Resenha | Narrativas Impuras, de Eneida Maria de Souza

No post de hoje, a coluna Minas Mundo publica a resenha de Narrativas Impuras, coletânea de Eneida Maria de Souza lançada em 2021 pela Cepe Editora. Numa homenagem à trajetória e ao pensamento da coordenadora e madrinha do projeto Minas Mundo, os autores Marcelino Rodrigues (UFMG), Reinaldo Marques (UFMG; CNPq), Roberto Said (UFMG) e Roniere Menezes (CEFET-MG;CNPq) apostam na forma do fragmento para fazer um balanço da obra, perpassando seus principais temas e problemas, bem como os diálogos construídos pela crítica mineira ao longo de sua trajetória.

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Boa leitura!

A crítica indisciplinada e impura de Eneida de Souza

Por Marcelino Rodrigues, Reinaldo Marques, Roberto Said e Roniere Menezes

Escritas heteróclitas

Narrativas impuras, de Eneida Maria de Souza, lançado pela Cepe Editora em novembro de 2021, pode ser visto como testamento deixado pela ensaísta. No livro, que traz ensaios escritos nos últimos vinte anos, a autora retoma e amplia pontos centrais de seu percurso acadêmico, estabelece revisões críticas sobre o modernismo e enfatiza estudos relativos à crítica biográfica. Os textos relacionam autores, narrativas e temporalidades distintas, aproximam conceitos e teorias de campos diversos e retomam, na articulação discursiva, procedimentos ligados ao processo de montagem.

Modernismo centenário

Os cinco ensaios presentes na primeira parte do livro, intitulada “Modernismo centenário”, estabelecem reflexões a partir da produção de Mário de Andrade, autor que acompanha Eneida pelo menos desde a escrita da tese de doutorado, defendida em 1982, na Universidade de Paris VII. Trabalho que resultou no importante livro A pedra mágica do discurso (Ed. UFMG, 2000).

“Mário de Andrade, o empalhador de passarinho” abre o livro. No texto, notamos, de início, o recorte metodológico apreendido nos longos anos de estudos sobre literatura comparada. A pesquisadora reconhece diálogos existentes entre Roland Barthes e Mário de Andrade em relação à visão da escrita ligada ao prazer e não ao sofrimento. Baseando-se em Rilke e Nietzsche, o gesto criativo estaria, em Mário, mais próximo ao gozo que ao parto. Após o arrebatamento prazeroso, o autor retomaria o trabalho para reburilá-lo.

 A ensaísta dialoga com Antonio Candido, João Luiz Lafetá, Álvaro Lins, Silviano Santiago, entre outros, para sublinhar o fato de que o poeta paulista não separava a arte, a literatura, a experiência cotidiana e o contexto histórico da avaliação crítica. Ao mesmo tempo que defendia a especificidade literária, a escrita ligava-se ao prazer. No diálogo com a noção de dispêndio, em Bataille, Eneida recorda que, para Mário, “viver é gastar a vida”. O ensaio leva-nos à biografia que Mário escreveu – em forma de conto e com reflexos de sua própria história de artista também mulato – sobre Padre Jesuíno do Monte Carmelo. Eneida considera esclarecedora a ideia de José Miguel Wisnik de que Mário expõe, por meio de artifícios, uma subjetividade recalcada e, ao mesmo tempo, um compromisso com a nação. Nota-se, por trás da diversidade dos objetos, da inquieta curiosidade, uma linha crítico-teórica bastante coerente em todo o trajeto da intelectual mineira. Segundo a autora, o pensamento de Mário de Andrade contribui bastante tanto para o desenvolvimento dos estudos literários quanto para debates contemporâneos ligados ao combate à intolerância e aos diversos preconceitos que nos cercam.

