Modernismo movimento cultural: uma conversa | Parte 2

O blog da BVPS dá continuidade hoje a uma série de três publicações sobre o livro O modernismo como movimento cultural. Mário de Andrade, um aprendizado, de André Botelho (UFRJ e presidente da Anpocs) e Maurício Hoelz (UFRRJ), que está sendo lançado este mês pela Editora Vozes. Resultado de mais de uma década de pesquisas dos autores, na obra as relações entre modernismo e democracia são revistas. Mário de Andrade emerge como um autor muito mais complexo, que fez parte do seu tempo, mas também lutou contra ele, contra a sociedade desigual, elitista e eurocêntrica que persiste ainda hoje no Brasil. Para ler o resumo e o sumário do livro, basta clicar aqui.

Hoje trazemos uma resenha assinada por Carmen Felgueiras, professora de sociologia da UFF, que destaca o uso da noção de “movimento cultural” na obra, além de colocá-la em diálogo com outras leituras sobre Mário de Andrade e o modernismo. Na sexta-feira publicaremos um ensaio visual da artista Joana Lavôr, que assina a arte da capa do livro e também a imagem que abre este post. A primeira postagem da conversa, publicada segunda-feira, apresentou o posfácio escrito por Andre Bittencourt (UFRJ e editor do blog da BVPS), que pode ser conferido aqui.

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Boa leitura!

O moto contínuo modernista. Democracia, diversidade e cosmopolitismo, um aprendizado

por Carmen Felgueiras

É fato notório que André Botelho e Maurício Hoelz têm se destacado na cena intelectual contemporânea com estudos de referência sobre o modernismo brasileiro. Há tempos que eles vêm consolidando uma considerável produção acadêmica sobre o tema e sobre um de seus principais expoentes, Mário de Andrade, abordando os múltiplos aspectos de sua obra. Com isso, um amplo leque de questões foi desenvolvido, quer individualmente quer em parceria, ao longo de mais de uma década em livros, artigos, teses e conferências. Incluídos neste vasto repertório constam como objeto de análise biografia, catolicismo, viagens, arte, cultura popular e erudita, sensibilidade etnográfica, diálogo epistolar, identidade nacional e brasilidade, cosmopolitismo e diferença local, democracia e diversidade, dentre muitos outros. Agora, com Modernismo como movimento cultural. Mário de Andrade, um aprendizado, ambos realizam um balanço das ideias desenvolvidas, permitindo, inclusive, que se percebam linhas de continuidade e de deslocamentos temáticos com relação aos seus trabalhos anteriores.

Nos breves comentários que se seguem, busco dar destaque à ideia de que o percurso intelectual enfim executado no livro é o da passagem da tópica das relações de Mário com o Estado Novo, ou mesmo da que o circunscreve ao evento da Semana de 22, àquelas do movimento cultural e das relações entre cultura subjetiva e cultura objetiva. Pelo que se observa da sucessão das suas publicações, também é possível concluir que houve uma progressiva convergência das questões que, antes dispersas, passaram a integrar e encontrar seus nexos explicativos no tema do movimento cultural.

Aliás, o termo “movimento cultural” não se limita, obviamente, ao modernismo, e por isto sua ausência na explicação de “movimentos [que] visam claramente à promoção de mudanças em crenças, credos, valores, normas, símbolos e padrões de vida cotidiana, como é o caso, por exemplo, dos movimentos beatnik ou punk (…)confundindo-se, antes, com as posições mais gerais sobre o papel da cultura na vida social” não deixa de surpreender os autores.

Se os motivos dessa ausência foram examinados e passaram a ser conhecidos, seja pela vertente idealista, em que as normas culturais têm precedência na constituição da ordem, tornando o cultural e o social equivalentes, seja pela vertente materialista, em que as dinâmicas culturais estão subordinadas às sociais, não importando distingui-las, interessa a Botelho e Hoelz sobretudo fundamentar sociologicamente a proposta de explicação dos movimentos que visam mudanças como movimentos culturais. Esse mergulho teórico, antes que mero preciosismo acadêmico, mostra-se fundamental no sentido de conferir consistência e permanência ao projeto, ampliando o alcance de seus resultados e permitindo uma intervenção qualificada nos debates do presente. Assim, dentre outros, os trabalhos de Jeffrey Alexander, particularmente The civil sphere e Performance and power, lhes são úteis no sentido de estabelecer os parâmetros para as diferenças e semelhanças entre os movimentos culturais e os sociais.

