Cecília Meireles, ausente, presente, inconfidente, por Sérgio Alcides

No terceiro e último post da série, a coluna MinasMundo do Blog da BVPS publica mais um texto baseado na mesa Inconfidências, que abriu a programação do projeto este ano. “Cecília Meireles, ausente, presente, inconfidente” é uma contribuição do pesquisador do MinasMundo Sérgio Alcides (UFMG). Para ler os outros dois posts da série, de autoria de Heloisa Murgel Starling (UFMG) e Eliane Robert de Moraes (USP), clique aqui ou aqui.

No post, o autor escreve sobre a poesia e a atuação cultural de Cecília Meireles, especialmente a partir de Romanceiro da Inconfidência, para compreender tensões e distensões em torno de sua autodeclarada “ausência do mundo” e uma cosmopolítica própria à poeta.

Cecília Meireles, ausente, presente, inconfidente

por Sérgio Alcides

Quando um jornalista perguntou a Cecília Meireles qual era seu maior defeito, a resposta foi: “uma certa ausência do mundo”.

Mais de dois milênios antes, perguntaram a Diógenes, o pensador cínico, sobre sua origem. Ele era de Sínope, no mar Negro. Mas respondeu apenas: kosmopolitês, como quem declara: “sou um cidadão do mundo”.

Quer dizer, então, que Cecília estava excluída do cosmopolitismo das letras? Como poderia um cidadão do mundo estar ausente do mundo? Ou será que, pelo contrário, era justamente ausentando-se do Rio de Janeiro (ou de Sínope) que ela assegurava sua presença em toda parte, embora de um jeito diferente?

Quando o Romanceiro da Inconfidência chegou às livrarias, em janeiro de 1953, a autora estava ausente do país. Tinha embarcado um mês antes para a Índia, a convite de ninguém menos que o primeiro-ministro Jawaharlal Nehru. Estava participando em Nova Delhi de um congresso internacional sobre o pensamento de Gandhi, que discutia modos de implementar em nível global ideias políticas e sociais do grande líder anticolonialista, assassinado poucos anos antes, em 1948. Terminados os trabalhos, ela visitou várias outras cidades e localidades indianas. Depois seguiu para a Europa, acompanhada pelo marido, Heitor Grilo – um importante agrônomo e tecnocrata, que no futuro teria um papel decisivo na criação do CNPq. O casal passou uns tempos na Itália, foi à Holanda, e ela teve compromissos em um punhado de cidades europeias.

Enquanto isso, no Brasil e em Portugal, os leitores de poesia estavam abismados com o novo livro da grande poeta. Bastaria citar duas reações, que resumem bem o entusiasmo geral. A primeira – que, imagino, vai surpreender muita gente – é de João Cabral de Melo Neto, que nessa época tinha um programa na Rádio Clube do Rio de Janeiro. Ele dedicou duas emissões ao tema, começando assim: “O aparecimento do Romanceiro da Inconfidência, de Cecília Meireles, pode ser considerado um dos acontecimentos mais importantes dos últimos anos. Pela primeira vez, o livro de um poeta brasileiro moderno vem mostrar que a poesia, mais do que uma substância determinada, é linguagem, isto é, uma maneira de falar de certos assuntos ou de transmitir certas substâncias”. Esse texto e o da emissão seguinte, inéditos em livro, foram descobertos pela pesquisadora Edneia Rodrigues Ribeiro, recentemente, entre os papéis de Cabral na Casa de Rui Barbosa.

A outra reação é de Carlos Drummond de Andrade, que publicou uma nota no Correio da Manhã intitulada “Cecília Meireles e Ouro Preto”. Entre outras coisas, diz ele: “Poucos livros evocarão uma cidade na sua fisionomia moral, como este voltado ao culto de algumas vítimas e de um sonho histórico. Livro que é, não obstante, pura poesia, desinteressado, porque seu interesse maior está na beleza que concentra e irradia à maneira de um exato diamante”.

