Simpósio | 22: Projetos para o Brasil (III)

O Blog da BVPS publica hoje o terceiro post do simpósio 22: Projetos para o Brasil, uma parceria com o GT de Pensamento Social no Brasil da Anpocs e o Suplemento Pernambuco. Às vésperas do bicentenário da Independência política do Brasil e do centenário da Semana de Arte Moderna de São Paulo procuramos propor reflexões, a partir dos desafios do presente, sobre esses dois eventos/processos que marcam a história política e cultural do país.

Enviamos 4 perguntas propondo relações sobre os temas centrais do ano que vem a profissionais de diferentes áreas, regiões do país e instituições. As 28 respostas recebidas – de um conjunto maior de convites realizados – serão publicadas em 4 grupos durante esta semana, de terça até sexta-feira. A organização é de Andre Bittencourt (Blog da BVPS), Maurício Hoelz (GT de Pensamento Social da Anpocs) e Schneider Carpeggiani (Suplemento Pernambuco)

Para ler a apresentação escrita pelos coordenadores do simpósio basta clicar aqui, as respostas do primeiro e do segundo post podem ser encontradas aqui e aqui. Para acompanhar as atualizações do Blog, siga nossas páginas no Instagram e no Facebook.

Hoje teremos como convidadas/os:

Lilia Schwarcz, professora titular do Departamento em Antropologia Social da Universidade de São Paulo (USP) e professora visitante da Universidade de Princeton. É a atual Secretária Adjunta da Associação Nacional de Pós-graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (ANPOCS). Autora, entre outros, de Sobre o autoritarismo brasileiro (2020). 

Maria Laura Viveiros de Castro Cavalcanti, professora titular do Programa de Pós-graduação em Sociologia & Antropologia (PPGSA) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Autora, entre outros, de Drama, ritual e performance. A antropologia de Victor Turner (2020).

Daniela Giovana Siqueira, professora da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). Autora, entre outros, de Representações espaciais, crítica social e contracultura no filme brasileiro Sagrada família (2019).

Robert Wegner, professor do Programa de Pós-Graduação em História das Ciências e da Saúde da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e do Departamento de Ciências Sociais da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Autor, entre outros, de A conquista do Oeste: a fronteira na obra de Sérgio Buarque de Holanda (2000). 

Lorenna Ribeiro Zem El-Dine, pós-doutoranda do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal Fluminense (UFF). Autora do artigo “Ensaio e interpretação do Brasil no modernismo verde-amarelo – 1926-1929” (2019). 

Renato Ortiz, professor titular do Departamento de Sociologia da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Autor, entre outros, de Sobre o Trabalho Intelectual (2021). 

Denilson Lopes, professor titular da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Autor, entre outros, de Mário Peixoto: antes e depois de Limite (2021).

Luís Augusto Fischer, professor titular de literatura brasileira da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Autor, entre outros, de Duas formações uma história – Das ideias fora do lugar ao perspectivismo ameríndio (2021). 


1. Em 2022 completa-se o bicentenário da Independência brasileira e o centenário da Semana de Arte Moderna, marco simbólico do modernismo. Como você relacionaria esses dois eventos/processos?

Lilia Schwarcz: Penso que esses são dois episódios que foram, com o tempo, sendo “sequestrados” pelos governantes no poder, por meio de verdadeiras batalhas narrativas. Muito particularmente por São Paulo. No caso da Semana de 22 é o caso de perguntar se ela foi de São Paulo ou em São Paulo? Sabemos que apenas ocorreu em São Paulo, uma vez que foram muitos os modernismos espalhados pelo país. O mesmo se deu com a Independência de 1822. A tela “Independência ou morte” de Pedro Américo, encomenda de Pedro II, ficou pronta só perto do Golpe da República. Com isso, por muito tempo permaneceu fechada. A partir dos 150 anos do 7 de setembro, em plena ditadura militar é que se passou a contar uma “história fardada” e militar da emancipação, tendo São Paulo mais uma vez a centralidade às margens do Ipiranga. Essas são datas, por fim, que tratam de independência, emancipação, novos tempos, mas que, em conjunto, fazem parte de uma história – literária e política – ainda muito europeia, masculina e ocidental. História é disciplina que lembra mas esquece muito, e na nossa, essas duas datas recordam momentos importantes mas silenciam sobre setores muito relevantes da trajetória nacional.

Maria Laura Viveiros de Castro Cavalcanti: O primeiro é um evento político que redefine a posição mundial do país de uma maneira totalmente fora dos padrões de então. Tornada capital de sua metrópole, a colônia, logo erguida a Reino-Unido, é declarada independente pelo príncipe herdeiro do Reino de Portugal. O segundo é um movimento cultural de grande ressonância ao longo de todo século XX em um país que almeja voz própria em diálogo com o mundo. São dois marcos numa contínua busca de dar conta de si mesmo, diante de uma formação social complexa, de grande diversidade regional e étnico-cultural, às voltas com as infindas complicações de seu regime político. Resultamos dos choques trazidos por essa história de encontros e desencontros entre os povos nativos que, até o século XVI, seguiam o curso de uma história muito distinta daquela do chamado mundo ocidental; os povos europeus que, entre outros, chegaram nas Américas a partir do séc. XVI; e os inúmeros povos africanos escravizados que aportaram nos mais diversos pontos do país ao longo de três séculos. Tragédias e violências nos legaram uma sociedade cheia de desigualdades, preconceitos e racismos. Porém, como ocorre de modo notável em meio ao Modernismo, há aberturas para o desejo de conhecimento e aceitação dessa infinda diversidade, para o registro de experiências culturais distintas entre si, para a escuta de vozes outras, para lutas por inclusão cidadã. O país abriga tesouros da diversidade cultural e ambiental humana, de visões de mundo e vivências singulares que podem se relacionar de forma criativa: a formação da música popular brasileira é claro exemplo. Estamos dentro da história do mundo e temos a nosso favor a possibilidade de exercer ou construir autonomias sem perder a capacidade da articulação de diferenças. Sem cairmos na armadilha da construção de identidades fixas e autocontidas. 

