Simpósio | 22: Projetos para o Brasil (IV)

O Blog da BVPS publica hoje o quarto e último post do simpósio 22: Projetos para o Brasil, uma parceria com o GT de Pensamento Social no Brasil da Anpocs e o Suplemento Pernambuco. Às vésperas do bicentenário da Independência política do Brasil e do centenário da Semana de Arte Moderna de São Paulo procuramos propor reflexões, a partir dos desafios do presente, sobre esses dois eventos/processos que marcam a história política e cultural do país.

Enviamos 4 perguntas propondo relações sobre os temas centrais do ano que vem a profissionais de diferentes áreas, regiões do país e instituições. As 28 respostas recebidas – de um conjunto maior de convites realizados – foram publicadas em 4 grupos durante esta semana, de terça até sexta-feira. A organização é de Andre Bittencourt (Blog da BVPS), Maurício Hoelz (GT de Pensamento Social da Anpocs) e Schneider Carpeggiani (Suplemento Pernambuco)

Para ler a apresentação escrita pelos coordenadores do simpósio basta clicar aqui, as respostas do primeiro e do segundo post podem ser encontradas aqui e aqui. Para acompanhar as atualizações do Blog, siga nossas páginas no Instagram e no Facebook.

Hoje teremos como convidadas/os:

Elide Rugai Bastos, professora titular do Departamento de Sociologia da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Autora, entre outros, de As criaturas de Prometeu (2006).

Carmen Felgueiras, professora do Departamento de Sociologia e Metodologia das Ciências Sociais da Universidade Federal Fluminense (UFF). Autora, entre outros, de Pouco mais do que uma viagem de turismo’: as viagens de juventude de Celso Furtado (2021).

Ana Lúcia de Freitas Teixeira, professora do Departamento de Sociologia da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). É vice-presidente do Research Committee 37 (Sociology of Arts) da International Sociological Association (ISA). Autora, entre outros, Literatura e conhecimento sociológico (2018).

Grazielle Albuquerque, jornalista e doutora em Ciência Política pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Autora, entre outros, de “O Judiciário na crise política: os ‘recados’ públicos do Supremo Tribunal Federal” (2018).

Antonio Nobrega, violinista nascido no Recife em 1952. Agitador cultural com atuação na música e artes cênicas, foi um dos integrantes do Quinteto Armorial e é fundador do Instituto Brincante, entre outras iniciativas. Autor de “Madeira Que Cupim Não Rói” (1997), entre outros.

Alexandre Macchione Saes, professor de economia da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da Universidade de São Paulo (FEA/USP). Foi presidente da Associação Brasileira de Pesquisadores em História Econômica (2015-2017). Autor, entre outros, de Conflitos do Capital (2010).

Antonio Herculano Lopes, pesquisador em história da Fundação Casa de Rui Barbosa. Autor, entre outros, de Religião e performance ou as performances das religiões brasileiras (2007).

Alfredo Cesar Melo, professor de literatura do Departamento de Teoria Literária da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). É o atual assessor de Relações Internacionais da UNICAMP. Autor, entre outros, de Desenvolvimento combinado e desigual: por uma nova teoria da literatura-mundial  (org.) (2020).


1. Em 2022 completa-se o bicentenário da Independência brasileira e o centenário da Semana de Arte Moderna, marco simbólico do modernismo. Como você relacionaria esses dois eventos/processos?

Elide Rugai Bastos: Pensar as duas datas em conjunto é uma excelente provocação. Em 1922, quando a crise do pacto oligárquico levava a que essa aliança tivesse os dias contados, a adequação das instituições políticas vigentes à realidade brasileira era fortemente questionada. Nessa direção, Vicente Licínio Cardoso propôs um inquérito ao qual responderam políticos e analistas da sociedade brasileira: Oliveira Vianna, Gilberto Amado, Pontes de Miranda, Ronald de Carvalho, Tristão de Ataíde, entre outros. Problemas importantes foram apontados, mas dois deles ganharam centralidade: a necessidade de adaptação das instituições à situação do país e a urgência de um diagnóstico sobre a população brasileira. Na mesma data, a Semana de Arte Moderna, que traduzia um debate sobre o modernismo, se colocou como o produto da inquietação sobre a forte crise e repôs de outro modo a questão da urgência de um diagnóstico sociocultural, apontando não só o desconhecimento como o desprezo sobre a diversidade da população nacional e a legitimidade das diferenças culturais regionais, estas assentadas nas questões locais. Assim, pesquisa sobre língua, costumes, atitudes, valores diferenciados denunciaram a representação da homogeneidade da população adotada politicamente. Cem anos depois as questões persistem, com grande profundidade e amplitude, o que nos obriga a refletir se há um fracasso do aprendizado social no Brasil, uma vez que repetidamente retrocessos democráticos acontecem cotidianamente.

Carmen Felgueiras: A correlação mais óbvia a ser feita entre a proclamação da Independência e a Semana de 22 consiste no fato de que ambas as efemérides têm sido consideradas como momentos significativos dos processos de emancipação política e cultural do país frente às ingerências e influências externas. Contudo, na medida em que um e outro evento são integrados no discurso historiográfico oficial como etapas da construção e da afirmação da nacionalidade, caberia levar em conta os problemas correlatos ao processo de patrimonialização desses símbolos, cuja suposta autenticidade seria capaz de dar consistência à “crença nacionalista na realidade da nação”, como nos diz José Reginaldo Gonçalves em A Retórica da Perda. Ou seja, uma vez que se trata de construtos sociais, não há como recuperar o sentido original ou verdadeiro de cada evento, mas cabe interpretá-los à luz dos valores do presente.

Ana Lúcia de Freitas Teixeira: Eu abriria espaço para que a poesia de Oswald de Andrade surgisse como engate lírico entre os dois acontecimentos, privilegiando em sua obra o livro-poema Pau-Brasil. O célebre trecho de Paulo Prado, prefaciador do livro, afirma que “A poesia ‘pau-brasil’ é, entre nós, o primeiro esforço organizado para a libertação do verso brasileiro. Na mocidade culta e ardente de nossos dias, já outros iniciaram, com escândalo e sucesso, a campanha de liberdade e de arte pura e viva, que é a condição indispensável para a existência de uma literatura nacional.” Paulo Prado nos abre caminho para pensar a obra Pau-Brasil a partir da insígnia da juventude, marca indelével dos inícios de novos projetos. O movimento da Independência, ainda que realizado sem grande transformação do status quo, abre espaço para que a nação possa enfim ser pensada como autônoma, capaz de criar e enfrentar suas próprias questões, amadurecida para se haver com suas próprias disputas internas. A Semana de Arte Moderna de 1922 surge, um século mais tarde, como amadurecimento de expressões culturais que a antecederam e gestaram o processo de autonomização que o cânone literário brasileiro tão solidamente sedimentou. Assim, é nessa dupla caracterização que, a meu ver, podemos aproximar esses dois momentos: pela jovialidade e pela autonomia que caracterizam os começos.

