Apresentação a “Un guion de extimidad. Ensayos sobre la obra de Raúl Antelo”, por Diana Klinger e Mário Cámara

O Blog da BVPS publica hoje a tradução inédita para o português do texto de apresentação ao livro Un guion de extimidad:  Ensayos sobre la obra de Raúl Antelo (Buenos Aires: Editora Grumo, 2022), escrito pelos organizadores da obra, Diana Klinger e Mário Cámara. O livro reúne 12 ensaios, escritos em espanhol e português, de intérpretes do trabalho crítico de Raúl Antelo, além de uma entrevista com o homenageado. Na apresentação que segue abaixo, conseguimos acessar um pouco dos múltiplos olhares que Un guion de extimidad lança sobre o autor, e, consequentemente, das múltiplas interpelações que a obra de Antelo provoca.

O livro Un guion de extimidad:  Ensayos sobre la obra de Raúl Antelo, pode ser acessado gratuitamente no site da editora: https://www.salagrumo.com/coleccion-materiales/

Boa leitura!

Apresentação a Un guion de extimidad. Ensayos sobre la obra de Raúl Antelo

Por Diana Klinger e Mario Camara

Ouvimos Raúl pela primeira vez tem mais de duas décadas, na Universidade de Buenos Aires, convidado por Florencia Garramuño, que na época ocupava a cadeira de Literatura Brasileira. Como todas as vezes que se seguiram a essa, foi uma palestra encantatória: mesmo sem entender muito do que ele falava, nos sentíamos deslumbrados e interpelados. Até hoje, ler ou ouvir Raul Antelo é sempre um acontecimento extraordinário. Argentino, radicado definitivamente no Brasil desde 1977, onde foi professor de Literatura Brasileira na Universidade Federal de Santa Catarina, Antelo pensa de um lugar “argentino-brasileiro”, em que o hífen (“el guión”) configura um entre-lugar “éxtimo”, como ele dirá no texto “Un guión de extimidad”— ao mesmo tempo interno e externo: um espaço comum mas não apaziguado. Para ele se trata justamente de pensar esse hífen, que também corresponde à própria modernidade, seu hiato entre razão e tradição, suas descontinuidades. O que ele disse então, o que ele diz, o que não deixa de dizer Raul que é para nós tão estimulante? Enumeramos, brevemente, três aspectos disso que Raul sempre nos entrega.

Uma política da crítica: Raúl, como Jorge Luis Borges ou como Haroldo de Campos, pensa Ocidente desde seus confins, Ocidente como uma região tramada por uma fina rede que contém tanto os tradutores de Omar Kayan, Marcel Duchamp en Buenos Aires,  Walter Benjamin lendo Ramón Goméz de la Serna, como Chris Marker filmando em 1969 no Brasil, entre muitos outros nomes.  Trata-se de uma rede fundada no contato e a circulação, nas semelhanças e nos anacronismos deliberados, uma rede que dissemina origens e desconstrói, portanto, identidades e substâncias. À diferença dos críticos construtores, aqueles que traçam regiões fixas ou formações reconhecíveis, Raúl observa que nem a nação nem a literatura conhecem fronteiras, mas uma paradoxal ordem excêntrica. À diferença dos críticos construtores, Raúl exerce a crítica como o flaneur programa seus percursos: sem construir sistema  e sem construir centro; propõe, no entanto, séries com materiais diversos e inusitados que encontra durante seus passeios. Flanerie, desatenção, desleitura, mas também bricolagem, são algumas das operações críticas que funcionam em seus textos para que os elementos que os compõem – vozes, documentos, práticas— recuperem uma densidade problemática e adquiram novos sentidos.

Uma política da imagen: O centro gravitacional da crítica em Raúl é a imagem, pois a história se compõe com imagens, que por sua vez estão carregadas de história, quer dizer, de equívocos, de falhas, de restos e de encontros fortuitos. Para Raúl, como também para Aby Warbug ou Didi-Huberman, a imagem, como a poesia, é repetição e corte, e, enquanto tal, possui um movimento de sobrevivência e de diferimento. A imagem é o que sempre retorna, e a imagem que retorna nos textos de Raúl é aquela que contém a marca do demônico, de um pathos que permite, precisamente, desconstruir o sistema simbólico no qual tinha se consolidado um sentido. O demônico, o pathos, o eterno retorno, mas também o retorno do reprimido, poderíamos acrescentar o punctum ou finalmente o real, o que não para de não ser escrito, são essas as marcas que Raúl recupera e persegue na imagem.

