Nelson Costa (1963-2022) e Mário Carvalho (1986-2022)

No post de hoje, o Blog da BVPS presta homenagem aos colegas Nelson Ricardo Ferreira da Costa e Mário Augusto Queiroz Carvalho, tragicamente vitimados pelas recentes inundações da cidade de Petrópolis. Numa reunião de textos que conversam, como amigos reunidos em torno da vida e memória daqueles que nos deixaram antes do tempo, contamos com depoimentos e reflexões sobre a convivência, o trabalho e a circunstância da perda de ambos e de muitas outras e outros na mesma cidade. Para isso, contamos com uma meditação em coautoria de André Botelho e Maurício Hoelz; uma reconstrução, em muitas faces, da figura de Nelson por Leandro Garcia; uma biografia intelectual de Mário por seu orientador Rodrigo Guerizoli; e um poema elegíaco de Tatiana Bukowitz, acompanhada de uma foto-montagem da mesma autora.

Meditação do Piabanha: homenagem a Nelson Ricardo e Mário Augusto  

André Botelho & Maurício Hoelz [i]

“A culpa é tua, Pai Tietê? A culpa é tua si as tuas águas estão podres de fel e majestade falsa?”

– Mário de Andrade, “A meditação sobre o Tietê”

O Blog da BVPS faz hoje uma singela homenagem às vítimas das chuvas de Petrópolis, RJ. Amigos próximos do Blog foram atingidos. Na tempestade de fevereiro, amigos perderam suas casas, seus familiares, a dor inominável do colega e ex-aluno que acabou por sobreviver a toda a sua família, esposa e filhos. No segundo ato dessa tragédia, as águas de março levaram dois amigos que ora homenageamos: Nelson Ricardo e Mário Augusto.

Viver em Petrópolis é conviver com o paradoxo: de um lado, o refúgio ameno na Serra dos Órgãos fluminense das altas temperaturas da cidade do Rio de Janeiro, perto da natureza e também de uma versão oficial bastante cultivada da história – cidade fundada por e para o imperador Pedro II, e capital federal brasileira de verão até a inauguração de Brasília; a tragédia das chuvas, inundações, deslizamentos de terras, mortes, em geral nos mesmos verões, de outro. Nada existe em uma só face ou dimensão, aprendemos. É claro que a negligência histórica das administrações e poderes públicos que se eximiram do planejamento urbano indispensável a uma cidade com tal topografia e caraterísticas climáticas é o ponto decisivo a ser considerado na nossa e na história de várias cidades brasileiras.

A triste história urbana de Petrópolis começou diferente. Ela até contraria de alguma forma a conhecida oposição entre “semeadores” e “ladrilhadores” de Sérgio Buarque de Holanda, de acordo com a qual no Brasil as cidades foram surgindo como que espontaneamente, por meio de frágil adaptação aos contornos da natureza, em contraste com o que teria ocorrido na América hispânica com cidades planejadas em que o traço domina a natureza. Petrópolis nasceu como primeira cidade planejada do Brasil. Por isso Julius Friedrich Koeler, nascido no então Grão Ducado de Hessen, contratado por Pedro II, situou o palácio de verão do nobre proprietário num platô elevado em frente ao rio, mas dele distante, e sem morros atrás. Dizem que ele copiou o traçado urbano de sua cidade natal, Mainz, para Petrópolis: ao contrário do que ocorre com a maioria das cidades brasileiras, os rios foram canalizados e as ruas e moradias, dispostas em frente a eles (e não nos fundos das casas). Toda essa história urbana nascente se perdeu com o tempo, malgrado o tombamento do que, então, hoje se chama de Centro Histórico. Onde, aliás, nem mesmo o palácio da filha do Imperador, Isabel, saiu incólume das chuvas deste ano.

