Entrevista | Pedro Schwarcz fala sobre a antologia “Vestida de preto e outros contos”

O Blog da BVPS publica hoje uma entrevista com Pedro Schwarcz, que organizou pela Companhia das Letras a antologia Vestida de preto e outros contos de Mário de Andrade. A conversa, conduzida pelo professor André Botelho (UFRJ) e pelo pesquisador João Mello (UFRJ), gira em torno do processo de composição do livro, da interpretação do autor acerca do modernismo e da comemoração de seu centenário, da experiência de Schwarcz na organização de Clubes de Leituras e de sua relação com a música, tema de seu podcast Um Papo Sobre Som

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Boa leitura!

1) Conte-nos um pouco sobre o processo de composição do livro. Por que escolher os contos de Mário de Andrade? Por que os contos escolhidos?

Pedro Schwarcz: Posso dizer que o processo de composição do livro foi bastante inusitado. Anos antes do centenário, logo após o Mário entrar para o domínio público, eu – que divido trabalhos entre o departamento editorial e de educação da Companhia das Letras – fui designado para trabalhar em uma antologia do autor. Ela seria publicada pelo selo da Penguin-Companhia, mas depois acabou entrando para essa coleção do Boa Companhia, um selo em que os departamentos do editorial e da educação trabalham juntos, focados em adoção escolar e em antologias. No começo ela compreenderia contos, poemas, crônicas, tudo junto, mas depois optou-se somente pelos contos.

A escolha dos contos foi guiada pela diversidade de olhares que o autor propõe: o olhar social, memorialístico, lírico, fotográfico e psicológico. Há os olhares aos nichos e cenários que ele aborda, como o nicho familiar, o urbano, rural etc. Também a sexualidade e seus embates pessoais, em que Mário se expõe e se esconde como ninguém em “Frederico Paciência”. Tanto em Juca, quanto em Belazarte, Mário tem esses personagens que são narradores que transitam entre a primeira e a terceira pessoa e que contém muito do próprio Mário e de seu universo do subentendido, do não dito, algo familiar da boa prosa breve em geral. No caso de Belazarte, temos um emissor da narrativa ao narrador em terceira pessoa, aquele que contou a história que será contada novamente. Já o Juca é o narrador em primeira pessoa de muitos contos que estão reunidos na antologia póstuma “Contos Novos”, que reúne contos escritos ao longo da vida do autor.

2) Infância e sexualidade são alguns dos temas mais fortes da sua antologia. Fale-nos um pouco sobre essa escolha.

Pedro Schwarcz: Mário não podia se assumir homossexual e isso foi um conflito tratado em suas cartas a Manuel Bandeira. Achei que seria proveitoso trabalhar esse tema que Mário aborda tão bem. A riqueza desses contos é que Mário traduz esses conflitos tão doloridos que o acompanharam a vida inteira em uma linguagem memorialística, que nos arremessa para um universo onde tudo ainda era “instantes vacilantes” (citando Gil aqui), tudo era premido por encantamento, frio na barriga, arrepio, medo e epifania da infância e juventude.

3) Em sua antologia, o amadurecimento da juventude e do Brasil é um tema central, senão transversal. O que você acha que Mário de Andrade ainda pode nos dizer sobre as inquietações da juventude atual nesses contos?

Pedro Schwarcz: Ao lerem Mário, nos tempos de hoje, os jovens poderão se compreender com menos pudor e julgamento, pois o bom texto de Mário, sua boa prosa, é sinestésica. E esse encontro do Mário jovem com o jovem de hoje pode ser catártico sim. Mário nos traz inquietações de um jovem confuso em tempos turbulentos, que se divide entre encantamentos e desilusões, utopias e ceticismos, tradições e iconoclastias. Tensões que atravessam a juventude atual, de sua época e de todos os tempos.

4) Como está vendo as comemorações do centenário da SAM de 1922? O que está sobrando e o que está faltando nos debates?

Pedro Schwarcz: Em relação às comemorações da Semana de Arte Moderna de 22, penso que o debate sobre a efeméride não deve ser pautado em reflexões críticas categóricas. A Semana de 22 deve ser avaliada sob uma perspectiva crítica e ao mesmo tempo não deve ser esvaziada de sua significação enquanto movimento e contexto estético/político. Se, por um lado, ela foi capitaneada por uma elite do mecenato e do café, que enxergava no evento um modo de angariar capital cultural a somar na construção de um epicentro e monopólio financeiro que crescia – e, desse modo, foram fundamentais figuras do mecenato, como Paulo Prado, e da diplomacia, como Graça Aranha –, por outro lado, Mário e Oswald concretizavam de fato uma ruptura estética.

Se o ufanismo brasilianista, mesmo que articulado com um abrasileirado linguístico, ainda dialogava com uma estética que tipificava visões do que se entendia por “caboclo” segundo um indigenismo idealizado, romântico e colonial, Oswald,  Mário, Tarsila (que não esteve presente na semana mas foi fundamental assim como Bandeira) e Bopp começaram a fomentar a discussão estética do que viria a ser a antropofagia e toda a ideia de devorar sacramente o inimigo. Devorar era incorporar e ressignificar. Um embrião do que viria a ser concretizado enquanto pensamento e ideia estética de fato a partir do Manifesto Antropofágo de Oswald de Andrade, de 1928, lançado na Revista de Antropofagia.

