A dobra, o fora, o dentro: uma leitura da imagética do vídeo-manifesto minasmundo, por Marco Antonio Gonçalves

O Blog da BVPS publica hoje a leitura feita pelo antropólogo Marco Antonio Gonçalves, professor titular da UFRJ, do vídeo-manifesto do projeto Minas Mundo, que o leitor pode assistir acima. O texto faz um percurso pelo vídeo-manifesto, pontuando uma série de relações e agenciamentos imagéticos, além de estabelecer diálogos mais amplos com as propostas o projeto. O vídeo foi dirigido e editado pelo videomaker e fotógrafo Fabio Seixo.

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Boa leitura!

A dobra, o fora, o dentro: uma leitura da imagética do Vídeo Manifesto minasmundo

por Marco Antonio Gonçalves

A intenção deste comentário sobre o vídeo manifesto realizado por Fábio Seixo é a de propor uma leitura imagética capaz de evocar e reverberar algumas das proposições que engendram e embasam o projeto Minas Mundo a partir de seu manifesto. [i] Tomando as imagens em sua radicalidade, adentramos no conceito primordial do projeto que é a concepção de cosmopolitismo, espécie de armadura político-conceitual do significado de minasmundo, aportando em suas derivações que abrem um campo de reflexão sobre e no espaço minas como mundo e mundo enquanto minas. Proponho, assim, um percurso pela imagética do vídeo, pontuando relações, agenciamentos, proposições.

O vídeo inicia com Tiradentes e termina com Tiradentes. O monumento a Tiradentes em Ouro Preto é um marco da República, uma radical ressignificação da história do Brasil e representa a refiguração de Minas nesta história. Logo em seguida, vemos uma intercalação entre personagens discursando, a política e o poder, Juscelino Kubitschek e Getúlio Vargas, e cenas do filme Macunaíma, de Joaquim Pedro de Andrade – exatamente o plano do discurso do poeta que também do alto de uma estátua, monumento, profere uma narrativa sobre a origem do Cruzeiro do Sul e ali é desmentido por Macunaíma, momento de inversão importante que faz com que Macunaíma imponha sua visão, saia vitorioso afirmando seu discurso sobre o Cruzeiro do Sul, que é verdadeiramente o pai do mutum. As imagens do vídeo parecem querer acentuar esta rotação, esta mudança de cânone, permitindo emergir outras formas de entendimento sobre as mesmas coisas. Os planos do vídeo continuam a acentuar esta alternância entre políticos brasileiros e imagens do filme Macunaíma, especialmente a de Venceslau Pietro Pietra, que é o gigante Piaimã que dá entrevista para repórteres. Com este bascular entre Macunaíma e os políticos, encerra esta abertura que é operada pelo contraste de formas discursivas distintas, culminando com a irrupção de Macunaíma assumindo o papel de herói de nossa gente, encarnando um contradiscurso que desestabiliza discursos “oficiais” sobre o Brasil.