Uma política do tempo: Esta perspectiva, a história como imagem, a história como construção de imagens, permite que o passado deixe de ser uma relíquia para se transformar, de novo, “em problema”. Da mesma forma que Benjamin, Antelo se posiciona contra a história como servidão, contra as ideias cadaverizadas, incapazes de retornar como problema. Invoca, pelo contrário, uma temporalidade liberada de sua fatalidade linear. A essa forma de entender a história devemos chamar “anacronismo”, que consiste em reconhecer a inequívoca singularidade do evento histórico, o que Michel Foucault denomina “eventualizar”, e da rede aberta e ambivalente na qual esse evento vai tomando forma no plano simbólico. Sobre essa rede intervém o crítico, com sua própria temporalidade. O tempo, então, sempre é um tempo-com que se ativa no presente de uma leitura. Nessa co-temporalidade ou contemporaneidade aparece o anacronismo, outra palavra para o eterno retorno da história como imagem.

Ocidente como espaço excêntrico e impróprio, a história como imagem, a imagem demônica como eterno retorno e diferimento, o tempo como anacronismo, com tudo isso Raúl vai construindo um território atravessado por redes instáveis. Sua construção nos lembra uma verdadeira biblioteca de Babel, que nós, como diria Jorge Luis Borges, “com elegante esperança” sonhamos em percorrer e apreender.  A construção desse território “ex-céntrico” ou, melhor, desses roteiros, e de uma metodologia crítica são, para Antelo, operações simultâneas: se lê do ângulo da modernidade periférica, mas não no sentido de uma “rua de mão única”,  e sim a partir dos inúmeros caminhos que se bifurcam. Nesse movimento, ele desloca as perspectivas latinoamericanistas que pensam criticamente o lugar do subalterno, mantendo, não entanto, a ideia de centro. Desloca também o horizonte da língua: o Brasil é cortado do mapa das literaturas lusófonas, em que estão baseados os cursos de Letras, para entrar em essas outras configurações e esses outros percursos.

Se algo retorna em todos os textos incluídos neste livro-homenagem, é uma atenção particular ao método de Raúl Antelo, indubitavelmente singular e, em boa medida, intransferível. Isto porque o próprio método é indissociável das inúmeras referências literárias, artísticas e críticas e estas, por sua vez, de sua infinita erudição. Assim, se adentrar nos mecanismos de funcionamento do que Adriana Rodríguez Pérsico chama “a máquina Antelo”, supõe ao mesmo tempo entrar em seu universo conceitual, em sua metodologia e em seu repertório de referências. Os autores dos textos que compõem este livro-homenagem pensam o método “archifilológico” de Antelo. América Latina se configura, em sua “crítica acéfala”, como uma “comunidade imaginada para desnaturalizar a cristalização de hierarquias, as configurações nacionais e as ficções nacionalistas”, como diz Maximiliano Crespi. O gesto, ao mesmo tempo uma tomada de posição ética e política, implica também um questionamento ao sistema de atribuição de valores estéticos, assim como do pressuposto de autonomia de que depende. Se a autonomia literária vinha de um modelo de biblioteca ordenado e hierárquico, na “an-autonomía” (termo que Raúl prefere ao de “pós-autonomia”), a lógica do arquivo é anárquica. “A literatura, diz Raúl, é um desses sistemas que vincula, precisamente, o alto e o baixo, astra e monstra”. Trata-se, na verdade, como mostra Davi Pessoa, de “desativar a lógica da dicotomia, da contradição, para por em cena a bipolaridade e a contraditoriedade posta em jogo pela analogia”.

