Entrevista | Lilia Schwarcz – VÁRIOS22, Afro-Atlantic Histories e Contramemória

O Blog da BVPS publica hoje uma breve entrevista com a curadora, antropóloga e historiadora Lilia Moritz Schwarcz sobre suas últimas exposições: “VÁRIOS 22” (Galeria 132, São Paulo/SP), “Afro-Atlantic Histories” (National Gallery of Art, Washington D.C) e “Contramemória” (Theatro Municipal de São Paulo/SP). A conversa, conduzida por Rennan Pimentel (PPGSA/UFRJ) e Lucas van Hombeeck (PPGSA/UFRJ), gira em torno dos desafios da curadoria em suas relações com a história e a antropologia, de detalhes sobre as exposições e do atual cenário da sociedade brasileira. Além dessas exposições, Lilia inaugura juntamente com Flávio dos Santos Gomes e Jaime Lauriano a exposição “Coleção MAR + Enciclopédia Negra no Museu de Arte do Rio” (MAR), amanhã, dia 5 de maio.

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Boa leitura!

Lilia Schwarcz é atualmente curadora e co-curadora de uma série de exposições que revisitam de maneira crítica a história brasileira, e em especial os legados contraditórios da escravidão e do modernismo, para pensar os impasses de um passado-presente da experiência nacional. Em Afro-Atlantic Histories”, o trabalho de artistas da África, Europa, Américas e Caribe é convocado a (re)contar as histórias da diáspora africana em sua complexidade, num recorte que abrange o tema desde o século XVII até hoje e apresenta mais de 130 obras, entre pinturas, esculturas, fotografias, e mídias de várias linguagens. Já a mostra “Vários 22”, em referência ao centenário da Semana de Arte Moderna de São Paulo e outras efemérides deste ano, destaca o protagonismo de artistas não-europeus em processos de autorrepresentação e contraponto a olhares coloniais e etnocêntricos. As duas exposições, portanto, além de evidenciarem pluralidades estéticas, propõem uma análise e reflexão crítica da presença das culturas indígenas e afrodiaspóricas no passado e no presente das experiências brasileira e global. “Contramemória”, por fim, sem deixar essas mesmas questões de lado, pretende reler e traduzir criticamente o ambiente cultural da Semana de Arte Moderna de 1922, realizada no mesmo local da exposição, um século atrás. E “Coleção MAR + Enciclopédia Negra”, que se inaugura amanhã, apresenta 116 retratos encomendados a artistas negros brasileiros, a partir de textos escritos para o livro Enciclopédia Negra, publicado em coautoria com Flávio dos Santos Gomes e Jaime Lauriano.


1) Você poderia comentar um pouco sobre as duas primeiras exposições, como surgiram suas ideias e esboços iniciais, quais foram seus desafios e qual te parece ser a importância de fazê-las agora?

Lilia Schwarcz: São histórias bem diferentes. Histórias Afro-Atlânticas nasceu de um projeto de que faço a curadoria junto com Adriano Pedrosa. A primeira versão ocorreu ainda em 2014 com Histórias Mestiças, aberta no Instituto Tomie Ohtake. Adriano assumiu o Masp e me pediu que tocasse, junto com ele, o projeto de histórias. A ideia é pensar em várias histórias nacionais, sempre no plural, e sempre em processo. Em 2016 abrimos “Histórias das crianças”, em 2017 “Histórias da sexualidade” e em 2018, Histórias Afro-Atlânticas. A ideia geral é não obedecer solução temporal ou geográfica e contrastar obras pertencentes a outros acervos nacionais e estrangeiros, com obras do acervo do Masp. Histórias Afro-Atlânticas ocupou dois Museus: o Masp e o Instituto Tomie Ohtake. A partir do sucesso da exposição veio a itinerância, primeiro para Houston e depois para Washington DC. Essa exposição é dividida por temas: Abolições, resistências, cotidianos, rituais e ritmos, retratos, os quais foram mantidos nas exposições dos EUA.