Mas, nem sempre os desastres “naturais” são ou foram recebidos como castigo divino, vingança da natureza e formas de apatia. Muitas vezes são também pontos de partida para mobilizações contra a injustiça e as desigualdades sociais urbanas vigentes na sociedade. Quantos de nós petropolitanos/as, atingidos/as ou não, nos politizamos nas águas de enchentes passadas, que o tempo levou e traz de volta. Quantos banharam-se nesse rio e saíram modificados. Veremos como será neste momento. Momento em que o conservadorismo político dominante na cidade contrasta com a participação social crescente na década de 1980, tão característico do que ocorre no Brasil como um todo. No passado, se cruzava a cidade, em redes de solidariedade e de aprendizado social da democracia, como, por exemplo, no caso das Comunidades Eclesiais de Base, para lembrar que Petrópolis era naquele momento o berço da Teologia da Libertação que politizou segmentos tradicionalmente conservadores da sociedade. Mas já não somos mais os mesmos, e as águas já serão outras. Entre o ontem e o hoje, fomos forjados sociólogos atentos à dimensão de processo, observadores e partícipes das forças sociais em movimento, que fluem e se chocam em conflito na sociedade. Como amigos de muitos anos das vítimas, convidamos colegas que conviveram de perto com eles para escreverem essa homenagem. E, como eles, também sofremos. Para nós, Nelson Ricardo e Mário estarão sempre circulando por Petrópolis, agora na terceira margem do rio, ao som de Starman ao fundo, como aparece num trecho do vídeo da homenagem feita a eles pela cidade, a partir de agora muito mais triste, que os tragou.

Nelsinho – sempre presente!

Leandro Garcia[ii]

Confesso que é difícil escrever sobre alguém tão próximo, tão amigo e ainda tão presente na minha vida. Há poucos dias, Nelson Ricardo – ou apenas Nelsinho – foi-nos tirado de forma violenta e inesperada, deixando um vazio, um buraco não apenas na nossa alma coletiva, mas nas histórias daqueles que conviveram com esta figura tão simples, dócil e amiga. Assim, cheio de medo de ser um tanto piegas, farei algumas considerações muito pessoais, meu ponto de vista e meu ponto sentimental em relação a essa tragédia, na esperança da superação e da resistência.

Nelson – o professor

Conheci o Nelsinho em 2012, quando lecionamos juntos no CEFET-Petrópolis – ele com História da Arte e eu com Português/Inglês. Por coincidência, trabalhávamos nas mesmas noites semanais, possibilitando o encontro três vezes por semana. Não raro, terminávamos a aula e seguíamos direto pro D’Ângelo, antiga e tradicional choperia da Cidade Imperial, ponto de encontro da nossa boêmia. Às sextas, era certo sairmos deste bar quando do seu fechamento, lá pelas madrugadas. Eu, ele, alunos e outros professores.

Era visível o encanto que Nelson despertava nos nossos alunos, aquela situação linda de se ver: alguns alunos queriam ficar perto dele, beber e conversar com ele, ouvi-lo e rir, pois Nelson tinha um humor ácido e inteligente, às vezes sarcástico, mas muito crítico. Lembro-me, perfeitamente, do seu desespero quando das manifestações fascistas (em sua maioria) de 2013, quando se ressuscitou um certo verde-amarelismo perigoso da/pra nossa história. Nesta ocasião, ele surtou e também surtou os alunos, que de tanto amor que tinham por ele, seguiam-no em tudo. Ele era daquele tipo de educador que criava um séquito de discípulos a sua volta, todos o seguiam de um lado pro outro dentro e fora do CEFET. Eu vi tudo isso e me admirava.

Nelson – o cidadão

Nelsinho era movido a paixão, e uma das suas principais era a política, que ele acompanhava com ímpeto. Era apaixonado pela presidenta Dilma Roussef, e sofreu com ela quando da canalhice legislativo-judiciária da qual ela foi vítima, cujo início se deu nas tais manifestações de 2013. Nelson estava presente em todas as ações políticas de esquerda aqui em Petrópolis – todas! Era muito amigo do grupo Las Dilmas, um coletivo feminino/feminista que agita a cena política da cidade, onde estavam as Las Dilmas, lá estava o Nelsinho… e elas estavam com ele, no momento final da sua despedida, quando plantamos a sua semente de esperança e resistência na terra do nosso cemitério municipal.

Mas Nelsinho também participava ativamente de grupos e ações sociais ligadas à educação artística, atuava de forma decidida em iniciativas educativas de inclusão dos menos favorecidos no circuito artístico da cidade. Ele rodava as periferias petropolitanas despertando o gosto artístico e a sensibilidade estética das pessoas, especialmente dos jovens, grupo com o qual ele melhor dialogava. Isso não será jamais esquecido. Soube, como poucos, aliar militância política e arte, fazendo desta uma ferramenta de resiliência e denúncia, sempre com a sensibilidade e ternura que lhe eram próprias.