Daniela Giovana Siqueira: Pensando uma relação processual entre os dois marcos temporais, eu faria uma relação de base: ambos estavam voltados para o estabelecimento de um posicionamento diante do mundo a partir da noção de relação com um espaço. Em 1822, a Independência enxergava esse espaço como um território a ser explorado segundo conveniências privadas, garantir fronteiras para manutenção da ordem política, econômica e social. Em 1922, o modernismo traça sobre o território uma perspectiva cultural, espaço com certa trajetória a ser conhecida, identificada para que pudesse haver uma independência no cultivo das práticas sociais. São processos políticos, com referência geográfica, mas com propósitos de ação distintos. Talvez por isso eu veja como processo, pois são embates sobre o que se quer e pode ser decidido sobre a vida que se organiza em um lugar. Um ponto em comum chama a atenção, ambas ações foram propostas e encaminhadas por uma composição social marcada pelas classes altas, motoras das deliberações políticas no Brasil. Mas os sentidos de “país” que formulavam são diametralmente opostos. O primeiro marcado por uma perspectiva de nós privada e o segundo tentando abrir-se para um nós mais coletivo. Sob esta linha de raciocínio, o fio histórico continua a ser puxado e coloca sobre a vivência brasileira uma postulação de independência inconclusa, porque não assentada sobre o envolvimento social mais amplo, seja ele relacionado a distribuição das riquezas ou na definição daquilo que será valorizado dentro da produção cultural nacional. No ensaio “Cinema: trajetória no subdesenvolvimento”, Paulo Emílio Salles Gomes afirma, “a penosa construção de nós mesmos se desenvolve na dialética rarefeita entre o não ser e o ser outro”. A Independência e a Semana de Arte Moderna nos falam, pela motivação econômica e pela temática cultural, sobre essa insólita base que coloca sobre o espaço, sobre o território brasileiro, complexas proposições que podem relacionar-se com sua real independência.

Robert Robert Wegner & Lorenna Ribeiro Zem El-Dine: Alguns modernistas gostavam de dizer que 1822 marcou a independência política do Brasil, enquanto a Semana de Arte Moderna configurava a independência cultural do país. Numa avaliação mais crítica, 1822 não significou uma efetiva autonomia política e nem uma unificação política, se lembrarmos dos movimentos separatistas ocorridos durante o período regencial, na década seguinte. Por sua vez, se lembrarmos do Romantismo das décadas que se seguiram à Independência e da afirmação do indígena como figura central da brasilidade, os modernistas não foram os primeiros a buscar uma originalidade cultural. Além disso, o modernismo ficou longe de se configurar como um movimento estritamente homogêneo e de ruptura.

Essas ponderações não querem dizer que esses dois eventos deixem de se relacionar em nossa memória coletiva em torno do processo de formação do Brasil como nação, por mais que essa memória esteja sujeita a fissuras e à diversidade de significados. A data de 1822 ficou ligada à ideia de que o Brasil se constituiu como uma nação regida por uma monarquia cercada de repúblicas que conquistaram sua independência com um afastamento mais enfático em relação a Espanha, enquanto 1922 traz consigo a ideia de que representamos uma cultura que, ainda que herdeira de Portugal, constitui algo novo, como a língua portuguesa falada no Brasil deixa entrever.

Renato Ortiz[1]: Roland Corbisier costumava dizer que antes da Semana de Arte Moderna existia uma pré-história no Brasil. A partir desse ponto, a industrialização, a urbanização, a revolução de 30 acelerariam o passo da história na direção de sua realização plena. O ato inaugural da independência, enfim, encontraria seu destino. Dificilmente concordaríamos com isso diante da atualidade do fascismo tupiniquim. A ilusão de um progresso contínuo da história é contradita pela própria história. A interpretação dos isebianos (comum a diferentes autores) é, na verdade, uma concepção política, à qual outras concepções podem ser contrastadas (a valorização da pátria, da ordem, da família, da religião). Mas é possível, se não escapar, pelo menos contornar esse dilema e perguntar: qual a relevância dos fatos? Creio que se pode afirmar: trata-se de eventos distintos, o que os aproxima é a interpretação que deles se apropria. 1822 refere-se a um acontecimento político sem relação específica com a questão da modernidade. A independência é parte de um movimento mais geral de descolonização das Américas na qual a ruptura com o colonizador se faz no plano da política. Em todo continente as regiões transformam-se em países que se libertam da metrópole. A data é um ponto de inflexão, separa um antes e um depois, como os mitos de fundação estudados pelos antropólogos. Mas a nação brasileira, em busca de sua definição, não tem ainda como referência o moderno, e não poderia ser de outra forma. O próprio termo modernidade inexistia (Baudelaire o inventa por volta de 1860) e a revolução industrial encontrava-se restrita a uma pequena parte da Inglaterra; a França da Restauração (após a derrota de Napoleão em 1815) desconhecia o desenvolvimento de um capitalismo industrial. Na esfera da arte, sua autonomia é também precária, a emergência do artista enquanto sujeito livre da criação é um dado em construção, e as referências estéticas nas artes plásticas são as academias, a tradição. A ruptura entre os modernos e os acadêmicos é posterior, e a noção de vanguarda artística algo a ser descoberto. Os sinais de modernidade são também incipientes, apenas a partir de meados para o final do XIX, com as exposições universais, a expansão do transporte ferroviário, o surgimento do “flâneur”, é que esta dimensão do mundo industrial se consolida enquanto quotidiano. O Brasil Império tem seus olhos voltados para outros recantos, importa a separação com a metrópole. Pode-se dizer o mesmo das independências das nações latino-americanas. Portugal e Espanha são os obstáculos a serem superados, porém, ao se situarem na periferia da Europa Ocidental, quando a modernidade se transforma em imperativo categórico, serão substituídos por outros ideais: Inglaterra, França, Alemanha e Estados Unidos.

