“Erotismo é criação” | Entrevista com Eliane Robert Moraes

No post de hoje, publicamos uma entrevista com Eliane Robert Moraes conduzida por Luiz Guilherme Ribeiro Barbosa (CPII) e Lucas van Hombeeck (Blog da BVPS/UFRJ). A conversa, estimulada pelo lançamento da Seleta erótica de Mário de Andrade e do Seminário Mário Eros de Andrade (que acontece na próxima segunda-feira, dia 20 de junho, no PACC/UFRJ), passa por temas como o trabalho do livro e seus efeitos, a posição da obra nos panoramas da literatura erótica e do pensamento social brasileiros, e o papel do erotismo na formação de leitores.

1. O que significa, para você, organizar o Eros em tempos tão associados à morte? Pensando o estudo e seleção dos textos como prática, e a leitura como experiência, qual foi o efeito que fazer este livro teve sobre você e o que você acha que ele oferece à leitura?

Visitar os domínios de Eros numa época tão ameaçada pelas forças de Thanatos foi uma experiência complexa e densa – e realmente deu o que pensar… Mas creio que, no processo de pesquisa e criação da Seleta erótica de Mário de Andrade, o saldo dessa experiência foi bastante positivo.

Muitas vezes, durante a organização do livro, me veio à mente uma frase de Georges Bataille que parece ter algo de misterioso: “o erotismo é a afirmação da vida até na morte”. Penso que esses anos funestos da pandemia, para nós marcados também pelo avanço da necropolítica no país, me permitiram uma compreensão mais profunda da concepção batailliana, que ganha em gravidade quando projetada sobre o coletivo. Compreendi, talvez de forma mais radical, que os domínios de Eros e de Thanatos até podem se tocar, mas nunca se pactuam um com o outro. Ou seja, mesmo que existam pontos obscuros no erotismo – e com certeza existem – a obscuridade erótica não se conecta com o obscurantismo que alimenta a volúpia predadora destes nossos tempos. A força vital de Eros resiste à destruição. Em suma, erotismo é criação.

Ora, trabalhar com a matéria erótica num momento tão mortífero, foi para mim uma oportunidade de vivenciar, tanto no plano sensível quanto no intelectual, algo análogo a essa “afirmação da vida até na morte”. Ainda mais – e sobretudo – porque tive como companheiro de bordo um escritor extremamente vitalista como é o Mário de Andrade.

2. A obra de Mário de Andrade pode ser considerada divergente quanto à abordagem erótica, considerando o contexto brasileiro em geral? Em que medida a singularidade de sua erótica pode ser considerada em face da sexualidade que assume na correspondência com amigos?

Na Seleta eu privilegiei a obra de Mário, embora tenha lançado mão de aspectos biográficos que aparecem de forma mais evidente na correspondência. Mas não tive acesso nem pude ler a enorme massa de cartas escritas por ele, o que me impede de responder à segunda pergunta com o rigor adequado. Até onde alcanço o problema, penso que a singularidade da erótica de Mário tende a uma amplitude que excede os aspectos mencionados nas confidências escritas a alguns dos amigos diletos, em especial no que tange à sua homossexualidade. Esta lhe rende, em minha opinião, poemas belíssimos e muito sensuais, além de prosas saborosas, não raro documentais, que são de grande interesse. Mas, o erotismo da obra marioandradina passa também pelas incríveis aventuras de um Macunaíma, pelas pesquisas sobre o cancioneiro pornográfico do Nordeste brasileiro, pelas invenções de sensualíssimos grupos indígenas no Turista Aprendiz, pelas alusões às putas paulistanas e muito mais… Talvez se possa dizer, não sem certo risco, que, nesse caso, o homem é homossexual e o escritor é pansexual.

No mais, creio que a erótica de Mário se alinha às duas vertentes literárias que me parecem ser as mais praticadas no país. De um lado, certo espírito cômico que vem desde Gregório de Matos, passando por Bernardo Guimarães, Laurindo Rabelo, Guimarães Passos, Oswald de Andrade, e chega até a nossa atualidade com um Dalton Trevisan ou um Glauco Mattoso. Essa dicção debochada e iconoclasta, que é poderosa na nossa literatura licenciosa, tem em Macunaíma um de seus mais brilhantes exemplos.

De outro lado, Mário também tem uma produção considerável que podemos associar à poética do elegíaco, a configurar a outra linha de força da nossa escrita sexual. Demarcando o polo oposto do cômico, essa vertente tende a se acomodar com facilidade ao alusivo, manifestando sua face mais delicada. É o que acontece com frequência na poesia de Mário, cuja elegia sensual por vezes manifesta um traço de melancolia, chegando até a esboçar um modo de lamento que ganha particularidades significativas quando o sujeito lírico se compraz com a evocação, quase sempre rememorativa, de uma cena que já não coincide com a celebração imediata dos prazeres da carne, como acontece no formidável poema “O girassol da madrugada”.