Nelson – o artista

Nelsinho era também artista. Aliás, respirava arte: tinha doutorado em Artes Visuais, era professor de História da Arte, curador de inúmeras exposições e também artista, mantinha em sua casa um aconchegante ateliê onde ele criava e espalhava a sua sensibilidade artística.

Em Petrópolis, foram várias as exposições nas quais Nelson se envolveu ora como curador, ora como criador. No seu trabalho de curadoria, tinha uma especial atenção com os artistas da nossa periferia: convidava e incluía pessoas das localidades mais pobres e distantes do Centro. Não raras foram as vezes que ele deslocava a exposição para espaços nas próprias comunidades distantes; eu mesmo estive com ele em eventos na Cascatinha, Corrêas, no Morro da Independência, no Morro do Bataillard e na Fazenda Inglesa. Isso é deveras interessante de ser ressaltado, pois nossa cidade tem um secular costume de reunir tudo apenas no seu Centro histórico, e esta visão artística de Nelsinho – totalmente deslocada – era uma das suas marcas, contribuindo para a democratização e acesso do grande público aos bens artísticos.

Pessoalmente, não me esqueço da sua obra “Quero meu corpo de volta”, exposta no Palácio Rio Negro, em 2019. Já vivíamos no Brasil bolsonarista e distópico, e essa bricolagem feita por Nelson era um verdadeiro protesto contra esta realidade triste e insuportável a qual ainda enfrentamos e resistimos. “Quero meu corpo de volta” era um grito, um pedido desesperado por oxigênio vital num país assolado por um neofascismo que, a cada dia, mostra-se mais podre e hipócrita. Nelson fazia arte de protesto! E por isso sempre estará presente…

Nelson – o viajante

Acho que ninguém viajou tanto pelo mundo como o Nelsinho! Visitou e conheceu todos os continentes deste planeta, registrando tudo, fotografando e escrevendo tudo. Nelson tinha um diário de viagens – manuscrito – que certamente se perdeu no dia da tragédia. E ele fazia questão de não registrar nada no computador, pois aprendeu com Mário de Andrade – no Turista Aprendiz – que diário de viagem é sempre manuscrito.

Nelson não fazia turismo no sentido mais comum deste termo, ao contrário, fazia viagens de conhecimento e de investigação, buscava conhecer e aprender em lugares e com pessoas diferentes. Se estivesse em Paris, passaria apenas em frente à Torre Eiffel, mas não gastaria dinheiro subindo até o seu topo. Preferia conhecer os subúrbios parisienses, fervilhantes de diversidade cultural. Ou seja: não se encantava muito com a Avenue des Champs-Élysées, mas amava a periferia de Montreuil.

Suas viagens eram verdadeiros laboratórios de investigação humana, cultural e social. Nelas, ele colhia material para as suas aulas, imagens para os slides de Power Point, os quais encantavam os alunos, que viam nas andanças do Nelson uma espécie de bibliografia viva. Assim, dava aulas pulsantes, mostrando aos alunos detalhes arquitetônicos e urbanísticos que poucos conheciam, imagens captadas pelo seu olhar sempre atento e sensível. Mais do que viagens, verdadeiros exercícios de imersão e inculturação na lógica do outro. Aliás, Nelson era o encontro com o Outro.

Nelson e Mário

Por fim, quero lembrar desses dois queridos que, juntos por muitos anos, faziam do amor recíproco uma arma política de alta potência.

Nelson e Mário se amavam e estavam juntos há muitos anos, onde estava um, lá também estava o outro. Estivemos juntos inúmeras vezes, especialmente no CEFET, no horário de saída, quando o Mário sempre estava à espera do Nelson, na saída da instituição, perto das 22h, nas noites que eu e Nelson trabalhávamos juntos. Nunca foi segredo de ninguém: todos os nossos alunos sabiam e conviviam muito bem com isso, realmente era um clima muito bom que tínhamos.

