“Vida pública e identidade nacional” – minibiografia de um livro, por Adrian Gurza Lavalle

O blog da BVPS publica hoje o texto “Vida pública e identidade nacional – minibiografia de um livro”, de Adrian Gurza Lavalle, professor livre docente do Departamento de Ciência Política da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). Nele, o autor conta um pouco da história do livro Vida pública e identidade nacional, desde a versão como tese de doutorado, de sua recepção e contribuição à área de pensamento social brasileiro. O livro passa a estar acessível para download aqui.

Boa leitura!

Vida pública e identidade nacional – minibiografia de um livro

Adrian Gurza Lavalle

Em 2004 publiquei Vida pública e identidade nacional – Leituras brasileiras (São Paulo, Globo), meu primeiro livro publicado no Brasil e o único dedicado à área do pensamento social. Por diversos motivos, minha trajetória acabou seguindo outros flancos de pesquisa e teorização abertos na mesma tese, e o livro restou, por assim dizer, como filho único, sem os benefícios de uma produção posterior que, no seu desenvolvimento, remetesse o leitor à matriz original. O título ia ser desastroso, e não parece fortuito que no contrato com a editora aparecesse inscrito e frisado junto ao mesmo que se tratava de um nome provisório, mas a inteligência aguda de Gabriel Cohn evitou o desastre: telefonou enquanto redigia o prefácio –  em um momento em que fazê-lo era comum – e disse “tenho um título para seu livro”.

O livro teve crítica favorável, embora a circulação comercial fosse modesta. Lembro com especial carinho uma mensagem elogiosa de Gildo Marçal Brandão atentando para as afinidades com seu pensamento e o estranhamento pelo fato de esse diálogo ter lhe passado desapercebido quando lera a tese (ele fez parte da banca junto com Evelina Dagnino, Gabriel Cohn, Marco Aurélio Nogueira e Lúcio Kowarick, quem a presidiou como meu orientador). A fortuna crítica não faz muita diferença para grandes editoras quando desacompanhada de vendas e, dez anos após a publicação, a editora Globo entrou em contado comigo propondo o distrato do título diante da “impossibilidade de seguirmos com a edição do livro” em função do crescimento da editora, em processo acelerado de ampliação do catálogo e do número de autores. Não era preciso ser muito perspicaz para perceber que os elementos expansão e restrição presentes na justificativa da proposta de distrato constituíam um enigma lógico. Este ano, antes de transcorrer mais um decênio, mas em desconfortável proximidade a 2024, digitalizei e tornei acessível o livro.

E sim, o estranhamento de Gildo tinha razão, era difícil reconhecer os argumentos do livro na tese de doutorado que, a despeito das melhores intenções de seu autor, foi composta de três partes pouco integradas, na melhor das hipóteses, ou francamente desconexas em leitura impiedosa. Gabriel, com seu humor memorável, arguiu a tese com três encadernações em mãos, desmembradas do volume original recebido, e iniciou sua intervenção indagando: “qual das três teses o senhor gostaria de discutir”. A “primeira tese” era teórica e nela procurei avançar o esquema analítico elaborado no mestrado e publicado no livro Estado, sociedad y medios – reivindicación de lo público (México, Plaza y Valdés, 1997); a terceira, era empírica, focada no associativismo em São Paulo com base nos bancos de dados da Fundação SEADE. O debate com a literatura local sobre associações e associativismo, mas não a analise empírica, teve circulação ampla mediante a reelaboração de algumas dessas páginas como balanço em “Sem Pena nem gloria: o debate da sociedade civil nos anos 1990” (Novos Estudos, 2003). Esse foi o primeiro texto de minha autoria com repercussões no campo de estudos da sociedade civil e da participação no Brasil. O flanco teórico foi transformado em diversos artigos que tiveram circulação bastante mais restrita. Minha trajetória continuou combinado desdobramentos dessa primeira e terceira partes, aquelas que dialogavam mais diretamente com a produção de Marco Aurélio e, sobretudo, de Evelina.

A segunda parte, dedicada ao pensamento social, e a única publicada como livro, examinou a caracterização do espaço público no pensamento social brasileiro. O propósito inicial do projeto de doutorado era realizar uma pesquisa comparativa da configuração do espaço público no México e no Brasil. Em princípio, a problematização conceitual desenvolvida na minha dissertação e reformulada na primeira parte da tese serviria de modelo para ensejar uma caracterização da configuração histórica do espaço público nos dois países, mas isso pressupunha tanto a existência de subsídios analíticos minimamente compatíveis com as exigências derivadas do modelo quanto a tradução e reespecificação das distinções analíticas propostas de modo a adequá-las às exigências da pesquisa empírica. Com muitas ambições, mas pouco método e domínio substantivo da história do Brasil, o projeto mostrou-se inviável, mas a recorrência de certos traços distintivos imputados ao espaço público na literatura nacional chamou minha atenção e dediquei a segunda parte a perseguir a origem ideacional desses traços e suas consequências cognitivas. Assim, a “segunda tese” de doutorado, aquela intitulada por Gabriel, centrou-se na reconstrução da gênese, cristalização e banalização da leitura dominante acerca da configuração do espaço público no país. A leitura é peculiar não apenas devido à reprodução de uma interpretação firmada na negação – na qual o “espaço público” é  privado ou simplesmente inexiste –, mas, sobretudo, devido à responsabilização da vida pública ou da população (sociabilidade, cultura política, índole, etc.) como fonte originária dos entraves que emperraram historicamente e continuaram a emperrar, ao longo do século XX, a edificação de um espaço público “verdadeiramente” moderno no país. Embora o espaço público admita caracterizações centradas nas instituições políticas e/ou nos pressupostos da circulação de ideias (mercado editorial, alfabetização, meios de comunicação de massa), por motivos que mereciam elucidação, a visão dominante do espaço público no Brasil atentava para a ausência ou precariedade da vida pública. A “arqueologia” desse diagnóstico levou a tese ao campo do pensamento social e concedeu centralidade ao debate sobre a identidade nacional. É decifrando as conexões constitutivas entre as caracterizações da vida pública e da identidade nacional, bem como mostrando seus efeitos e criticando a sua reprodução que o livro oferece uma resposta a essa indagação.

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