Entrevista | Heloisa Buarque de Hollanda – Feminista, eu?

O Blog da BVPS publica hoje uma breve entrevista com a ensaísta, professora e pesquisadora Heloisa Buarque de Hollanda sobre seu livro Feminista, eu?, recém lançado pela editora Bazar do Tempo. O livro aborda o papel decisivo que as mulheres ocuparam na cena cultural nos anos de 1960 e 1980, renovando a literatura, o cinema e a música. Na conversa, conduzida por Caroline Tresoldi (UNICAMP), a autora conta um pouco sobre seu livro e suas publicações recentes sobre o pensamento e o ativismo feminista no Brasil.

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Boa leitura!

1) O feminismo sempre esteve presente na sua trajetória acadêmica e na sua atuação como intelectual pública, mas parece assumir um papel central nos últimos anos, com a publicação de livros e coletâneas sobre o movimento e o pensamento feminista. A que você atribui essa centralidade?

Heloisa Buarque de Hollanda: O que sempre me rege na escolha de meus objetos de pesquisa é a necessidade de responder a uma pergunta aflita, geralmente sobre o momento que estou vivendo. O fato de ter sentido um certo enfraquecimento do feminismo a partir da década de 1990, e subitamente quase 20 anos depois uma explosão feminista com características próprias, me fez focar obsessivamente no contexto e nas possibilidades de desenvolvimento desta explosão, ocorrida por volta de 2015. Depois de ter publicado o livro Explosão Feminista (2018), senti que essa pesquisa havia desencadeado em mim mais outras tantas indagações e metas de intervenção. Foi mais ou menos assim que organizei a série Pensamento Feminista (em 4 volumes, pela editora Bazar do tempo), para dar munição à esta geração, e escrevi agora o Feminista, eu?, sobre a produção cultural das mulheres da minha geração, durante os anos de chumbo, ou seja, de 1960 a 1980.

2) Você poderia comentar um pouco sobre como surgiu a ideia deste novo livro, como foi o processo de pesquisa e o que ele traz de diferente em relação à série em que ele se insere?

Heloisa Buarque de Hollanda: Esse livro é independente dos anteriores. Talvez ele possa se ligar só ao primeiro, Explosão Feminista. Ao falar sobre o ativismo político, mais especialmente sobre a estética política da nova geração de jovens feministas, não consegui parar de pensar nesse mesmo comprometimento, mesmo que ainda não estivesse vinculado diretamente ao feminismo da época, na minha geração que vivi e conheci profundamente. Pensei: políticas estéticas não são uma novidade da quarta onda do feminismo. E fui pesquisar os passos decisivos e fundadores dados pelas cineastas, compositoras e escritoras no momento mesmo em que o movimento feminista se consolidava entre nós. O resultado está aí, nesse livro novo. Uma tsunami transformadora ainda não registrada como tal.

3) No livro você se debruça sobre as produtoras culturais mulheres que, como você acaba de mencionar, tiveram atuações de destaque no momento em que o movimento feminista ganhava expressão. Depois da pesquisa, como você vê o papel do feminismo e do conflito feminista na ampliação do campo cultural em geral?

Heloisa Buarque de Hollanda: Acho que a dificuldade em se assumir feminista no Brasil, mas ao mesmo tempo usar a cultura como arma política, mostra o nervo exposto das relações de poder que construímos e que gera mitos como a democracia racial e o matriarcado latino-americano. Por isso a importância das cineastas desse momento que estudei, para dar apenas um exemplo. Elas trabalharam muitas vezes com sabor desconstrutivo não diretamente a dominação masculina, mas a estrutura perversa das relações entre os gêneros. Nesse sentido, o cinema de mulheres dá um passo adiante em relação ao Cinema Novo, que propõe uma revolução passando muitas vezes batido pelo enredamento dessas estruturas.

4) Como comparar diferentes gerações de artistas mulheres e suas lutas feministas? Como a sua geração se conecta com as jovens feministas e vice-versa?

Heloisa Buarque de Hollanda: Lamentavelmente, ainda que a nova geração traga surpresas e novas linguagens políticas, temos que lamentar que as bandeiras que encaminhávamos há 60 anos são as mesmas que são empunhadas hoje. Liberdade sexual, direito sobre o próprio corpo, a luta contra a violência doméstica e homofóbica, justiça no trabalho etc. Então não foi difícil uma articulação entre as feministas históricas e as novas feministas. O que é preciso promover com urgência é o acesso à memória da história e dos bastidores do nascimento e desenvolvimento do nosso movimento feminista. Como o feminismo nascente não estava na pauta da imprensa, e sobretudo porque estávamos ainda em tempos analógicos, essa história é pouco registrada e consequentemente conhecida. Mas há um movimento forte de recuperação como são os dois livros gêmeos que estamos lançando, O Movimento feminista no Brasil: memórias de que fez acontecer, de Jacqueline Pitanguy e Branca Moreira Alves, recuperando os primeiros momentos do ativismo feminista, e esse meu agora, o Feminista, eu?, recuperando a luta pela cultura, nesse mesmo período. Por outro lado, precisamos aprender com as novas o uso explosivo das mídias sociais, sem as quais, ao que tudo indica, a militância se precariza.

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