“Quando nos matam duas vezes, a luta negra ressurge outras mil”, por Mário Augusto Medeiros da Silva (Unicamp)

Marielle
Foto: Gabriel de Paiva / Agência O Globo

O Blog da BVPS tem o prazer de publicar hoje o texto “Quando nos matam duas vezes, a luta negra ressurge outras mil”, de Mário Augusto Medeiros da Silva, professor do departamento de Sociologia da Unicamp. Originalmente lido, com modificações, na seção Intersecting Feminisms do evento Black Feminisms across the Americas: A Tribute to Political Activist Marielle Franco, que teve lugar na Universidade de Princeton (EUA) no dias 14 e 15 de março de 2019, o texto faz um balanço reflexivo do seminário.

O evento, cuja programação completa pode ser vista aqui, foi organizado pelo Brazil Lab, uma iniciativa da Universidade de Princeton que congrega pesquisadores, professores e estudantes trabalhando sobre o Brasil ou interessados em temas para os quais o Brasil pode ser relevante. Co-dirigido por João Biehl e Pedro Meira Monteiro, o Brazil LAB (Luso-Afro-Brazilian Studies) funciona como um “hub” interdisciplinar de pesquisa e ensino, sediado pelo PIIRS (Princeton Institute for International and Regional Studies), em sinergia com diferentes departamentos, programas e outras iniciativas em Princeton, com o objetivo de explorar a história, a política, a cultura e a ciência do mundo lusófono, especialmente do Brasil, pensando em sua significação regional e em suas conexões internacionais.

Uma boa leitura!

 

“Quando nos matam duas vezes, a luta negra ressurge outras mil”, por Mário Augusto Medeiros da Silva (Unicamp)

Quinze meses completos após suas mortes, em 14 de junho de 2019, caminhando para um ano e meio de ausências, continuam desconhecidos os mandantes do crime e assassinos de Marielle Franco e Anderson Gomes. Isso esclarece os sentidos da violência e da experiência vital de sujeitos negros na sociedade brasileira, em cargos de poder ou não. A morte de uma mulher negra, socióloga, bissexual, oriunda do Complexo da Maré, feminista, política e ativista de direitos humanos e seu motorista negro no Rio de Janeiro choca pela tentativa de calar as vozes de todas as lutas embutidas naquelas identidades. Pós tragédia, uma nova trama de iniquidades foi urdida: questionamentos sobre seu ativismo, suspeitas sobre o passado e sugestões de associações ilícitas, prolongamento do sofrimento de seus entes queridos para descobrir os culpados pelo duplo homicídio. No Brasil, pessoas negras morrem ao menos duas vezes, portanto. A morte física é acompanhada de outra tentativa de genocídio, o de sua lembrança individual e coletiva.

Isso torna a batalha da memória social algo urgente. A propósito desta, destaque-se dentre outras homenagens, a ocorrida em 14 e 15 de março de 2019 por iniciativas dos cientistas sociais Pedro Meira Monteiro e João Bihel, docentes na Princeton University e organizadores do seminário Black Feminisms across the Americas: a tribute to political activist Marielle Franco[i]. Ele já foi tema de alguns textos publicados pelas colunistas do Nexo Jornal, a cientista social Lilia Schwarcz e a historiadora Giovanna Xavier, ambas presentes àquela reunião[ii].

O evento, no qual também estive e de onde emerge este texto, foi uma grande possibilidade de conexões, entre colegas brasileiros e estadunidenses, permeada dos afetos e dores da memória, por meio de triste coincidência de efemérides (aniversários de Abdias do Nascimento e Carolina Maria de Jesus; mortes de Marielle e Anderson), lembradas naqueles dias. Também de incentivos para pensar a vida negra, como sugeriu a filósofa e ativista Angela Davis em sua conferência, das lutas articuladas pelo feminismo negro. A crítica literária Marília Librandi[iii], em seu discurso, chamou atenção para a necessidade da ação “prática da política da escuta”, presente nas reflexões de Davis: escutar todas as vozes naquele seminário foi um enorme aprendizado político e afetuoso.