  O segundo texto analisa o livro Um turista aprendiz. A ensaísta observa que os deslocamentos realizados pelo escritor modernista a áreas distantes dos grandes centros metropolitanos do país contribuem para o desenvolvimento de reflexões sobre a cultura popular e mesmo para a noção de modernidade, já que essa deveria ocorrer incluindo diversidade sociocultural do país. O trabalho de investigador e colecionista levado adiante por Mário coincide com práticas desenvolvidas na França nos anos 1920 e nomeadas por James Clifford como “etnografia surrealista”. Assim como ocorre em Mário, os franceses agiam no sentido de questionar o eurocentrismo e romper com a medição de produções culturais de diferentes povos a partir da régua canônica ocidental. Seguindo noções de James Clifford, Eneida observa que a “cultura torna-se algo a ser coletado, mas de modo a perturbar e embaralhar as disposições tradicionais dos símbolos estabelecidos” (SOUZA, 2021, p. 37). As dissonâncias percebidas nas cantorias de Chico Antônio, cantador do Rio Grande do Norte, superariam, na perspectiva do viajante paulista, as “chiques dissonâncias dos modernos”. Assim, as pesquisas mariodeandradeanas funcionam como estratégias de resistência e intervenção que trazem à tona criações excluídas do que se entendia por cultura e clareiam o caminho de elaboração de uma arte com timbre brasileiro.

  “Conversa de compadres” aborda as correspondências entre Mário de Andrade e Câmara Cascudo. As cartas entre os amigos começam a ser escritas em 1924, mesmo ano da viagem da caravana paulista a Minas Gerais, e seguem até 1944. Desde o início, o poeta distancia-se da proposta vanguardista do modernismo, visando associar “a tradição ao novo, o popular ao erudito, seja pelo apelo ao barroco como signo de primitivismo e nacionalismo, seja pela cultura popular como índice de expressão nacional e do povo” (SOUZA, 2021, p. 49). O objetivo inicial de busca pelo popular, ao contrário do que pode soar, não deve ser visto em uma chave conservadora a almejar resguardar uma cultura autêntica e pura. A intenção seria restaurar memórias esquecidas e reconhecer o vigor da criação popular, principalmente em seu aspecto coletivo, em oposição à perspectiva particularizada presente em obras eruditas. A discussão passa por reflexões relativas a métodos mais científicos de pesquisa folclórica, pela ideia de povo, comunidade, nação e demonstra, inclusive, algumas posturas mais rígidas de Mário, ligadas ao contexto social.

Em “A preguiça – mal de origem”, a ensaísta aproxima os dois importantes poetas modernistas, Mário e Oswald, para tratar das noções de preguiça e de ócio. Os dois autores estabelecem uma torção na tonalidade negativa que cobre os termos. Eneida lembra que a preguiça foi a primeira marca lançada pelo colonizador sobre o corpo indígena. Macunaíma e o matriarcado agiriam a favor da festa, do jogo, da liberdade sexual, da doação, da boa vida, ao contrário da noção de produção capitalista, da ideologia do trabalho. A preguiça bem-humorada de Macunaíma contrapõe-se a teses higienistas, à política de saneamento estatal representada, por exemplo, pela personagem Jeca Tatu, de Monteiro Lobato. Em Mário, a preguiça associa-se ao instante de criação artística. Em relação ao livro Crise da filosofia messiânica, de Oswald, a pesquisadora assegura que o poeta e intelectual, ao considerar a preguiça como a “mãe da fantasia, da invenção e do amor”, abre porta fundamental para a avaliação do aspecto lúdico e carnavalizado presente nas expressões culturais do país. A autora conclui a primeira parte de Narrativas impuras trazendo aos leitores e às leitoras um conselho vindo de seu mestre e amigo Silviano Santiago. Em “Poder e alegria: a literatura brasileira pós-64: reflexões”, Silviano coloca-se ao lado de Mário, Oswald e Caetano, defendendo uma escrita afirmativa e alegre. Eneida aproxima novamente dois de seus grandes amigos de travessia, Roland Barthes e Mário de Andrade, para reafirmar a percepção de escrita como prazer.