De acordo com Alexander, a esfera civil contém componentes institucionais, culturais e simbólicos dos quais os movimentos sociais lançam mão na sua tarefa de articulação e de tradução das demandas sociais por meio de suas “performances”. O ponto de contato com a concepção de movimento cultural proposta por Botelho e Hoelz está em que tanto a dimensão do conflito se insere nesta esfera civil, quanto a cultura é ali mobilizada “a fim de legitimar, desqualificar ou reprimir certas demandas por direitos”, ou, no caso do modernismo e de Mário de Andrade, de projetos e propostas.

Contudo, se os movimentos sociais não podem abrir mão das dimensões culturais e simbólicas da vida social, os movimentos culturais possuem especificidades que também não podem deixar de ser assinaladas. Uma delas está na sua duração. Os movimentos culturais são da ordem do processo social e não do evento. Daí afirmarem que “o sentido do modernismo como ‘movimento cultural’ em Mário de Andrade não apenas não se reduz aos embates de renovação estética, que podem ser, porém, seu vezo próprio de realização, como também é dependente da interação com outras forças e portadores sociais de diferentes gerações. Suas ações coletivas seriam da ordem do processo, não se extinguindo na conjuntura”. A outra está em sua amplitude. Na negociação com o Estado, o movimento cultural busca empreender uma mudança na matriz cultural da sociedade que resulta “incompatível com o emprego dos meios de exercício do poder estatal”, voltada para fins pontuais e pragmáticos.

Do ponto de vista das semelhanças, tanto os movimentos sociais como os culturais implicam na transformação dos atores envolvidos; no caso em tela, na formação de um self modernista, posto que “ligam-se a um conjunto de redefinições na formação das identidades dos indivíduos nas sociedades modernas, nas formas de comunicação e na própria definição da cultura”. Ambos movimentos também envolvem “confronto e política”, assim como permitem a compreensão da direção da mudança na medida em que “condensam os limites e as oportunidades impostos pelos processos mais gerais de mudança social para a alteração das autocompreensões societais, isto é, para as imagens que circulam sobre a sociedade e orientam as forças sociais e políticas em disputa”. Ou seja, orientam a redefinição dos significados culturais, mas não os controlam, vide, por exemplo, “a domesticação do modernismo brasileiro pelo paradigma da identidade nacional quanto seu efeito de naturalização de uma ideia de cultura brasileira”.

A propósito, justamente sobre esses temas, todo um capítulo, o quarto, é dedicado a mostrar como Mário de Andrade se empenhou por desembaraçar sua obra maior, Macunaíma, da Antropofagia de Oswald de Andrade. Aqui também, as intervenções de Mário ganham inteligibilidade na ideia de movimento. Se o Manifesto Antropófago pretende resgatar “a partir do que denomina ‘instinto bárbaro de devoração’ a suposta originalidade nativa de modo a criar novas formas de vida e expressões culturais conformadoras da nação”, Mário aposta “antes, num sentindo aberto e inacabado de suas criações e ideias” com evidente repercussão sobre as concepções estabelecidas acerca da existência de uma identidade nacional.

Vemos então lançadas as bases do argumento que constituiria o principal ponto de inflexão das pesquisas e denotativo do que este livro representa no conjunto das produções dos autores, servindo para distingui-los do mainstream interpretativo sobre Mário e sobre o modernismo. Assim, conceber Mário de Andrade como movimento tanto o libertaria de uma restrição ao tema da identidade nacional como, consequentemente, da apreciação de sua obra por meio do vínculo com a ditadura varguista. Estariam abertas, então, as vias para outros desenvolvimentos, mais finos, mais sofisticados, sobre ele.