“Poesia é linguagem”, “à maneira de um exato diamante”. São observações felicíssimas, porque o Romanceiro é um livro de composição minuciosa, que mostra uma organicidade muito esmerada, tersa, precisa. Há um trabalho de poesia intenso na sua concepção, na organização, na disposição das partes e dos poemas. São 85 textos narrativos, que “imitam” a forma dos romances populares medievais e aparecem entremeados por poemas bem mais complexos, os “Cenários” e as “Falas”. Estes compõem uma espécie de arcabouço moderno, transfigurador de todas as estórias que são contadas, de toda a história particular que é abordada. O resultado pode mesmo ser comparado a um diamante, com essa imagem de perfeição formal. E manifesta ampla compreensão e grande domínio da linguagem poética.

A transfiguração da história justifica o que diz Drummond, sobre o Romanceiro ser “pura poesia”. Isso compromete um pouco a expectativa generalizada, entre leitores brasileiros, de que o livro trate de um episódio da história do Brasil. Como pode a poesia pura estar atrelada a um evento específico do passado, uma questão nacional? Ocorre que a Inconfidência Mineira, à qual Cecília dedicou quase uma década de pesquisa, é meramente o tema do livro, ou seu motivo: aquilo que move a composição. Por trás dele – ou abaixo, em maior profundidade – estão os grandes assuntos da poesia épica de todos os tempos e de todos os lugares: a coragem dos heróis e a traição dos pusilânimes, o padecimento dos justos e o remorso dos iníquos, as aspirações sonhadas e o pesadelo da injustiça, o ideal da liberdade e o cativeiro que se acha em toda parte, a boa-fé dos inocentes e a intriga dos sicofantas, o poder das palavras e o engano das delações, e por aí vai, achando-se o leitor jogado entre os extremos da grandeza e da miséria humanas.

Seria impróprio qualquer juízo a respeito desse livro fundado na pressuposição de que ele deva corresponder (como deve a escrita da história) aos eventos históricos que evoca. Aproveitando a inspiradora fala de Eliane Robert Moraes, pode-se dizer que o Romanceiro é um livro de inconfidência poética, de ruptura com a fidelidade que o historiador dedica às suas fontes primárias, diante de fatos passados e em busca de um modo justo, honesto e iluminador de encadeá-los numa narrativa de crítica e de interpretação. Cada um dos poemas enfeixados no conjunto nos dirige para uma série de considerações cujo interesse extrapola muito o tema nacional e parte dele para abrir um horizonte bem mais vasto. O Romanceiro da Inconfidência é sobre a Inconfidência Mineira tanto quanto a Ilíada é sobre a Guerra de Tróia: nem mais, nem menos. Mas, se houvesse fontes diretas, nenhum historiador – nem arqueólogo, no caso – embasaria em Homero seu trabalho sobre uma possível guerra ocorrida nos campos onde foi Tróia.

A pesquisa empírica sobre o passado aparece na poesia transfigurada, isto é: metamorfoseada (sendo metamórphosis o termo em grego que corresponde a esse conceito, nos evangelhos sinóticos: Mateus 17.1-8; Marcos 9.2-8; Lucas 9.28-36). O resultado poético permanecerá para sempre ligado a essa origem histórica, porém jamais a ela será redutível. De maneira análoga, as muitas crônicas de Cecília sobre tantas viagens que fez, inclusive as da Índia em 1953, são transfigurações de sua presença física nesses lugares, que concretizam em público memórias de vivências privadas. Ou, em outras palavras, são modos de se apresentar no mundo público ausentando-se da vida particular, que é convertida em literatura. Ausência e presença deixam de ser opostos e se tornam etapas intercambiáveis de uma via única.

Muito representativa desse cosmopolitismo “ausente do mundo” é a crônica “Todos os caminhos”, publicada em 1955 no Diário de Notícias, do Rio de Janeiro. Trata-se do relato de uma viagem de avião entre o Paquistão e a Itália, com uma escala noturna no Egito. Mas tudo é referido como se fosse um sonho, um lapso entre duas realidades. “Saímos do Paquistão às seis e meia da tarde e o relógio agora marca pelo tempo de lá quatro horas da madrugada” – e a passageira está no Cairo, nessa altura. “São esses desencontros do viajante com o meridiano que nos fazem perguntar onde ficaram as horas que não vivemos, ou onde ficamos nós”. Identificada com o lapso, a cronista diz que tinha, nesse momento, “o tempo oriental ainda no pulso”.