Denilson Lopes: Só uma ironia histórica levou a um processo de monumentalização e canonização da Semana de Arte Moderna de 22. Portanto, nada mais incômoda, quando não desastrosa a aproximação entre o centenário da Semana de 22 e o bicentenário da Independência. Só consigo ver um empobrecimento do Modernismo ao relacioná-lo a um desejo de nação e cultura nacional que teve um sentido renovador em 1822, mesmo em 1922, mas que chega hoje envelhecido e, segundo o estudioso da semana Frederico Coelho, cada vez mais oficializado desde 1972. 

Luís Augusto Fischer: A relação quem fez foram os organizadores da Semana, que parecem ter tido nitidez em tomar as comemorações do centenário da Independência, em 1922, para promover um festival destinado a marcar posição e a tomar a palavra publicamente, com estrondo. Não se pode imaginar uma história totalmente linear, mas sim se pode estimar que os promotores e protagonistas, especialmente Paulo Prado, quisessem disputar, no horizonte do momento, a hegemonia na interpretação do país, hegemonia que eles entendiam, com boas razões, ter como residência a capital federal, o Rio de Janeiro. A cidade era sede de jornais fortes e da Academia Brasileira de Letras, que ainda relativamente jovem já tinha presença pública relevante; e, mais que tudo, sede dos poderes da república, em particular na gestão do serviço diplomático, que concentrava uma boa quantidade de escritores, letrados, intelectuais. Na visão dos paulistas, acho que dá até para extrapolar e dizer que 1922 foi para eles a aurora de uma nova independência, agora sob sua hegemonia. Repito, não é tão linear, mas considerando o processo desde então dá para ver que era isso mesmo: conscientes de sua hegemonia econômica já naquele momento, com a tranquilidade que a política dos governadores dava à gestão da abundância em que viviam, em 1922 partiram para a disputa no plano simbólico, que se reforçaria com a criação da USP na década seguinte.

2 – Quais realizações desses movimentos na política, na cultura e na sociedade brasileira devem ser comemoradas ou questionadas?

Lilia Schwarcz: No caso da Independência penso que devemos abrir mão de uma historiografia tão colonial, europeia e masculina e ampliar o conceito de emancipação de forma a incluir outros povos que dela tomaram parte: negros, indígenas e também mulheres. Também penso que é hora de questionar a “lenda dourada” da independência que fala de uma emancipação sem dissidências e lutas. Basta que vejamos os casos da Bahia, do Maranhão, do Piauí e do Rio Grande do Sul para questionarmos esse tipo de versão. É preciso, ainda, desfocar o eixo por demais “sudestino” da nossa narrativa histórica, e prestar atenção em outros movimentos fora do Rio de Janeiro e de São Paulo. Por fim, vale a pena sublinhar que independência é processo e não data fixa. Seria possível recuar aos tempos das conjurações, da Revolução Praieira em Recife, e ultrapassar o Sete de Setembro de 1822 para chegar até a Confederação do Equador e a Revolta dos Malês. Aí sim veríamos como a Monarquia e o Império não foram destinos, mas antes estratégias realizadas pelas lideranças políticas, sociais e econômicas do Sudeste. 

No caso da Semana de Arte Moderna, penso igualmente que precisamos romper com a régua e o compasso criados a partir dos anos 40, de forma a incluir o grupo da “Klaxon” e excluir os demais. Penso muito na trajetória de Lima Barreto que morre, emblematicamente, no ano de 1922; ele que liderava o grupo boêmio carioca, que fazia uma literatura afinada com a linguagem e os problemas de seu tempo, mas ficou fora da festa do modernismo paulistano. Vale também destacar a pluralidade dos modernismos brasileiros e assim, mais uma vez, centralizar a narrativa por demais paulistana e carioca desse processo.  

Maria Laura Viveiros de Castro Cavalcanti: Vale qualificar os contextos sócio-históricos. Ninguém escapa de ser contemporâneo a seu próprio tempo, que nos envolve inexoravelmente com seus problemas, vocabulário e categorias de pensamento. Não há motivo para ufanismos, mas também não cabe fazer terra plana do passado. Comemorar e questionar podem ser complementares. Pensar é analisar, refletir, elucidar aspectos múltiplos das coisas, sem que juízos moralizantes se interponham de antemão. Isso desestabiliza, requer uma postura dialógica em que um certo período da vida intelectual possa perspectivar o outro, ambos revelando aspectos insuspeitos. Tenho estudado os trabalhos folclórico-etnográficos de Mário de Andrade. Parto de um dos pontos críticos dessa obra: o valor intrínseco dos registros documentais dos saberes do povo e a inclusão da diversidade cultural do país na reflexão intelectual e nas práticas artísticas eruditas. Houve aberturas e mudanças importantes na sensibilidade e na criação cultural. Ainda assim, é uma experiência desafiadora. Muitas das referências conceituais de Andrade provêm de noções evolucionistas e mesmo racialistas inteiramente desatualizadas. Por sua vez, o estilo confessional que permeia seus escritos traz juízos que ferem nossa atual sensibilidade. Mas, quando atravessamos essas distâncias cognitivas e morais, quantos incríveis insights lá estão! Inescapável. 

O pano de fundo é a temporalidade modernista. Um presente irreverente quer bascular o passado rumo ao futuro. E uma espacialidade moderna: um “dentro” – uma “cultura brasileira” totalizante, cuja singularidade se trata de construir – opõe-se a um “fora” – as culturas mais estabilizadas de outras sociedades-nações. O centro de referência é a cultura europeia [mas quantas Europas não existem dentro da Europa?]. Porém, é isso justamente que se deseja deslocar, criando um centro de referência próprio. Ninguém mais pensaria assim atualmente. Contudo, como que rompendo molduras, ali emerge pulsante a diversidade das expressões culturais populares do país, que trazem consigo a agência, a arte e os saberes de seus produtores. 

Daniela Giovana Siqueira: Comemoradas: A escrita do livro Macunaíma, por Mário de Andrade. A realização do filme de mesmo nome, dirigido por Joaquim Pedro em 1972, cinquenta anos depois da Semana de Arte Moderna, pensando com esta chave a presença de um longo modernismo. Os quadros de Di Cavalcanti.

