“Entro e saio da literatura”, por Eneida Maria de Souza

O Blog da BVPS publica hoje uma resenha escrita por Eneida Maria de Souza, professora Titular e Emérita da UFMG, sobre o livro Literatura, meu fetiche (CEPE), de Ítalo Moriconi. No texto, a autora ressalta aspectos formais do livro e da escrita de Moriconi, como o hibridismo entre crítica e crônica, além de apontar para o interesse e o rendimento de uma abordagem da literatura, e da cultura em geral, que valoriza o entrelaçamento entre vida, obra e corpo.

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Boa leitura!

“Entro e saio da literatura”,

por Eneida Maria de Souza

Em pleno período de pandemia, a CEPE Editora nos brinda com a instigante coletânea de artigos do professor e crítico literário Italo Moriconi. Organizado por Paloma Vidal e Ieda Magri, Literatura, meu fetiche integra a série de publicações assinadas por especialistas em crítica literária e cultural, com forte repercussão no meio acadêmico, pela qualidade e excelência das reflexões. Diante dos inúmeros suportes oferecidos pelas redes, num momento em que a comunicação remota se fixa como eficaz e necessária, a presença física desse livro e o convite à leitura merecem ser devidamente incentivados e levados a termo. A sofisticada e lúdica produção gráfica, com desenhos de sombra e invenções aleatórias, traduz o aspecto maleável e ilusório das manifestações literárias, assim como do gesto mágico do crítico. O livro-objeto, com valor em si e instrumento de prazer, seria ainda cultivado como fetiche pelos leitores, ou sua aura estaria cada vez mais fadada ao desaparecimento? Manusear as folhas brancas, marcar as passagens preferidas com traço pessoal estão sendo substituídos pelos recursos eletrônicos, no toque sensível dos dedos e no distanciamento do contato próximo com a escrita? O futuro se encarregará de responder a estas indagações.

No empenho de justificar a escolha do título, o autor propõe o esclarecimento do  aspecto ambivalente do termo, por considerar a literatura como “meu fetiche”, mas sentindo-se também na obrigação de desfetichizá-la. A frase “O fetiche morreu, viva o fetiche” abre as considerações de Italo sobre a questão da crítica, à medida que seu raciocínio percorre os caminhos pelos quais o lugar da literatura foi-se modificando, especialmente dos anos 1960 para cá. Ao longo da década de 2010, o ensaísta confirma a presença de outros indicadores que resultam na abertura para novas recepções da literatura, sem que fossem estabelecidas prévias credenciais estéticas ou ideológicas. Segundo afirmação categórica do autor, “tornou-se importante como critério de valor crítico apriorístico a vinculação da escrita literária à subjetivação militante das políticas identitárias. Ativismo hoje.” (p. 29). 

O valor estético literário, inspirador de polêmicas que vão da fetichização à sua destituição, recebe no texto tratamento bastante acurado, uma vez que o processo de disciplinarização permite inseri-lo numa tradição, conferindo-lhe valor institucional e afetivo. Mas o que define com precisão a relação entre leitor e texto, autor e escrita, é o amor pela literatura na sua estreita conjunção com a vida. Nesse sentido, a crítica praticada por Italo nessas páginas responde pela conjunção entre a inserção do sujeito como atuante tanto na escolha do corpus de estudo quanto no deliberado posicionamento frente à experiência como profissional e escritor. Por meio da dicção entre crítica e cronística, seu texto configura-se de modo híbrido, não só por optar pela escrita autobiográfica, mas por manter a objetividade necessária à exposição.   

Note-se que o autor pertence à geração dos anos de 1970/80, que passou pela revolução dos costumes e pela contracultura, ao lado da efervescente vida acadêmica vivida em Brasília e no Rio de Janeiro, quando se mesclavam desejos de liberdade e comunhão com a filosofia francesa, a sociologia, a antropologia e a crítica literária estruturalista e pós-estruturalista. É importante assinalar que ele não passou incólume a este momento de definições políticas e de militância, uma vez que sua formação igualmente híbrida – sociologia e letras – é responsável pela posição atuante no quadro da crítica literária e cultural. O doutorado na PUC-Rio e a docência na UERJ marcam as preferências de leitura, além de singularizá-lo entre seus pares de geração.

