Henriqueta Lisboa, artesã da palavra, por Elide Rugai Bastos

Na atualização de hoje, o Blog da BVPS publica uma resenha da recém-lançada obra completa de Henriqueta Lisboa, que saiu pela editora Peirópolis com organização de Reinaldo Marques e Wander Melo Miranda.

Na resenha, Elide Rugai Bastos, pesquisadora do MinasMundo e professora da Unicamp, passa pelos três volumes da publicação comentando aspectos formais da poesia, escolhas tradutórias e relações teórico-intelectuais dos textos em verso e prosa que os compõem. Além disso, trava diálogo crítico com os prefácios dos organizadores, que integram os livros, sobre os mesmos temas.

Este post é uma publicação da coluna minas mundo, um espaço dedicado à colaboração desse projeto com a BVPS. Para ler o primeiro texto da coluna basta clicar aqui. Para saber mais sobre a iniciativa, visite o site do projeto e leia o post de apresentação da parceria no blog.

Boa leitura!

Cuidadosa edição da Obra Completa de Henriqueta Lisboa é publicada pela editora Peirópolis por ocasião dos 120 anos do nascimento da poeta comemorado em 2021. Organizada por Reinaldo Marques e Wander Melo Miranda, em três volumes – poesia completa, prosa e poesia traduzida – traz ao leitor a obra poética e o pensamento teórico crítico da importante autora mineira cuja atividade literária se estende por mais de cinquenta anos do século XX. Sua obra reflete acontecimentos, dilemas, mudanças nas relações sociais, complexidade dos temas e influências que caracterizam principalmente a primeira metade do século vinte. Um dos pontos que marcam sua originalidade como autora é a feliz combinação de sensibilidade simbolista e a técnica modernista. Esses traços de seu itinerário intelectual e perfil como escritora se destacam na competente exposição de seus trabalhos.

Assinalo alguns pontos que explicitam o cuidado dedicado à organização. No volume Poesia Completa optou-se “por respeitar integralmente a última publicação do conjunto de sua poesia como expressão da vontade autoral, uma vez que foi organizada e preparada pela poeta ainda em vida”, e pela manutenção de algumas preferências lexicais da autora.  A indicação temporal da escritura dos poemas e não apenas a data de sua publicação assinala especial atenção. Permite datar mudanças temáticas e de construção formal que ajudam o leitor a inferir o peso de acontecimentos históricos e movimentos culturais no processo de criação da escritora. A elaboração de três índices por ordem de entrada/data, alfabética do título e dos primeiros versos dos poemas auxilia a leitura e sua localização no conjunto da obra poética.

Inegavelmente a poesia de Henriqueta a torna uma autora especial, singular por manter sua execução desligada das imposições da moda, aceitando o princípio de liberdade de criação proposto pelo modernismo sem se curvar às soluções que afrontavam seu modo de ser. Nas várias fases de sua obra, de formas variadas, explícita ou implicitamente, os antagonismos estão presentes, sombra e luz, palavra e silêncio, vida e morte, as polarizações da existência. As várias tensões que marcam a vivência humana são parte importante do andamento de sua poesia.

Henriqueta Lisboa e o ofício da tradução, de Reinaldo Marques, introduzindo o volume Poesia Traduzida, apresenta ao leitor as dificuldades do ofício. Acentua a importância do processo a partir de reflexões sobre o prefácio de Walter Benjamin à tradução de Baudelaire, assinalando o caráter de continuidade, sobrevivência do original, manutenção da memória no cenário da literatura mundial. Ainda, indica os problemas superados pela autora no decorrer desse empreendimento, a qual em vários textos lembra inquietações e ambiguidades características dessa tarefa.

A edição bilingue permite não apenas mostrar Henriqueta incansável leitora, como o alcance de sua concepção de linguagem. Esse aspecto é fundamental para apreciar os eixos que regem sua poesia: a linguagem coloquial, adequada às minúcias cotidianas e, simultaneamente, a escolha da palavra adequada ao sentido expresso. Artesã da palavra a autora a vê como clarificadora de situações e solução de conflitos. Assim, tanto nos poemas como nas traduções seu esforço para encontrar o termo adequado tem o objetivo de não descrever a cena anterior ao narrado, mas sugeri-la.

A tradução do Purgatório de Dante Alighieri exemplifica esses traços: sem trair “o monumental retrato da humanidade” edificado pelo autor o lê com “a cor de seus próprios olhos”, o que condiz com seu temperamento. A manutenção dos tercetos e das rimas encadeadas (aba,bcb,cdc…), essencial ao ritmo da poesia do autor florentino, comprova seu domínio da linguagem e o adestramento no uso da palavra. Em muitos casos, a inversão do verso visa a encontrar o vocábulo correto para manter a rima e mostra bem o manejo da língua, qualidade que marca claramente a poesia de Henriqueta.

A familiaridade com o autor, decorrente dos momentos de vivência expressos no texto O meu Dante, que precede à apresentação dos poemas, permite perceber a argúcia na compreensão do exercício poético, sua visão de arte, o apreço pela simetria, o gosto pela alternação entre luz e sombra, o reconhecimento da tensão que atravessa a vida humana, aspectos que os cantos do Purgatório expressam magistralmente. Por isso a tradutora o reconhece como a casa do poeta, pois aí “se concebe em névoas, além do longe, a transcendência das coisas que passam, mas não se perdem”, mantendo o espírito atento aos tênues matizes e leves sussurros. Nessa direção podemos sugerir que encontra no autor florentino os fundamentos que traçam seu caminho criativo tanto na poesia como na prosa.