Grazielle Albuquerque: Antropofagia me parece ser um termo muito assertivo para nos conduzir em uma relação entre o período da Semana de Arte Moderna e os tempos atuais. Afinal, o que acontece no Brasil de hoje? A sensação que tenho é de que o Brasil está comendo a própria carne, seja pelo ressentimento que impulsionou uma parte da população a uma nostalgia fantasiosa, seja pela erupção de uma série de questões que ficaram embaixo do tapete por muito tempo, contestações sociais que não podem mais ser escondidas. É um expurgo. Talvez, ao lado de antropofagia, essa seja a palavra que melhor defina. E o contrário do expurgo é a delicadeza, porque é ela que nos permite alguma dúvida, algum interesse genuíno pelo outro e, portanto, nos dá a possibilidade de diálogo. Eu quero crer que o Brasil que se come encontre um tempo para se olhar, mesmo que isso só ocorra quando já estivermos exaustos.  

Falo isso porque um dos papéis da Semana de Arte Moderna foi também o de fazer o país, ou pelo menos uma parte dele, olhar para si com curiosidade e deleite, mudando inclusive uma compreensão sobre beleza e símbolos nacionais. O que é o Abaporu? A estranheza virando o belo. O que são os quadros do Portinari? O Mestiço, O Café, Os Retirantes… É a elegância para mostrar a força dos corpos sem evasivas. O que estou dizendo é que a Semana de Arte Moderna, ao propor que o Brasil “se come-se”, também propiciou um encontro. E essa é uma imagem muito bonita que, inclusive, nos remete a algo libidinal, pela via da pulsão que depois serena.

Se voltarmos mais um pouco no tempo, para o 1822 de Independência, ali acho que o movimento é outro, o de propor uma ruptura meio farsesca. A frase de Dom João VI para Dom Pedro I é exemplar desse movimento: “Pedro, se o Brasil se separar, antes seja para ti, que me hás de respeitar, que para algum desses aventureiros”. Nossa travessia em busca da Independência foi pactuada e, em muitos aspectos, todo esse processo histórico tanto nos deu uma ideia fantasiosa da nossa história como foi acomodando tensões, por vezes numa acomodação violenta. Um dia isso tudo explode. Acho que agora estamos em um desses momentos.

Fato é que, pensando no Brasil de hoje, vejo mesmo é essa relação com a antropofagia, ainda que com diferenças históricas a serem pontuadas. Uma delas é que a atual “antropofagia” brasileira está na rua, é cotidiana. Nosso expurgo, inclusive, tem uma ideia de Justiça ligada aos desejos, e não à lei. Não conversamos mais com quem não concordamos. É fácil bloquear, não ir, cancelar.Então, ao mesmo tempo em que cada grupo quer tudo à sua maneira e isso acaba explodindo, como estamos vendo, o movimento sequente ao expurgo está interrompido porque não há encontro. É quase infantil e, embora se possa ver isso na arte, é claro, isso está sobretudo em uma manifestação cotidiana. Está nas fantasias que se compram e vestem (um juiz-herói, um presidente “mito”), na idealização de que exista um mundo on demand de acordo com os meus critérios. Nosso expurgo ainda não permite que olhemos o outro. Nesse sentido, a Semana de Arte Moderna talvez pudesse nos servir de inspiração para uma pulsão mais honesta que se interesse, inclusive, pelas “imperfeições” e pare de idealizar a história.

Antonio Nobrega: Ambos deveriam representar momentos de ruptura. Rupturas política e cultural. Se no plano do simbólico esse ideal dá pinta de ter sido atingido, no terreiro da realidade as rupturas imprescindíveis me parecem longe de serem efetivadas. O país do futuro continua na enorme lista de espera Brasil…  Teríamos de, pelo menos, ter avançado no sentido da dissolução do fosso entre os dois brasis. Não conseguimos abrir artérias de comunicação entre a periferia e o centro tanto no plano socioeconômico quanto no cultural. A Independência política de 1822 parece ainda não ter trazido nossa real independência. No plano cultural o Brasil oficial não conseguiu entender o Brasil das margens. O folclorizam…

Alexandre Macchione Saes: Tenho coordenado o Projeto 3 vezes 22, sediado na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, desde 2017. O projeto partiu justamente da proposta de realizarmos o entrecruzamento das datas do bicentenário da Independência, do centenário da Semana de Arte Moderna e da dimensão do futuro presente na data de 2022. Assim nasceu o 3 vezes 22: 1822-1922-2022.

Conforme a síntese dos princípios que nos guiaram em todas as atividades: “Ao completar o bicentenário da Independência e o centenário da Semana de Arte Moderna no ano de 2022, abre-se oportunidade para refletir e redimensionar a história da nossa formação – do Estado e da Sociedade, assim como da cultura histórica brasileira. O projeto 3 vezes 22 não é a celebração de duas datas canônicas, mas sim uma tentativa de entrecruzar as temporalidades da Independência (1822), do Modernismo (1922) e da história do nosso tempo presente (2022). A reflexão crítica mediada pelos desafios do presente contempla o legado deixado pelas narrativas sobre o movimento modernista e os projetos de construção da nação”. Foi assim que constituímos o Portal 3×22 [https://3×22.bbm.usp.br/], onde é possível encontrar boletins com matérias e entrevistas que exploram temáticas centrais extraídas do confronto das três temporalidades; kits didáticos que oferecem material para debater temas que não estão presentes nos currículos de Ensino Médio e Fundamental; as publicações resultantes de pesquisas e eventos realizados pela BBM; e, ainda, vídeos e o histórico de eventos realizados ao longo dos últimos anos.