Afeito ao diálogo e à capacidade de jogar de forma paradoxal com valores e posições conflitantes, o discurso do crítico descarta posições radicais e binarismos, ao se expressar no intervalo entre prós e contras quanto às referências aos conceitos e às teorias tratados. Ao assumir, na maior parte dos ensaios aqui reunidos, um lugar afirmativo e bastante pessoal, distingue-se de muitos profissionais que ainda conseguem controlar opiniões corajosas sobre temas que dizem respeito a vivências e crenças subjetivas. Na escolha dos escritores, poetas e filósofos estudados – Foucault, Caio Fernando Abreu, Silviano Santiago, Torquato Neto – prevalece a equação vida/obra, tanto na abordagem dos autores estudados quanto na posição do intérprete, uma vez que este inscreve sua assinatura, mostrando-se atento à produção da crítica autobiográfica, inseparável, nos dias de hoje, da posição atuante do crítico. Biografar o outro implica a inserção de si numa escrita em que se trabalha também com a insurgência do corpo.      

Percebe-se de imediato ser o perfil multifacetado do ensaísta uma das tendências do intelectual contemporâneo, ao incorporar várias atividades na sua trajetória: é professor, poeta, crítico, editor, autor de biografias, organizador de coletâneas. Reside aí a necessidade de se voltar para outros interesses que reúnem tanto a sensibilidade para as demais manifestações da literatura, não mais circunscritas à defesa dos valores estéticos, mas também à sua produção, divulgação e ensino. Por essa razão, a importância concedida à vida literária como componente imprescindível aos estudos críticos da literatura e da cultura amplia a relação entre a academia e o mercado, prevalecendo o tom ativista e comprometido de Italo em relação a sua época. Ao nomear a primeira parte do livro “Pedagogia, valor de fetiche”, na qual oferece um acurado panorama da situação do literário, dos desdobramentos da crítica e da análise pormenorizada de nomes da academia como Antonio Candido e Silviano Santiago, ao lado da revisita à figura emblemática de Foucault, confirma-se sua opção por expandir o foco de atenção.        

No intuito de não apenas se configurar como crítico de literatura, o autor incorpora a função de cronista, por assumir a dicção semelhante a uma conversa com o leitor, apontando os caminhos das instituições nos últimos anos, as mudanças sofridas pelo entrosamento agora mais tolerável entre os princípios da academia e os do mercado. Não se furta em se posicionar como defensor do avanço dos programas de letras de pós-graduação no país, no que representam de abertura de espaço de produção de saberes críticos e de divulgação de escritores contemporâneos brasileiros, contribuindo para canonizá-los. O descentramento dos centros acadêmicos hegemônicos, como Rio e São Paulo, possibilitou o rompimento com preconceitos de ordem interpretativa, principalmente nas universidades consideradas periféricas, como as de Minas Gerais, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Bahia, por exemplo. Desse modo, o registro dos caminhos da crítica deveria ser mais incentivado pelos trabalhos universitários, considerando-se que poucos se dedicam ao mapeamento de um pensamento crítico nacional. Esta tarefa Italo cumpre de modo exemplar, por se mostrar sempre atento à missão pedagógica de um professor de literatura, sabendo, como poucos, compreender estabelecer contatos com outros núcleos de produção de saberes.

A segunda parte do volume, “Orgia/ no corpo a corpo da leitura,” divide-se entre escritas da urgência, da Aids, enfocando a obra/vida de Caio Fernando Abreu, um dos autores cujo trabalho foi motivo de outras abordagens, com referências à militância e compromisso dos intérpretes musicais como Cazuza e Renato Russo. Os anos 1980/90 tornaram-se emblemáticos para se entender o surgimento dos dramas existenciais e as transformações ocorridas no tratamento da obra literária, contaminada não só pela busca de valores estéticos, mas pela insurgência de corpos doentes e pelo desejo de exposição desse mal. Com sensibilidade e crueza analítica, a vida/obra de Caio é pinçada pelo crítico, com a preocupação de apresentá-lo como contemporâneo de Michel Foucault. As afinidades os colocam no mesmo patamar biográfico, por ter o autor contraído Aids no ano da morte do filósofo, também acometido por essa doença. A contaminação metafórica do vírus daria continuidade à precariedade da vida do intelectual periférico e ao pertencimento de semelhante estirpe. As pontas do novelo se entrelaçam.