O último plano da abertura nos dá a ver um político, um general e ao fundo uma igreja barroca, e aí passamos para a topografia de Minas, mapa ondulado com suas montanhas, no qual vemos muitas igrejas que se confundem com a cartografia. Este plano do mapa se funde às igrejas reais de Ouro Preto, dominando definitivamente a paisagem. Mais uma fusão e vemos as mesmas igrejas e a cartografia emergirem como representação no croqui realizado por Tarsila do Amaral e, deste modo, aportamos ao centro do minasmundo, ao ano de 1924. Este croqui, esta passagem por Minas, abre espaço para uma outra percepção do modernismo, e assim passamos a ver o ícone Abaporu se confundindo e se fundindo com o sertão de Guimarães Rosa, através de um fundo de galhos retorcidos e secos que emolduram Abaporu. Neste momento, somos embalados pela montagem poética de Lucas van Hombeeck, que evoca os gerais que correm em volta, sem tamanho, os campos a fora, adentro. Imagens verbais de Guimarães Rosa em o Grande Sertão: veredas, que se fundem em harmonia com as outras imagens evocadas por Carlos Drummond de Andrade em Confidência do Itabirano: oitenta por cento de ferro na alma, porosidade e comunicação. Aportamos ao poroso, à sequência da ferocidade que nos dá a ver a escultura “queda de viga” Beam Drop, de Chris Burden, realizada em Inhotim, Brumadinho, em 2008: lanças de ferro que golpeiam uma piscina de concreto. Escultura-profecia, antecipação do destino de Mariana e de Brumadinho. Estas imagens se fundem com as sucessivas imagens da queda de Macunaíma do ventre materno; seu grito, sua dor que se confunde com o som das lanças de ferro caindo na piscina de concreto. Corte para a imagem de Guimarães Rosa, na célebre entrevista para uma televisão alemã, em que nos fala sobre seu sertão, um fundo telúrico, das profundezas da terra e dos seus significados que ecoam por todas as Minas. Mas Rosa acrescenta a ideia do Fausto sertanejo: evoca um pacto com o diabo, a decadência do espírito humano que se deixa seduzir pelo mal. Corte para a imagem de Antonio Candido falando da obra de Rosa, como o regionalismo que supera o próprio regionalismo; modo de conceituar o que se entende por cosmopolitismo e que aqui se funde com o próprio neologismo da imagem-palavra minasmundo. E neste exato momento somos arrastados pelas imagens do rompimento/explosão/catástrofe de Brumadinho. A lama em torno, dentro e fora das Minas. Silviano Santiago sublinha, neste momento, esta “ferocidade” ao dizer que “Grande Sertão é o livro mais radical contra um desenvolvimentismo que é feito sem a preocupação social e humana”, e através de fusões e efeitos vemos os Krenak, seus rituais. A partir daí, as imagens vêm em avalanche, rastro da destruição, do mal, da fera, imagens de rebeliões, revoltas, prisões, ônibus queimando, um homem que empunha um facão, homens com máscaras e mais imagens que encaminham para as telas de Tarsila do Amaral: a lua, morro da favela, São Paulo 135831, os operários. Telas que insistem em adensar este “desenvolvimentismo” e sua ferocidade. Grande Sertão conceituado por Silviano Santiago adquire aqui o pleno sentido das imagens evocadas no vídeo. Grande Sertão, nas letras de Silviano, seria este “rompimento de um percurso linear e cronológico das obras literárias, que descendem da Carta de Pero Vaz de Caminha, como um rochedo que despenca do alto da montanha em virtude da erosão causada no terreno pelas chuvas torrenciais, e arrasa de vez com a bitola estreita dos trilhos por onde vinha sacolejando tranquilamente o trenzinho caipira da literatura brasileira”[ii]. Este abalo, rompimento, explosão, cria um paralelismo entre os gerais, o geral, o humano, as minas que nos faz aportar em mais uma narração que enfatiza o ser do mundo e o ser minas gerais. A partir de agora o vídeo nos situa nas imagens do espetáculo Parabelo, do Grupo Corpo, de 1997, que expande os sertões de minas para além das minas, indo ao encontro do sertão nordestino de Tom Zé, replicando a narração “sou do mundo, sou minas gerais”. A tela se divide e o grupo corpo dá espaço para as meninas negras do Slam, poesia de resistência e de afirmação. Uma delas diz “somos as filhas das pretas que vocês não conseguiram matar”, e o corte nos leva a imagem doce e tenra de Conceição Evaristo, que nos diz que escrever é uma forma de sangrar. Em choque de imagens, vemos as imagens do rio doce, lama/sangue e Conceição Evaristo concluindo, docemente, como um fluxo de rio, que a vida é uma sangria desatada.

