Ocupação Olhares, Axé: outros intérpretes do Brasil

O Blog da BVPS começa hoje a Ocupação Olhares, Axé: outros intérpretes do Brasil. O conjunto de postagens, que se estenderá ao longo da semana da Pátria até o dia 8 de setembro, contará com a participação de nove artistas e agentes culturais ligados às religiões de matriz africana que pensam sua arte e práticas como interpretações do Brasil. A ocupação tem curadoria de André Sampaio, que assina o texto de apresentação abaixo e também participa do conjunto com seu próprio trabalho musical. A ilustração, feita especialmente para a ocupação, é da artista Joana Lavôr.

Neste post, além do texto de apresentação do curador, publicamos um editorial do Blog sobre a iniciativa e uma fala de abertura de Pai Adailton Moreira D’Ogun sobre os temas da independência e liberdade. Mais tarde, às 17h, publicaremos a primeira rodada de um simpósio com respostas dos participantes da ocupação a perguntas feitas pela curadoria. Amanhã seguiremos com uma segunda rodada do simpósio e, nos dias 7 e 8 de setembro, publicaremos as ações artísticas dos nossos convidados.

Apresentação da Curadoria

Por André Sampaio

Como se forma a identidade de um povo? Quais os elementos que definem uma identidade tão complexa, diversa e híbrida como a que chamamos de identidade brasileira? Em busca de respostas e apontamentos a essas questões, a ocupação “Olhares, Axé: outros intérpretes do Brasil” traz ao blog da Biblioteca Virtual do Pensamento Social entrevistas e trabalhos de nove artistas e agentes culturais contemporâneos brasileiros.

No ano em que se completam 200 anos da Independência oficial do Brasil e 100 anos da semana de arte moderna de 1922, muitos questionamentos sobre qual seria essa identidade brasileira surgem. Ao aceitar o convite do BVPS para realizar uma curadoria em que convidasse artistas e fazedores da cultura para repensar esses temas, a busca desde o princípio foi de trazer outros olhares – aqueles que, como diz Pai Adailton Moreira D’Ogun, sempre foram invisibilizados. Como falar sobre as identidades que nos compõem se não temos a voz e as perspectivas diversas que nos constituem representadas?

As religiões de matriz africana são os melhores exemplos do caldeirão cultural que formou, e ainda hoje forma, o que chamamos de cultura brasileira. Mas que, devido ao racismo estrutural e religioso, sempre foram apagados ou tiveram suas contribuições apropriadas – o tão discutido embranquecimento das culturas afrobrasileiras.

Com isso, a linha que conduziu a curadoria trouxe os olhares de artistas que são de religiões de matriz africana ou cujos trabalhos se debruçam ou dialogam com esses complexos culturais. Convidamos artistas mulheres, negros e negras, gays, trans e de algumas matrizes culturais que dialogam com o sagrado em seus processos criativos. Uma seleção de nove artistas está bem longe de conseguir abraçar toda a diversidade de identidades brasileiras que temos, mas nossa busca foi a de ter o máximo de olhares diferentes dentro da unidade que os liga: como os povos de terreiro e de matriz africana se expressam através da arte? Como, em seus processos criativos, essas pessoas reconstroem suas identidades?

Dentre os artistas convidados temos Márcia Pereira, escritora e poeta que se debruça sobre as vozes do feminino negro e suas referências aos orixás, e como eles refletem seu cotidiano; Gustavo Melo Cerqueira, babalorixá, ator e performer, cujo trabalho se debruça sobre as estratégias desenvolvidas pelo corpo negro para existir e perceber sua existência; Rose Lane, atriz, artista da dança e mamulengueira, oriunda da Chapada Diamantina/BA, que busca na fusão de linguagens artísticas suas formas de expressão; Iran Silva, ogan, juremeiro, ferreiro e luthier de instrumentos sagrados de axé, oriundo de Olinda/PE, que traz toda uma bagagem dos povos de terreiro dessa região; Odaraya Mello, artista visual que se utiliza de várias linguagens para expressar suas relações com o mundo a partir do prisma de um filho de Oxum, cujas potências se fundem entre águas intensas ou que acalentam; Jef Rodrigues, rapper, vocalista, filósofo e bacharel em artes, baiano de Ilhéus, que traz em seu trabalho pensamentos críticos afiados ao lado de fusões rítmicas afro-contemporâneas; Léa Cunha, mulher trans, negra, artista visual e atriz cujos trabalhos fotográfico e visual buscam as formas de comunhão entre o corpo humano e a natureza e a diversidade de corporeidades negras em contato com o sagrado e o mundano, o Orun e o Aye; e Evna Moura, artista visual, pesquisadora e fotógrafa natural de Belém/PA, cujo trabalho dialoga com temas ligados à região amazônica.

