“Lúcia Machado de Almeida: Uma vida quase perfeita” | Entrevista com Regis Gonçalves

O Blog da BVPS traz hoje uma entrevista com o jornalista e poeta Regis Gonçalves, que publicou recentemente a biografia da escritora mineira Lúcia Machado de Almeida, Uma vida quase perfeita (Conceito Editorial, 2021). A conversa, conduzida pelo jornalista e diretor do Suplemento Literário de Minas Gerais João Pombo Barile, gira em torno do livro e da figura de Lúcia Machado de Almeida, mas se expande para tratar da vida literária brasileira e do jornalismo cultural. Antes da entrevista, lemos ainda uma breve apresentação escrita por Barile.

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Boa leitura!

A importância da mulher na vida cultural de Minas não ganhou, até hoje, a atenção merecida. “Nomes como Vanessa Neto, Elvira Komel, Anita Uxa, Magda Lenard, Teresinha Alves Pereira ou Celina Ferreira, e que foram fundamentais para a história do Estado, continuam ainda completamente desconhecidos do grande público”, me alertava, um tempo atrás, meu caro amigo Silviano Santiago.

Daí a importância da publicação de Lúcia Machado de Almeida: Uma Vida Quase Perfeita, do jornalista Regis Gonçalves. Quem sabe o perfil biográfico da escritora, e que ficou conhecida nacionalmente como a autora de livros infanto-juvenis como O Escaravelho do Diabo ou Atíria, a Borboleta, possa despertar o interesse das novas gerações para a análise dessas grandes mineiras.

Um dos melhores, e mais discretos, jornalistas brasileiros, Régis é mineiro de Santa Bárbara. Graduado em Sociologia pela Universidade Federal de Minas Gerais, acabou caindo no jornalismo onde, desde os anos 1960 trabalhou nas principais redações de BH.

Para falar sobre Lúcia, e também sobre sua obra, conversei com Régis no mês passado. O resultado, o leitor confere a seguir.

João Pombo Barile

Você já tinha escrito sobre a Lúcia em 2001, para o jornal O TEMPO. A matéria, aliás, faz parte do seu livro Retratos erráticos. Que lembranças tem daquela entrevista?

Na verdade, o perfil de Lúcia não se baseou em entrevista, pois ela estava bastante envelhecida e sem condições de atender a um repórter, como me informou a família. Fui atrás de pessoas que conheceram a escritora e conviveram com ela.

Como surgiu, então, a ideia do livro?

Recebi um convite do editor José Eduardo Gonçalves, da Conceito Editorial, que havia incluído o nome de Lúcia Machado de Almeida entre os personagens de sua coleção Perfis BH. A sugestão veio de Rogério Faria Tavares, então diretor do BDMG Cultural, patrocinador dessa edição, talvez em função de conhecer o perfil de Lúcia publicado em O Tempo.

Você leu os livros dela quando mais novo? Os seus filhos leram?

Alguns de meus filhos, sim. Até pouco tempo, eu mesmo não tinha contato com a obra de Lúcia. Era ainda criança quando ela começou a escrever e a ser conhecida. Eu morava em pequena cidade do interior, sem acesso a bibliotecas, e quando me mudei para Belo Horizonte passei a me interessar por outro tipo de literatura, os clássicos do romance francês e russo, especialmente, além da poesia brasileira com o selo do Modernismo.

Lucia teve uma importância muito grande na vida do pintor Alberto da Veiga Guignard. Como você tratou a questão no livro?

Escrever uma biografia pressupõem o conhecimento não apenas de sua personagem, mas também da época e da sociedade em que ela viveu. Lúcia passou a maior parte de sua vida em Belo Horizonte e era figura de destaque na vida cultural da cidade, mantendo forte interação com intelectuais e artistas de seu tempo. Guignard era um deles e seu relacionamento com Lúcia foi importante para ambos. Tiveram uma convivência prolongada e afetuosa. Lúcia e seu marido, Antonio Joaquim de Almeida, receberam Guignard em sua casa onde foi hóspede por um bom par de anos. Quando estourou na imprensa o escândalo sobre os falsos protetores de Guignard, Lúcia foi poupada, como relata um dos biógrafos do artista (Marcelo Bortoloti. Guignard: anjo mutilado. Companhia das Letras. 2021). Esse tema, que mereceu dois capítulos em meu livro, exigiu-me pesquisa minuciosa, dado o seu caráter controverso. Ouvi depoimentos de várias fontes, inclusive o jornalista que publicou a série de reportagens sobre o assunto, dando início a uma polêmica nacional. Procurei também pessoas da família de Lúcia, que me ajudaram a elucidar esse e outros aspectos da vida dela. Embora não tenha escrito uma biografia autorizada, sou grato a esses familiares que, em momento algum, procuraram interferir em meu trabalho.

