Roberto Machado (1942-2021)

O Blog da BVPS lamenta profundamente o recente falecimento do professor Roberto Machado, um dos intelectuais mais importantes da filosofia brasileira contemporânea e cujas contribuições se fazem sentir em todas as ciências humanas.

Convidamos nossas leitoras e leitores a conhecerem um pouco mais do trabalho de Roberto Machado, especialmente sua interpretação de Michel Foucault, lendo a entrevista abaixo, conduzida pelo sociólogo Michel Misse para a revista Sociologia & Antropologia (PPGSA/UFRJ)

Impressões de Foucault: entrevista com Roberto Machado

Michel Misse. Há autores que ganham notoriedade num certo período e depois desaparecem ou ficam congelados e outros cuja notoriedade e fecundidade se mantêm e até mesmo aumentam com o passar dos anos. Marcuse seria um exemplo do primeiro caso e Foucault, provavelmente, do segundo. Como você interpreta a atualidade de Foucault e seu impacto nas ciências humanas? O que pode ser dito dessa apropriação contemporânea de suas linhas de investigação? Houve de fato uma ruptura importante provocada por sua obra na trajetória do pensamento crítico na filosofia, na história e nas ciências sociais? Essa ruptura se mantém, se aprofunda?

Roberto Machado. Nunca me interessei muito pela questão da notoriedade de Foucault. É verdade que o interesse por sua obra tem crescido desde os anos 1960. Há efetivamente uma produção intelectual no âmbito internacional que cada vez mais utiliza suas ideias ou procura compreendê-las de modo mais profundo. Penso em filósofos como Gilles Deleuze, Giorgio Agamben, Toni Negri, Michael Hardt. Ou em sociólogos como Robert Castel e Jacques Donzelot. No Brasil há muita gente pesquisando a partir dele nos campos da educação, por exemplo. E, no mínimo, quatro ou cinco colóquios são organizados sobre ele anualmente entre nós.

Quando penso no que foi a reflexão de Foucault, três principais tipos de estudo despontam, a meu ver, em épocas diferentes de sua trajetória intelectual.

Em primeiro lugar, sua análise histórico-filosófica das ciências do homem na modernidade, quando ele formulou a ideia de que o homem seria uma invenção recente cujo fim talvez estivesse próximo. Mais explicitamente, a ideia de que o homem só apareceu como objeto privilegiado do saber no final do século XVIII e, se as disposições dos saberes modernos viessem a desaparecer, “o homem se desvaneceria como, na beira do mar, um rosto de areia”. Seus três grandes livros arqueológicos, da época de 1960 – História da loucura, Nascimento da clínica e As palavras e as coisas -, ao estudar a psiquiatria, a medicina clínica e as ciências do homem de um modo geral, são no fundo uma crítica do humanismo burguês que procurou ocupar, no mundo moderno, o lugar dos valores antes fundados no absoluto.

Em segundo lugar, a “genealogia”, com a qual Foucault procurou explicar o aparecimento desses saberes sobre o homem como elementos de um dispositivo de natureza política. Essa abordagem histórico-filosófica rejeitou a identificação entre poder e Estado, dando importância aos micropoderes; caracterizou o poder não apenas como repressivo, destruidor, mas também como disciplinar, produtivo, normalizador; analisou o saber como peça de um dispositivo político; defendeu as resistências como recusa da dominação burguesa que os próprios saberes sobre o homem ajudaram a criar. Foi a época do estudo sobre a prisão, a escola, o hospital, o hospício, a caserna, em Vigiar e punir, e dos “dispositivos de sexualidade “, entre eles a psicanálise, em A vontade de saber.

Em terceiro lugar, suas pesquisas para dar conta do nascimento do homem de desejo, do aparecimento, na história, do desejo como essência do homem, como se nota modernamente na psicanálise. Isso o levou a recuar ao século V, para dar conta da experiência cristã do sexo. Mas como ainda encontrou uma continuidade temática entre essa época e a modernidade, entre a “carne” medieval e a “sexualidade” dos modernos, recuou ainda mais no tempo em busca de uma descontinuidade fundamental. Foi assim que descobriu que a verdadeira contraposição à moderna hermenêutica do desejo estava na estética do prazer existente na Antiguidade grega e romana. Pois nessa época, em vez de ser objeto de uma ciência sexual, a atividade sexual se constitui como parte do projeto de uma “estética da existência”, de uma moral estética, em que se elabora a própria vida como uma obra de arte. E ao fazer essas análises, O uso dos prazeres e O cuidado de si se interessam pela constituição de novas subjetividades, pelo contínuo deslocamento da subjetividade na história humana.