Aliás, a crônica de Cecília costuma ser inconfidente por definição: não trata de trivialidades do cotidiano, como recomenda o lugar-comum sempre repetido a respeito desse gênero. Frequentemente, seu objeto é antes a realidade interior que decola de um cotidiano comezinho. Uma tediosa viagem de avião se torna, assim, na oportunidade para uma meditação nada trivial sobre o tempo, a perda da experiência e a capacidade da linguagem de criar seu próprio mundo, onde pode estar presente quem se mostra ausente neste outro, comum – mas com um tempo diferente no pulso.

As palavras de “Todos os caminhos” não poderiam levar senão a Roma, ponto de chegada do seu itinerário aéreo. Mas há outra crônica da autora, publicada nesse ano, no mesmo jornal carioca, que teria um interesse especial para nosso grupo, MinasMundo. Chama-se “Minas em Roma”. Cito só o início: “Todos os dias estas fontes de Roma, claras e sonoras, me fazem pensar nas de Ouro Preto, escondidas tão longe entre severas montanhas, a repetir sempre histórias do século XVIII”. O sujeito se acha diante da Fonte das Abelhas, na Piazza Barberini. É a deixa para relembrar uma lira de Dirceu, em que uma “abelha enraivada” se aproveita da distração de Marília. Em quatro parágrafos, o texto retoma o tópos da picada de abelha, cuja vítima pode ser a pessoa amada ou o próprio Eros, numa tradição que brota desde a Antiguidade. Rapidamente, a crônica quebra a fidelidade com a circunstância presente, trocando as fontes de Roma pelas de Ouro Preto, e atira o leitor em outro mundo, que minha colega Heloisa Starling logo identificaria com a República das Letras.

Sabemos que há um debate intenso em volta do conceito de cosmopolitismo. Hannah Arendt, por exemplo, vem questioná-lo, em seu ensaio sobre Karl Jaspers, que está em Homens em tempos sombrios: se não existe um Estado mundial, então como pode haver um “cidadão do mundo”? Mas é possível que a consideração da República das Letras ofereça algum elemento para avançarmos nessa problemática. Os letrados, no período moderno (inclusive os luso-brasileiros que se envolveram na Inconfidência, como os poetas Cláudio Manuel da Costa, Tomás Antônio Gonzaga e Alvarenga Peixoto), exemplificam bem uma espécie de dupla lealdade: como súditos de um monarca, têm os corpos sujeitos ao aparelho político do Estado, que recorta um território no chão; mas, do ponto de vista “espiritual”, consideram-se cidadãos de uma república imaginária, aérea, que atravessa as fronteiras e se define pela formação das Humanidades, supostamente cosmopolita. Há uma inconfidência constitutiva da cultura letrada, que manifesta uma outra filiação, além desta ou ausente desta, mais imediata e pragmática, do dia a dia e do corpo a corpo, que se tem com um ordenamento político particular, no espaço e no tempo comuns. Desde essa perspectiva, o cosmopolitismo aparece como uma ficção mais despida do que a cidadania regular, terrena.

Além disso, na década de 1950, existe toda uma discussão, ainda impactada pela tragédia da Segunda Guerra Mundial, sobre os modos de incrementar um sistema internacional de contrapesos à soberania dos Estados. Foi nesse contexto que surgiram órgãos multilaterais que existem até hoje, a começar pela ONU. Na Índia de 1953, essa preocupação marcou os debates do evento gandhiano de que Cecília foi participar. Alguns de seus pares ali tiveram uma enorme importância para o multilateralismo do pós-guerra. O presidente do congresso foi o lorde escocês John Boyd Orr, que foi o primeiro dirigente da FAO (a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), e tinha recebido o Prêmio Nobel da Paz em 1949, justamente por seu êxito na condução dessa entidade. Seu vice foi o diplomata afro-americano Ralph Bunche, outro ganhador do Nobel da Paz, de 1950, pela sua atuação como mediador do conflito armado entre Israel e o Egito; mais importante do que isso, ele tinha sido um dos redatores da própria carta de fundação das Nações Unidas. Ambos estavam presentes na mesa-redonda em que a “ausente” Cecília se apresentou.