Questionadas: A partir da Independência: o endividamento do país, a escolha inicial pela monarquia, a manutenção do regime escravocrata. No âmbito modernista: o manifesto antropofágico de Oswald de Andrade.

Robert Robert Wegner & Lorenna Ribeiro Zem El-Dine: A Independência proclamada em 1822 só veio a ganhar mais consistência e unidade a partir da segunda metade do século XIX, com o segundo reinado, em torno da figura de Dom Pedro II, cujo engenho político não é nada desprezível ao conseguir estabelecer a estabilidade e a unidade política nacional. Algo que pode ser comemorado. Ao mesmo tempo, sob esse reinado, o Brasil foi o último país do Ocidente a abolir formalmente a escravidão, o que deve ser motivo de questionamentos.

Por sua vez, os autores modernistas formaram o principal movimento coletivo a valorizar a miscigenação sem atrelá-la à perspectiva racista do branqueamento da população brasileira. Contudo, o movimento não era homogêneo e essa valorização da mistura racial, enquanto marca da cultura nacional, ficou, muitas vezes, lado a lado de uma hierarquia racial e, acima de tudo, do enaltecimento do português como o colonizador que orquestrou a formação nacional.

Historicamente, o elogio da miscigenação se traduziu na ideologia da democracia racial e na ideia de que o Brasil era marcado por relações raciais harmônicas, o que, por muito tempo, dificultou a luta antirracista na sociedade brasileira e o enfrentamento das marcas da escravidão. 

Renato Ortiz: Não se escapa à história, o passado pode ser percebido como nostalgia ou anátema, mas isso não modifica sua natureza. A questão não é tanto encontrar nos eventos as virtudes ou as distorções que os conformam, importa compreender seu significado. 1822 é de fato um momento de libertação, ao fechar-se um ciclo da dominação colonial portuguesa e espanhola no continente latino-americano, o horizonte dos povos se abre para a construção nacional. Trata-se, portanto, de um fato decisivo. Entretanto, o futuro contém uma série de percalços. Em termos políticos pode-se dizer que o Brasil não se constituía, e até hoje não se constitui, em uma “sociedade de iguais”, de certa forma a noção de igualdade sempre nos foi incômoda. E a presença da escravidão é insofismável. Moses Finley dizia que a Antiguidade (mundo helênico e romano) tinha inventado a escravidão. Não no sentido da existência de senhores e escravos: essa era uma prática comum, existente entre diversos povos. Os Antigos inventam o “modo de produção escravista”, isto é, a organização da economia como um todo com base na mão de obra escrava. Esse é um modelo particular de estrutura social. No século das nações há apenas um pequeno número de sociedades escravistas: Estados Unidos, Brasil, e alguns países do Caribe. Elas reeditam da Antiguidade a perversidade da submissão do outro, a dependência total da pessoa do escravo à figura do senhor. Neste sentido, a nação brasileira se faz através da escravidão. Nela se concebe a ideia de uma cidadania política e civil limitada à elite dominante; quanto à cidadania social (o direito a um mínimo de bem-estar e de segurança econômica) as restrições se arrastam até os dias de hoje. Independência quer dizer autonomia em relação à metrópole, mas não significa a autonomia dos direitos. Durante todo o Império, e boa parte do século XX, a noção de povo é um ruído estridente para o ideário político brasileiro.

1922: é sugestivo perceber como um evento artístico como a Semana de Arte Moderna adquiriu um significado que vai muito além de suas ambições estéticas. Em si, o acontecimento realiza-se numa São Paulo provinciana, ele é acanhado. Entretanto, em sua amplitude, encerra uma dimensão social e política que o transcende. O modernismo brasileiro não se resume às formas estéticas, articula-se a toda uma renovação do país. Há, porém, um problema, ele se faz sem a modernização das forças produtivas. Um hiato se instaura assim entre o moderno anunciado e o que se almeja obter. Esse é o dilema da identidade nacional. A modernidade é possível através da afirmação do nacional, no entanto, ele não se realiza em sua plenitude. O moderno possui a força da ruptura, quebra com a existência de um Brasil rural, tradicional, mas os “novos tempos” são uma incógnita. Enquanto na Europa Ocidental a modernidade é uma condição, entre nós ela é uma aposta, uma “utopia” (há muitas dúvidas em relação a sua realização). Mas ao olharmos esse modernismo em seu centenário, não é possível fechar os olhos para suas inconsistências. Ao contrapor moderno e tradicional como dimensões dicotômicas, tem-se uma visão acrítica da modernidade. Tudo se resumiria à superação do “atraso brasileiro” (fantasmagoria que assombra o debate político entre nós). Esquece-se assim que a modernidade possui diversas faces, da democracia ao fascismo, da afirmação nacional ao imperialismo, da industrialização às ameaças ao meio ambiente. Em tempos de globalização as coisas se tornam ainda mais complexas. Oswald de Andrade dizia: “para sermos modernos é preciso ser nacional”, hoje diríamos: “pode-se ser moderno sem sermos nacionais”. Há uma defasagem entre modernidade e nação. Neste sentido, vive-se um certo “desencantamento” em relação ao moderno (particularmente em tempos de “diversidade”).

Denilson Lopes: Acho que as discussões sobre cultura nacional mesmo a partir de sujeitos que permanecem excluídos de seu imaginário e de sua sociedade têm alcance limitado. O modernismo que me interessa não é tanto o que busca uma atualização de um pensamento nacional, de criação de projetos nacionais e atualização da intelligentsia seja por agendas coloniais, neocoloniais ou des/decolonais. Penso que se trata menos de pensar o Modernismo na chave da formação como desenvolvida por Antonio Candido e mais a partir da inserção no mundo como formulada por Silviano Santiago.

Luís Augusto Fischer: Comemorar cabe para qualquer coisa, a depender do interesse envolvido. Se dependesse da minha vontade, 2022 serviria para expor com clareza o rumo perverso da nossa Independência e o nefasto destino concentracionista construído pelo Modernismo paulista.