O trabalho de Eneida como pesquisadora insubmissa às tradições e aos enquadramentos disciplinares, suas coleções e montagens abertas às heterogeneidades, aos anacronismos, às síncopes lembra a voz do violeiro que surge na cena final de Macunaíma. Assim como o aedo que canta “na fala impura as frases e os casos de Macunaíma, herói de nossa gente” (ANDRADE, 2008, p. 214), Eneida escreve suas críticas e narrativas impuras que sempre ressoarão entre nós.

Margens culturais

Com textos elaborados entre 2004 e 2019, alguns deles revistos e levemente alterados em relação às versões anteriormente publicadas em periódicos, “Margens culturais”, a segunda parte do livro, revela, a partir da diversidade de objetos e de perspectivas teóricas mobilizadas, a amplitude do campo conceitual e a natureza nômade do pensamento de Eneida. Com vistas a acompanhar a mobilidade e o fluxo instável das manifestações culturais que reordenam o cenário das artes, da literatura e do cotidiano, um movimento de escrita se estabelece, não apenas nessa seção, mas como de resto em toda a coletânea, a partir de uma espécie de “conversação” – para me valer do termo deleuziano – entabulada pela ensaísta com obras e autores cuidadosamente resenhados, mas cujas ideias e proposições serão deslocadas para outros fins, em função do fio argumentativo proposto em cada uma das “montagens”. Ao conversar criticamente com o outro, a voz da autora se manifesta, põe-se a falar, estabelecendo “negociações” singulares. É o que se vê, por exemplo, com o clássico de Angel Rama, Ciudad letrada, com a transculturação de Fernando Ortiz, as torres de Babel de Jacques Derrida, a literatura de Calvino ou ainda com as histórias de leitura de ficção nas fábricas de charuto cubanas, analisadas por Araceli Tinajero.

Além de indiciar o incansável e multifacetado trabalho de pesquisa e leitura de Eneida, capaz de atar e desatar textos e saberes provenientes de diferentes matrizes conceituais, essa estratégia dialógica realiza indiretamente, mas com ganho suplementar para o leitor, uma verdadeira genealogia da crítica cultural. Isto porque ela passa em revista, exigindo o “máximo de abertura” daqueles que se dispõem a acompanhá-la, os processos de construção e crítica que definiram os estudos literários, em suas interfaces disciplinares, desde o estruturalismo, base da formação intelectual e acadêmica da autora, até as indagações contemporâneas, entre as quais aquelas elaboradas recentemente pela ecocrítica.

Todo o investimento analítico parece concentrar-se, portanto, numa temporalidade que, embora incerta em seus marcos e cambiante espacialmente, condensa os complexos processos de esgotamento dos parâmetros modernos, até então ordenadores dos campos políticos e culturais no Ocidente. Imersa e atenta a esse regime de mutações, sobre o qual traça sucessivos e complementares painéis, Eneida se propõe a investigar configurações e embates manifestos com a perda de prestígio da palavra escrita e do objeto literário, este tradicionalmente tomado como objeto autônomo e portador de uma nacionalidade transcendente; com o questionamento do cânone universal; com a ascensão da cultura popular e da sociedade de consumo; com as ondas migratórias das multidões pós-coloniais para as metrópoles europeias, com as reivindicações minoritárias e subalternas no centro e nas margens do capitalismo, com a crise ecológica deflagrada pelos saberes modernos, enfim, com a emergência do discurso crítico contemporâneo. Não se trata, contudo, de uma apologia ou de uma valorização pós-vanguardista de novas teorias, do novo-em-si, pois o que interessa a Eneida, assim como a Néstor García Canclini, são estratégias para entrar e sair da modernidade. Trata-se de reconsiderar o modo como a lógica do continuum da história articula relações entre passado e presente.

Há, todavia, um posicionamento político, por assim dizer, pautado pela insistência da crítica mineira de se contrapor a posicionamentos elitistas que condenam teoricamente a cultura popular e demonizam a cultura de massa, pois se, como sugere Walter Benjamin, “todo documento de cultura é também um documento de barbárie”, não menos profícua seria a observação de Jesús Martín-Barbero, para quem documentos de barbárie estariam em uso como documentos de cultura.