A representante brasileira fez uma fala breve, muito abstrata, a partir das ideias e da trajetória de Gandhi, com ênfase no discurso da não-violência e na militância anticolonialista. No fim, apresentou oito proposições, das quais caberia mencionar aqui pelo menos uma. É a que recomenda a exaltação de Gandhi como um herói da paz e um formador do mundo moderno, por meio de suas “experiências com a verdade” (numa alusão ao título da autobiografia do homenageado: Minhas experiências com a verdade). É uma proposição inspiradora para quem lida com o Romanceiro da Inconfidência, porque o Tiradentes de Cecília tem o mesmo aspecto de sacrifício dos interesses pessoais e identificação com um ideal coletivo, como aquele que vai “trabalhar para todos”. Mas não se trata de um ideal nacional, meramente, apesar de sua natureza anticolonial. O Tiradentes do Romanceiro, como Gandhi, eleva-se acima dos particularismos identitários, como a religião hindu ou a nacionalidade brasileira.

Outras proposições “indianas” de Cecília poderiam ser consideradas bastante “ultramundanas”, bem características daquela “certa ausência do mundo” que favorece um distanciamento crítico (mas não necessariamente o pragmatismo das ações políticas). Causou muita polêmica e custou paciência ao mediador norte-americano, por exemplo, a condenação do domínio da máquina sobre o ser humano, que a poeta brasileira fez acompanhar de uma defesa do artesanato, inspirada pela importância que teve na independência da Índia o estímulo de Gandhi ao uso do tear, da roca para fiar. Ahmad Matin-Daftari, ex-premiê do Irã, protestou: “Vivemos num mundo subdesenvolvido. Precisamos de maquinário, inclusive para produzir mais alimentos, aumentar nossa produtividade e fortalecer nossa economia”.

A discussão foi calorosa. Os participantes ficaram simplesmente pasmos com uma argumentação que lhes pareceu no mínimo anacrônica, mas que sabemos ser, no fundo, inconfidente, irredutível à modernidade de sua origem no tempo. No fim, o próprio Daftari agradeceu à chamada “Madame Meireles” por ter suscitado um debate sobre a relação entre a economia moderna, a necessidade de industrialização dos países em desenvolvimento e o artesanato tradicional. E ele mal sabia de como fiava (e desconfiava) sua interlocutora, tão perita artesã da palavra que era, numa língua ocidental para ele bem mais exótica do que para ela os céus do Irã, que cruzava de avião pensando na poesia clássica da Pérsia, de Omar Khayyam, Firdúsi, Hafiz, Saadi…

Esse ponto de vista aéreo, distanciado, corresponde à perspectiva que Cecília toma frente aos acontecimentos da Inconfidência e aos sonhos de Minas Gerais do século XVIII. “Passei por essas plácidas colinas / e vi das nuvens, silencioso, o gado / pascer nas solidões esmeraldinas” – diz a poeta, no primeiro “Cenário” do Romanceiro, “das nuvens”. O distanciamento da ausência dispõe sobre o mundo, aqui embaixo, um olhar que não deixa de ser crítico, ainda que isento – porque lá em cima também se ausenta do tempo, é decerto anacrônico, e intui as noções de aniquilamento que aparecem na “Fala inicial” do livro: “Na mesma cova do tempo / cai o castigo e o perdão. / Morre a tinta das sentenças / e o sangue dos enforcados… / – Liras, espadas, cruzes / pura cinza agora são. / Na mesma cova, as palavras, / o secreto pensamento, / as coroas e os machados, / mentira e verdade estão”. No fim, tudo se ausenta, em absoluto, enquanto na duração se impõem as graves questões éticas que o Romanceiro sabe levantar, justamente graças ao seu distanciamento. Entretanto, o poema está presente; é de uma presença transfigurada e estável, que se prolonga no tempo, enquanto o público quiser tomar o livro nas mãos.


Sérgio Alcides (Rio de Janeiro, 1967) é professor da Faculdade de Letras da UFMG. Doutor em História Social pela Universidade de São Paulo. Autor de Estes penhascos. Cláudio Manuel da Costa e a paisagem das Minas (São Paulo: Hucitec, 2003) e Armadilha para Ana Cristina e outros textos sobre poesia contemporânea (Rio de Janeiro: Verso Brasil, 2016), entre outros livros.

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