Sobre a Independência, a gente deveria falar mais claramente não apenas da manutenção do instituto da escravidão, que é uma marca negativa daquele momento (mas que, enfim, não foi nenhuma exclusividade brasileira)   , mas muito mais da forma como foi organizado o Estado nacional – primeiro com a forma monárquica e não a republicana, uma esquisitice brasileira, depois o assassinato da primeira Assembleia Constituinte, depois a instalação de um modelo de gestão quase perfeitamente Antigo Regime, com aquele horror do Quarto Poder, privativo do Imperador, e a manutenção de uma prática de regalias, privilégios, monopólios, e depois ainda a perversão do pagamento da chamada dívida colonial, para não falar do modelo centrípeto de organização política e econômica do país. Todo o processo da Independência foi de manutenção do pior da tradição colonial lusitana.

Sobre a Semana de Arte e o que ela gerou, a gente deveria discutir os implícitos que levaram o Modernismo paulista a se tornar hegemônico até hoje. Tem algo de essencial muito parecido, ideologicamente, com o modo como a Independência se processou: uma visão excludente, centralizadora, que divulga uma fantasia de ruptura, uma imagem revolucionária, quando na verdade se tratou de um processo absolutamente orgânico com a dominação da burguesia cafeicultora – os modernistas paulistas se romperam alguma coisa foi com a dominação carioca, mas sua visão das coisas é em larga medida a fantasia de uma revolução sem povo, longe do movimento social, cultivando uma visão um tanto bucólica do Brasil, na obra de Mário de Andrade especialmente.

3. Que projetos para o Brasil e momentos decisivos da história e relacionados à Independência política e ao modernismo como movimento cultural você destacaria?

Lilia Schwarcz: Como expliquei na pergunta anterior, penso que a Conjuração mineira, a Conjuração dos Alfaiates, a Revolução Pernambucana de 1816, A confederação do Equador, A revolta dos Malês em Salvador, a Revolta de Viana no Maranhão, a República do Kunani no Amapá são exemplos de eventos que devem ser incluídos na história da Independência, se a pensarmos como um processo que não se resume à uma efeméride. 

No caso da Semana de 22 há que se incluir outros modernismos, como o carioca, o de Recife e o mineiro, por exemplo, mostrando como o modernismo a essas alturas era uma forma de sociabilidade que também não era inaugurada com o evento de fevereiro de 1922. O evento teve o papel de funcionar como catalisador, como momento emblemático de um longo processo que ia se manifestando em muitos setores de nossa cultura e em muitos estados e cidades brasileiros.

Maria Laura Viveiros de Castro Cavalcanti: Atenho-me ao impulso de conhecimento que tanto moveu Mário de Andrade e ilumina a relação entre etnografia e estudos de folclore, tão relevante no campo antropológico. Em sua obra, esse par conceitual emerge nos estudos sobre música, na literatura e poesia, em sua visão das artes plásticas, e se evidencia mais definido na abordagem de temas característicos, como os côcos, as melodias do boi, os sambas e maracatus, os bumbás e os congos, os pontos cantados do catimbó, da umbanda e do candomblé, entre tantos. O valor das “fontes populares” emergiu no caminho da pesquisa estética que almejava renovar a arte e cultura eruditas nacionais. Articula-se à orientação geral de sua obra: à busca do ritmo falado, do linguajar coloquial, das inovações expressivas, de novas formas da composição e criação artísticas, da “funcionalidade social” das artes. Porém, a inesgotável curiosidade por tais “fontes” fez com que Mário de Andrade buscasse também a “intimidade com sua gente”. Aos extensos estudos bibliográficos somaram-se encontros presenciais que o comoveram e foram registrados em seus textos. Fronteiras econômicas, socioculturais, étnicas, regionais foram transpostas e abriram o entre-lugar da “coisa folclórica” em sua obra. Esse aspecto da obra de Mário de Andrade o singulariza no ambiente modernista, e tenho buscado circunscrevê-lo. Ao mesmo tempo, a ênfase na atuação paulista tende a ocultar a atuação notável de outros centros regionais, outros modernismos que se interconectam. E a insistência no rompimento com o passado tende a ocultar continuidades relevantes por parte de autores que buscavam o conhecimento de outras brasilidades de modo muito próximo àquele que tanto interessou Mário de Andrade. Esse desejo de conhecimento que busca a fidedignidade e, ainda que de forma muito diversa daquela que hoje praticamos, põe em relação perspectivas e experiências culturais distintas, tem muito a dizer quando interpelado por questões atuais. 

Daniela Giovana Siqueira: Independência política: destaco os movimentos dissidentes ocorridos fora dos estados de Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro. Suas motivações e mesmo percepção sobre o que estava no bojo do ato de Dom Pedro I em 1822, parece-me interessantes para pensar as correlações de forças que coabitam o território brasileiro e, ao mesmo tempo, dar a ver o conhecimento a diferentes personagens não referenciados pela historiografia brasileira. As movimentações bélicas ocorridas nos dois primeiros anos após a declaração da Independência são pouco conhecidas da população e esse traço de esquecimento torna possível pensar sobre como o Estado brasileiro conseguiu construir uma imagem de pacificação mesmo tendo uma série de revoltas e guerras internas no currículo. Os movimentos dissidentes levados a cabo até 1824, podem ser exemplos históricos para pensarmos em como se dá a presença da violência na sociedade brasileira e em como ela é administrada pela história e pela memória da sociedade.

Uma ação do modernista Mário de Andrade merece ser destacada: sua tentativa de levar a perspectiva da cultura popular para ser incorporada como uma visão de Estado pelo governo federal. Pensar que as experiências sociais engendram concepções estéticas e propor uma identificação e qualificação sobre a presença da ação popular que gera bens culturais, de forma a permitir a construção de políticas públicas, foi algo extremamente precursor. Esta proposta de Mário de Andrade falava e segue falando de algo muito caro ao campo social e cultural nacional, dizer para nós mesmos que país somos e o que construímos a partir de nós mesmos. Há toda uma ordem cultural que é produzida e não acessada pelos próprios habitantes.  Um exemplo muito direto disso é a produção cinematográfica nacional, uma ilustre desconhecida. Cultura neste país precisa ser fomentada a partir do Estado, e Mário nos ensinou isso lá atrás.