Crédito: Diogo Droschi

Como disse no início, você também é autor do livro Retratos erráticos, um delicioso livro de reportagens literárias. Poderia falar um pouco mais sobre o livro?

Quando comecei no jornalismo, na década de 1960, já fazia literatura, mas apenas poesia, chegando a participar de alguns concursos, mas sem publicar. Em minha passagem mais recente por uma redação, no jornal “O Tempo”, tive a oportunidade de experimentar uma escrita mais livre do chavão “lead – sublead – fim de papo”, e para isso foi fundamental minha experiência anterior na literatura e o conhecimento do New Journalism estadunidense que introduziu um estilo literário na escrita jornalística. Isso se deu por meio de um seminário oferecido à redação sobre a arte do perfil, ministrado pelo jornalista Humberto Werneck, ele próprio um dos bambas do gênero no Brasil. Foi decisivo também o papel do editor de Cultura do jornal, Antônio Siúves, que me pautou frequentemente para entrevistas com personalidades da área cultural, liberando-me provisoriamente das tarefas diárias do fechamento de páginas. Foi o momento de levar à prática algumas daquelas ideias. Claro que isso é bastante mais difícil no jornalismo diário, em que a matéria é sempre para amanhã. Nessa mesma ocasião, fiz também alguns frilas para veículos de outras capitais, nos quais adotei procedimento semelhante. Passados uns poucos anos, percebi que havia alguma perenidade nessas matérias e resolvi reuni-las em livro, que foi prefaciado por Werneck, meu iniciador no gênero.

Um dos perfis mais interessantes do livro é do Manoel de Barros. Que lembranças tem daquele encontro?

Ouvi falar do poeta Manoel de Barros por um amigo, Paulo Vilara, também poeta, que viveu algum tempo em Campo Grande e trouxe de lá a novidade de uma poesia essencial, feita ao nível do chão, das coisas rasteiras. Com ele vieram também alguns livrinhos em edição quase artesanal, de uma simplicidade franciscana. Isso foi antes de o poeta ser descoberto por Millôr Fernandes que lançou seu nome nacionalmente, chamando a atenção das editoras dos grandes centros. Acho que andei falando dele na redação, onde seus livros já eram conhecidos dos leitores de poesia. O editor decidiu que tentaríamos uma grande reportagem e as tratativas para a viagem foram bem-sucedidas. Partimos, a fotógrafa Vera Gonçalves e eu, em voo com escala em Brasília, onde estabelecemos contato com o poeta – um homem de trato afabilíssimo e, o que era melhor, grande conversador. Falou de sua poesia, de sua vida de matuto do Pantanal, da mudança para o Rio de Janeiro onde formou-se em Direito e chegou a exercer a profissão. “Falam na beleza do Pantanal, mas bonito mesmo para mim era Ipanema”, disse com ironia indisfarçada. O pai, grande proprietário de terras longínquas que careciam de braços para se tornarem rentáveis, deixou-as aos filhos, ao morrer. E Manoel viu-se proprietário de uma fazenda naquele fim de mundo. Havia se casado com Stella, natural de Leopoldina (MG), gostava do Rio e não tinha a intenção de tornar-se fazendeiro. Pensou logo em vender suas terras, o que não aconteceu porque a mulher percebeu a intenção e se opôs bravamente, desafiando o marido. “Vamos para o mato, vou junto com você”. Foram dez anos de vida dura, a criar gado no Pantanal sob um calor insuportável, insetos, bichos bravos e promissórias bancárias. Mas prosperou. “Prevaleceu o sendo prático da mineira, senão eu estaria até hoje vivendo como um rábula sem eira nem beira”. Para confirmar o que disse, propôs que fossemos até a fazenda, conhecê-la. O único meio de transporte era o avião, obrigando-nos a fretar um teco-teco que nos levou até o Pantanal, em companhia de Manoel e seu filho João, que naquele momento administrava seus negócios. Foi um dia inteiro de conversa que resultou em muitas páginas de jornal, com grande repercussão. Acho que foi uma aventura extraordinária conhecer a intimidade do Pantanal de seu poeta.

Retratos Erráticos traz ainda uma matéria sobre sua descoberta:  os famosos Diários de Guerra do Guimarães Rosa. Como foi esta descoberta?