Henriqueta elegeu outros poetas para dedicar-se à tradução, alocados em um amplo espectro temporal – de Góngora (1561 a 1627) a Cesare Pavese, (1908 a 1950). Gabriela Mistral, que se tornou sua amiga, ganha entre todos o maior espaço, certamente porque preocupações em comum as aproximam: a situação submissa das mulheres, o papel importante do magistério, as mortes provocadas pela Segunda Guerra Mundial.

Chama a atenção a inclusão do poema Cantiga, de Rosalía de Castro (1837 a 1885), que faz parte dos Cantares galegos, obra de 1863, que marca o início da recuperação do galego à literatura. Os autores da Galícia desde a unificação castelhana escreviam em espanhol, pois a língua galega estava extinta para a escrita, embora se mantivesse no falar cotidiano da população. É muito significativo que Henriqueta Lisboa tenha mantido o texto original em galego, embora já atravessado pelo castelhano. Mas é agradável perceber a fonética galega presente, os tempos dos verbos combinando português e espanhol, o “x” substituindo o “s”, como em quixera, paxariños. Seu interesse pela autora seguramente faz parte dos estudos sobre teoria e crítica literária, mas também de sua preocupação com a alteridade. Imagino a atenção de Henriqueta à preocupação de Rosalía com a vivência precária, a pobreza dos setores populares da Galícia, acompanhados pela pressão migratória, só podendo ser expressos na linguagem e nos cantares do povo, pois o sentimento neles contido não encontraria correspondência em termos externos à sua linguagem cotidiana. Sem dúvida o pioneirismo de Rosalía é reconhecido, embora ela considerasse o galego como dialeto. Hoje a língua galega, ao lado do catalão, marca fortemente os movimentos culturais espanhóis quase tão pesadamente quanto os movimentos político-sociais.

As dificuldades já apontadas sobre a tradução de poesia, a recriação do texto com o objetivo de encontrar na língua diferente do original a palavra correta, ritmo adequado, manutenção do sentido, foram vencidas por Henriqueta obedecendo aos pontos que considerou essenciais na sua própria criação poética. Procurou ser fiel ao original em relação: à criação, à palavra, ao ritmo, à musicalidade, à rima, à imagem, à identidade do autor e seu ângulo de representação, ao tema, posições expressas em seus textos Convívio poético (1955), Vigília poética (1968) e Vivência poética (1979) reunidos no volume Prosa.

Em nota introdutória a esse volume os organizadores lembram a articulação desses três livros indicando como a autora alia seu fazer poético a uma consciência teórica e crítica. Entre os poetas de seu tempo poucos se dedicaram a refletir tanto como Henriqueta sobre essa construção. Os vários artigos que compõem o trio voltam-se tanto aos princípios de elaboração de sua obra – técnica, estilo, ritmo, conteúdo e forma – como à análise de outros autores – Cruz e Souza, Jorge Guillén, Fagundes Varela, Mário de Andrade, Ungaretti entre muitos.  Se os três livros inegavelmente se completam, cada um representa momento singular no itinerário de Henriqueta Lisboa como intelectual e artista. O primeiro dá conta da reflexão que seu diálogo com vários autores – lembro especialmente Mário de Andrade – e o magistério em Letras, ao qual se dedica desde meados dos anos 1940, induzem a ordenar de forma sistemática suas leituras teóricas e apreciação crítica. Os outros dois sugerem aprofundamento das pesquisas bibliográficas e a ampliação dos estudos com inclusão de obras em prosa. É certo que as transformações do mundo pós-guerra, o surgimento de novos temas, a força com a qual marca seu lugar como mulher e como intelectual constituem-se em elementos que se somam ao aprofundamento do conhecimento literário. Somam-se a esses livros outros textos da autora, conferências, discursos, escritos esparsos e entrevistas.

A inclusão da fortuna crítica, de inúmeros comentários em jornais e revistas, mais a bibliografia de e sobre Henriqueta Lisboa demonstram a importância da autora e a oportuna edição de sua Obra Completa.  A cronologia acompanhada de fotos e cópias de manuscritos auxilia a compreensão do caminho trilhado pela autora. O índice onomástico atesta a vasta leitura e conhecimento da escritora, comprovando a erudição sempre apontada pela crítica literária.

Em entrevista a Edla Van Steen em 1984 Henriqueta diz: “Eu só podia ter nascido em Minas. Caso contrário, sairia andando pelo Brasil até encontrar o meu berço, a minha estrutura, o reconhecimento da minha índole, as raízes das minhas possíveis virtudes e prováveis defeitos.” Registrando essa declaração acentuo a feliz adequação forma/conteúdo representada pelo projeto gráfico de Silvia Amstalden. Não só as páginas com o tom minério ferroso que demarcam as diferentes partes dos livros, mais a linha que os atravessa, acompanhando as montanhas e os vales mineiros, configuram impecavelmente o cenário e as nuances da obra da grande poeta.

Henriqueta Lisboa. Obra completa. 3 vol. – Poesia completa, Poesia traduzida, Prosa. Organizado por Reinaldo Marques e Wander Melo Miranda. São Paulo: Peirópolis, 2020.

São Paulo, abril de 2021.

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