Na sequência das análises literárias, estão Clarice Lispector, André Sant´Anna, Bernardo Carvalho, Torquato Neto e Rubens Figueiredo. Com o cuidado de sempre contextualizar os escritores na sua época, as linhagens a que pertencem, o ensaísta  também se inscreve como biógrafo de quem se aproxima por afinidades eletivas. Ao escolher autores ligados à contracultura nos anos 1960 e 1970, atingidos pela Aids e a morte, como Foucault e Caio Fernando Abreu, ele afirma: “penso a mim mesmo, rascunho autobiografias geracionais, de amplo escopo, e, sincero, finjo confissões por interposta pessoa, finjo irmandades entre perversos felizes mas não inocentes” (p. 133). Com reverência e respeito às experiências vivenciadas nesta época, presta a homenagem devida e confraterniza-se com os biografados. Estaria aí a prova da inserção do sujeito no texto alheio como forma de não se imiscuir ou se afastar, por defender a prática de uma dicção pessoal, singular e espectral. Silviano Santiago é um dos modelos intelectuais que se integra à imagem do crítico sob o crivo do “afeto e do dever, dever de afeto e dever da cidadania,” (p. 99), sendo considerado como inspiração e como responsável pela formação de um número bastante razoável de discípulos de várias gerações. reconhecendo-se dessa forma, o papel desempenhado pelo escritor e professor na inauguração da atividade crítica memorialista e autobiográfica.

Na descrição de pertencimento de alguns ficcionistas a certa filiação literária, elabora, de modo irônico, o lugar de André Sant´Anna na cena familiar/literária: “André é duplamente filho de Sérgio Sant´Anna, grande satirista na geração dos anos 1970: filho biológico e filho literário. André Sant´Anna é filho direto e dileto de Confissões de Ralfo”. (p. 172); e em relação a Rubem Fonseca afirma: “A escrita de Rubens Figueiredo navega nas águas do que chamo linguagem masculina da literatura brasileira pós-1960/pré-2000, que tem por referência o impacto da presença de Rubem Fonseca, por contraste a uma linhagem feminina, de referência clariciana” (p. 204). A obra de Bernardo Carvalho destaca-se pelo olhar cosmopolita de suas criações, ao integrar nova tendência da prosa ficcional brasileira, em que são descartadas propostas nacionalistas, mantendo um “olhar geopolítico, ponto de vista em constante deslocamento periférico.” (p. 181). O teor dessas afirmações justifica a importância de se conceber a crítica não apenas como abordagem intrínseca, textual, mas como meio de contribuir para a compreensão dos lugares a que pertencem determinadas correntes poéticas e literárias.

Na intenção de fornecer ao leitor a abertura interpretativa das obras enfocadas, o crítico tem a preocupação em circunscrever variados tipos de escrita, como o da “urgência”, por se tratar de experiências de morte, na qual vida e obra se entrelaçam. Caio Fernando Abreu, Torquato Neto, Clarice Lispector, sob este prisma analítico, respondem pela dramatização da existência em que a criação se processa desvinculada do mero registro dos acontecimentos. No gesto de leitura, constata-se o procedimento de metaforização da vida, do corpo e da pessoa física, não preconizando ser a escrita reprodução e espelho, à medida que o ato crítico é dotado de liberdade também para criar: “Fabrico meu (nosso) Torquato Neto”, título sugestivo implicando invenção biográfica, liberdade interpretativa e deslocamento do sentido realístico apregoado por muitos biógrafos.

O convite à leitura de Literatura, meu fetiche deve se ater às várias qualidades contidas neste volume de ensaios, desde a cuidadosa organização dos textos à escrita desprovida de jargões acadêmicos, o que conduz ao clima de uma agradável conversa entre pares ou mestre e discípulo. Na escolha da primeira pessoa como gesto enunciativo, Italo fortalece a recepção, aproximando-se de seu interlocutor, sem manifestar, contudo, o endosso de uma dicção que beira ao excesso de subjetividade. A variedade de tópicos abordados, longe de conduzir à dispersão, reflete a vocação nômade do profissional, entre convites e compromissos vinculados à posição também nômade por ele assumida. Na seleção de artigos cujos temas e autores contemplam determinada época literária e cultural, Literatura, meu fetiche, deverá compor as prateleiras de estudantes de letras e contribuir grandemente para o avanço da historiografia crítica brasileira.    

“Entro e saio da literatura”, diz Italo e, ao privilegiar a interpretação como atividade pública, amplia-se o horizonte da crítica autoral, não mais circunscrita à figura do escritor, mas a narrativas de “trajetórias de vida/fala/escrita”, pela dramatização de experiências. Embora tematizando a “escrita da urgência”, entrar e sair da literatura inscreve-se como sinalização para novas configurações instauradas no âmbito da crítica, exigência mais do que evidente do atual momento em que vivemos.

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