Uma genealogia da generosidade, por Diana Klinger

O Blog da BVPS retorna em 2021 com uma resenha inédita do livro Fisiologia da composição, de Silviano Santiago (Cepe, 2020). No texto, Diana Klinger, professora de Teoria Literária da Universidade Federal Fluminense (UFF), nos apresenta algumas das linhas gerais do que chama de “concerto-ensaístico” de Silviano Santiago, ressaltando, em diálogo com outras abordagens clássicas sobre a composição literária, a importância conferida ao corpo na relação homológica entre grafia-de-vida e composição da obra. A autora também se preocupa em trazer para a resenha outros trabalhos do próprio Silviano – tanto críticos quanto ficcionais – em que as proposições apresentadas em Fisiologia da composição comparecem.

Aproveitamos a oportunidade para convidar nossas leitoras e leitores para a live com Silviano Santiago, que conversará sobre Graciliano Ramos e Machado de Assis, escritores trabalhados em Fisiologia da composição. O evento ocorrerá nesta quinta-feira, 18 de fevereiro, às 19h, com mediação do editor do Suplemento Pernambuco, Schneider Carpeggiani. Para ver basta acessar o canal de Youtube da Cepe clicando aqui.

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Uma genealogia da generosidade

Diana Klinger[i]

    

        “A hospitalidade pura ou incondicional, a hospitalidade em si, abre-se ou está aberta previamente para alguém que não é esperado nem convidado, para quem quer que chegue como um visitante absolutamente estranho, como um recém chegado, não identificável e imprevisível, em suma, totalmente outro. (Derrida, Da hospitalidade, 2003).

Ao propor a noção de “hospitalidade incondicional”, Derrida retoma a defesa kantiana da “hospitalidade universal”, baseada na propriedade comum da superfície da Terra e nos lembra que, segundo Benveniste (1995), a hospitalidade constitui uma forma atenuada do “potlatch”, ou seja, do sistema descrito por Marcel Mauss que, em contraposição com a economia do lucro, estabelece vínculos entre os participantes em virtude de uma reciprocidade. Poderíamos dizer que estes são os vínculos que Silviano Santiago propõe pensar em Fisiologia da composição (2020) na relação entre algumas obras literárias, assim como entre autor e leitor das mesmas. O ensaio se hospeda no famoso texto “Filosofia da composição” (1846), de Edgar Allan Poe – em que o escritor americano esmiúça o passo a passo da lógica que guia a escrita de seu poema “O corvo” – e no ensaio “Poesia e composição: a inspiração e o trabalho da arte” (1952), de João Cabral de Melo Neto. Ao refletirem sobre sua própria produção, os dois poetas, assim como Paul Valéry, ressaltam o trabalho técnico de composição do poema, em detrimento da ideia de inspiração que, desde a Grécia clássica até as vanguardas do século XX e além, não têm perdido sua força. Possuído pelas musas (nas palavras de Sócrates no Ion, um dos primeiros diálogos platônicos), intérprete do sopro divino, o poeta não passaria de uma voz passiva, “que age como um ser mediúnico”, como chega a dizer Marcel Duchamp em “O ato criativo” (1957).

Diante dessa mitologia, que não se reduz a uma rasa oposição entre racionalidade e emoção, pelo contrário, põe em xeque essa dicotomia (como aponta Silviano em “As incertezas do sim”, de 1982), Poe, João Cabral e Valéry coincidem em entender a poesia em termos de trabalho[ii]: atingir a forma com “passo contido”, como “a ponta do novelo que a atenção, lenta, desenrola, aranha”.[iii] Mas há algo ausente nessa matemática, nessa (anti)-psicologia da composição, que emerge na fisiologia proposta por Silviano. Hospedando-se nesses textos (e este verbo – “hospedar” -, tomado da ficção machadiana para se referir a obras que se hospedam em outras que por sua vez são “generosas”, hospitaleiras – ganhará múltiplas ressonâncias ao longo do ensaio), Silviano analisa, da perspectiva do corpo, o processo de composição das Memórias de Cárcere, de Graciliano Ramos, do seu próprio romance Em liberdade (um diário apócrifo que abrange os primeiros meses de 1937, em que Graciliano sai da prisão de Ilha Grande), das Memórias póstumas de Brás Cubas e de Esaú e Jacó, de Machado de Assis, traçando uma homologia entre “grafia de vida” do autor e texto literário.