Antonio Herculano Lopes: A relação mais evidente entre a Independência brasileira em 1822, ocorrida no bojo da constituição dos modernos Estados-nações, e o movimento modernista de 1922 é que este pretendeu ser uma verdadeira refundação do país. Na visão modernista, se uma independência formal e política fora conquistada com o grito do Ipiranga, o Brasil prosseguira culturalmente caudatário da Europa. O que de fato impossibilitara o século XIX de pensar a novel nação com as lentes do Romantismo alemão (um povo, uma língua, uma cultura) fora a escravidão, fator estruturante do Estado, que deixava, desde logo, juridicamente fora das aspirações por cidadania algo como a metade da população. Intelectuais e artistas oitocentistas conceberam a ideia de brasilidade por uma dupla pertença: à terra, a que se ligavam pelo afeto, e à cultura ocidental, ligados pelo espírito, na famosa formulação de Nabuco. A geração de Sílvio Romero promoveu um início de inversão dessa lógica, buscando por fim identificar um “povo”, para chamar de seu e dar cara à nação. A cultura popular urbana carioca teve importante papel nesse processo. O modernismo de 1922 se beneficiou da inversão, a que acrescentou o encantamento pelo primitivo das vanguardas científicas e artísticas europeias – em interessante contraste com a ambição nacionalista do projeto. Ambos movimentos (1822 e 1922) foram modernos nos parâmetros de seus tempos; ambos tiveram limites dados pelas condições de possibilidades da sociedade brasileira. Se entre os dois momentos foi visível o alargamento da concepção de povo (sempre pensado no singular), permaneceu forte no entanto a dificuldade de intelectuais e artistas de pensar um protagonismo popular num ambiente cultural ainda marcado pelo patriarcalismo. O apagamento ou idealização dos nossos Outros internos e o amplo uso das representações ambíguas continuaram a ser estratégias culturais de ocultamento das relações de poder.

Alfredo Cesar Melo: A coincidência gerada pelas datas redondas que se cruzam no calendário das efemérides nacionais (100 anos Semana de Arte Moderna, 200 anos de Independência do Brasil) acaba nos convidando a fazer balanços gerais acerca do significado de tais eventos históricos, além de estabelecer possíveis conexões entre as datas destacadas. O importante é reconhecer as inúmeras mediações institucionais que fabricam – ao mesmo tempo em que também naturalizam – o calendário das comemorações/reflexões da vida nacional. Identificar 1922 com a Semana de Arte Moderna parece, para muitos de nós, algo extremamente óbvio e intuitivo, de um jeito que não funciona para acontecimentos igualmente essenciais na construção do Brasil moderno, como a fundação do Partido Comunista Brasileiro ou a Revolta dos 18 do Forte de Copacabana. Que a Semana de Arte ganhe um destaque maior que outros eventos, e esteja em alinhamento com a reflexão sobre Independência política do Brasil, ocorrida em 1822, já indica a relação figural muitas vezes estabelecida entre os dois marcos históricos, assim concebidos pela memória nacional. A interpretação figural, segundo Erich Auerbach, estabeleceria a conexão entre dois eventos históricos e reais, como se o primeiro fosse a antecipação do segundo, ou o último representasse a realização plena (tal como o cumprimento de uma profecia) do primeiro. Se analisarmos com cuidado a conferência de Mário de Andrade, na ocasião dos 20 anos de Semana de Arte Moderna, no Itamaraty, em 1942, veremos que o papa do modernismo posiciona a Semana nas duas pontas da interpretação figural: ora é antecipadora da Revolução de 1930, ora completa a Independência do Brasil (pois liberta a inteligência nacional), iniciada pelo ímpeto dos “românticos da Inconfidência”. Depois essa interpretação figural será refinada analiticamente pela obra de Antonio Candido, que também fará a ligação entre os dois períodos como pertencentes a um movimento formativo do país. A grande questão a ser esboçada é: podemos sair da interpretação figural quando nos referimos a essas datas? Ou ela é mais ou menos inescapável quando lidamos com os artefatos da memória nacional?

2 – Quais realizações desses movimentos na política, na cultura e na sociedade brasileira devem ser comemoradas ou questionadas?

Elide Rugai Bastos: Sobre a Independência é importante lembrar que, diferentemente de outros países latino-americanos, no Brasil, com a independência, não se efetuou um real rompimento com a subserviência colonial. Na Argentina, por exemplo, a questão republicana se colocou como um princípio, o que permitiu, certamente com limites à sua realização, colocar-se o princípio dos direitos. Embora essa aspiração estivesse presente em parte da população brasileira, ela não se traduziu politicamente, sendo exemplar o fato de que os debates sobre novas leis de direcionamento nacional foram abortados, e a constituição de 1824 outorgada. É claro que direitos e privilégios se colocavam de modo desigual para escravos, negros libertos, brancos brasileiros e portugueses. Essa desigualdade, mesmo se levarmos em questão somente a cor, continua presente 200 anos depois. No entanto, tivemos evidentemente vantagens no processo de separação da metrópole, entre as quais destaco o debate sobre os limites da liberdade alcançada e, principalmente, a intenção libertária que dirigiu os movimentos populares que se seguiram a essa data, embora derrotados. A Semana de Arte Moderna reuniu intelectuais e grupos que só formalmente apresentavam projetos comuns. No desenrolar do processo vemos, por exemplo, no Movimento Verde-Amarelo, uma visão nativista que se desdobra em autoritarismo, e que marcará fortemente a política cultural. Na intenção primeira, principalmente se nos aproximarmos dos escritos de Mário de Andrade, a valorização da cultura popular significa respeito pelo outro, reconhecimento de seu lugar social, o que caracteriza marca democrática indiscutível. Isso se traduz em conflitos, debates, disputas que não se fecham nas fronteiras da arte ou da literatura, mas alcançam a esfera política. Esse traço mostra o alcance e a importância do movimento modernista e este é um excelente momento para o discutirmos além das fronteiras restritivas a que muitas interpretações o limitaram. Principalmente, trata-se de ocasião de analisar seu importante papel em várias regiões do país, ultrapassando a limitação da participação de intelectuais somente do Rio de Janeiro e de São Paulo.

Carmen Felgueiras: Se tomarmos como critério de avaliação a medida da participação de cada evento para a inclusão das parcelas da população até então subalternizadas nas dimensões políticas, culturais e societárias da cidadania, houve tanto o que comemorar como o que questionar. Sobre 1822, por exemplo, comemorou-se o sentimento de dignidade e soberania repercutidos por gerações, assim como, por muito tempo, sobretudo nos governos autoritários da República, foram obscurecidas e mesmo questionadas a importância das revoltas havidas desde o período colonial, que visavam ampliar a participação popular.  Ou seja, aquelas de cunho republicano e democratizante, como, por exemplo, a sublevação conhecida como Bernarda de Francisco Inácio, cuja pacificação foi o mote para a viagem de D. Pedro a São Paulo em agosto de 1822. No caso da Semana de Arte Moderna e mais amplamente do Modernismo, ou comemora-se o movimento Pau-Brasil e a Antropofagia, ou os movimentos Verde-Amarelismo e Anta, de inclinação nazifascista, mas dificilmente uns e outros igualmente.

