mudança já em andamento é o renascimento na crença de que o Estado e organismos de governo supranacional devem ser fortes o suficiente para promover a saúde coletiva, a proteção dos mais pobres e intervir na economia para ativá-la, quando boa parte das atividades econômicas estão paralisadas. O consenso liberal parece estar sendo colocado em questão, particularmente no Ocidente onde se manifestou com mais força.

Rodrigo Santos: Na condição de leigo no tema, não consigo emitir nada além de opiniões pessoais a esse respeito. Dessa forma, me parece que um efeito previsível da pandemia pode ser uma espécie de perda de confiança nas propriedades humanas de superação dos desafios “naturais”, em particular no que diz respeito aos efeitos positivos da tecnologia. A ideia de que “tudo tende a dar certo”, que me parece profundamente enraizada na minha geração e no Brasil, pelo menos, pode ser seriamente abalada, indicando algumas diferentes possibilidades de reconstrução societária. No entanto, tais possibilidades nem sempre são positivas, e eu não descartaria uma sociedade mais segmentada e anômica, pelo menos em nosso caso.

Hiro Saito: Certamente, os contornos das sociedades pós-pandemia dependem fundamentalmente de como cidadãos, governos, corporações e outros atores relevantes se mobilizarão para avançar suas visões em disputa para o futuro. Apesar disso, gostaria de sugerir que a dialética entre nacionalismo e cosmopolitismo pode nos ajudar a entender possíveis contornos em termos da questão da solidariedade enquanto base da integração social, inclusão política e identidade cultural.

Em Singapura, por exemplo, a pandemia demonstrou o quanto essa cidade-estado global depende de trabalhadores estrangeiros no setor da construção civil e como eles são maltratados – esses trabalhadores “descartáveis” se abrigavam em dormitórios lotados que se tornaram o elo mais fraco no esforço de contenção da pandemia em Singapura. Mas isso também criou uma abertura para os cidadãos e propositores de políticas públicas do país debaterem com seriedade como melhorar as condições de trabalho e moradia de estrangeiros em território nacional, de forma consistente com o cosmopolitismo que expande o escopo da solidariedade para além da nacionalidade. Momentos semelhantes de solidariedade cosmopolita são incipientes em outras cidades globais que dependem em larga escala de trabalhadores estrangeiros.

De maneira igualmente importante, a pandemia também revitalizou o nacionalismo enquanto fonte de solidariedade. Por um lado, a pandemia expôs como sistemas de saúde em muitos países estavam quebrados; particularmente os pobres, minorias étnicas e outras populações marginalizadas foram mais afetadas pela pandemia e suas ramificações econômicas, já que faltaram os recursos médicos e financeiros. Por outro lado, o drama daquelas populações marginalizadas estimulou cidadãos e propositores de políticas públicas a debater como fazer suas nações mais inclusivas em momentos de solidariedade nacional induzidos pela pandemia – “estamos juntos nessa”. Mas esses momentos cosmopolitas e nacionais de solidariedade podem muito bem ser desfeitos pelo globalismo neoliberal, pelo populismo de direita, e outras contraforças. É por isso que os contornos das sociedades pós-pandêmicas dependem em última análise das lutas políticas entre atores relevantes, incluindo a nós sociólogas e sociólogos.

Luiz Augusto Campos: Acho muito difícil delinear conjectura, pois sequer temos ideia do tempo de duração desta pandemia. No entanto, enumero algumas tendências que parecem ter mais chance de perdurar. Primeira, maior centralização da administração social dos riscos, provavelmente por parte do Estado, embora ainda não esteja claro o formato que isso vá assumir. Segunda, aprofundamento da importância das tecnologias digitais de comunicação. Terceira, aprofundamento no curto prazo das desigualdades nacionais e internacionais. Quarta, recentramento da ciência enquanto fonte de orientações políticas para os agentes públicos.

 

4. Que obra(s) da sociologia e das demais ciências sociais podem nos ajudar a compreender e a conversar sobre os desafios em curso?

Göran Therborn: Não penso que haja um programa de literatura sociológica relevante esperando nossa leitura. Em vez disso, penso que é mais importante nos perguntarmos que trabalhos precisam ser escritos. Haverá uma série de trabalhos sobre as causas, respostas e consequências da pandemia. O espalhamento do contágio e sua severidade diferiu amplamente entre lugares, estados e continentes. Por quê? Isso não parece algo que a virologia, sozinha, possa explicar. A sociologia tem contribuições cruciais a fazer.

Os diferentes timings do reconhecimento e reação e as variadas formas de quarentena, implementação, testagem e cuidado serão explorados nas linhas das culturas políticas, políticas sociais e do caráter de instituições de cuidado. A avaliação das respostas econômicas governamentais nos levará às profundezas da economia política. As consequências sócio-econômicas da pandemia terão de ser traçadas de volta às estruturas dos negócios e mercados de trabalho (o escopo do “trabalho informal”), sistemas de direitos sociais e às classes, etnias, gêneros e estruturações religiosas das sociedades. No curso das investigações, novos desenvolvimentos teóricos serão feitos.

Uma boa aposta nos efeitos intelectuais da pandemia é a de que haverá um impulso da ciência social-biomédica e de desenvolvimentos de uma sociologia planetária multidimensional, do poder, privilégio, pobreza e vulnerabilidade, integrando a natureza, do viral ao climático, culturas, as revoluções digitais, mercados e cadeias de suprimentos, geopolítica, e os padrões da subsistência e dos cursos de vida humanos.