Além de um time tão rico e diverso de artistas colaboradores, eu também – músico, Ogan, produtor musical e cultural – trouxe meu trabalho, que busca formar pontes entre brasis e áfricas através da música, à ocupação. Além de estar inserido como um homem de axé que busca na vivência entre o sagrado e o terreno inspiração para minha criação artística, minha experiência em anos de intercâmbios culturais com artistas e mestres afrobrasileiros, de África e da diáspora, serviu de caminho para moldar a linha dessa curadoria.

Por fim, temos nosso convidado de honra: Pai Adailton Moreira D’Ogun. Babalorixá, cientista social e doutorando, Pai Adailton é o responsável pela continuidade do terreiro Ile Omiojuaro, casa de axé de Mãe Beata de Iyemanja, que foi também sua mãe biológica. Babá Adailton d’Ogun nos reencanta através da entrevista que nos concedeu, falando com toda sua sabedoria de griô dos tempos modernos sobre temas que nos atravessam e que norteiam essa ocupação.

Que as viagens imagéticas, sonoras e pelas diversas linguagens artísticas que apresentamos possam servir a novos impulsos e buscas, pois como nos lembra Pai Adailton d’Ogun “as águas dessa fonte que é o complexo cultural de matriz africana são infinitas”. Boa navegação a todos e todas!

Editorial do Blog da BVPS

por André Botelho (UFRJ)

e Lucas van Hombeeck (PPGSA/IFCS/UFRJ)

O Blog da BVPS tem promovido regularmente simpósios de questões prementes junto à nossa comunidade acadêmica, nacional e internacional. Dois exemplos recentes são, em 2019, o simpósio sobre a emergência sanitária do Covid-19 e, no final de 2021, aquele sobre as efemérides de 2022 – o centenário da Semana de Arte Moderna e Bicentenário da Independência (este último realizado em parceria com a Anpocs e o Suplemento Pernambuco). Temos nos empenhado em incitar novas formas de comunicação pública em nossa comunidade multidisciplinar – ciências sociais, literatura, história – em torno de questões que compõem a tradição de pesquisa das interpretações do Brasil e estudos comparados. Inovar na comunicação é cada vez mais urgente não apenas para, principalmente, aumentar e diversificar o campo de interlocução acadêmica com segmentos da sociedade civil, mas também para, assim procedendo, disputar e reafirmar o próprio papel da pesquisa acadêmica sobre a formação e os desafios da sociedade brasileira.

Há muito acalentado, e algumas vezes aqui mesmo ensaiado, chegou a hora de darmos um passo importante, abrindo o Blog para experimentos mais arrojados desde fora da universidade. E é uma honra que a oportunidade seja esta. Na semana da Pátria, em que se comemora o bicentenário da Independência do Brasil, trazemos para nossas páginas a criação e a reflexão de novos sujeitos da arte e do conhecimento ligados às religiões de matriz africana, para pensar suas práticas como interpretações do Brasil. Trata-se de tradições religiosas e culturais das mais tradicionais que são historicamente silenciadas numa sociedade marcada por estruturas de desigualdade e violência tão duradouras. Mas trata-se, igualmente, de vozes potentes com experiências de resistência, reconhecimento, inclusão e pluralidade que, a nosso ver, são uma chave decisiva para o enfrentamento dos desafios do presente. Um presente tão marcado por intolerância e ataques virulentos aos alicerces da vida democrática.

Não sabemos como chegaremos a 2023, mas não resta dúvida de que, até na melhor das hipóteses, a sociedade brasileira necessitará de formas mais consistentes de solidariedade e ação coletivas para se reinventar. As vozes, a criatividade e as utopias do Axé são urgentes na construção social e política de uma sociedade mais igualitária. Agradecemos a André Sampaio por ter aceitado o desafio do Blog, e o parabenizamos pelo trabalho incrível que realizou junto às artistas e aos artistas que ele convidou para esta ocupação. Somos muito gratos a estas e estes pela generosidade e disponibilidade para a conversa e o diálogo e pelo aprendizado da escuta que nos proporcionam. Joana Lavôr, artista parceira do Blog, se juntou a nós em mais essa empreitada. Agradecemos também a toda a equipe do Blog. Pai Adailton Moreira D’Ogun foi nossa descoberta mais inspiradora na experiência tão cheia de alegria, e esperança, que passamos a compartilhar agora com nossos leitores e nossas leitoras. Como sociólogos, sabemos que quando “novos atores entram em cena” – para lembrar um título fundamental sobre os novos movimentos sociais – o campo do conflito muda. Vivemos agora  a transformação de “novos atores” em “novos autores”. O Blog da BVPS está feliz por participar desta nova frente de diálogo público.  Muito obrigado!   

Ilustração: Joana Lavôr

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