Pouca gente sabia da existência de um diário escrito por Guimarães Rosa no tempo em que foi vice-cônsul em Hamburgo, na Alemanha nazista, entre 1938 e 1942. O documento não constava entre os papéis arquivados no Instituto de Estudos Brasileiros da USP, que havia adquirido à família todo o acervo do escritor. O diário, contudo, ficou guardado no Acervo de Escritores Mineiros da UFMG, onde ainda continua, entre os papéis da poeta Henriqueta Lisboa. E tornara-se objeto de pesquisa dos professores Georg Otte, Eneida Maria de Souza e Reinaldo Martiniano Marques, da Faculdade de Letras. Seu interesse é inquestionável, pois desvenda um período da maior importância na vida do escritor, anterior à publicação de seu primeiro livro, ao revelar suas inclinações literárias e ideológicas, claramente antinazistas. Foi também nessa ocasião que Rosa conheceu sua segunda mulher, Aracy Moebius de Carvalho, funcionária do consulado. Esse achado surpreendente levantou a ponta de outro mistério: como associar um documento privado de Guimarães Rosa à discreta Henriqueta Lisboa que não o conheceu pessoalmente? Esse foi um dos aspectos da pesquisa que me levou ao ano de 1973, quando os originais, que se achavam no Rio de Janeiro, em poder de um advogado, provavelmente testamentário do escritor, que os confiou ao então CEO da Xerox do Brasil, casado com uma das sobrinhas de Henriqueta, que fez deles quatro cópias encadernadas. A poeta foi, então, presenteada com uma delas, garantindo assim sua preservação, enquanto os originais e as demais xerocópias se perderam. A matéria que assinei, publicada em O Tempo, de 4 de março de 2001, foi um furo nacional de reportagem e tornou-se pauta de outros jornais e revistas do país. Em 2013, Soraia Vilela e Adriana Jacobsen ampliaram essas pesquisas à Alemanha e levaram o tema ao cinema, com o documentário Outro Sertão, vencedor do Prêmio Especial do 46º Festival de Brasília.

Como você vê o jornalismo cultural feito hoje?

A pergunta está intimamente relacionada ao tema do jornalismo impresso em geral. A prática jornalística está se transformando rapidamente em algo diferente do que conhecíamos até bem pouco tempo, numa mudança significativa de paradigma. As edições digitais, por exemplo, não impõem limitações de espaço tão rígidos quanto o jornal impresso e seus cadernos de cultura ganham assim novas opções, tais como a publicação de ensaios, a transcrição de capítulos de livros e o uso mais generoso de ilustrações e infográficos. Por outro lado, os jornais tradicionais, ainda que disponibilizando edições digitais, sofrem a concorrência de outros atores, especialmente blogs capitaneados muitas vezes por nomes expressivos que antes colaboravam com os meios impressos e passaram a assinar suas próprias publicações valendo-se do prestígio já conquistado. Há ainda novos jornalistas e escritores que surgem catapultados pelos meios digitais, o que enriquece o cardápio de opções à disposição do leitor. Esse é fenômeno que considero irreversível.

Poderia falar um pouco sobre sua poesia?

Acho que foi João Cabral de Melo Neto quem disse que a poesia é o laboratório da escrita, um lugar de aventura e experimentação. Se pudéssemos estabelecer uma analogia com a ciência, seria legítimo dizer que experiências de laboratório são exatamente isso, experimentos, podem ter resultados melhores ou piores, alguma coisa vai ficar para a posteridade, outras não. Nunca me filiei a vanguardas poéticas, acho até que por temperamento, mas sempre estive atendo aos seus experimentos laboratoriais. Se a chamada “poesia marginal” (uso aspas para melhor entendimento da expressão) dos anos ‘70 e ‘80 foi uma vanguarda, então posso dizer que estive bem perto disso. Participei, como autor e um dos editores, de uma publicação alternativa, a revista publicada em saquinhos de armazém Poesia Livre e editei três livros de poemas (Queima de Arquivo, Opus Circus e Trama Tato Texto) imprimindo-os e os distribuindo por minha conta e risco. Quando organizei aquele que seria o quarto volume de minhas “Obras Completas” (roubo aqui o título de um livro do poeta Otávio Ramos), decidi não me financiar mais. Como não encontrei editor, os poemas de “O Atleta Hipocondríaco” permanecem inéditos, exceção feita a alguns publicados em suplementos literários ou por meio da internet.

Crédito: Arthur Freitas

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