Aportamos, aqui, ao epicentro de um dos significados mais potentes de minasmundo, que é sua proposta de acolher e poder realizar uma “sociologia reversa”, produtora de outros olhares, que no vídeo se incarnam na imagética barroca que imagetifica o mundo projetando novos corpos, os anjos negros, a Nossa Senhora negra. “Sociologia reversa” que tem seu manifesto na pintura do teto da igreja da ordem terceira de São Francisco de Assis em Ouro Preto, pintada pelo mestre Manoel da Costa Athaíde, que projeta as minas, sua gente, suas feições outras, no céu, na ordem cósmica, na metrópole, no mundo. A assumpção de Nossa Senhora sintetiza olhares potentes sobre si e sobre o outro: é história, é religião, é escravidão. Naturalmente, somos encaminhados para as imagens das bonecas da Mestra Dona Isabel do Vale do Jequitinhonha, que produz suas noivas à sua imagem e semelhança, negras, miscigenadas, marcas das histórias, dos afetos e das alianças nas minas. As muitas faces de cristo, também concebido por esta estética e ética que opera essa “sociologia reversa”, nos força a reverter imagens estabelecidas, a uma abertura para imagens outras. Chegamos, finalmente, estruturalmente, às imagens de Milton Nascimento e sua conceituação “sou o mundo, sou minas gerais” que é o eixo conceitual do cosmopolitismo proposto pelos coordenadores do minasmundo. Assim, este mundominas, este externo e interno, esta dobra vai surgir esculpida a ferro e a fogo nas esculturas de Amilcar de Castro quando seu mundo de Paraisópolis é atravessado por muitos mundos, como suas chapas de ferro são atravessadas pelo espaço externo. Encarnação conceitual potente, metáfora elucidativa da proposição do projeto minasmundo se atualiza também em outra imagem, neste mesmo contexto, que é a proposição de outra mineira de Belo Horizonte, Lygia Clark, com seus dentros e foras acentuando as ligações, uma operação topológica que desafia o cânone de uma geometria euclidiana de simples oposições binárias. É neste espaço topológico, de englobamentos, que emerge a complexidade das Minas e dos mundos. E agora vemos essa topologia no mundo, no viaduto Santa Tereza em 2020, em uma instalação das cobras gigantes realizada pelo Artista Macuxi/Brasileiro/Universal Jaider Esbell, neto de Macunaíma. Aqui, retornamos ao princípio, a onipresença desafiante de Macunaíma aos cânones e às possíveis reversões e reviravoltas imagéticas. O fechamento do vídeo, seu grand finale, opera por um efeito dominante, que Lévi-Strauss percebeu em muitas expressões artísticas de muitos povos, e foi descrito como o efeito do desdobramento da representação[iii]. Percebido, sobretudo, nas pinturas faciais e nas máscaras, em que a imagem continua em seu desdobramento replicando um lado no outro, nos dando, assim, uma ilusão de simetria. Vemos no vídeo os 12 profetas de Aleijadinho no adro dianteiro do Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos em Congonhas, que se desdobram, se replicam, igrejas replicadas. Este processo de desdobramento como técnica, segundo Lévi-Strauss operado por uma falsa simetria, quer justamente construir uma ideia de assimetria, de hierarquia, de estratos, mundos formados por partes profundamente desiguais, mas que se encontram, se comunicam. Somos, então, levados através dos desdobramentos e seus efeitos às hierarquias, às desigualdades, aos muitos mundos e as muitas minas.


Notas

[i] Uma versão deste texto foi apresentada na mesa redonda sobre o vídeo manifesto minasmundo, que contou com a participação de Fabio Seixo e Schneider Carpeggiani, transmitido em 25 de março de 2021 pelo Canal minasmundo no youtube.

[ii] Santiago, Silviano. 2018. Genealogia da Ferocidade. Recife, CEPE, p. 19

[iii] Lévi-Strauss, Claude. 1967. “O desdobramento da representação nas artes da Ásia e da América”. In: Antropologia estrutural, Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, pp. 279-305.

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