Arquivo, memória, história: Arcadio Díaz-Quiñones, por Lilia Schwarcz e Pedro Meira Monteiro

Na atualização de hoje do Blog da BVPS publicamos um ensaio escrito a quatro mãos por Lilia Moritz Schwarcz, professora da Universidade de São Paulo e da Universidade de Princeton, e Pedro Meira Monteiro, professor da Universidade de Princeton. Os autores nos apresentam o website recém-lançado de Arcadio Díaz-Quiñones, intelectual porto-riquenho e professor emérito em Princeton, a partir de três palavras que articulam a concepção do site e as reflexões de Arcadio: o arquivo, a memória e a história. Através delas somos levados a uma delicada e original apresentação das ideias do autor para os leitores do Blog.

Para conferir o site e ter acesso a diversos materiais de arquivo – entre ensaios, conversas e vídeos – basta clicar aqui. Lembramos que Arcadio Díaz-Quiñones possui um livro traduzido para o português, A memória rota: ensaios de cultura e política (Companhia das Letras, 2016, trad. de Pedro Meira Monteiro). A imagem que abre este post é uma gravura da artista porto-riquenha Consuelo Gotay, intitulada “El Arca de Noé” (1974) e inspirada em poemas de Luis Palés Matos. Agradecemos à gentileza da artista, que liberou sua reprodução aqui.

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Arquivo, memória, história: Arcadio Díaz-Quiñones

por Lilia Moritz Schwarcz e Pedro Meira Monteiro

O lançamento do website de Arcadio Díaz-Quiñones é motivo de comemoração. Em primeiro lugar, pelo rico arquivo disponibilizado, no qual se destacam trabalhos escritos, diálogos e documentos audiovisuais sobre a resistência cultural e política em meio ao legado colonial no Caribe, na América Latina e nas suas diásporas. Em segundo lugar, é possível dizer que raras vezes um website combinou tão bem conteúdo e forma.

As palavras “Archivo, Memoria, Historia” aparecem no início da página como súmula de um projeto intelectual que tem a memória como seu elemento propulsor. Para Arcadio Díaz-Quiñones, memória não é apenas a recordação daquilo que nos arriscamos a esquecer. Ela é uma forma viva de pensamento compartilhado e é também uma forma de resistência às violências simbólicas que ameaçam a experiência subjetiva e coletiva.

Num ensaio intitulado “A memória rota”, que compõe e dá título a seu livro publicado no Brasil, vemos o pensador às voltas com uma palavra fundamental: gravar. Gravar, no caso, não é eternizar, nem congelar. A obra de Arcadio Díaz-Quiñones, cujos primeiros trabalhos publicados datam da década de 1970, propõe o resgate de tradições culturais capazes de dar sentido à fragmentada vida contemporânea. Gravar é, assim, na perspectiva de nosso autor, uma forma de resistir, porque ao gravar reforçamos o caudal de referências que nos animam e dão sentido a uma luta muitas vezes surda e dispersa. O website grava para não deixar esquecer, mas ao mesmo tempo seus arquivos são vivos, como um quebra-cabeça em que podemos encontrar “as palavras da tribo”, como se lê na pequena introdução a um ensaio sobre a escritora porto-riquenha Rosario Ferré.

Mas o Arquivo não é um museu com peças inertes e lindamente restauradas, expostas numa vitrine. Ao contrário, ele nos ajuda a refletir, a indagar e a pensar. Mais ainda, um Arquivo é uma “obra em processo” e por isso vulnerável, mas também aberta a reorganizações e novas leituras vinculadas às questões do presente. O Arquivo é, sobretudo para este autor que nunca abre mão do espaço político, um lugar em que se estabelece e naturaliza o domínio colonial, o qual se expressa por meio de uma história de humilhações e de dispersão de documentos, sempre que esses não dizem respeito a certas elites no poder. Hoje, diante da emergência das vozes das minorias, um arquivo vivo nunca foi tão urgente, porque há de permitir que a história seja refundada, mais uma vez. O Arquivo é também um espaço que acumula experiências, fluxo de linguagens, maneiras possíveis de vivência em territórios sem fronteiras fixas e que vêm sendo reescritas a partir de novas formas de relações coloniais.

Memória surge, assim, como um lugar sempre em disputa e negociação. Vem daí o famoso conceito cunhado por Arcadio Díaz-Quiñones, da brega, que representa uma forma de conhecimento, sabedoria e negociação política diante de posições hierárquicas. Diante delas, é preciso criar matrizes de negociação entre o que é possível conceder e aquilo que é verdadeiramente inegociável. Para o nosso autor, a memória não é, portanto, uma forma de voluntarismo. É preciso recosturá-la diariamente para que ela não se desfaça, não se torne “rota”. Ao percorrer o website, fica claro que a memória nunca é absoluta, mas sim um conjunto de possibilidades abertas diante dos movimentos da sociedade, o que implica lembrar e muitas vezes esquecer. A memória não resulta assim passiva – uma mera acumulação de informações recolhidas de um passado inerte. Na verdade, ela diz respeito a um movimento complexo de recuperação de conhecimentos e do esquecimento de outros. Tem algo a ver com o passado, mas ao mesmo tempo com a construção de identidades coletivas e, assim, com a própria persistência no futuro. Ou seja, ela é o presente do passado, mas faz também com que o passado se torne presente.