O evento limite de 14 de março de 2018 desnudou, mais uma vez, machismo, misoginia, feminicídio, racismo, intolerância, fascismo, como alertou Fernanda Chaves, assessora de Marielle, em sua fala no documentário I will not be interrupted, de Débora McDowell e Jamille Dias, estreado no seminário. “Não serei interrompida”, frase tantas vezes dita pela parlamentar em suas intervenções na Câmara de Vereadores carioca e que permite a ressignificação da memória de sua morte, tal qual indicou Mônica Benício, ativista e viúva de Marielle, no filme: podemos nos ver como realmente somos, como sociedade brasileira. O que vamos fazer com isso daqui em diante?

Memória é poder. Pode-se deter o poder e conter a memória ou pode-se ser solidário e compartilhá-la, para que ela ganhe outros sentidos por quem não a viveu. Isto é um pouco do que ensinou Mônica Benício em seu discurso emocionante no evento, lembrando que lhe foi imposta uma vida que ela nunca quis. Mas que a partir de então, houve uma tarefa a ser construída, irmanando as diferentes vozes que se ergueram após aquele limiar. Nesta linha da solidariedade, a historiadora Giovana Xavier perguntou aos presentes sobre a diferença entre memória e legado.

A memória ritualiza e enlaça, como recordaram as antropólogas Imani Perry[iv] e Aisha Beliso De Jesús[v]. Estávamos ali numa luta contra o esquecimento e uma forma de acolhimento de uma dor partilhada. Uma das facetas menos discutidas do racismo à brasileira é a prática social do esquecimento, que justamente interrompe os laços coletivos e afetivos. O legado é uma prática política também, que se constrói em ação a partir da memória ritualizada. O que fazemos cotidianamente com o que recebemos dos antepassados, dos nossos referenciais de luta? De que maneira a sociedade brasileira será capaz de reagir à brutalidade do assassinato de Marielle e Anderson, da crescente taxa de agressão a mulheres e feminicídios, particularmente de negras, de assassinatos de jovens negros entre 15 e 29 anos, grupo mais atingido segundo o Atlas da Violência[vi]?

Xavier nos recordou ainda quão importante é pensar Marielle não como uma precursora mas como uma importante continuidade de experiências negras políticas, intelectuais e ativistas. Ela contribuiu, com sua experiência, à “interseccionalidade de lutas” de que falava Davis: Feminista negra, Marielle conectou ativismo político e ativismo intelectual, luta pelo direito à cidade, pelos direitos lgbts (seu projeto de lei sobre visibilidade lésbica[vii]), os direitos das mulheres, a luta pela educação, a luta antirracista, pela desmilitarização da polícia e outras pautas. O feminismo negro em Marielle atuou como uma espiral ascendente de ativismos.

A socióloga Tianna Paschel[viii] também dissertou sobre a ideia de continuidade como foco. Reconstituiu de forma muito didática um histórico de lutas do movimento negro brasileiro entre os anos 1970 e 80 e como o movimento de mulheres negras emergiu em meio ao movimento negro pautando questões específicas e globais. Da luta contra o racismo e o direito à memória e educação, presentes nos ativismos negros de então, surge o debate sobre o machismo no mundo negro, a luta contra a esterilização da mulher negra, da saúde da população negra. Esse legado transformado historicamente da luta negra no Brasil produziu mulheres ativistas intelectuais negras como Lélia González, Beatriz Nascimento, Sueli Carneiro, Luiza Bairros, Jurema Werneck, que foram inspiradoras para Marielle, entre outras.

Esta trajetória do feminismo negro no Brasil e movimento de mulheres negras brasileiras não pode ser esquecida, tampouco menorizada em sua abrangência, como nos lembrou Angela Davis. Em seu discurso, ela fez uma crítica central ao ensimesmamento colonizador que o debate pode assumir sobre o feminismo e o feminismo negro dos EUA, caso fique reservado às suas barreiras geográficas. Ela citou todas aquelas mulheres brasileiras em sua fala (além de Carolina Maria de Jesus) e afirmou ter conhecido Lélia pessoalmente nos anos 1980. González, que cunhou a ideia fundamental de um feminismo Amefricalatino, ou seja um feminismo negro que ultrapassasse as barreiras transnacionais, já que a luta contra a opressão machista, capitalista e patriarcal desconhece fronteiras nacionais, caso objetive ser emancipatória. Angela Davis chamou aquelas mulheres e também Marielle – que lamentou não ter conhecido pessoalmente – de “minhas irmãs americanas”.