Nelson e Mário viajaram muito, na verdade, em todas as dimensões anteriormente descritas, Mário era presença certa e confesso: não conseguíamos ver um dissociado do outro. Em poucas situações, soubemos que eles tinham brigado e estavam meio separados, presenciei duas vezes quando os amigos arrumamos um jeito de reuni-los novamente. Ou seja, todo mundo era padrinho e madrinha de casamento deles! Num país hipócrita e moralmente putrefato, o amor deles era uma atitude política, pois dois homens ou duas mulheres que se amam praticam, certamente, um ato revolucionário.

O adeus

No último dia 22/3/22 despedimo-nos de todos: do Nelson, do Mário e da D. Heloísa Helena, mãe do Nelson. Na sala de velório da cidade, Nelson e D. Heloísa repousavam juntos, um ao lado do outro, sendo velados, numa união que atravessou as duas experiências da existência – humana e espiritual. Muitos dos nossos amigos e ex-alunos estavam lá, as meninas do Las Dilmas – em peso – se fizeram presente. Rezamos, cantamos, dissemos palavras de ordem e nos despedimos. Às 11h, D. Heloísa saiu para o seu descanso final; uns 40 minutos depois, foi a vez do meu amigo dar os últimos passos pelas ruas da nossa cidade, e ele adorava andar pelas ruas de Petrópolis…

Na volta do seu endereço definitivo, chegava o Mário para ser velado, cuja despedida seria na tarde daquele mesmo dia.

Não foram colocados juntos, mas estão unidos na eternidade… e a gente continua neste sintomático vazio chamado VIDA.

Mário Carvalho, um trajeto filosófico

Rodrigo Guerizoli [iii]

Quando comecei a lecionar no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ, em 2004, havia no curso de filosofia uma geração de alunos particularmente talentosos e com os quais tive o privilégio de por vários anos trabalhar. Mário Carvalho foi, se a memória não falha, o mais jovem representante dessa geração. Aluno discreto em sala de aula (e não apenas em sala de aula), seus textos impressionavam pela elegância, clareza e precisão: cada argumento era minuciosamente analisado em suas diversas possibilidades de leitura e avaliação, cada trecho citado era explorado sob diferentes ângulos críticos. O que, ao fim e ao cabo, ao leitor se oferecia era um verdadeiro mapa conceitual, expresso em um português que parecia não conter palavra desnecessária, formulação que pudesse ser mais clara, acessível e concisa.

Evidentemente, não fui o único que já nessa época percebeu o talento do Mário. Com efeito, durante grosso modo a primeira metade da década inicial deste século, Raul Landim, um dos decanos do departamento de filosofia, realizara um desvio em suas pesquisas. Leitor por décadas de Descartes, passara a oferecer seminários regulares sobre um clássico medieval: Tomás de Aquino, autor – hoje podemos dizer – a quem Mário dedicaria a maior parte de sua atenção filosófica. Não saberia dizer se o contato inicial universitário com Tomás se deu num daqueles seminários ou em algum dos meus cursos. O fato, porém, é que durante toda a graduação Mário trabalhou, como bolsista de iniciação científica e posteriormente como aluno de monografia, sob a supervisão de um colega cuja perspicácia intelectual dispensa demonstração.

Concluída a graduação com uma excelente monografia sobre a noção de conceito em Tomás de Aquino, duas surpresas: incluir em sua pesquisa, ao lado de Tomás, um outro autor medieval, Teodorico de Freiberg – e escrever o trabalho sob minha orientação. Especulo sobre o que estaria por detrás da primeira surpresa, a opção por Teodorico, um autor alemão bastante obscuro entre nós, e cuja obra se situa uma ou duas gerações após a de Tomás. Deixando de lado filigranas, em Tomás, um conceito bem formado, ou seja, aquele com o qual podemos nos referir a coisas do mundo, que, em um sentido relevante, lhe são idênticas, é uma imagem de um objeto que compõe a realidade que nos cerca. Parece-me que foi justamente por ter percebido que Teodorico exemplifica uma perspectiva totalmente distinta sobre o assunto que Mário se dispôs a estudá-lo em comparação com Tomás. De fato, uma leitura possível de Teodorico, já bem consolidada na literatura, identifica ali, pelo menos com respeito a certos conceitos, uma relação para com o objeto externo que não é tida como uma reprodução, mas, antes, como uma constituição. Sim, constituição da realidade por meio de conceitos na pena de um autor da passagem do século XIII para o XIV. Estudar isso, entender a lógica que sustenta tal tese em suas possibilidades e limites, é o que, a meu ver, sustenta a dissertação de mestrado que Mário defendeu em 2012, na qual compara as teorias de Tomás e de Teodorico sobre a relação entre conceitos e objetos. Abro um parênteses: apenas ano passado, em 2021 portanto, ao verificar uma série de documentos relacionados a um projeto acadêmico conjunto que Mário me havia enviado, deparei-me com a informação de que a dissertação havia sido publicada em forma de livro. Nem eu nem, até onde sei, nenhum colega da área estava a par da publicação. Tipicamente Mário.