Produzidos de um lado e do outro do traço, e de outros territórios europeus que compõem a geografia teórico-crítica de Antelo, os textos do livro – que mantivemos em sua língua original, seja espanhol ou português – dialogam entre si de múltiplas maneiras. Da Argentina, Adriana Rodríguez Pérsico se propõe desvendar os mecanismos de funcionamento da “máquina Antelo”, a partir das derivas de seus textos, identificando seus principais perguntas: no trânsito de um continente a outro, de uma cultura a outra “como migra um conceito? Como se adapta ao novo contexto? Para que se usa? Que diferenças emergem?”. De fato, estas questões são justamente as que aborda Analía Gerbaudo em seu texto, analisando a circulação de conceitos entre Europa e América Latina e sua institucionalização, a partir do “caso Antelo”, dando conta do amplo leque de sua trajetória, em uma importantíssima análise do “campo” da teoria e da crítica latino-americanas. Daniel Link, por sua vez, se pergunta pelas formas de “habitar o arquivo” de Raúl (que é também se perguntar pelo método da arqui-filologia), a partir de uma compreensão do conceito mesmo de arquivo e de seu funcionamento: “As políticas arquivísticas da modernidade se ajustam ao bom governo. As políticas an-arquivísticas ou contra-arquivísticas da pós-modernidade nos permitiriam, talvez, enfrentar a governamentalidade con suas mesmas armas”, diz Link, e argumenta que a arqui-filologia de Antelo “se desen-tende da continuidade do saber para interrogar suas descontinuidades e critica frontalmente os fundamentos da governamentalidade burocrática”. Fabián Ludueña sustenta que “uma meditação, às vezes manifesta, outras vezes latente mas, em qualquer caso, sempre presente, sobre o Signo e seu valor, tem delimitado a obra de Antelo e permitido essas múltiplas inscrições que renovaram as Humanidades de América Latina”. A partir daí, Ludueña postula dois momentos na ensaística anteliana, que vai “da utopia ao esgotamento”, em  cuja passagem se da um novo diagnóstico do signo. Maximiliano Crespi se ocupa de pensar o trabalho de Raúl a partir do que identifica como seu aspecto político chave: “sua maneira de se relacionar com as forças hegemônicas ou oficiais da tradição”, em que Crespi identifica “um procedimento distorsivo e deslocador que se ativa em cada novo trabalho”. Nora Domínguez faz uma leitura de Archifilologías latinoamericanas a partir do “gesto de Antelo”, em que detecta “uma pedagogia, um convite e um dom”. Assumindo esse convite, Domingez monta “outra mesa de montagem”, em que a ideia de origem -engendramento e nascimento – ganha outros contornos a partir de uma constelação que inclui Hannah Arendt, Julia Kristeva e Hélène Cixous.

Do Brasil, Davi Pessoa, lé Raúl junto com Carl Einstein, Aby Warburg, Giorgio Agamben e Georges Didi Huberman (entre outros), pensando as noções de espaço e movimento, que se desdobram nas figuras da forma e da força, da Pathosformel. Pessoa argumenta que “Antelo põe em jogo a forma construtiva das instituições em choque com as forças das dinâmicas das mesmas, ressignificando a memória a partir das fabulações.” Maria Augusta Fonseca se ocupa do diálogo de Raúl com o modernismo brasileiro especialmente com Mário de Andrade, contextualizando seu trabalho no ambiente acadêmico paulista dos anos 70 em que conviveu com ele e em que se forjou uma amizade duradoura. Fonseca destaca o trabalho original e pioneiro de Antelo, que leu o poeta brasileiro em relação com os hispano-americanos, numa época em que “obras literárias de autores da vanguarda hispano-americana, contemporâneos dos nossos modernistas, eram praticamente desconhecidas no Brasil”. Rita Bittencourt explora as relações entre a escrita e a imagem, a partir das figuras de Macunaíma e do “artista saltimbanco” de Ubu Rei, que se abrem em seu texto a uma série de conexões, a partir das “operações rizomáticas” produzidas por Raúl. “A patafísica nos trópicos, a errância sem mapas e os entretempos do crítico-arlequim, em seu trabalho de artesão, montam-se em um parque arqueológico onde se revira o solo e se rearma, na superfície ou nos afundos, outras rotas de sentido”, diz Bittencourt.

Luz Rodríguez Carranza escreve em trânsito entre Santa Catarina e Leiden, Holanda, onde Raúl foi professor visitante, e seu texto tem por centro a “reaparição da sombra” nos percursos textuais de Raúl, se detendo nos discursos da nação, especialmente os de Sarmiento e Alberdi, que lidaram com a tensão dialética entre identidade e alteridade.

Max Hidalgo Nácher escreve de Barcelona. Seu texto faz um impressionante percurso histórico-crítico, em que capitaliza a “mesa de montagem” anteliana para desestruturar as noções de centro e periferia, e os modos de compreensão da transmissão cultural associados a elas, isto é, os conceitos de dívida, falta e influência.

Eduardo Jorge de Oliveira, de Zurique, retoma Raúl leitor de Benjamin e Lacan,  de seus conceitos de anamnesis e montagem, a partir dos quais se desenvolve o movimento da crítica infraleve, que se inscreve na distância entre o texto fixado e o tempo presente.

Como fechamento do volume, reproduzimos uma entrevista que Eduardo Jorge, Eduardo Sterzi e Veronica Stigger fizeram com Raúl em Zúrich em 30 de maio de 2018, em que Raúl relembra sua formação em Argentina, sua precoce relação com a cultura brasileira, suas primeiras viagens ao Brasil e, sendo já professor na Universidade Federal de Santa Catarina, seu papel como formador de um grupo de jovens críticos que hoje já são professores em diversas universidades do Brasil.

Todos esses são textos de alguns dos tantos discípulos, escritores, professores e críticos que foram completamente atravessados pelo pensamento de Raúl. São textos de alto voo teórico, mas também carregados de afeto e admiração, afeto e admiração que compartilhamos nós, os organizadores desta homenagem.

(Tradução do espanhol por Diana Klinger)

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