Nessa via, pode-se notar o desejo de se examinar as diferentes temporalidades e manifestações artísticas, com ênfase na literatura e no cinema, que se configuram, sob o signo da tradução, na recepção das culturas hegemônicas no contexto das nações periféricas. Desejo de examinar o modo como essas diversificadas interações revelam-se, a despeito da simultaneidade global, desiguais. Ou, como sugere novamente Barbero, o modo como se dá a “não simultaneidade do simultâneo”. Esta é uma das cifras utilizadas para se ler, por exemplo, O céu de Sueli, filme de Karim Aimouz, em que a pequena cidade de Iguatu, no sertão do Ceará, ao justapor particularidades locais e referências da sociedade globalizada, elementos da cultura pop e do brega, compõe um cenário compósito, em conformidade com as desventuras da personagem migrante, com sua identidade dupla, Hermila/Suely. A película estudada no artigo “Paisagens de areia” parece endossar, tal como uma dobra metateórica, o deslocamento como operador indispensável da crítica cultural. As leituras empreendidas pela autora demonstram como ficções no cinema e no romance colocam em xeque a utilização de categorias dicotômicas e estáveis como erudito/popular, nacional/estrangeiro, urbano/rural, história humana/história natural, entre outras, com intuito de dar conta das “novas sensibilidades e múltiplas subjetividades” sem as quais não seria possível a compreensão da hora presente.

Decorre dessa mirada, com seu apreço pela interlocução, que age como uma espécie de vértice reflexivo sobre o qual giram diferentes problemas formulados pela ensaísta, o empenho na revisitação dos conceitos. Exemplar, a esse respeito, o modo como em “Babel multiculturalista” Eneida repassa criticamente, no âmbito dos estudos latino-americanos, impasses entre transculturação, multiculturalismo e subalternismo ou como alinha e desalinha denominações formuladas para lidar com macroprocessos históricos, sociais e econômicos nos quais tais estudos se inserem: modernidades periféricas (Sarlo); modernidades tardias (Jameson); modernidades livres (Appadurai): modernidades reflexivas (Giddens);  modernidade descentrada (Barbero) etc.

Vale ainda notar o tom definido entre instrução e estímulo, mas sem doutrinação, que atravessa a seção “Margens culturais” como se, em última instância, a ensaísta trouxesse para dentro do texto, a fim de compor a outra ponta da conversação, o leitor-aluno, de forma a expandir para fora da academia os espaços da sala de aula e as formas de convivência dos saberes que, como o mestre Mário de Andrade, Eneida constrói com leveza e criticidade. 

Sobrevivências

A palavra “sobrevivências”, que dá título à terceira parte do livro, assinala a articulação entre uma potente reflexão sobre as relações entre obra de arte e biografia, desenvolvida nas últimas décadas por Eneida, e as ideias do historiador da arte Aby Warburg e de seu intérprete contemporâneo, Georges Didi-Huberman, objeto de um interesse mais recente da ensaísta. Com sua habitual capacidade de conjugar rigor e ousadia intelectual, Eneida tece cuidadosamente a trama entre teoria e crítica, operando um deslocamento no conceito de sobrevivência, formulado por esses autores no campo da história da arte, para fazê-lo funcionar também no campo da crítica biográfica.