É praxe distinguir em filosofia a pergunta “o que é isso?” da pergunta “o que é (ou o que significa) ser isso?”. A primeira pergunta respondemos fazendo em geral  referência a conceitos; a segunda, a definições. “O que é isso?”; “Um ser humano”. “O que é ser isso, um ser humano?”; “É ser um animal racional”. Se na graduação e no mestrado Mário havia se aprofundado em certas respostas medievais à primeira pergunta, tendo assim centrado suas pesquisas na análise de teorias do conceito, no doutorado – escrito em sua maior parte sob a minha orientação – ele concentrou seus esforços na segunda pergunta. Tratava-se, portanto, de investigar a ideia de definição, de esclarecer, sobretudo, como as partes de uma definição, ou seja, os termos que a compõem, se relacionam com as partes daquilo que se quer definir, uma vez que, em nossa prática habitual, o que buscamos definir são coisas complexas, que têm partes e que podem ser descritas de diferentes modos. O novo tema veio acompanhado de um retorno a Tomás de Aquino, o que respeitei, mas nunca entendi muito bem – sim, tenho meus senões quanto ao enorme espaço ocupado por Tomás em estudos sobre a produção filosófica medieval. Tendo como foco principal o papel que definições desempenham quando se assume como tarefa conhecer, do modo o mais robusto possível, o mundo que nos cerca, a tese do Mário apresenta e avalia de modo extremamente preciso e minucioso a compreensão de definição defendida por Tomás. Embora nunca tenha chegado a ser publicado em forma de livro, o trabalho encontra-se disponível no site do Programa de Pós-Graduação Lógica e Metafísica da UFRJ. Ele foi parcialmente levado a cabo na Universidade de Tours, na França, onde Mário teve como orientador o colega Joël Biard, que, gostaria de mencionar, se solidarizou profunda e prontamente assim que informado sobre o ocorrido em Petrópolis.

Nos últimos anos, desde 2017, convivi com Mário como colega de departamento e de área de atuação. Não sou a única testemunha de seu espírito colaborativo e de sua cordialidade nesses contextos. Ele atuou em vários âmbitos, tanto burocráticos quanto acadêmicos: no curso de bacharelado, em parcerias interinstitucionais, em mini cursos internos e externos, em bancas e orientações, em comissões etc. Tudo isso é de conhecimento dos que conviveram com o Mário nesse passado recente. O que talvez seja menos notório seja o fato de que, em paralelo a essas variadas atuações, Mário compunha um novo programa de estudos e investigações – em Tomás, mais uma vez. Se a conexão que associou os trabalhos de mestrado e de doutorado pode ser caracterizada como uma expansão (talvez pudéssemos falar de uma síntese), cujo ponto de partida foi a noção de conceito e ponto de chegada a ideia de definição, o que parecia interessar filosoficamente Mário nos últimos tempos era o resultado de uma certa retração ou análise da noção de conceito. Na tradição aristotélica, uma maneira bem estabelecida de se classificar conceitos dá-se pela aplicação a eles de um esquema classificatório que, em princípio, se aplica a coisas, qual seja, o famoso quadro das dez categorias (substância, qualidade, quantidade etc.). Era a uma determinada espécie de conceito (e, assim, de categoria) que Mário vinha se dedicando, a saber, à categoria da quantidade, vista sobretudo desde um viés metafísico ou, mais precisamente, ontológico. Tratava-se, assim, de lidar, desde a perspectiva aberta pela noção de quantidade, com questões sobre identidade, individualidade, diferença numérica e repetibilidade, entre outras; questões que se impõem ao se ter por meta descrever em que mais essencialmente consistem cada uma das coisas que nos rodeiam. Mário claramente começava assim a explorar águas profundamente especulativas, em cujas correntes não poucos já se perderam. Ele, porém, já bem o demonstrara, tinha expertise, poder de análise e capacidade de expressão mais do que suficientes para não naufragar na empreitada. Simplesmente não é possível quantificar o quanto teria me alegrado ver os resultados de seu projeto – nem o quanto me entristece ver-me privado de sua convivência como amigo e filósofo.