Robert Robert Wegner & Lorenna Ribeiro Zem El-Dine: O movimento modernista é um marco da memória nacional, e, como tal, sujeito a variadas interpretações, releituras e apropriações. Nesse sentido, é possível relacionar uma afirmação ufanista da cultura brasileira e uma visão idílica das relações raciais no país à leitura particular de uma vertente do modernismo como a do verde-amarelismo, com sua afirmação de que nessa porção da América nasceria uma nova raça mestiça e a nação do futuro.

Por outro lado, temos diante de nós a impactante apropriação do modernismo empreendida por Emicida em seu show/manifesto AmarElo, que estabelece uma linha de continuidade entre o modernismo, o samba e o rap, ao mesmo tempo em que radicaliza e subverte o próprio modernismo. A semana de 1922 aconteceu no Teatro Municipal de São Paulo e, embora o movimento modernista fosse formado, em sua maioria, por autores advindos das elites e financiado por Paulo Prado, um aristocrata do café, promoveu uma subversão dos cânones artísticos. Ao levar o seu show para o Municipal, Emicida radicaliza a subversão, com pessoas pretas, periféricas e LGBTQIA+ no centro da cena. O rapper não esqueceu de estabelecer mais uma conexão com o passado, com um ponto quase equidistante entre 1922 e 2019: a manifestação política do Movimento Negro Unificado, em 1978, que ocorreu, ainda durante a ditadura militar, nas escadarias do mesmo Teatro Municipal, reunindo, dentre outros, Abdias do Nascimento e Lélia Gonzalez. Agora, Emicida trouxe os negros e a cultura e a arte da periferia para o palco e, a partir dele, prestou uma homenagem aos integrantes do MNU que assistiam à apresentação.

Renato Ortiz: Há vários momentos decisivos na história do pós-independência: guerra do Paraguai, abolição da escravidão, proclamação da República. Mas dificilmente os veria como “projetos para o Brasil”, como formula a pergunta. A independência é um fato significativo, funda a nação; entretanto, o projeto da elite brasileira sempre foi profundamente conservador, do ponto de vista político e social. A começar pela forma escolhida de governo, a monarquia, um contraste com as repúblicas criadas na América Latina. O Império tem o mérito de ter unificado o território nacional (os historiadores nos lembram disso), mas a sociedade que se almeja, e se realiza, é de uma desigualdade e de uma injustiça atroz. Em relação à Semana de Arte Moderna as coisas são distintas, desde que não nos esqueçamos de seu acriticismo em relação à modernidade. A discussão estética de alguma maneira introduz entre nós a questão do futuro, o moderno traria a esperança de um outro país. Não se deve esquecer que o debate sobre a brasilidade no início do século XX girava em torno das teorias raciológicas (na verdade, racistas). O país seria o resultado da mescla de uma raça superior e duas inferiores (o negro e o indígena). Dentro desta perspectiva haveria um impasse, a impossibilidade de desenvolvimento. A controvérsia do branqueamento das raças conduzia a um dilema, a ausência de futuro. Por isso os diagnósticos da época (Nina Rodrigues, entre outros) era marcado por um profundo pessimismo. Quando Monteiro Lobato, já na década de 1920, se desculpa em relação a seu personagem Jeca Tatu, ele diz: “O Jeca não é assim, está assim”. Com isso seu diagnóstico anterior (década de 1910), no qual apontava para a ignorância e o atraso brasileiro, é reformulado. Não era o Ser do país que o aprisionava ao passado, mas a falta de um “projeto” que o colocasse nas trilhas do progresso e do desenvolvimento. Neste sentido, o presente torna-se um momento de transição, o moderno a ser alcançado é a dimensão palpável de sua concretude.

Denilson Lopes: O que foi definido pelo fracasso, pela decadência, pela catástrofe, pela melancolia de um Modernismo que passa por Cornélio Penna, Mário Peixoto, Lúcio Cardoso, Goeldi, Farnese de Andrade, entre outros. Assim, o fascínio é mais pelo tempo lento das paisagens devastadas pelo extrativismo, pelo mundo rural não considerado como arcaico nem regionalista mas o anverso crítico de uma outra Modernidade. A sensação de estar depois do fim sem aderir a dimensões utópicas e ativistas talvez possa gerar outras formas de vida.

Luís Augusto Fischer: Não sei se eu entendi direito a formulação, mas enfim: se tomarmos o verbo “destacar” como sinônimo de “apoiar” ou “celebrar”, naturalmente vale a pena destacar o fato de ter havido, nos dois casos, em 1822 e em 1922, algum movimento, ao menos algum sonho de mudança, de emancipação, de reforma das coisas para melhor. Os dois momentos podem e devem ser tratados como ensina Walter Benjamin, ao lembrar que as encruzilhadas históricas do passado guardam em si futuros potenciais, alguns deles realmente libertários, que podem ser retomados e quem sabe ajudar a projetar outros futuros. Da Independência, toda uma ideia de nação autônoma e futurosa, hoje soterrada pelo horror bolsonarista, pode ser lembrada como um norte ainda válido, ao menos em parte.

Nos dois casos, da Semana e do Modernismo paulista, da mesma maneira pode-se dizer que eles guardam certa energia reformista, anticonformista, com certa atenção para a dinâmica social real, e isso vale a pena pensar de novo, retomar, soprar nas brasas da energia reformista ou revolucionária. Mas acho que, no caso do Modernismo, e menos ainda na Independência, há uma dimensão decisiva a ser combatida criticamente, mas primeiro ela precisa ser desentocada para se tornar visível: os dois processos foram marcantemente nacionalistas e anticosmopolitas, no plano intelectual. A versão do Mário de Andrade, que triunfou sobre a de Oswald, por exemplo, nos mantém isolados da região americana e ainda e sempre presos num nacionalismo algo populista e também um tanto antimoderno – o que se vê por exemplo na visada antimercado que Mário tinha ao comentar o mundo da música: mesmo conhecendo o mundo da canção gravada e radiofonizada, ele endeusava a música espontânea, comunitária, ou então a música erudita/de orquestra, numa atitude que no fim das contas era refratária à compreensão da força cultural e até mesmo literária das canções brasileiras.