Contudo, antes de prosseguir nesta direção, convém, em função da sua importância, que nos detenhamos um pouco na argumentação dos autores acerca da associação de Mário com o Estado Novo, tema especialmente tratado no quinto capítulo, em que discutem “a difícil democratização da cultura brasileira”. Em síntese:

“Costuma-se ainda, partir desse aspecto de sua trajetória [a atuação de Mário de Andrade nas políticas públicas de cultura junto ao Ministério da Educação e Saúde Pública de Gustavo Capanema] para inferir uma suposta convergência de suas ideias sobre temas mais amplos, como identidade nacional, cultura brasileira e brasilidade, com o sentido oficial que elas assumiram para o Estado.”

Coerentes com o esforço analítico empreendido, essa associação ou convergência de ideias, antes de ser sumariamente descartada por Botelho e Hoelz, passa pelo exame das duas posições estabelecidas sobre as relações entre Mário de Andrade e a política e que, segundo eles, “são representativas e mesmo emblemáticas do debate sobre as relações entre intelectuais e Estado Novo, em geral”.

Em Mário de Andrade: a invenção do moderno intelectual brasileiro, Sérgio Miceli explica o itinerário de Mário “pelas ‘escolhas’ partidárias e ideológicas, pelas alianças com lideranças antivarguistas, pelo mandato político na prefeitura de Fábio Prado, enfim pelo surto febril da atividade cultural na emergente metrópole paulista: imprensa competitiva, editoras de porte, embrião de mercado de arte, espaços impulsionadores de iniciativas de risco”.

Já Helena Bomeny, em Um poeta na política: Mário de Andrade, paixão e compromisso, “aponta as afinidades entre o trabalho dos intelectuais sobre ‘identidade nacional’ e ‘cultura brasileira’ e o lugar central que essas tópicas assumiam na própria reordenação do Estado e na nacionalização da sociedade brasileira então em curso”. Ou seja, a autora inverteria a direção da análise ao mostrar um contexto de conflito e de dependência mútua entre o Estado e seus quadros intelectuais, permitindo então, dizem eles, “que se reconheça os limites de uma explicação sobre a participação dos intelectuais em termos de ‘cooptação’ por parte do Estado”, como é o caso da visão de Miceli.

Como é fato que nenhuma ditadura perdura sem o recurso à hegemonia, Botelho e Hoelz reconhecem que “no contexto de exceção, de restrição às liberdades civis e políticas, de repressão policial da ditadura Vargas, (…) criações e conquistas modernistas iam sendo, pari passu, apropriadas, transformadas e ressignificadas em clichês e produtos de brasilidade na então nascente indústria cultural”, que acabaram por limitar “tanto à democratização dos bens culturais quanto à afirmação da cultura como parte de um processo de democratização mais amplo, da sociedade e do Estado”.

Por outro lado, mais que uma relação “funcional” entre intelectuais e Estado – afinal, em um país em que a sociedade civil era, em termos gramscianos, “primitiva e gelatinosa”, ou ainda, em termos andradianos, “mole e indecisa”, não havia outra alternativa de participação dos intelectuais e de seus projetos de construção da nação que não fosse o Estado – o que estava em jogo, o que era preciso salvaguardar, desde a perspectivas daqueles intelectuais, era o protagonismo da agenda democratizante do movimento, capaz de, apesar da correlação de forças desfavorável, impor certos limites ao autoritarismo estatal, como o demonstra a atuação do ministério Capanema.

Em suma, embora os limites institucionais de participação dos intelectuais e a dinâmica própria das ditaduras tenham colocado dilemas praticamente insuperáveis àquela geração, e que serão vividos subjetivamente como derrota por Mário de Andrade, a convergência entre este último e o Estado Novo é francamente rejeitada pelos autores. Trata-se, portanto, de recontextualizar a questão a partir da agenda do modernismo como movimento cultural em que tanto relações sociais pretéritas quanto “experimentações democratizantes da cultura já forjadas e testadas em momento anterior” dariam o real sentido da participação de Mário e de outros participantes do movimento.