Ana Lúcia de Freitas Teixeira: Ambos os acontecimentos, Independência e Semana de Arte Moderna, envolvem um complexo jogo de forças que merecem um olhar cuidadoso, tanto para eleger os aspectos que merecem uma comemoração quanto aqueles que seguem sendo objeto de crítica. Do ponto de vista da Independência do país, parece-me que merece destaque o fator de continuidade que sobreviveu ao gesto de ruptura com a Coroa Portuguesa. O fato de ter sido encabeçado pelo príncipe da Metrópole, a permanência na atenção aos interesses às elites locais e, por desdobramento, uma forte manutenção dos grupos ligados ao poder constituem uma espécie de tônica geral dos movimentos de transição política no país, nos quais se percebe quase sempre muito mais uma reorganização estratégica para manutenção das relações de poder do que propriamente grandes rupturas. Quanto ao modernismo que a Semana de Arte Moderna simboliza, a crítica fundamental que vem se plasmando em leituras mais recentes tem buscado desconstruir o tom heroico de rompimento com a tradição que caracteriza a forma como grande parte de seus atores gostavam de se pensar e tem ressaltado o caráter mais paulatino de transformações estético-políticas que eles viriam, mais modestamente, coroar. Some-se a isso uma certa crítica recente ao caráter exclusivamente nacionalista em que o cânone posterior, especialmente na pena de Antonio Candido, de alguma maneira confina as possibilidades de leitura desse movimento, crítica esta que a meu ver merece atenção e parece promissora para a renovação crítica das literaturas mais contemporâneas.

Grazielle Albuquerque: Olha, é uma pergunta ampla. Acho que a grande questão que une ambos os movimentos e deve ser questionada pelos olhos de hoje é como se deu a construção dessa memória relativa a esses eventos. O que sabemos realmente da nossa Independência? Do ponto de vista econômico, ela já não tinha acontecido quando o Brasil virou sede do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, sendo a única saída possível para o comércio português? Quem se lembra disso? Como é possível comemorar ou questionar algo cuja memória é tanto esparsa como falha? Em relação à Semana de Arte Moderna, tenho a mesma sensação de algo visto pela efeméride, mas em relação à qual nos falta uma compreensão processual. E acho que, de certa forma, ao contrário da Independência, a Semana de Arte Moderna de 1922 tem elementos muito mais vivos, como já mencionei, e que, me parece, podiam ser vistos com mais apuro. Mas, em relação a isso, vou me deter a um ponto que é o olhar para dentro de si, novamente o “comer-se”. Essa coisa do corpo revisto na arte, do herói sem caráter, de um grupo artístico com uma presença feminina de destaque… Tudo isso me parece que pode não só ser comemorado como traz elementos que são muito pertinentes aos debates atuais.

Antonio Nobrega: Questiono a visão eurocêntrica da Semana em detrimento de uma visão aprofundada (e não caricata) da cultura brasileira, especialmente da sua vertente popular. No meu modo de ver, o espírito da semana de 22, entre os Andrades, estava mais para o Oswald do que para Mário. Até os dias de hoje a presença e influência oswaldiana na cultura tem sido mais imperativa – Tropicália, Teatro Oficina, poesia concreta etc. Advogo a ideia de que deveríamos nos debruçar sobre o pensamento e o trabalho de Mário de Andrade, sobretudo depois de suas viagens etnográficas. Serão nas reflexões, escritos, ações realizadas após suas andanças pelo Norte e Nordeste brasileiro que encontraremos os roteiros de um modernismo índio-afro-euro-mestiço. Ou seja, Mário nos aponta os caminhos de confraternização, comunhão, conciliação entre os dois brasis que até o presente momento querem nos fazer crer que são inconciliáveis.

Alexandre Macchione Saes: Não imagino que devemos apagar eventos de nossa política ou de nossa cultura para substituí-los por outros movimentos, possivelmente mais representativos para determinados projetos de futuro que buscamos construir. Na realidade acredito que o caminho deve ser a problematização do passado, de complexificação da análise, de confronto dos projetos e das narrativas.

Acredito que, sobre o processo de Independência do Brasil, nossa historiografia tem apresentado importantes evidências da complexidade de construção da unidade nacional, de como a emancipação foi um processo muito disputado e de projetos contraditórios. O mesmo vale para os estudos sobre o modernismo, que nas últimas décadas têm ressaltado os vários modernismos no Brasil, muito além daquele da Semana de Arte Moderna. Com o “3×22 na escola” (https://3×22.bbm.usp.br/?page_id=928), uma proposta de material didático voltado para os itinerários eletivos do novo Ensino Médio, buscamos reconstruir algumas concepções dominantes de nossa história a partir de temas desafiadores do tempo presente – desigualdade, meio-ambiente, cidadania, educação.. Para isso buscamos tanto percursos interdisciplinares, que nos oferecem perspectivas distintas para observar os mesmos eventos, como também o confronto do contraditório. Acreditamos que a formação de nossas futuras gerações deve partir justamente dessa tensão entre projetos, entre perspectivas, produzindo um verdadeiro espírito crítico nos alunos.

Antonio Herculano Lopes: A história foi o que foi: comemorar e questionar pertencem ao tempo presente. Impõe-se então questionar a escravidão. Houve agendas alternativas, mas não prevaleceram (poderiam?), e sabemos do altíssimo preço que hoje pagamos como sociedade. Passados dois séculos, precisamos de uma segunda refundação para incluir as populações afrodescendentes, bem como as ameríndias, numa desejada sociedade plural.

Tema mais controverso, o regime monárquico é defendido como fator chave para a unidade territorial. Esta foi conquistada, porém, pela espada, a ferro e fogo, com sacrifício de demandas mais generosas com a “brava gente brasileira”. Hoje ela pode e deve ser celebrada, desde que entendida pela ótica contemporânea do respeito à diversidade.