Do ponto de vista teórico, o ensaio mais elucidativo talvez seja o que se intitula “Ficções impuras”, no qual Eneida estabelece a ligação entre as noções de rastro e sobrevivência, no pensamento de Jacques Derrida sobre o arquivo, e as ideias de Warburg e Didi-Huberman sobre a história da arte. Para Derrida, os documentos acumulados pelo intelectual são testemunhos de um “projeto fantasista de perpetuar-se para além da morte”, de um “desejo de sobrevivência” que só se sustenta pela leitura, “pela interpretação que lhe propiciará uma sobrevida”, reunindo “o movimento simultâneo de acender/apagar certezas, de ser fiel/infiel às palavras do autor” (SOUZA, 2021, p. 207-208). Como uma “vida para além da vida” (SOUZA, 2021, p. 207), a sobrevivência só existe na forma do rastro que se separou da origem, da meia-presença ou do espectro, situando-se entre a vida e a morte, o visível e o invisível, o real e o ficcional. Já em Warburg e Didi-Huberman, o conceito de sobrevivência diz respeito a uma visão não evolucionista da história da arte, interessada em formas artísticas que sobrevivem à sua própria morte e retornam de modo intermitente, como traços sintomais e fantasmais, em tempos e espaços inesperados. Para lidar com essas formas sobreviventes, seria necessário um saber-montagem, que aproxima, de forma anacrônica, peças artísticas heterogêneas e de múltiplas proveniências.

Articulando essas duas abordagens, Eneida propõe um caminho para a crítica biográfica, no qual a ideia de sobrevivência opera no sentido de evidenciar o caráter impuro da obra de arte, abrindo espaço para relações deslocadas, anacrônicas e metafóricas entre autores e obras, referentes biográficos e criações artísticas. Trata-se, portanto, de questionar binarismos e ideias preconcebidas, como a noção tradicional de autor, as relações miméticas e causais entre vida e obra, a oposição entre realidade e ficção e a concepção linear e progressiva da história.

Nos três primeiros ensaios, predomina o viés teórico, sem que o tratamento crítico dos objetos seja deixado de lado. Em “A modernidade residual do contemporâneo”, o legado de Roland Barthes, metaforizado pela cena de sua morte, é ponto de partida para uma reflexão sobre a necessidade de romper a visão teleológica do tempo e captar a presença residual do passado no presente. Em “Crítica e alta costura”, um lenço de seda lançado pela marca Hermès no centenário de Barthes funciona como objeto teórico para pensar sobre “proliferação do discurso crítico no interior da mídia e do consumo” (SOUZA, 2021, p. 182), levando a um questionamento das hierarquias e lugares fixos do saber, em sintonia com propostas de “democratização e ampliação do conceito de estético” (SOUZA, 2021, p. 179) e supressão dos limites entre arte e vida. Já em “Poéticas do inacabado”, o que está em foco é a Crítica Genética, defendida como modo de ampliar a leitura e demonstrar o caráter aberto e inconcluso do texto literário. Ganhando sobrevida com as montagens efetuadas pelo crítico, os manuscritos e papéis de arquivo são rastros das dúvidas, hesitações e rasuras que atravessam a gênese do texto, desestabilizando a figura onipotente do autor e a obra como produto acabado e definitivo.

A esses três ensaios, soma-se o que se intitula “Silviano Santiago, autor de Derrida”, no qual Eneida fala sobre o deslocamento efetuado pelo crítico brasileiro no pensamento do filósofo franco-magrebino, a fim de refletir sobre a condição do intelectual latino-americano. Partindo da imagem do escritor que recebe, como um enxerto, a memória de outro escritor, a ensaísta interpela noções como autoria, fonte e influência, herança e filiação, para destituí-las de seus determinismos temporais e espaciais e colocar em jogo “ficções teóricas” capazes de embaralhar as cartas e caminhar para “uma aventura em direção à alteridade e ao artifício” (SOUZA, 2021, p. 234).