E as formas de luta coletiva ou individuais? A antropóloga Carolyn Rouse[ix] refletiu particularmente acerca de como desmantelar a casa do senhor/opressor [master’s house] desde dentro. A luta está em todo lugar, inclusive nos espaços da universidade, da política institucional, dos eventos acadêmicos. É necessário ocupar todos os espaços sociais, porque racismo, machismo e opressão capitalista estruturam nossas formas de viver. Assim, a opressora casa grande do senhor está em todo lugar. Marielle, segundo Rouse, compreendeu isso: Estudou sociologia na PUC-RIO, agiu na militância partidária, tornou-se parlamentar, recebeu votos da elite carioca da zona sul, sem perder suas redes com a Maré, com movimentos de mulheres negras. Desestabilizou espaços construídos de maneira inóspita aos seus marcadores sociais de diferença. É semelhante à ideia de Lélia González em seu livro Lugar de Negro, publicado em 1982, onde questiona a ideia de lugar naturalmente subalternizado do negro e como destruir tal naturalização.

Angela Davis fez ainda defesa de um ativismo intelectual na universidade. Ela afirmou que estar na academia não pode ser desculpa para não fazer nada. Professoras e professores formam e treinam pessoas para fazer coisas melhores no mundo, como as mulheres que fundaram o movimento internacional Black Lives Matter[x] como ela recordou. Também é importante não perder as redes com o que acontece fora da universidade e produzir conhecimento. Assim conectou memória coletiva, legado, produção de conhecimento, continuidade e ativismo intelectual na academia e fora dela, ao recordar a história de Rosa Parks e a necessidade estudar sua história, conhecer sua trajetória e ir além da imagem da mulher que se recusou a ceder lugar a um homem branco no ônibus. Rosa foi espiã da NAACP [Associação Nacional para o Progresso das Pessoas de Cor][xi], investigadora de casos de estupro no Alabama e organizadora de redes de mulheres ativistas. Quanto sabemos disso?

Os atos do seminário recordaram que a luta emancipatória, particularmente do feminismo negro, não trata de indivíduos ou de vaidades pessoais. Intelectuais, mesmo negras e negros, algumas vezes, parecem esquecer isso, nesses tempos de curtidas instantâneas e adorações rápidas das redes sociais. O centro da ação é estabelecer e recordar redes, conectando lutas e trajetórias em uma longa linha de ações, nem sempre reta e muitas vezes tracejada pela violência física e simbólica do esquecimento e do calar de vozes. A luta contra o genocídio negro é uma tarefa coletiva antirracista também pela batalha da memória e a dignidade da narrativa da vida negra.

 

Notas

 

[i]       https://brazillab.princeton.edu/events/black-feminisms-across-americas-tribute-political-activist-marielle-franco

[ii]     Ver: https://www.nexojornal.com.br/colunistas/2019/Eu-sou-porque-n%C3%B3s-somos.-Marielle-nunca-esteve-t%C3%A3o-vivae https://www.nexojornal.com.br/colunistas/2019/Amor-e-luta-um-encontro-com-Angela-Davis

[iii]    https://spo.princeton.edu/people/marilia-librandi-rocha

[iv]    https://aas.princeton.edu/people/imani-perry

[v]     https://spo.princeton.edu/people/aisha-m-beliso-de-jesus

[vi]     http://www.ipea.gov.br/portal/index.php?option=com_content&view=article&id=34786&catid=9&Itemid=8

[vii] http://mail.camara.rj.gov.br/Apl/Legislativos/scpro1720.nsf/e13bbebac4d2d19f8325807c006bfd36/a29ca84abd38c4ad832580de00664201?OpenDocument&ExpandSection=-3

[viii]  https://haasinstitute.berkeley.edu/tianna-paschel

[ix] https://anthropology.princeton.edu/people/faculty/carolyn-rouse

[x]      https://blacklivesmatter.com/

[xi]    https://www.naacp.org/

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