3. Além de aparecer como um tema nas obras literárias, o erotismo participa do vínculo que leitores estabelecem com a literatura. Na sua trajetória como leitora, quando aparece a atenção à dimensão erótica do texto literário? E como Mário de Andrade se articula com esse processo?

Temos que distinguir o erotismo que aparece em quase toda obra literária, e a própria literatura erótica, que é o objeto central de meu trabalho. Esta, para mim, cria modos específicos de pensar e, obviamente, de escrever, implicando operações de linguagem que trabalham, invariavelmente, no sentido de se deslocar para um lugar simbólico identificado com o baixo-corporal.

Não se trata, então, apenas de uma literatura que tem o sexo como tema. Ou, dizendo melhor, o que está em jogo nesse tipo de texto é bem mais que isso: afinal, a matéria sexual pode ser aferida numa infinidade de livros que, pelo simples fato de lançarem mão do tema, não podem ser alinhados entre as obras que compõem uma erótica. Nesta, o que se propõe ao leitor é algo distinto: trata-se de uma escrita que se singulariza por fazer de Eros seu operador fundamental, elegendo-o como mediador exclusivo de seus jogos entre forma e fundo. Por isso mesmo, antes de ser um modo de pensar o sexo, o erotismo literário é um modo de pensar a partir do sexo.

Maurice Charney, estudioso da questão, é categórico ao afirmar que “o traço mais notável da ficção sexual é uma consumada sexualização da realidade”. Ou seja, a erótica literária coloca toda experiência humana, seja ela qual for, a serviço do baixo-corporal. Contudo, esse lugar imaginário, organizado segundo os imperativos da libido, também implica algo mais do que a mera representação da sexualidade. Ao submeter a referência sexual a uma estilização, a literatura fica livre para transformar o sexo num observatório a partir do qual se pode contemplar qualquer prisma do universo, incluindo o que está aquém ou além do próprio sexo. Daí que o autor explicitamente obsceno possa ser considerado, como formula Italo Calvino, “aquele que mediante os símbolos do sexo procura fazer falar alguma outra coisa”, sendo que “essa coisa pode ser redefinida, em última instância, como outro eros, um eros último, fundamental, mítico, inalcançável”.

A genialidade de Mário de Andrade, e também sua importância nesse domínio, está no fato de que ele percorre uma amplitude incrível em termos de erotismo. Mário vai de uma simples quadrinha popular obscena de tom cômico ou ofensivo, até a essa dimensão cósmica e profunda apontada por Calvino à qual ele alude várias vezes como pansexualidade. Isso é extraordinário em termos de feito literário e, no Brasil, confere a ele uma singularidade a ser devidamente apreciada.

4. Em perspectiva geral, como você observaria o papel do erotismo literário na formação de leitores?

Serei breve na resposta a esta difícil pergunta… No caso de uma literatura de boa qualidade, o papel do texto erótico talvez seja o de nos ajudar a compreender que a fantasia é o reino do ilimitado e que, se isso acontece, é porque sua origem está, invariavelmente, na singularidade de cada sujeito.

Nunca é demais citar os 120 dias de Sodoma, de Sade, onde se encontra este direto e gentil pedido de adesão ao leitor: “Muitas extravagâncias aqui ilustradas merecerão sem dúvida o seu desagrado; sim, estou bem ciente disso. Mas há entre elas algumas que o aquecerão a ponto de lhe custar algum sêmen, e isso, leitor, é tudo que lhe pedimos. Se não dissemos tudo, se não analisamos tudo, não nos taxe de imparcialidade, porque não podemos adivinhar aquilo que mais lhe agrada. Pelo contrário, é a você que compete reconhecer o que mais aprecia…”

Em tempo: “literatura de boa qualidade” não é critério moral (xô!) e sim estético. A rigor, boa parte dos livros eróticos de que mais gosto é extremamente obscena, como é o caso da História do olho de Georges Bataille ou do Caderno Rosa de Lori Lamby, de Hilda Hilst.

5. De que maneira o erotismo em Mário de Andrade pode ser lido como chave de sua interpretação do Brasil? Sua escrita erótica oferece novas perspectivas sobre temas já trabalhados em sua fortuna crítica, como o da relação entre erudito e popular, o catolicismo, a democratização da cultura etc.?

Trata-se de questão muito abrangente e também muito importante. Não tenho dúvidas de que o erotismo deve entrar em pauta nas diversas considerações em torno das interpretações do Brasil. Como? Não sei bem, mas vou remeter, malandramente, a questão aos nossos sociólogos que saberão respondê-la muito melhor que eu… Alô, André Botelho!?

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