Nesta seção do livro, encontramos textos em que predomina o viés crítico, nos quais a teoria também se faz presente, informando as análises e se alimentando delas. Neste grupo, podemos incluir os ensaios mais voltados para a reflexão sobre uma obra ou autor específico, como “Autoficção e vida”, que trata do livro Desarticulações, no qual Sylvia Molloy ficcionaliza sua relação com uma amiga acometida pelo mal de Alzheimer, a fim de dar sobrevida a essa relação e lidar com a desagregação da memória provocada pela doença. Em “Fim de jogo – Beckett em Belô”, o objeto de análise é o romance Mil rosas roubadas, de Silviano Santiago, que coloca sob os signos da ficção e do teatro a longa relação de amizade do autor com o produtor musical Ezequiel Neves. Já em “Machado sobrevive”, Eneida se dedica ao romance Machado, outro fruto da verve auto(bio)ficcional de Silviano Santiago, que reconstitui os últimos anos de vida do grande romancista brasileiro. E, finalmente, em “O espectro de Dostoiévski”, a atenção da ensaísta se volta para o livro O mestre de Petesburgo, em que o J. M. Coetzee transforma o escritor russo em personagem, para reconfigurar de forma deslocada inquietações de ordem autobiográfica. Na análise desses textos, Eneida coloca em debate questões como a ambivalência dos estatutos genéricos e pactos de leitura, o caráter artificial e construído das subjetividades, o valor metafórico dos incidentes biográficos e o paradoxo da presença-ausência do autor em sua obra. Em todos esses ensaios, a ideia de sobrevivência repercute, como um signo da relação paradoxal entre morte e vida instaurada pela literatura.

No final da seção, encontram-se ainda dois ensaios nos quais Eneida faz incursões pelo campo da fotografia e das artes visuais, em estreito diálogo com suas reflexões sobre a crítica biográfica e a cultura popular. Em “Assis Horta – fotógrafo de um Brasil moderno”, os retratos de pessoas comuns produzidos pelo artista nos anos 1940 são pensados como expressão de um desejo de visibilidade possibilitado pela modernização do país, integrando um processo mais amplo de redefinição das políticas da arte na sociedade brasileira. Já em “Retratos pintados”, o olhar agudo de Eneida recai sobre a prática popular, comum no Nordeste brasileiro há algumas décadas, de manipulação e revitalização de retratos por meio da pintura, com a finalidade de preservar e remodelar memórias pessoais e familiares. Nos dois casos, os procedimentos de produção e tratamento das imagens, assim como sua inserção na lógica serial da exposição, deslocam seu estatuto meramente documental, evidenciando seu caráter de “ficcionalização dos corpos biográficos” (SOUZA, 202, p. 283) e de “inscrição sobrevivente”, “incapaz de restituir o passado e suas lutas, embora permaneça como força [capaz] de evocá-lo na condição de simulacro” (SOUZA, 2021, p. 274). 

Reconfigurações narrativas

Sob a rubrica “Reconfigurações narrativas”, os ensaios que se agrupam na Parte IV de Narrativas impuras expressam, em seu conjunto, uma rebelião contra o disciplinamento dos saberes operado com a emergência da universidade moderna. Conforme nos mostra Michel Foucault, trata-se de um disciplinamento levado a cabo no âmbito da reforma das universidades europeias no final do século XVIII e início do XIX, sob a liderança dos Estados nacionais em ascensão. Dessa maneira, por meio de algumas operações básicas, determinados saberes são selecionados e normalizados, ajustando-se uns aos outros, de modo a excluir saberes menores ou inúteis; são também hierarquizados, em termos de disciplinas matrizes e auxiliares, e centralizados num esquema piramidal, de modo a assegurar o controle dos saberes, sua seleção e transmissão. Assim, ao constituir uma disciplina global reconhecida como “a ciência”, a universidade moderna se afirma como braço do Estado e sistema totalizante, que busca disciplinar e homogeneizar os saberes, por meio da integração subalternizada de saberes menores ou da exclusão daqueles saberes selvagens produzidos fora dos muros acadêmicos e vistos como anticientíficos (Cf. FOUCAULT, 1999, p. 199-223).

É nesse contexto de transformações epistemológicas que se projeta a formação de uma moderna Ciência da Literatura, baseada num conjunto de disciplinas estruturantes – Teoria da Literatura, Crítica Literária, História Literária e Literatura Comparada –, ao qual se somam as disciplinas relacionadas às literaturas vernáculas e às literaturas estrangeiras, fundamentais para se pensar o espaço literário no contexto de afirmação de Estados-Nação. Trata-se de disciplinas marcadas por um regime de identidades binárias, pela pureza e unidade do seu objeto de estudo, a ser abordado com métodos bem definidos consolidados em manuais didáticos, segundo uma gramática da especialização, em que prevalecem territórios disciplinares bem delimitados e sujeitos do conhecimento a eles circunscritos.