Oswald radicalizava em uma estética na prosa e na poesia que reinventava um novo imaginário plástico e estético de Brasil e iria convergir em uma linguagem que, ao mesmo tempo, conciliava um chiste, uma parábola crítica que revivia e reinterpretava toda a nossa história colonial, além de ressignificá-la ao colocar no centro esse contraste de acento paulistano entre provincianismo e progresso. Compôs, assim, todo um retrato desse estado que crescia como um polo comercial e um centro de imigração, que ao mesmo tempo construía uma ideia falsa de progresso e emancipação. Um capitalismo global inserido em um universo caipira, tacanho e conservador com ares de civilização.

Já Mário recriou toda uma oralidade e falar abrasileirado em seus contos, ensaios, romances e poesias que desconstruíam uma norma culta. Se o falar brasileiro e do povo não era novidade da Semana, pois o realismo social de Lima Barreto já dava conta disso, a oralidade inserida dentro da narrativa do Mário – não mais entre sinais, aspas e travessões, não apenas nos diálogos, mas na narrativa em primeira pessoa como em muitos contos ou na terceira nos romances, na etnografia literária, na retina de fotógrafo, polígrafo e agitador cultural que era Mário – não deixava de ser uma inovação radical na linguagem. Isso era um elemento que iria influenciar muito Guimarães Rosa. Se Oswald construía um Brasil plástico, uma linguagem em que, como disse, a plasticidade era a grande novidade na sua poesia – que iria influenciar o modernismo dos anos 50 dos concretistas e neoconcretos –, Mário construía um Brasil oral. Mário transformava nossos mitos, nossos arquétipos, em alegorias ambivalentes de toda uma história oral, primitiva, mítica, social e cotidiana brasileira. Exemplo claro disso está em Macunaíma. Mário trazia elementos da técnica da prosa breve, da concisão, da narrativa que ao mesmo tempo se distancia e se aproxima em seus romances e contos, que não escapavam às técnicas machadianas. Na sua poesia vai se manter firme em uma linguagem mais oral, com grafias próprias, assim como na prosa, com dicção de acento próprio e uma certa verborragia do subconsciente, mas sabendo ser conciso também. Era um craque.  

Mas a Semana de 22 cometeu contradições do ponto de vista estético e literário ao desconsiderar o simbolismo como uma das vanguardas influentes e constituintes do modernismo. Se Rimbaud era o vagabundo que desnudava essa mulher e alegoria da poesia em “A escrava que não é Isaura”, de Mário de Andrade – importante manifesto de Mário sobre a poesia, tão importante como o Manifesto da poesia pau-brasil de Oswald –, Mário e Oswald se desconsideram herdeiros diretos no Brasil do simbolismo como Cruz e Souza ou pré-modernistas que tinham ligações iniciais com o simbolismo como Augusto dos Anjos. O fato é que na França o Simbolismo foi contemporâneo do Parnasianismo, mas já era uma ruptura. Baudelaire, Verlaine, Mallarmé etc. foram publicados na famosa revista Le Parnasse Contemporain junto com poetas Parnasianos. Aqui, pelos modernos, nossos simbolistas foram emaranhados dentro do mesmo saco dos parnasianos. Enfim, existiram contradições de cunho estético, social e político e ao mesmo tempo rupturas inquestionáveis na Semana de 22. Os movimentos sociais têm sido importantes para trazer de volta esses autores como Lima e Cruz e Souza para o cânone.

5) Você tem se destacado, na vida profissional, especialmente no incentivo à leitura, na realização de Clubes de Leitura e de outras iniciativas nessa direção. Conte-nos sobre suas experiências.

Pedro Schwarcz: Eu venho trabalhando com os Clubes de Leitura desde que a Companhia das Letras fez sua primeira parceria e – não sociedade ainda – com a Penguin. Nessa época a Penguin ainda não era associada ao grupo Random House. A ideia era fomentar uma prática que já era hábito e um canal a ser utilizado pelas editoras para fomentar o debate, a movimentação das ideias e discussões em torno dos livros e autores. Nós a introjetamos do zero. A relação das editoras estrangeiras com os clubes já era de parceria e independência. No começo nós tivemos que tutelar, formar e abraçar projetos. Depois eles cresceram, abraçamos mais projetos e causas sociais ligados ao incentivo da leitura, como clubes de leituras em penitenciárias, escolas, bibliotecas comunitárias, ONGs etc. Encampamos o Projeto de remição de pena pela leitura junto a FUNAP e muitas outras coisas bacanas. Hoje em dia administramos os clubes mais a distância, não mediamos mais ou participamos de tantos, mas gerenciamos. Estamos ampliando um canal maior, uma rede maior e de grupos de nichos diversos. Estamos expandindo os canais para instituições, influencers e clubes específicos ou não, trabalhando com redes grandes.

6) Sabemos que a música é uma prática central na trajetória e no pensamento de Mário de Andrade. Pelo visto é muito importante para você também. Conte-nos um pouco dessa sua afeição pela música e também sobre seu novo podcast “Um Papo sobre Som”.

Pedro Schwarcz: Com relação a música como apontado na questão, sim, pode-se dizer que a música foi um dos recortes andradianos. Além de toda sua dedicação ao Conservatório Dramático, seus textos de música também eram os textos do Mário etnógrafo, o Mário que estudava o país através de seus mitos, costumes, contradições, linguagens, sabores e também ritmos, transformando tudo isso em criação, percepção e reflexão. Eu pretendo fazer isso no “Um papo sobre som”. Sem exigir a mesma verticalidade (rsrs). Eu não falo só sobre bandas e artistas brasileiros, mas falarei também. O próximo episódio é sobre o álbum clássico do Jards Macalé, de 1972. Eu falo cada vez de um álbum em uma periodicidade que por enquanto está em um episódio a cada duas semanas. Eu procuro falar de som e de contexto, forma, conteúdo, música e estética. Essa é a ideia.

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