Soraya Vargas Côrtes: Três conjuntos de temas podem auxiliar na compreensão dos processos em curso provocados ou acelerados pela pandemia. O primeiro se refere as sociologias da saúde e da medicina. O livro The Palgrave handbook of social theory in health, illness andmedicineapresenta uma síntese das discussões predominantes nessas subáreas da sociologia. Editada por Fran Collyer, a obra apresenta os debates contemporâneos e a contribuição de autores clássicos como Marx, Weber, Durkheim e Parsons na constituição desses dois campos correlatos de conhecimento. O segundo versa sobre as mudanças nas tecnologias de informação e comunicação (TICs) e seus impactos. A obra de Manuel Castells, muito conhecida pelos sociólogos brasileiros, aborda temas como a sociedade da informação, a globalização e a ação coletiva no contexto das mídias sociais e da internet. Um estudo, menos conhecido, é o livro The internet and democratic citizenship: theory, practice and policy, de Stephen Coleman e Jay G. Blumler, que apresenta uma análise o impacto das novas TICs na organização da ação coletiva e sobre os centros tradicionais de mediação política nas democracias liberais. O terceiro conjunto é composto pelas teorias das modernidades múltiplas ou alternativas. Ele oferece ferramentas analíticas que colaboram para a compreensão de mudanças mundiais em curso, as quais podem vir a ser aceleradas pela pandemia, principalmente a tendência de aumento da importância econômica, política e cultural da China vis-à-vis os Estados Unidos e a Europa. Ao recusar a visão eurocêntrica de civilização, essa vertente ressignifica o conceito de modernização, acentuando a importância de imperativos culturais profundos imersos em processos civilizatórios históricos-institucionais não ocidentais. As obras de Shmuel Eisenstadt são o ponto de partida contemporâneo dessa corrente de pensamento, porém há muitos estudiosos que a tem utilizado em suas análises. Destaco dois colegas brasileiros que a empregaram no estudo de processos históricos latino-americanos, José Maurício Domingues e Sérgio Costa.

Rodrigo Santos: Não tenho conhecimento de nenhuma obra específica que venha tratando de maneira específica da questão dos efeitos da especialização de redes globais de produção (RGPs) de insumos farmacêuticos e equipamentos médicos em termos de escassez e impactos em diferentes sistemas nacionais de saúde, o que me parece absolutamente central. No entanto, acredito que a própria pandemia irá impelir estudos nesse sentido. Alguns indícios disso começam a aparecer em web-seminários com especialistas(ver, por exemplo, este); enquanto working papers começam a ser publicados com essa intenção, a exemplo de “Globalization in the Time of COVID-19”, de Alessandro Sforza e Marina Steininger.

Hiro Saito: Penso que os trabalhos de Ulrich Beck e Bruno Latour podem ser da maior ajuda porque iluminam as dimensões empírica, normativa e performativa dos desafios em curso. Para começar, a teoria do risco mundial de Beck, assim como o seu cosmopolitismo metodológico, nos permitem compreender a pandemia de Covid-19 em conjunto com outros riscos globais, como crises financeiras e conflitos geopolíticos. Embora seja urgente entender a pandemia por si só, também é essencial examinar como as causas e consequências da pandemia se interseccionam com aquelas dos outros riscos globais. Isso porque, no espírito da teoria crítica cosmopolita de Beck, a pandemia pode e deve ser vista como um pivô de primeira ordem na metamorfose da sociedade de risco mundial em direção ao coletivo cosmopolita capaz de abordar diretamente riscos globais, dos quais o mais importante é a mudança climática.

De maneira semelhante, os escritos de Latour nos ajudam a posicionar a pandemia no contexto da mudança climática enquanto horizonte de todos os problemas globais. Embora a pandemia tenha devastado a vida e o sustento de muitas pessoas, ela demonstrou como a qualidade do ar e da água pode melhorar quando o transporte terrestre, aéreo, cadeias de suprimentos globais e muitas outras pegadas ambientais humanas são reduzidas – “ganhar” a luta contra a pandemia não pode ser algo que nos autorize a suspender a luta contra a mudança climática. Igualmente importante é a forma como Latour nos ajuda a compreender o papel de cientistas e outros produtores de conhecimento na construção e resolução da pandemia e de outros problemas globais. Ele convida então a nós sociólogas e sociólogos a abraçar nossa própria performatividade na composição entre participantes, ambientes e procedimentos relevantes para que verdadeiros diálogos cosmopolíticos sobre as mais urgentes questões do mundo contemporâneo possam acontecer.

Luiz Augusto Campos: Embora os textos de Ulrich Beck venham sendo os mais mencionados, acredito que a obra de seu mestre, Anthony Giddens, retornará à voga, sobretudo por conta de um provável retorno de estruturas próprias de uma modernidade tal qual descrita por ele (calcada nos sistemas peritos e no risco). Tenho me interessado em reler Goffman, muito embora seu foco estivesse muito mais nas implicações embutidas nas interações sociais do que na relevância delas para a reprodução do social. Finalmente, destaco a relevância de reflexões sobre a reestruturação do capitalismo, sobretudo dos modelos mais autoritários moldados no leste asiático, seja o “comunismo” chinês ou o “liberalismo” em Singapura.

 

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* Os textos publicados pelos colaboradores não refletem as posições da BVPS.

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