A Constituição e as ideias liberais, com o limite óbvio da escravidão (sempre ela), garantiram para a ex-colônia um lugar modesto na modernidade de então. Mais celebrado deve ser o esforço de intelectuais e artistas de construir a nacionalidade no plano do pensamento e das sensibilidades. Às estreitas veredas, masculinas e brancas, abertas por um Martins Pena, um Alencar, um Vítor Meireles, somam-se gigantes como o padre José Maurício, Gonçalves Dias e Nísia Floresta, aos quais a pesquisa histórica vem agregando outros: Maria Firmina dos Reis, Henrique Alves Mesquita, o ator Vasques, a cantora Augusta Candiani…

O momento modernista abriu alas para novas vozes, expandiu nossa gramática e vocabulário, mas não abriu mão dos vezos nacionalista e elitista, cedendo em sua maioria ao canto dos autoritarismos de esquerda e de direita. Demorou para a palavra democracia entrar no nosso dicionário, e ainda hoje ela sofre de instabilidade crônica. Mesmo que questionemos sua pretensão juvenil de terem inventado a roda, os rebeldes de 1922 deram um chacoalhão no país. Hoje nos inspiram em seus erros e acertos e merecem ser celebrados.

Alfredo Cesar Melo: Primeiramente, uma constatação óbvia: ao longo de 2022, tanto a Independência como a Semana de Arte serão comemoradas e questionadas por atores sociais diferentes, a partir de lógicas muito distintas. É de se esperar que o Brasil oficial celebre as efemérides, tentando puxar a brasa para sua sardinha. Num momento particularmente perturbador da história política brasileira, não seria surpreendente se as comemorações da Independência fossem capitaneadas pela aliança entre monarquistas ultraconservadores do ramo de Vassouras e militares saudosos da ditadura. Já as celebrações e/ou reflexões em torno da Semana de Arte Moderna podem servir de contraponto às comemorações oficiais, mas não tenho dúvidas que também a Semana será questionada por diferentes movimentos sociais e culturais do campo de esquerda, com toda legitimidade. A universidade deve examinar criticamente os vários discursos em torno de tais eventos, buscando apreender suas inúmeras ambivalências. Não se deve adotar a ótica da heroicização de determinados personagens históricos, nem tampouco emitir juízos fáceis e anacrônicos. Em outras palavras: é necessário que a universidade assuma uma visão mundana do processo histórico. Errando ou acertando, os personagens envolvidos tanto na Independência quanto na Semana de Arte Moderna estavam lidando e negociando com as contingências históricas do momento, enfrentando batalhas simbólicas com os seus contemporâneos, imaginando o futuro do país a partir da linguagem que tinham disponível naquela época. A meu ver, esse deveria ser o ponto de partida de qualquer reflexão de fôlego em torno de tais movimentos.

3. Que projetos para o Brasil e momentos decisivos da história e relacionados à Independência política e ao modernismo como movimento cultural você destacaria?

Elide Rugai Bastos: O princípio e a aspiração de liberdade colocados pela Declaração de Independência, embora não cumpridos, abriram espaço para reivindicações concretas. A Independência pode ser vista como um processo desenvolvido com participação de várias manifestações populares – como, por exemplo, a Noite das Garrafadas em 13/03/1831 – que levaram à abdicação de D. Pedro I em 07/04/1831; depois as revoluções regionais no período da minoridade, que embora fortemente reprimidas, levaram ao decreto da maioridade. Nesse desenrolar questionava-se a subserviência a Portugal, principalmente pela regência ainda com marcas profundas da colonização: a revolta dos Cabanos, no Pará (1833-36); a revolta dos Balaios, no Maranhão (1838-41); o levante da Praieira, em Pernambuco (1848). Esses acontecimentos foram importantes do ponto de vista político, colocando reivindicações democráticas que sofreram fortes repressões a partir do governo central. O modernismo como movimento, além de valorizar a cultura popular e possibilitar sua visibilidade, assumiu direções diversas conforme a visão de cada um dos grupos que o constituíram. Parte da tradição gerada pela vertente democrática levou à frente a articulação cultura e política, vendo nessa associação a possibilidade de denunciar a naturalização da desigualdade que se instalou fortemente na história de nossa sociedade. Além disso, o princípio de liberdade de criação, rompendo regras, permite o reconhecimento da legitimidade da cultura popular.

Carmen Felgueiras: Considerando que houve algo como um projeto político para o Brasil, ou para o que de fato importava preservar, no caso a permanência da casa de Bragança, os interesses das classes proprietárias e da burocracia da corte do Vice-Reino que agora se tornava Império, este projeto foi o que se consolidou como modernização conservadora, com a instauração de uma monarquia constitucional representativa e a adoção de um liberalismo retórico, que logrou por 67 anos, num longo e conflituoso processo, barrar o êxito das forças separatistas e republicanas do período.  Já em relação ao projeto do modernismo como movimento cultural, associação, promovida pela interpretação de André Botelho do modernismo brasileiro em “O modernismo como movimento cultural: uma sociologia política da cultura”, em que afirma que as “disputas estéticas modernistas envolvem ideais de mudança cultural para o conjunto da sociedade brasileira”, ele se realiza de forma complexa e agonística na medida em que suas vertentes democráticas buscam explicitamente a integração, por diferentes meios, do erudito e do popular, do singular e do universal na formação da cultura nacional, do qual são representativos sobretudo os trabalhos de Mário de Andrade.

Ana Lúcia de Freitas Teixeira: Vou me ater a apenas uma passagem, que faz parte de um clássico do Romantismo brasileiro e é seguramente um dos mais lapidares ícones da investida de diversos autores desse movimento justamente contra a submissão da cultura nacional ao padrão que vinha de importação com o conjunto da empresa colonial. Trata-se do Prefácio escrito por José de Alencar para seus Sonhos d’Ouro, de 1872, exatamente a 50 anos tanto da Independência quanto da Semana de Arte Moderna. Ali Alencar reivindica uma embocadura nativa para o português brasileiro, apresentando ironicamente as diferenças entre os movimentos próprios de brasileiros e portugueses ao apreciarem suas frutas mais típicas. Na saborosíssima prosa de Alencar, eis que se planta a dúvida: “Estando provado pelas mais sábias e profundas investigações começadas por Jacob Grimm, e ultimamente desenvolvidas por Max Müller, a respeito da apofonia, que a transformação mecânica das línguas se opera pela modificação dos órgãos da fala, pergunto eu, e não se riam, que é mui séria a questão: o povo que chupa o caju, a manga, o cambucá e a jabuticaba, pode falar uma língua com igual pronúncia e o mesmo espírito do povo que sorve o figo, a pera, o damasco e a nêspera?”.