GOTA D’ÁGUA

nos últimos 

tempos

à fórceps

– é preciso dizer –

à fórceps

aprendi

a me 

despedir

como quem faz

um rito solitário 

na quietude 

me deparo

com aquilo

que

jaz

nos últimos 

tempos

à fórceps 

– é preciso dizer – 

você também 

em seu rito solitário 

na quietude 

de sua saga

você

se depara

também 

com aquilo

que

jaz

sem paz

muita gente

se arvorou

a partir

uns hão de dizer

que chegara

a hora

do descanso

eterno

NÃO. 

não era

não era nada

ali

inexistia

o que quer que fosse

(ou que se assemelhasse)

nenhuma referência

ao suposto 

sossego

dos olhos

que fecham

para recuperar 

energia 

NÃO.

não era

não era nada

tempo de cair fora

dessa sua estrada

sair de cena 

de forma

precipitada

que cilada

intensas águas

novamente

derramadas

desde a tarde

teimava

e veio

insistente

enxurrada

veloz

adentrava

a noite 

escura

no breu:

estrondo

escorre

abaixo

muito mais

que uma lágrima 

foi-se a casa 

a mãe 

o parceiro

ele mesmo

e o seu acervo

NÃO.

não era nada

para ser assim

você 

e os seus

anseios

você,

seus amores e zelos

soterrados

numa redoma de medo

não era nada

para ser o seu fim

ouvi por aí

que já se tinha avisado

da falta de piedade 

dos perigos da chuva 

dos riscos 

da volúpia

da situação da cidade

mas cada um é que sabe

na sua intimidade

onde que dói a ferida

de sair de seu lar

quando cai tempestade

o abrigo é no ninho

não se sai sem refúgio:

é justamente

o oposto!

Assim foi 

com Nelsinho.

SIM.

eu o conheci

por intermédio 

de encontros

que jamais esqueci

apresentou-me

em formato de olho

(que metáfora aquela) 

a sagrada janela!

o artista

o mestre

o errante das ruas

ensinou muitas faces

disso que é chamado de

VIDA:

tudo depende

da perspectiva

do outro lado da rua

aquela voz 

era sua

te ouvi tão distante

e tão dentro de mim

sua obra clamava

“QUERO MEU CORPO DE VOLTA”

nós também 

bradamos silentes

repetimos juntos

contigo

uníssono

NÃO.

não era

não era

para 

ter sido isso

______

Em memória de Nelson Ricardo

e de todas pessoas mais

de trajetórias abreviadas

neste verão atroz.

02/04/2022 – Petrópolis 

Tatiana Bukowitz [iv]

Foram águas de março 

sem promessas de vida.

montagem e sobreposição de obra e foto originais do artista

[i] Membros do conselho editorial do Blog da BVPS

[ii] Professor de Teoria Literária da Faculdade de Letras da UFMG

[iii] Professor do departamento de Filosofia da UFRJ

[iv] Nascida em Petrópolis, onde reside por muitos anos – mas em rotina de vida, trabalho, estudo e pesquisa dividida com atividades no Rio de Janeiro, desde 1996, quando iniciou seus estudos universitários no curso de Ciências Sociais na UERJ. Docente do Departamento de Sociologia do Colégio Pedro II (Campus Centro) e coautora da obra didática Sociologia em Movimento, em volume único para o ensino médio (Editora Moderna)

1 comentário

  1. Lamentamos profundamente a perda do Professor Mário Carvalho. Um estudioso brilhante, especialmente em Filosofia Medieval, mas também em outros âmbitos. Não apenas tinha grande habilidade acadêmica, mas tinha (isso é o mais importante) uma mente ampla e investigativa, ilimitada, de verdadeiro filósofo, sem preconceitos ou fanatismo. Uma perda muito triste.

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