4 – Quais os significados atuais da Independência política e do modernismo para os projetos de Brasil possíveis em e para além de 2022?

Lilia Schwarcz: Nesse momento em que vivemos, de tamanho revés político, com tantas políticas obscurantistas por parte de um governo autoritário que censura a manifestação de seus cidadãos e ataca as instituições democráticas, esses dois eventos precisam ser comemorados a partir da noção ampla de liberdade que contemplam. Uma liberdade que intersecciona marcadores de gênero/ sexo; região, geração, classe social. Uma liberdade que diz respeito aos direitos da população. Liberdade que num governo democrático significa garantir acesso à uma educação pública de qualidade, a um sistema de saúde universal e em que a segurança seja um direito e não uma ameaça. Liberdade de expressão, de ir e vir e de imprensa. Nossa liberdade depende, porém, de instituições e de uma prática democrática e não de um governo que ameaça o parlamento e o STF, cotidianamente, que bombardeia a segurança das eleições e que atenta a cada dia contra a Constituição. O que queremos é que 2022 faça da liberdade seu motor, é que ela se paute na igualdade de condições entre os três poderes; o grande motor de transformação da sociedade moderna, e que só pode funcionar na base da transparência e dando visibilidade às medidas do poder. 

Enfim, liberdade implica uma certa forma de sociedade e um modo de vida que garante direitos civis e de participação para um grande número de pessoas, mantendo as diferenças que possam existir entre elas. Que 2022 seja o ano em que não nos calamos e lutamos sempre por nossos direitos.

Maria Laura Viveiros de Castro Cavalcanti: 2022 e além são horizontes políticos e culturais incertos para o país e para o mundo. Creio que as correntes do pensamento pós-moderno que se configuraram internacionalmente nos anos 1960 e chegam ao Brasil com força junto com a redemocratização do país em meados dos 1980 já não dão mais conta do nosso mundo cultural. Suas contribuições importantes – como a visibilização de novos atores e vozes de grupos subalternizados – certamente ficarão, mas o ceticismo irônico e corrosivo com relação às “grandes narrativas” produziu talvez de modo inadvertido uma espécie de relativismo multiculturalista radical que dificulta as possibilidades de compreensão mútua e o estabelecimento de perspectivas comparativas que são o cerne do pensamento antropológico. Lembro a letra do belo samba Argumento, de Paulinho da Viola, que canta: “Sem preconceito ou mania de passado, sem querer ficar do lado de quem não quer navegar// Faça como um velho marinheiro que durante o nevoeiro, leva o barco devagar”. 

Nossos tempos são de nevoeiro espesso, pedem serenidade, discernimento e tolerância mútua. A Independência do país em 1822 e a Semana de Arte Moderna de 1922 que veio a simbolizar o Modernismo brasileiro como um todo situam-se em planos de realidade muito distintos, mas certamente discuti-los e buscar conhecê-los de modo renovado é um alento. A grande diversidade étnica e cultural brasileira sempre a ser conhecida e reconhecida mais e melhor – como perceberam tantos intelectuais entre eles o modernista Mário de Andrade – é, afinal, parte das infinitas possibilidades do repertório cultural humano. 

No mais não há projeto político sustentável ou projeto cultural razoável que não integre à busca de desenvolvimento econômico a busca da equanimidade social, de políticas públicas bem direcionadas e inclusivas de educação básica e pré-escolar, de saúde, de promoção do conhecimento científico, de apoio às instituições culturais, aos direitos humanos básicos, de proteção do meio ambiente, dos territórios indígenas e quilombolas, do combate aos racismos e todas as formas de preconceito. Uma pauta crítica por retomar entre escombros e fazer cumprir. Nossa cultura e nossas ciências nos últimos tempos são feitas de resiliência. Tomara que revisitar a Independência e o Modernismo nos traga rumos novos mais esperançosos. 

Daniela Giovana Siqueira: Atualmente, deveríamos olhar para a Declaração da Independência tentando compreender os laços que a formaram, as propostas políticas e interesses que marcaram o ato do ano de 1822, entendendo que ele parte de uma motivação restrita a um interesse privado de grupo. Este lastro, que não permitiu e segue tentando impedir a existência mais justa para a maioria, é que deve ser encarado para o desenvolvimento de um projeto mais social e inclusivo de país. A configuração geográfica que delimita o estabelecimento de um país foi conquistada. O território português não foi desmembrado e a dimensão continental, tão particular do Brasil na América Latina, manteve-se após a independência de Portugal. Mas essa condição não conseguiu estabelecer sobre o território o que poderíamos entender como uma nação, no sentido de união identificada e partilhada entre um grupo de pessoas. Lembrar em 2022 da Independência deverá ser uma oportunidade para iluminarmos as muitas pessoas viventes sobre esse território e que seguem sendo apagadas, como os negros e os indígenas.

Quanto a uma atual significação modernista, penso que deveríamos seguir trazendo para os olhos e ouvidos de uma população, cada vez mais ampla, ideias de país mais baseadas em valores proferidos por vozes não reconhecidas, não integradas, e por vezes desvalorizadas, como, por exemplo, movimentos que são produzidos nas periferias das cidades. Penso que há ali sentidos de resistência, criatividade e promoção da diversidade da vida que ainda seguem desconhecidos e desvalorizados pela maior parte da população brasileira. Em um país que se organiza a partir de uma distribuição de imaginário social construído pelo eixo Rio de Janeiro e São Paulo, a ideia de periferia ganha força para expandir-se em escala bastante considerável. Esse movimento torna possível o encontro e a mediação simbólica, que é capaz de vencer o preconceito historicamente arraigado de nós para conosco mesmos.