 “Diante da interrupção da formação de uma sociedade civil e em face de um novo controle autoritário da mudança cultural e social, o sentido de uma série de políticas públicas postas em curso se altera drasticamente. Mas suas ações institucionais buscam ao menos preservar um sentido mais aberto, inclusivo e dinâmico de cultura”.

Uma vez liberado da tópica do Estado Novo, o modernismo como movimento cultural permite, ou melhor, exige, portanto, articulações mais finas, como, por exemplo, o exame das possibilidades de ação do indivíduo Mário de Andrade, que requer a análise de “um sujeito lançado ao fluxo de forças contrapostas entre a sua subjetividade individual e a objetividade da vida em sociedade”. Nesse sentido, o entendimento do modernismo como movimento desestabiliza concepções fixadas em torno de ideias de êxito ou fracasso, ou em torno de definições de identidades coletivas pensadas como “puras” ou “autênticas”. Como dizem, “o percurso, a presença altera contextos e subjetividades.”

Essa relação entre subjetividade e objetividade, que tem em Simmel a sua principal referência, é examinada por Botelho e Hoelz em dois capítulos; sugestivamente, o primeiro e o último. No primeiro, encontra-se a análise da automodelagem de Mário de Andrade como líder de um movimento cultural. A ideia do modernismo como movimento joga luz sobre o peso das questões subjetivas sobre a permanência e a efemeridade de sua obra como também sobre a importância do catolicismo de Mário neste processo de “sacralizar sua entrega à causa modernista”. Evidencia o quanto de sacrifício sua militância na imprensa musical lhe impõe, e que são “sentidas ambiguamente como estratégicas para a causa modernista de mudança cultural brasileira”, mas que lhe tomavam o tempo para a “formulação de uma obra mais integrada, teoricamente sistemática, acabada”.

No 7º e último capítulo, “O self modernista”, essa automodelagem no sentido da construção desse “eu” se aproxima à tópica da “juventude” “como uma espécie de aposta permanente e renovada para realização, no tempo, das promessas modernistas”. Trata-se, aqui, como dizem, de uma relação contingente entre a mudança cultural na sociedade e a modificação dos indivíduos que se forjam como atores políticos.

Logo de início, Modernismo como movimento cultural incumbe-se da tarefa infausta de colocar Mário em sincronia com os tempos atuais, dado que o espectro do autoritarismo vivido por ele volta a nos assombrar. Os problemas permanecem: junto à crise da democracia, está a decepção do retorno dos nacionalismos. Diante desse cenário, a pergunta mais que pertinente do livro: o que Mário teria a nos dizer, além do sentimento de derrota por ter sido o projeto modernista apropriado pela ditadura varguista?

Embora “a consagração de um autor ou mesmo de um movimento cultural nem sempre [signifique] exatamente a realização dos seus ideais”, é previsível que encontremos nas palavras do próprio Mário a resposta à pergunta enunciada acima: “Eu creio que os modernistas da Semana de Arte Moderna não devemos servir de exemplo a ninguém. Mas podemos servir de lição”.

Assim, para André Botelho e Maurício Hoelz, a resposta estaria em ver “o ‘moto contínuo’ do modernismo como um movimento que agencia por meio da cultura e da juventude um paciente aprendizado social”. Afinal, é do aprendizado social da democracia que se trata. Democracia, diversidade, cosmopolitismo, estes são alguns dos princípios compartilhados pelos autores do livro com Mário e que constituem o modernismo como movimento cultural. É o que também permite percebê-los, o modernismo e seus intelectuais, através da agenda de mudança cultural e da análise da sociedade brasileira que alguns deles – os conflitos, como já vimos, não foram omitidos – promovem, sobretudo Mário. “Isso implica discuti-lo como um modo de ação coletiva ao menos de início fracamente institucionalizado, que busca produzir mudanças de ordem cultural no conjunto da sociedade”.

Por fim, ficará patente aos seus leitores que escapa aos propósitos deste livro rediscutir o longo e complexo processo de legitimação do modernismo, objeto da contenda que corre pelas colunas dos jornais e pelos suplementos literários por ocasião das comemorações pelos 100 anos da semana. Contudo, a análise do modernismo e de Mário como movimento cultural nos dá os referenciais e os instrumentos analíticos para uma intervenção pontual e bastante breve neste debate.