O neologismo, que Silviano prefere ao termo “autobiografia”, semanticamente muito carregado, já tem trajetória em outros textos do autor, como em A vida como literatura, de 2006, uma leitura de O amanuense Belmiro, de Cyro dos Anjos. Em Fisiologia, “grafia-de-vida e composição artística serão tomados como organismos autônomos, vivos e interdependentes; no entanto, semelhantes nos respectivos processos de invenção, e nas respectivas organizações internas”. Não é o corpo como tematizado nessas obras o que interessa e sim o corpo enquanto presença na composição. Não por acaso, a Fisiologia também se hospeda parcialmente no Nietzsche de A gaia ciência, escrito após a restauração (temporária) da saúde do filósofo, em cujo segundo prólogo afirma que cabe considerar todas “as audazes loucuras da metafísica” como “sintomas de corpos determinados”.[iv] Assim, para além de Poe e de Cabral poderíamos dizer que, se não é inspiração, a composição também não é “razão pura”. Do ponto de vista do corpo, “das inconveniências do corpo” – para dizê-lo com o título da palestra com que Silviano encerrou o Simpósio Estudios del Cono Sur (LASA) em 2019 em Buenos Aires – a composição é sintoma. Lembre-se, de passagem, que já em “O entre-lugar no discurso latino-americano”, Silviano propõe “um modo sintomal de ler o arquivo e o presente”, como aponta Vinícius Ximenes (2021), a partir de Ler O Capital, em que Althusser (junto com seus discípulos) sugere que a leitura sintomal feita por Marx consistiria precisamente ler num texto a presença de um outro que “está presente por ausência”, nos lapsus do primeiro. A sintomatologia adquire, assim, novas ressonâncias nesse novo ensaio, mas que interessa ler – precisamente – também em relação com aquela proposta.

Isto porque, de fato, Fisiologia da composição se hospeda em Poe, Cabral e Valéry, mas vai muito além de um exame da poiesis, isto é, da produção poética: propõe um método de leitura de obras “que se autoafirmam com eficiência e rigor pela composição inusitada”, método este que “retire a mordaça” da boca do autor (recalcado na teoria da literatura desde o formalismo russo), mas a partir de um desvio crucial com relação a leituras que têm abordado esta relação entre obra e vida do autor em termos psicológicos ou na forma de um questionamento dos limites entre “realidade” e ficção. A chave deste método está precisamente no deslocamento do ponto de vista, que já não tem o texto como objeto, e sim a composição.

Por sua vez, o que interessa Silviano neste ensaio, como em sua ficção, não tem a ver com a representação do autor no texto e sim com as formas em que se põe “em questão o estatuto do eu a partir das vidas imaginárias de outros, de outros em cuja construção o eu sempre está em jogo” (cf. Rodriguez Freire, 2017). O eu que narra está sempre a ser desafiado pela outridade que ao mesmo tempo acolhe e é acolhida por ele. Lemos, por exemplo, na dedicatória de Viagem ao México: “à cidade de Albuquerque (Novo México), sem ela, eu não teria sido um outro”. As memórias de “vidas imaginadas”, título do livro de Marcel Schwob referido no ensaio, em que Borges “hospeda” sua História universal da infâmia, foram quase uma obsessão na obra de Silviano, desde seu primeiro romance, Em liberdade, a Heranças, um romance “hospedado” nas Memórias Póstumas de Brás Cubas, mas também em certo sentido em Mil rosas roubadas, em que escrever a vida de Zeca leva ao autoexame do narrador. Schwob argumentava que a biografia é competência do artista, pois a este só interessa o indivíduo; o artista (a diferença do historiador) só deseja o único, o detalhe, a singularidade. Acolhendo o outro-estrangeiro em sua narrativa, o autor Silviano Santiago abre mão da sua “propriedade” (de seu estilo, por exemplo) se engajando numa relação de generosidade mútua com o texto que o hospeda.