Robert Robert Wegner & Lorenna Ribeiro Zem El-Dine: Do ponto de vista do governo de extrema direita, nós constituímos um país independente, portador de uma cultura nacional autêntica que deve ser meramente preservada. Nesse sentido, a Independência de 1822 e a Semana de 1922 devem ser pura e simplesmente enaltecidas. A superficialidade dessa leitura está representada no slogan do boné de Eduardo Bolsonaro: “Make Brazil great again”.

Em outros sentidos, 1822 e 1922, compreendidos enquanto processos inacabados, conferem significados desafiadores para os projetos de um país com mais igualdade econômica, diversidade racial e cultural, e cidadania. É a hora de cruzar os horizontes de expectativas de figuras históricas que lutaram pela independência política, como José Bonifácio de Andrada e Silva, e personagens centrais do modernismo, como Mário de Andrade, com visões que revisitaram e ampliaram esses projetos, como nossos contemporâneos, o já citado rapper Emicida e o xamã yanomami Davi Kopenawa, que, num exercício de antropologia simétrica exposto em A Queda do Céu, transcende a importância do respeito às culturas indígenas e mostra como suas cosmologias e modos de se relacionar com a terra são necessários para pensar projetos de futuro. Não se trata mais do negro como suposto problema e nem do indígena como figura mítica, e sim dos pretos e indígenas vivos. Não se trata mais de um projeto político de Estado de assimilação de negros e indígenas em uma cultura nacional, mas de um projeto de Brasil construído por múltiplas vozes e culturas que possibilite, enfim, a continuação da vida no planeta Terra.

Renato Ortiz: O Brasil é um país que acumula os problemas do passado e os dilemas do presente, a questão é imaginar o futuro quando o moderno deixou de ser uma “utopia”. O passado encontra-se presente entre nós de várias formas. A primeira é social: a desigualdade (distribuição de renda, fome, pobreza) persistiu por vários séculos, e estamos distantes de superar esse quadro. A segunda é de natureza política, a fragilidade da democracia. A história brasileira nunca a favoreceu: Império, República Velha, era Vargas, ditadura militar, populismo boçalnarista. Pode-se aplicar a esse longo período de duração a noção de modernização conservadora (Tom Bottomore), na qual se explicita a tensão entre a modernidade e a realização dos valores democráticos. Na década de 1980 discutia-se muito sobre a “transição democrática” que viria após os anos de autoritarismo dos militares (foram 20 anos). Hoje fica claro que a passagem de um regime para outro nada tem de definitivo, a democracia é uma conquista que deve ser permanentemente renovada. Mas a posição do Brasil no cenário internacional também mudou. Na época da Semana de Arte Moderna não éramos ainda modernos. A escala evolutiva de um tempo unilinear, do estado selvagem à civilização (visão ideológica, é claro), nos situava a meio caminho de uma modernidade incompleta. Hoje possuímos uma “moderna tradição brasileira”, nas suas virtudes e problemas, e a ideologia do progresso encontra-se em declínio. É possível acrescentar ainda: no início do século XX a Europa Ocidental, e gradativamente os Estados Unidos, ocupavam uma posição de destaque. O quadro é outro atualmente. A relação de forças das nações se modificou, particularmente com a emergência dos países asiáticos, Japão e China, a construção da Comunidade Europeia e o enfraquecimento relativo dos Estados Unidos (o eurocentrismo vigente tem dificuldades em se impor). No mundo globalizado, a posição do Brasil tornou-se, estruturalmente, mais favorável, trata-se de uma potência regional com certa relevância. Porém, tudo resta nebuloso, um projeto para além de 2022 deveria considerar o que somos e o que não conseguimos ser. Neste sentido, o futuro é a construção do presente que não se realizou e nossa inserção em um mundo que se transformou.

Denilson Lopes: O que me fascina no Modernismo, talvez menos no de 22, não é tanto a busca de independência, mas a busca de redes afetivas e intelectuais transnacionais, buscando formas de trânsito e relações cosmopolitas.

Luís Augusto Fischer: Como disse acima, um traço presente nos dois casos é uma visão e uma prática concentracionistas, centrípetas, e isso precisa ser discutido para ser derrubado. O Brasil precisa andar, por pouco que seja, na direção de uma visão mais aberta, mais desconcentrada no plano dos poderes, econômicos, políticos ou simbólicos. O que os dois processos têm de bacana, como também mencionei acima, é o sonho de emancipação, que naturalmente agora não podem se realizar nos termos dos dois momentos históricos originais mas que ainda fazem sentido. Para falar do meu quintal, a literatura, creio que temos visto coisas muito auspiciosas que podem ser prestigiadas numa evocação da Independência e do Modernismo. Penso no caso da literatura produzida e largamente consumida por afrodescendentes, numa escala e numa qualidade inimagináveis até há pouco tempo. Da mesma forma a tomada da palavra pelas periferias, num processo que em parte se explica pelo recente incremento da escola e das ações afirmativas, com que o presente governo federal tem tentado acabar mas que já mostrou dar frutos de grande valor. Isso sim é sinal de luta por alguma novidade equiparável ao que foi sonhado pelas melhores sensibilidades em 1822 e em 1922. 


[1] O autor fez anteceder suas respostas a seguinte “Nota de cautela”: Quando Maurice Halbwachs cunha o conceito de memória coletiva, ele chama a atenção para dois pontos: o espaço e o tempo. Toda memória deve encarnar-se em um “lugar”, aí as lembranças se materializam. Por isso Roger Bastide diz que a memória coletiva africana se realiza em um território específico: o candomblé. Nele os orixás “contam” os mitos e tecem as relações entre o sagrado e o profano. O lugar no qual se inserem 1822 e 1922 é a nação brasileira; em sua totalidade enraízam-se as recordações que nos tocam. Em relação ao tempo, Halbwachs sublinha: o ato mnemônico se faz sempre a partir do presente, ele é uma seleção das lembranças tensionadas pela temporalidade que as corrói. Neste sentido, a memória histórica é recordação e interpretação. Os eventos que nos interessam situam-se no passado, entretanto, são hoje cultivados em um presente comprometido pela estupidez e a mediocridade do autoritarismo que nos cerca. As celebrações se fazem assim num terreno minado de disputas, antagonismos e desesperança.

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