Grazielle Albuquerque: Essa coisa da busca pelo moderno como um valor meio inventado é algo muito curioso. Ironicamente, isso esteve muito presente na eleição do Collor, em 1989, na ideia de um Brasil jovem, yuppie, viril, que iria acabar com a inflação com um golpe só, dar um fim aos marajás e projetar o país na globalização. Se você folhear as revistas da época, Veja e Isto é Senhor, que tinham muita presença no mercado, vai ver esses valores diluídos em diversos anúncios e matérias, mesmo que não relativas à política. Isso vem e volta, essa ideia de que moderno é projetar-se para fora… Acredito que a Independência também fez um pouco isso, dessa maneira igualmente inventada. Mudar para ficar parecido. E isso é um projeto de país, de Brasil. Nenhuma mudança política e institucional ocorre sem uma base simbólica que lhe sirva de suporte. Ocorre que, quando inventamos esse futuro sem enfrentar o passado, apenas negando-o, essa modernidade vira de fato um slogan, uma promessa fantasiosa.De volta ao fim dos anos 1980 e início dos 1990, lembro do fantástico “Terra Estrangeira”, do Walter Salles e da Daniela Thomas, que reflete exatamente a desilusão após a promessa de modernidade. É propositalmente irônico aquele retrato de uma juventude brasileira que vai se refugiar em Portugal (alguma semelhança com os dias de hoje?), a cena sobre o confisco da poupança televisionado… Nada está ali em vão. É a promessa não cumprida, um projeto de país que não se efetiva justamente porque não se olha, não se come, não vê o passado. Volto a dizer: é curioso que o Brasil yuppie dos anos 1990 tenha passado a ver a fronteira como possível, os importados, a classe média consumindo Liebfraumilch e achando que estava tudo resolvido. Nos esquecemos de ler Machado de Assis, de pensar no Macunaíma, na nossa Independência etc. Não à toa, diante da promessa de modernidade não cumprida, voltamos a levar outro “caldo” da maré. Passados 30 anos da Constituição de 1988, vemos que o “projeto” que se julgava sólido se corrói a olhos vistos. 

Antonio Nobrega: Politicamente, ressaltaria todos os movimentos dos “sem”, os movimentos contra o racismo e contra a discriminação de todas as minorias, a valorização do mundo indígena brasileiro etc. É claro que me refiro aos sinais que começaram a ser emitidos pelo Brasil anterior ao da catástrofe que estamos tendo o dissabor de estar acompanhando!  

Culturalmente eu destacaria o Movimento Armorial, mal compreendido, mal estudado e cujo pensamento do seu idealizador, Ariano Suassuna, tinha muitos pontos de encontro  com o de Mário de Andrade.

Alexandre Macchione Saes: O projeto 3 vezes 22 tem se aproveitado do rico material conservado pela Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin. De documentos, livros e autores canônicos, como também daqueles esquecidos e renegados pelas vertentes dominantes de nossa historiografia, para encontrar as evidências, as perspectivas e as interpretações que possam contribuir para a análise de nossa história. Buscando, dessa forma, projetar questões que possam nortear a construção de um novo horizonte de autonomia, ao menos no plano da cultura e da ciência. 

Assim, ao longo do desenvolvimento das atividades foi possível explorar essa imensidão de projetos não vitoriosos, de expressões culturais não devidamente reconhecidas pelos cânones. Por exemplo, nos kits didáticos elaborados a partir das temáticas do projeto, foi possível iluminar o 2 de julho de 1823, a Independência da Bahia, observando seus personagens e suas versões em confronto com a ideia de uma única Independência do Brasil (https://3×22.bbm.usp.br/?page_id=902). 

Outra temática muito relevante levantada pelos kits didáticos foi a de gênero na literatura brasileira, partindo da problematização das indicações para Academia Brasileira de Letras e da quase interdição das mulheres às cadeiras da ABL (https://3×22.bbm.usp.br/?page_id=910).Finalmente, para ilustrar essa preocupação de valorizar as narrativas apagadas por nossa historiografia ou da literatura brasileira, os posts temáticos “200 livros para pensar o Brasil” têm buscado valorizar não somente os autores tão presentes no imaginário de nossa sociedade, como também incorporar outros menos reconhecidos. Sobre a questão racial no Brasil, para além dos clássicos Gilberto Freyre e Florestan Fernandes, incluímos em nossa seleção trabalhos magistrais como os de Virgínia Bicudo, Atitudes raciais de pretos e mulatos em São Paulo (1945) e de Clóvis Moura, Rebeliões nas senzalas (1959). (https://3×22.bbm.usp.br/?page_id=62)

Antonio Herculano Lopes: O Oitocentos brasileiro teve como seu limite de possibilidades para pensar a nação o ter se estruturado sobre mão de obra escrava. Se a isso somarmos a relação de favor pela qual a população pobre e livre se mantinha dependente dos poderosos, a sociedade que importava aos intelectuais e artistas era muito diminuta. Daí terem se voltado fundamentalmente para educar as elites, retirá-las da tacanhez de seu isolamento secular e torná-las capazes de conduzir o Brasil para encontrar seu lugar no mundo moderno, aquele da Europa das Luzes, enquanto um país da América. Se o sentimento de dupla pertença nos fazia parte do Ocidente, éramos o Extremo Ocidente, o futuro da civilização.

Um primeiro momento decisivo foi o da abdicação de Pedro I, que cortou a ambiguidade de origem, o cordão umbilical que condenava o país a se pensar sempre como “um imenso Portugal”. O segundo foi o fim efetivo do tráfico de escravizados a partir de 1850, pondo no horizonte a necessidade do fim da escravidão para que uma nação pudesse emergir.

A refundação pretendida por 1922 se fez possível em primeiro lugar pelo marco de 1888, com todas as suas limitações. O projeto modernista pôde por fim unir às ideias de nação e de modernidade a de um povo, capaz de se tornar o portador das duas primeiras, e não apenas uma massa tutelada por elites. Intelectuais e artistas modernistas tampouco escaparam de se ver como vanguarda a iluminar os caminhos do povo e de manter sobre este representações bastante abstratas ou idealizadas, mas as condições de possibilidade de uma sociedade mais inclusiva ganharam um salto qualitativo. O golpe de 1937 foi o momento decisivo para que a democracia como valor entrasse na pauta da sociedade.