História, para esse pensador, é um campo que inclui textos poéticos, ensaísticos, crônicas e ficção, bem como a história feita pelos historiadores “profissionais”. Pois Arcadio Díaz-Quiñones defende que seria necessário nuançar a oposição cartesiana entre o saber histórico e o saber imaginário, uma vez que toda versão da história, por ser uma forma de narração, se estrutura, em maior ou menor grau, em convenções narrativas e linguísticas que se mantêm ou se alternam, na medida em que são manejadas pelo tempo, pelos autores e pelos próprios leitores. Sendo assim, qualquer “fato” precisa ser transformado em “história”; “virar história” a partir de um relato ou de uma trama que têm de ser inteligíveis para que façam sentido e ganhem significação social. Por isso, as relações entre ficção e história são dinâmicas e íntimas. Afinal, toda leitura se baseia, segundo o crítico, em valores ideológicos que se afirmam sob um sistema unitário relativamente coerente de significações. Essa rede simbólica de alguma maneira precede, mas também configura e condiciona tanto os relatos de historiadores profissionais como as ficções literárias de determinados períodos. Ainda segundo Arcadio Díaz-Quiñones, é muito difícil separar, des-ideologizar totalmente o conhecimento, uma vez que ele pertence a uma história, a uma classe e a uma nação, bem como a várias tradições que imaginam e são imaginadas de forma individual e coletiva.

Como se pode notar, “Archivo, Memoria, Historia” fazem parte de uma mesma equação, pois dizem respeito a perspectivas de conhecimento diante do passado, e que, não sendo sinônimas, nem sempre se complementam ou confundem. Todo momento político cria suas próprias narrativas e, para tanto, faz uso de uma série de elementos como o território, a identidade, a religião, bem como a própria memória, a história e seus arquivos. Assim, e como bem mostra Arcadio Díaz-Quiñones, além de haver algo sempre inabordável no passado, este é invariavelmente um lugar de embates, disputas e desavenças. Ao exercitar a memória diante da história, usando e reinventado nossos arquivos, tornamos o passado mais próximo e também mais habitável, permitindo até mesmo que a esperança se abra, ainda que timidamente, no presente.

Por fim, o pequeno e delicado barco que serve de logotipo para o website é retirado do livro Sobre principios y finales: dos ensayos” (2016), obra em que Arcadio Díaz-Quiñones nos convida a pensar no que a Arca (de Noé) traz de antecipação e de utopia. A ideia não é reter ou controlar o tempo, mas antes entender como as ações podem se voltar para um tempo que ainda não é, que só existe como projeção. Da mesma maneira que ocorreu com a lenda de Noé, que previu o dilúvio e resolveu salvaguardar casais de espécies que estariam sujeitas à destruição e à extinção, o barco faz com que naveguemos em direção a um futuro que só pode ser imaginado e guardado na memória; em muitas memórias, várias delas tecidas no calor das lutas mais simples e mais complexas do dia a dia.

Na sua origem, a tradição ocidental considerava o esquecimento a mais dolorosa das experiências humanas. Irmão da morte e do sono, os gregos mencionavam o esquecimento como o verdadeiro perecimento, pois ele era portador do silêncio eterno. O próprio verbo esquecer, em grego, é ambíguo ― o esquecimento pode também estar ligado àquilo que está escondido. Não à toa, a palavra “letargia” tem em seu coração a ideia grega do esquecimento (léthê), como se ele pudesse nos paralisar, ameaçando congelar-nos no tempo. Já o website de Arcadio Díaz-Quiñones toma o caminho inverso, ao gravar e oferecer registros fílmicos, textos “esquecidos” ou de difícil acesso, conversas, imagens e referências que vão ganhando sentido como memória viva, história em processo, que mexe e remexe com o tempo.

Por fim, há muita irreverência na obra desse pensador que lida com os limites entre memória, história e arquivo; essas formas de narrativas do tempo que nos movem, mas muitas vezes levam ao silêncio. Já o convite de Arcadio Díaz-Quiñones é para que não nos escondamos no esquecimento, seguindo em frente com a força da indignação. Para tanto, é preciso antes ouvir as vozes da tribo, sentir-se parte de uma comunidade e lutar contra a dispersão, para somente então, como faz este website, poder “conservar transformando”.

Arcadio Díaz-Quiñones durante o lançamento no Brasil de seu livro A memória rota, em 2016. Foto de Pedro Meira Monteiro.

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