Já “Vários 22” é uma conversa com o colecionismo privado. Ela parte de uma coleção e de uma galeria, “Arte 123”, e procura contrastar obras do XIX e modernistas com trabalhos contemporâneos feitos sobretudo por negros, indígenas e mulheres. O objetivo é rever temas da agenda de 2022 – independência, revisão da política de cotas, duzentos anos de independência política, 100 anos da semana de arte moderna, 100 anos da morte de Lima Barreto – a partir da potencialidade da arte. É rever também modelos muito coloniais do cânone das artes no Brasil.

A importância é justamente lançar um olhar crítico sobre os grandes temas desse nosso ano carregado de 2022. E nada como a arte. Como disse Mario Pedrosa: “em tempos de crise fique perto de um artista”.  Eu fiquei….

2) Como você relaciona os papeis de curadora, antropóloga e historiadora? O que cada uma dessas suas faces aprende com as outras (ou por causa delas)?

Lilia Schwarcz: Como antropóloga e historiadora sempre dei muita atenção às imagens. Nunca as tratei como meras ilustrações. Penso que documentos visuais precisam ser inquiridos, contrastados, sua autoria e acervos determinados, sua materialidade interpretada. Toda essa atenção às imagens também me faz pensar com imagens. Nesse sentido, não discrimino as formações intelectuais.  Mas com certeza o meu enfoque é sempre atento não só aos aspectos formais das obras, como às suas leituras contextuais e culturais.  

3) Você é autora de uma vasta pesquisa sobre as questões raciais no Brasil. Como as exposições se relacionam com sua pesquisa? E como você observa o racismo estrutural na sociedade brasileira?

Lilia Schwarcz: As exposições estão umbilicalmente ligadas ao tema. Nelas, a questão da escravidão, mas também do racismo constituem e dirigem o olhar. Perceber como o racismo é estrutural, pois estrutura nossa visão; entender de que maneira a branquitude se constitui como uma norma silenciosa, reler o colonialismo das nossas imagens é parte fundamental dessas e de outras exposições em que estou envolvida nesse momento.

Esse é o ano de avaliação da política de cotas, que vem mudando, para melhor, a universidade pública brasileira. Se o corpo discente vai ficando mais equilibrado, o docente ainda não. Com a pandemia também vimos como as mortes ocorreram concentradas nas populações negras. Nossa população carcerária ainda mantém uma composição que ressoa os tempos da escravidão. Enfim, essa é uma questão imensa que não pode ser respondida brevemente. Gostaria, assim, de sobretudo assinalar que não teremos uma democracia enquanto formos tão racistas e defendermos a nova versão do mito da democracia racial que agora leva o nome de “meritocracia”. O ano de 2022 está sendo e será cheio, mas não há como escapar desse tema. O racismo é a grande contradição da sociedade brasileira.    

4) Além de “Vários 22” e “Afro-Atlantic Histories”, acaba de ser aberta a exposição “Contramemória”, no Theatro Municipal de São Paulo, que pretende reler e traduzir criticamente o ambiente cultural da Semana de Arte Moderna de 1922, realizada no mesmo local há 100 anos. Para fechar, você pode nos contar um pouco sobre como foi o processo dessa curadoria e seus principais desafios?

Lilia Schwarcz: Essa exposição pretende dialogar com a coleção modernista do Centro Cultural São Paulo, criada por Mario de Andrade. O nome sem hífen ou separação, “contramemória”, diz  muito do objetivo da mostra que tem por meta colocar para  dialogar, discutir e reler a exposição realizada no mesmo Theatro Municipal, mas 100 anos atrás. Por sinal, essa é a segunda exposição realizada nesse local que, criado em 1911, pretendia simbolizar a pujança da sociedade paulistana, até então alijada desses símbolos culturais e do poder. A exposição — curada por mim, Jaime Lauriano e Pedro Meira Monteiro —,  apresenta quase 100 obras em diálogo com os trabalhos modernistas e com a própria arquitetura do Municipal. Desses trabalhos, 72 são feitos por artistas mulheres, negros, trans e indígenas. O resultado é quase uma invasão. 

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