Ora, é contra essa ciência literária moderna que se coloca o pensamento teórico-crítico e a prática da pesquisa mobilizados por Eneida Maria de Souza em seus ensaios, entendidos como “reconfigurações narrativas”. Numa atitude teórica e crítica de insurgência, a autora desconstrói narrativas legitimadoras desse campo disciplinar moderno dos estudos literários na esfera das instituições universitárias, elaborando novos relatos e perspectivas a respeito dos saberes sobre a literatura a partir de um olhar contemporâneo, atento às questões do tempo presente. Urde, assim, uma espécie de contranarrativas da moderna ciência literária, dialogando com saberes e artefatos artísticos e culturais excluídos até então da reflexão acadêmica sobre a literatura, mesclando teoria e ficção, erudito e popular, literatura e artes visuais, música etc. Às narrativas da pureza do objeto literário contrapõe suas “narrativas impuras”, como bem traduz o título do livro. Para tanto, defende e estimula uma perspectiva transdisciplinar para os estudos literários, de diálogos com diferentes áreas do conhecimento e da pesquisa: filosofia, psicanálise, história, sociologia, semiótica e estudos culturais.

Lidos a partir desse contexto, ficam evidentes seja a ancoragem dos ensaios dessa parte no campo dos estudos de literatura, seja o firme posicionamento crítico da autora quanto aos rumos tomados pelas diferentes disciplinas frente às mutações do literário na contemporaneidade. “Literatura Comparada, indisciplina” mostra-se extremamente acurado na identificação das motivações da crise da disciplina em sua configuração moderna, tendo em vista a ampliação de seu objeto de estudo num mundo de cultura globalizada, de transnacionalização da literatura. O que demanda a prática de pesquisas transdisciplinares, rasurando fronteiras disciplinares, transformando a literatura comparada numa “indisciplina”. Especialmente neste ensaio se observa intransigente defesa da transdisciplinaridade, tendo em vista o reconhecimento da complexidade dos artefatos literários, artísticos e culturais, por se situarem simultaneamente em diferentes níveis de realidade: o virtual e o atual, o imaginário e real, o físico e metafísico.

Combinando autobiografia e biografia, história e reflexão teórica, a teoria da literatura e a crítica literária são repensadas a partir de ensaios que homenageiam duas mestras e pesquisadoras marcantes na formação do pensamento teórico e crítico de Eneida: Maria Luiza Ramos e Dirce Cortes Riedel. Em “50 anos de Fenomenologia da obra literária”, é ressaltado o pioneirismo do livro, publicado em 1969, e da docência de Marilu – apelido afetivo adotado pelos estudantes – para a consolidação da teoria literária no curso de Letras da UFMG e de outras universidades. Com Marilu, a teoria transforma-se em prática, deixando de ser mero instrumento auxiliar na leitura dos textos, como espaço de reflexão aberto a outros saberes por meio da apropriação crítica de seus conceitos e métodos. Também voltado para questões de teoria literária é o ensaio “Teorizar é metaforizar”, em que se explora a crise e os direcionamentos da teoria literária ao ter de pensar o estatuto ampliado da literatura.