Alfredo Cesar Melo: A rememoração de datas e eventos específicos é uma oportunidade para compreendermos, a partir de dois ângulos, o embate entre os vários projetos do Brasil colocados à mesa nestes respectivos momentos históricos. De um lado, é possível lançar uma mirada mais diacrônica e totalizante dos processos que foram, de algum modo, iniciados ou catalisados pelos eventos mencionados; de outro lado, é plausível que se reconstrua o horizonte dos debates políticos e culturais do momento, até para vislumbrar os projetos que acabaram sendo derrotados. Para falarmos da Independência, por exemplo, o projeto que acabou hegemônico foi o saquarema, baseado na tríade composta por indianismo romântico, liberalismo estamental e catolicismo hierárquico (como nos ensina Ângela Alonso em Ideias em movimento). No entanto, nas discussões da Assembleia Constituinte de 1823, José Bonifácio já havia proposto a extinção gradual da escravidão assim como a emancipação, igualmente gradual, dos escravizados. Que país teria se tornado o Brasil se o projeto de Bonifácio houvesse triunfado? Que sociedade teríamos se alguma das inúmeras revoltas sociais da época do Império ou da República houvesse emplacado como força social capaz de mudar as regras do jogo? No âmbito cultural, a pergunta também se faz: que autores ou obras não negligenciamos no século 20 por que não se alinhavam aos valores triunfantes do modernismo? Quantas vozes não abafamos quando passamos a imaginarmos o Brasil a partir dos parâmetros modernistas de interpretação nacional? Rememorar esses eventos é uma chance de refletirmos sobre os impactos concretos que tiveram sobre a cultura e política brasileiras, mas também nos convida a imaginar as alternativas que foram descartadas. É indispensável que os momentos da vida nacional sejam discutidos com esse senso de possibilidades, quando a história ainda estava em aberto.

4 – Quais os significados atuais da Independência política e do modernismo para os projetos de Brasil possíveis em e para além de 2022?

Elide Rugai Bastos: Lembrando que somos uma sociedade na periferia do capitalismo, um dos projetos possíveis gerados pela independência seria o de construir um lugar geopolítico importante de representação dos países do hemisfério sul no debate mundial frente às assimetrias de todas as ordens a que estão submetidos – países marcados pela pobreza, desigualdade, restrições à liberdade. O enfrentamento desigual frente à crise sanitária mundial põe a nu a necessidade de uma liderança. Entre as inúmeras alternativas geradas pelo modernismo, destaco a contínua luta pelo projeto da modernidade; a efetiva implantação de seus princípios – liberdade, igualdade e solidariedade. Isso exige a afirmação de força da criação no sentido de inovar e não reproduzir a relação entre estrutura social piramidal e fraca possibilidade de agência. Além disso, uma efetiva recusa às posições reacionárias de controle da mudança social, tão conhecidas no Brasil, de modo a permitir a efetiva atuação dos grupos subalternizados.

Carmen Felgueiras: Como diz Reinhart Koselleck em O futuro passado: contribuição à semântica dos tempos históricos, o futuro enquanto objeto de cálculo político tornou-se, na modernidade, “um campo de possibilidades finitas, organizadas segundo o maior ou menor grau de probabilidade”. Neste sentido, há que se considerar ao menos dois prognósticos possíveis para a contribuição do legado da Independência para os projetos de Brasil. Se o que estiver em jogo forem os sentidos de soberania, dignidade e autonomia, esvaziados seus conteúdos monárquicos, patriarcais e escravistas, sua carga simbólica talvez ainda venha a ser útil aos projetos democráticos de Brasil na atualidade, aliando-se a uma tradição nacional de ideias e lutas anti-imperialistas. Por outro lado, o fato da Independência também pode ser utilizado de forma demagógica e autoritária contra as forças populares contrárias ao status quo, o que, ironicamente, recuperaria algo do sentido “original” do acontecimento. A realização de um e outro prognóstico dependerá, evidentemente, do resultado sempre incerto do embate entre as forças políticas em disputa.  Já os eventos da semana de 22 e das vertentes democráticas do modernismo trazem para o espaço público o sentido crítico de uma busca do nacional, como abandono do ethos de missão dos intelectuais, ou seja, de uma visão iluminista e elitista de sociedade, com o qual os diferentes movimentos identitários presentes na cena política e cultural do país poderiam dialogar, concretizando assim a ideia do modernismo como movimento cultural.

Ana Lúcia de Freitas Teixeira: O bicentenário da Independência, retomado a partir de seu entrecruzamento com a atmosfera da Semana de Arte Moderna, nos coloca diante do desafio político-intelectual de encontrar caminhos para o amadurecimento do país enquanto democracia moderna. A solvência de nosso estatuto de colônia, ainda que por meio de um processo de rasas modificações no âmbito das relações de forças políticas, é de toda forma um passo importante e necessário no sentido de nosso amadurecimento como nação, tema fundamental no século XIX não só para o Brasil. Sua rememoração nos dá a medida da importância de uma reflexão mais apurada sobre as significações contemporâneas do termo autonomia. Vem ao encontro dessa temática justamente o projeto multifacetado do modernismo brasileiro, em larga medida introdutor de um programa de autonomização e modernização nacional pela via da cultura. Ambos os acontecimentos se combinam num momento de profunda crise de caráter político, social e sanitário que o país atravessa com muita dificuldade e, aparentemente, com poucos mecanismos de resistência. Esse encontro entre as datas que comemoramos e o cenário de retorno cíclico de nossas raízes autoritárias talvez nos coloque em face da necessidade de responder intelectual e politicamente ao desafio de secar essas raízes e combinar definitivamente autonomia e democracia.

Grazielle Albuquerque: Acho que são possíveis diálogos, pontos de inspiração para conversar, fazer metáforas, alegorias etc. Mas tenho dificuldade de pensar em um significado exatamente porque acho que o expurgo brasileiro atual é tão violento que é difícil pensar em uma associação direta. A gente tem muita coisa que estava debaixo do tapete e está submergindo. Repito: seja pela nostalgia, seja pelo que não se é mais possível esconder. Mas eu vou tentar unir essas duas pontas com o momento atual na chave de um projeto de modernidade, como já comentamos. Não uma modernidade inventada, mas uma palavra com um significado mais real e mais concreto. É moderno ser conservador? É moderno ser um liberal conservador? O que é isso? É moderno ser independente e ter um rei português? É moderno pensar o Brasil de outra forma mas não conseguir que isso seja um movimento popular?

O que estou dizendo é: seja qual for o projeto para o Brasil, quanto mais inventado ele for, num sentido destrutivo do termo, sem base na realidade, maior a chance de ele ser mais um anúncio de algo que não se conclui. Isso exatamente porque não tem base, não há potência que o sustente. E, nessa provocação, acho mesmo que o maior dilema do Brasil de 2022 é um dilema democrático. Essa é uma questão concreta e real.  Sem reconhecermos pontos em comum, as imperfeições do outro e a possibilidade de diálogo para garantir o mínimo, a democracia começa a ruir exatamente porque todo mundo passa a viver na própria fantasia, seja ela nostálgica ou de uma “modernidade” sem sustentação.  

