A correspondência de um exílio, por Rosa Freire d’Aguiar

No post de hoje, republicamos um texto de Rosa Freire d’Aguiar sobre a correspondência de Celso Furtado. Parte dessas cartas está no livro Correspondência Intelectual de Celso Furtado (Cia. das Letras, 2021), que a autora ajudou a compor. Sobre as outras, existem as palavras abaixo.

A correspondência de um exílio – cartas que vão e que vêm.

por Rosa Freire d’Aguiar

Logo depois do malfadado golpe de 1964, Celso Furtado, então superintendente da Sudene e até pouco antes ministro do Planejamento de João Goulart, partiu para o exílio. Até a volta definitiva ao país, foram milhares de cartas recebidas e respondidas.

“Milhares” não é exagero. A correspondência desses mais de vinte anos soma de 8 a 10 mil cartas. A imensa maioria, cartas recebidas. Uma minoria, enviadas por Celso – que as batia à máquina com papel carbono numa Olivetti Lettera 32. São essas cópias das cartas enviadas (cerca de 1000) que agora partem para o Brasil. Vão muito bem embaladas, e têm como destino final o IEB, da USP, para onde doei há quase 3 anos os arquivos pessoais de Celso e sua biblioteca de 14 mil volumes.

Ano passado publiquei uma seleção dessas cartas no livro “Correspondência Intelectual de Celso Furtado. 1949-2004”, que saiu pela Companhia das Letras. Selecionei 300 cartas, enviadas a 80 correspondentes brasileiros e estrangeiros. Entre eles, Antonio Callado, Antonio Candido, Darcy Ribeiro, Fernando Henrique Cardoso, Florestan Fernandes, Roberto Campos, Maria da Conceição Tavares, Thiago de Mello, Albert Hirschman, Ernesto Sabato, Raúl Prebisch, Lord Bertrand Russell, Fidel Castro.

Trechinhos de algumas:

— “Por aqui surgem muitos latino-americanos, economistas, advogados, sociólogos, com pretensões a escrever teses sobre a integração latino-americana. Muitos supõem que requentando o que por aí circula poderão conseguir facilmente um título universitário. Tenho-me negado a dirigir essas teses, pois ao cabo de uma conversa rápida vê-se que o candidato refletiu muito pouco sobre o assunto, limitando-se a repetir o que circula na imprensa.”

— “A vida em Paris é, sob muitos aspectos, dura. Mas é como o amor de Swann: quanto mais se sofre, mais se precisa dele. Com os anos, a gente vai se cansando de viver para o futuro, como um transeunte apressado. Talvez a força de Paris esteja nisso: é uma espécie de tratamento de choque contra o esquecimento do presente.”

— ” Você observa que a velhice é um “grande presente”. Devo entender isso no sentido de “regalo, cadeau”, aquilo que agradecemos quando somos o beneficiário? Não será que o maior presente é a convivência com os amigos? A verdadeira velhice é feita de solidão. É a ausência dos amigos que se foram. Se nos apegamos tanto aos livros, é porque sabemos que deles não seremos privados em vida.”

Meu trabalho de resgate e conservação dos arquivos que herdei está cumprido.

Agora é com os pesquisadores e epistológrafos, que poderão consultar esse material quando o IEB o tiver catalogado. Quando? Não sei. Espero que breve.

Enquanto isso, quem quiser ler em papel ou na tela o “Correspondência Intelectual de Celso Furtado”, é por aqui.

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