Já com o ensaio “Narrar é glosar – viver é narrar”, a autora efetua uma breve revisão da história da crítica literária entre os anos 1970 e 1990 a partir do exame da atividade crítica de Dirce Cortes Riedel, professora da UERJ, tendo em Guimarães Rosa e Machado de Assis seus autores prediletos. Chama a atenção de Eneida a forma como Dirce articula teoria, literatura e vida, numa abordagem crítica a que não faltam rigor e sofisticação, em diálogo com a filosofia, o estruturalismo, a intertextualidade bakhtiniana e o pensamento de Walter Benjamin. Suplementam essa revisão da crítica dois outros ensaios: “Autocrítica da crítica” e “Riscos de interpretação”. No primeiro, numa reflexão que mistura crítica, autocrítica e política, Eneida revê criticamente sua trajetória como estudante e professora de Teoria da Literatura na UFMG. Já no segundo, detém-se na crítica de diferentes metodologias de interpretação dos textos, alertando para seus riscos e limites, especialmente aquelas fornecidas pela Semiótica, Psicanálise, Filosofia e a História, que endossaram um método detetivesco de decifração dos sentidos de um texto.

Por fim, em “Literatura é vida?”, ensaio de cunho nitidamente autobiográfico, a autora revisita sua trajetória acadêmica, a partir do ano de 1966, ano de sua formatura na graduação em Letras da UFMG e também de criação do Suplemento Literário de Minas Gerais por Murilo Rubião, articulando vida pessoal e vida cultural. Com o último ensaio, “Janelas”, nos oferece uma reflexão pungente sobre o tempo presente, assombrado pela pandemia da Covid-19 e o confinamento no espaço doméstico, realçando a importância das janelas para contemplar as ruas e outros mundos possíveis pelas vias da imaginação, da ficção.

Nesses ensaios aqui brevemente resenhados, fica evidente o elogio da liberdade do pesquisador, estimulado a adotar uma atitude indisciplinar e indisciplinada na abordagem de objetos artísticos e culturais heterogêneos e híbridos. Ainda mais, neles é possível surpreender duas qualidades notáveis do pensamento teórico e crítico em muito absorvidos das lições de suas mestras Marilu e Dirce. Desvencilhando-se de radicalismos e posições extremadas, em sua abertura para o outro, o diferente, para o devir e inacabamento constitutivos de todo o conhecimento, o gesto teórico e crítico de Eneida é marcado profundamente pela jovialidade e afabilidade. Qualidades que, espera-se, sejam sempre cultivadas pelos pesquisadores do tempo presente.

Coda

 A pesquisadora e ensaísta Eneida Maria de Souza revelou-se dona de um saber inquieto, aberto às novidades importadas, às inventividades populares, e ao mesmo tempo detentora de uma escrita precisa e ancorada em sólidas bases teórico-conceituais. Com a publicação, evidenciam-se dados que compuseram todo o seu caminho: a mescla entre ciência, vida, cultura e afeto, o trabalho com objetos insólitos e a busca pela clara comunicação com o público. Narrativas impuras figura como importante legado de Eneida, mestre fundamental da área de Teoria da Literatura e Literatura Comparada no Brasil.

Referências:

ANDRADE, Mário de. Macunaíma: o herói sem nenhum caráter. LOPES, Telê Ancona e FIGUEIREDO, Tatiana Longo (Estabelecimento de texto). Rio de Janeiro: Agir, 2008.

DELEUZE, Gilles. Conversações. São Paulo: Ed.34, 1995.

FOUCAULT, Michel. Em defesa da sociedade: Curso no Collège de France (1975-976). Ed. estabelecida por Mauro Bertani e Alessandro Fontana sob direção de François Ewald e Alessandro Fontana, trad. Maria Ermantina Galvão. São Paulo: Martins Fontes, 1999. “Aula de 25 de fevereiro de 1976”, p.199-223.

SOUZA, Eneida Maria de. Narrativas impuras. Recife: Cepe Editora, 2021.

SOUZA, Eneida Maria de. Ex-alunos e amigos homenageiam Eneida Maria de Souza. Trecho de Entrevista à Cepe Editora em 2021. Belo Horizonte: Estado de Minas, 11 de março de 2022. Disponível em: https://www.em.com.br/app/noticia/pensar/2022/03/11/interna_pensar,1351719/ex-alunos-e-amigos-homenageiam-eneida-maria-de-souza.shtml Acesso em 11 de março de 2022.

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