Antonio Nobrega: Como aceitar a ideia de independência política face ao que estamos assistindo e vivendo diariamente? Quando penso nessas duas palavras-chaves, independência e cultura, em relação ao Brasil, a ideia que me acomete é que para conseguirmos atravessar o nosso fundo Rubicão não há opção acomodatícia, não há terceira via. Ou levamos em conta de uma vez por todas a outra margem de nossa realidade social e cultural ou estaremos fadados a ficarmos eternamente estacionados no lugar onde, anestesiados, estamos plantados. Já passa da hora de nos despedirmos do país do carnaval, do futebol, da geleia geral, da antropofagia (deglutimos, deglutimos e deglutimos e o que catalisamos?). A nossa nacional arquetipia simbólica caducou… Independência ou morte?

Como é óbvio, os nossos processos de independência política e de realização cultural ainda estão em curso e todos sabemos que eles nunca atravessaram momentos tão difíceis. O nosso venturoso futuro continuamente almejado, idealizado, sonhado – grudado ao nosso coletivo inconsciente – terá de continuar aguardando… Quem sabe até quando?

Alexandre Macchione Saes: Se a proximidade dos duzentos anos da celebração de nossa Independência provoca o estímulo à reflexão sobre os legados da construção da nação e os limites de sua soberania, o olhar para o futuro nos leva para novos desafios que devem também ser enfrentados. Hoje não devemos apenas disputar o presente, resgatando os projetos de soberania e de modernidade que existiram em nossa sociedade, mas devemos inclusive ter o direito de disputar o futuro.

Numa interpretação pessimista defendida nos últimos anos, hoje, com o neoliberalismo, os horizontes de expectativa desapareceram e o futuro será o presente ampliado, um presente do tempo de urgências, da sobrevivência, um futuro que é apartado das utopias. 

Acredito, entretanto, que devemos retomar essa disputa sobre as utopias, a partir de uma tensão que este processo de politização do futuro nos imporá: a politização do futuro pode ser realizada a partir do confronto dos nossos tempos com os outros tempos. No nosso caso, num Brasil próximo de seus duzentos anos, ao reconhecermos os tempos dos povos indígenas, de grupos sociais e raciais silenciados ao longo de nossa história. Em suma, a construção de um novo tempo, em que o marco da nação deve ser preservado, mas a partir da reconstrução da própria nação, de forma que ela seja mais democrática, inclusiva e menos desigual. 

Por outro lado, os desafios de nossa sociedade, cada dia mais, transbordam as fronteiras nacionais. A questão ambiental é certamente a mais evidente manifestação desse desafio que rompe fronteiras, mas a própria pandemia, a desigualdade econômica, a crise da democracia, são outras dimensões dessa crise da contemporaneidade de dimensões planetárias. Assim, quando pensamos o meio-ambiente, a desigualdade econômica, a crise da democracia, entre outros temas, a politização do futuro já não cabe mais dentro das fronteiras nacionais.  

Portanto, 1822 e 1922 devem ser no máximo um ponto de partida no processo de politizar o futuro. As tensões entre o local e o global devem ser enfrentadas: do necessário reconhecimento dos povos que foram silenciados, com a devida mediação dos desafios que já não se resolvem mais somente dentro de fronteiras nacionais.

Antonio Herculano Lopes: Os dois momentos que hoje celebramos – e questionamos – propuseram projetos de país que permanecem inconclusos, mas, nos limites de seus respectivos tempos e agentes, permitiram que chegássemos a 2022 com um horizonte de expectativas bem mais ambicioso, no sentido de atingir uma sociedade mais inclusiva e generosa. Isso pode soar estranho num momento em que o reacionarismo e a resistência a tal meta talvez tenham atingido seu ponto mais agudo, mas é justamente o fato de essa possibilidade concreta ter entrado no vocabulário político e cultural brasileiro que está na raiz da reação. Talvez nossa grande diferença para os dois momentos anteriores seja que passamos a preferir pensar em Brasis – não como na clássica formulação sociológica de um problema cuja solução passa por uma unidade verdadeira, mas pelo reconhecimento da nossa diversidade. Isso não impede que optemos por nos manter sob um mesmo Estado, desde que ele de fato proteja e promova nossas múltiplas identidades. Um Estado-nações. Junto com esse olhar para dentro, também desenvolvemos um novo olhar para fora. Para termos expressão nos rumos futuros que a sociedade humana procura definir, em meio a enormes sofrimentos materiais e espirituais, além das ameaças ambientais que beiram a catástrofe, precisamos investir numa identidade sul-americana. O dever de casa interno nos dará mais força e credibilidade para o externo. Nesse sentido, a cultura é dimensão fundamental para que tais projetos (que, repito, são ambiciosos, mas hoje percebidos como possíveis) sejam de fato realizações coletivas, expressão de múltiplas sensibilidades, aspirações e potencialidades. O desafio que 2022 nos lança é colocarmos na pauta de um ano eleitoral crucial para o destino de nosso próximo centenário a discussão dos significados de palavras como independência, democracia, modernidade, inclusão, diversidade, povo/povos, nação/nações, todes juntes.

Alfredo Cesar Melo: Um possível modo de apreendermos os significados atuais da Independência e do modernismo seria inquirir se aquilo que propuseram fazer foi de fato realizado, ou até mais importante, se precisa ser repactuado ou refeito. O que significa hoje buscar a soberania do Brasil? O que atualmente representaria uma renovação da linguagem e da inteligência brasileiras tais como reivindicadas pelo modernismo? Todas essas questões – seja a da autonomia política do país, seja do estabelecimento de uma inteligência nacional – nos remete à questão da formação. Mais do que nunca, 2022 será um ano em que debateremos o tema da formação do país, afinal, as efemérides também coincidem cum um ano eleitoral. A urgência do debate se impõe num momento em que a extrema-direita arruína rapidamente o arcabouço formativo que, aos solavancos, foi construído nos últimos 80 anos, satisfeitos que seus partidários estão em restaurar nosso status de enclave colonial, assentado sobre o solo cultural do patriarcalismo-cristão. Por outro lado, imaginar a formação do país hoje é tarefa muito diferente daquela enfrentada por Celso Furtado, Caio Prado e Antonio Candido. O estabelecimento de uma inteligência nacional hoje implica o reconhecimento que este país deve ser pensado e imaginado por outros diversos atores sociais que antes estavam barrados no baile e apenas apareciam como objetos de estudo dos clássicos intérpretes do Brasil. Mais do que nunca os significados sobre a nossa formação – tanto em termos normativos quanto descritivos – estarão em disputa.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s