Como caracterizar a ruptura que a obra de Foucault produziu, ou melhor, qual é a originalidade, a singularidade de seu pensamento?

Uma das singularidades importantes de Foucault como filósofo é que ele não elabora um método de investigação rígido, invariável, universalmente válido. Sua atitude teórica é marcada – de maneira assumida e refletida – pelo provisório. Em vez de um sistema conceitual, o que há é um processo, ele mesmo histórico, pelo qual seu método é definido de modo diferente em cada obra. Foucault está sempre em constante mutação. É inegável a existência de uma mudança, de uma passagem sem continuidade da arqueologia dos saberes à genealogia dos poderes. E essa mudança é evidente em seu próprio pensamento genealógico, como uma passagem de uma genealogia do poder a uma genealogia da subjetividade. O que começou como uma pesquisa sobre os mecanismos de sujeição converteu-se numa investigação bem diferente – e também original – sobre os modos de subjetivação.

Na década de 1980, poucos anos antes de sua morte, Foucault procurou um diálogo com Habermas. Interessado, na época, pela questão do “esclarecimento”, tal como foi pensada a partir de Kant, ele acreditava poder retomá-la de um modo semelhante ao dos trabalhos da Escola de Frankfurt. Por que o diálogo não prosperou? A meu ver, porque Foucault percebeu o quanto o filósofo alemão o tratava como um filósofo tradicional, como criador de um sistema conceitual, criticando seu pensamento passado como se ele existisse em continuidade com o presente, como se sua filosofia formasse um sistema fechado, fosse uma filosofia da identidade.

Outra singularidade de Foucault é a dimensão instrumental de seu pensamento. O importante para ele não era a continuada busca de fundamentação de suas ideias; era o uso delas como instrumento, provisório, parcial, imprevisto, para outros apresentarem suas próprias ideias, criarem seus próprios pensamentos. Por isso, ele fala a respeito delas como “caixas de ferramentas”, “bombas”, “armas”.

O impacto dessas ideias foi grande no Brasil e no resto do mundo, instrumentalizando pesquisas nos campos da filosofia e das ciências humanas e sociais. Depois de sua passagem pelo Rio, em 1973, sentindo a importância da concepção do pensamento como instrumento, alguns de nós viram a possibilidade de utilizar seus estudos para a produção de algo novo, que levasse em conta a realidade política e teórica do Brasil. Essa perspectiva foi muito rica, pois efetivamente suas pesquisas estimularam muitas outras sobre a medicina, a psiquiatria, a educação, o serviço social, a prostituição, a prisão, a psicanálise e até mesmo a literatura.

O que motivava minha relação com Foucault era o desejo de fazer alguma coisa a partir de seu pensamento, de usar o instrumental filosófico, ou histórico-filosófico, desenvolvido por ele para produzir um conhecimento novo. Talvez por isso ele tenha apoiado tanto a pesquisa que fiz com três amigos sobre a medicina social e a psiquiatria no Brasil. Ele era marcado por essa dimensão instrumental do conhecimento.

Posso apontar uma terceira singularidade importante de seu pensamento: a atenção à atualidade teórica e política. Uma aguda sensibilidade para as questões da atualidade iluminava suas pesquisas históricas; inversamente, seu constante interesse pelo passado dava uma dimensão mais profunda a sua crítica do presente. Seus estudos sobre os hospitais, os hospícios, as prisões estão ligados a lutas políticas concretas.

Vi certa vez em Paris um filme sobre prisões, e, no debate, fiquei impressionado como a linguagem de ex-presidiários era parecida com a de Vigiar e punir, fazendo-me compreender como as análises históricas de Foucault podiam ser relevantes para a ação política. Por outro lado, essa pesquisa sobre o poder disciplinar deve sempre ser situada num conjunto estratégico, no campo das relações de força que a tornaram possível e que fazem dela uma “história do presente”.

Para ler a continuação da entrevista basta clicar aqui (HTML) ou aqui (PDF).

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