Dentre vários, alguns pontos se destacam nesta disputa. Em um deles, por exemplo, percebe-se que Mário e os modernistas em geral são como que responsabilizados pelo seu legado e pelo uso que gerações posteriores fizeram dele. Se a “cooptação” da Semana, não mais dos seus intelectuais, pela ditadura militar, não apresenta muita novidade em seus propósitos, em relação ao que já havia acontecido em 30, a crítica introduz novos atores no contexto. Neste caso, os vínculos do modernismo com o Estado estariam associados ao esforço de intelectuais paulistas em patrimonializar aquele legado. Junto a isso, intui-se um certo tom de denúncia velada, provavelmente dos interesses envolvidos nos processos de aquisição de coleções modernistas – como é sabido, em finais da década de 60, a Universidade de São Paulo adquiriu a coleção de artes visuais de Mário de Andrade, além do arquivo pessoal do escritor e de sua biblioteca – praticamente em sua totalidade patrocinados pelo poder público, assim como da valorização das obras modernistas no mercado de arte. Não seria então o caso de contra-argumentar, recorrendo ao que dizem os autores, quando mostram a contradição entre tais processos e o “conceito andradiano de tradição móvel” e seu foco nas criações populares anônimas? Distinguindo-as das práticas de preservação ocidentais, estas criações são “processos culturais dinâmicos […] dotados, em sua visão, de uma dinâmica de desenvolvimento e transformação que tensiona ideias de identidade estáticas e autênticas”. Neste sentido, uma vez que não existiria algo como uma identidade modernista a ser preservada, o objeto da crítica revela-se uma miragem. Além disso, como fica suficientemente demonstrado no livro, não caberia ao modernismo, em sua vertente democrática, e muito menos a Mário, a pecha de movimento ufanista que se lhe associaram desde 1930 e se que consolida na década de 1970 com a disputa pelo seu legado entre a ditadura militar e a intelectualidade de esquerda de então, sobretudo quando comandada por interesses comerciais.

Em segundo lugar, poderia ser mencionada a crítica que remete antes aos vícios que às virtudes pessoais e intelectuais dos participantes da semana. Também neste viés estariam as críticas daqueles que acusam os modernistas de não terem respeitado os lugares de fala “dos indivíduos de cujas tradições e história se apropriaram” (remeto aqui ao artigo de Luiz Armando Bagolin na Folha de São Paulo). Percebe-se que a perspectiva dos comentários mais ásperos, quer os baseados em argumentos factuais quer naquelas objeções fundamentadas em questões identitárias, incorrem em limitações e em anacronismos, respectivamente. Ao fim e ao cabo, trata-se de críticas fundadas no pertencimento de classe dos participantes do movimento que, por constituírem-se em um evidente julgamento moral, acabam lhes atribuindo sinais de cinismo e má-fé, ao apontar as contradições entre suas ideias e ações. Assim, por exemplo, a tentativa modernista de incorporar a tradição é explicada de forma automática como compromisso de classe, sem que se considere qualquer possibilidade de autonomia estética, nem que elementos formais e temáticos da estética tradicional tenham sido recontextualizados neste movimento, conforme indicam Botelho e Hoelz, redefinindo o debate acerca do caráter moderno das obras dos nossos modernistas para além das propostas de renovação restrita do domínio artístico e ampliando enormemente o seu escopo. Mesmo que a própria tentativa de produzir uma “ruptura com o que entendiam ser a cultura brasileira hegemônica e [de] reorientar não apenas seu significado histórico, a inteligibilidade do que afirmavam como ‘novo’/‘moderno’ e ‘velho’/‘atrasado’, mas os seus rumos em curto e médio alcances” tenha sido repensada a todo o instante. Por este motivo, é com Mário que temos que concluir esses brevíssimos comentários ao Modernismo como movimento cultural: “Que me importa que a minha obra não fique? É uma vaidade idiota pensar em ficar, principalmente quando não se sente dentro do corpo aquela fatalidade inelutável que move a mão dos gênios. O importante não é ficar, é viver. Eu vivo.”

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