 Fisiologia da composição se divide em três partes, das quais só é possível dar conta muito precariamente no espaço de uma resenha, tal a complexidade e riqueza de suas formulações teórico-críticas. Na primeira, Silviano traça uma relação homológica entre a composição do romance Em liberdade e das Memórias de cárcere de Graciliano (dois textos que são “gêmeos não univitelinos”), a partir da “forma-prisão” em que “se faz presente o corpo do escritor latino-americano”. A prisão decretada em tempos que precedem à ditadura de Vargas privará Graciliano não apenas da liberdade de movimento, mas também das substâncias estimulantes que seu corpo precisa para escrever. Se para Graciliano a prisão é condição física que inibe sua escrita, Silviano escolhe a forma-prisão do estilo alheio, ao mesmo tempo renunciando à liberdade de estilo e desafiando a liberdade de criação. É a partir de um poema de Robert Desnos, da coletânea L’aumonyme (datada em 1924), que Silviano desenvolve, neste ensaio, o conceito de forma-prisão. No poema, a sílaba e a palavra aparecem como prisões que, no entanto, não enclausuram o sentido, ressoando assim com o neologismo do título da coletânea, em relação homofônica com l’homonyme. (Podemos dizer que Desnos realiza aqui o que mais tarde Derrida formulará filosoficamente em termos de differànce, em que a liberdade do sentido se alicerça “entre a enunciação comum e a escrita diferente” dessas duas palavras homônimas: différence/ différance). E não é vão lembrar que Desnos, o mais radical dos poetas surrealistas, continuou seus exercícios de liberdade de criação estando preso no campo de Therezin, onde morreu de tifo em 1944.

Silviano escreve a partir da “forma prisão” do estilo de Graciliano, em um gesto que não é de identificação, mas de “grande simpatia pelo outro”. Essa prisão do estilo do outro (como um pianista a executar uma composição alheia, e Silviano nos lembra de Gide, que se dizia capaz de ler e executar uma partitura sem nenhum talento para compô-la) é, no entanto, ponto de partida em direção à liberdade (sempre parcial para o escritor latino-americano, que sempre “se mexe “entre os limites impostos pela cultura e a literatura europeia e a língua portuguesa”). Recordemos – brevemente – que são três as histórias de confinamento que se superpõem no romance de Silviano: além dos primeiros meses de liberdade de Graciliano em 1937, a de Claudio Manuel da Costa, inconfidente mineiro que é “suicidado” na prisão em 1789, e a de Wladimir Herzog, também preso e “suicidado” pela ditadura em 1975.[v]

 Como escrever em liberdade numa época de confinamento? A pergunta ecoa também o momento da escrita de Fisiologia da composição, ao longo de 2020, um ano em que nossa liberdade de movimento tem sido fortemente coibida. Não por acaso Silviano traz, em nota de rodapé, a epígrafe do romance A peste, de Albert Camus, tomada de Daniel Defoe: “é tão válido representar um modo de aprisionamento por outro, quanto representar qualquer coisa que de fato existe por alguma coisa que não existe”. Mais sutilmente, o ensaio de Silviano interpela – a partir da releitura de Graciliano e de Machado – alguns dos debates do presente em torno do autoritarismo. A liberdade da escrita invocada no ensaio passa também pelo projeto de Silviano que consiste em desconstruir o paradigma iluminista da formação da identidade nacional[vi]: “o paradigma iluminista escamoteia, ainda e principalmente, a violência de imposição da língua portuguesa, do credo cristão e da supremacia branca, europeia, aos indígenas e aos africanos”. Este paradigma implicaria numa pedagogia que aprisiona as obras na temporalidade linear e na dicotomia do original e da cópia. Já uma teoria da leitura “pós-fundacional”, a partir da hospedagem, como a proposta em Fisiologia, percebe o suposto “débito” em termos de “qualidade universal”, num paradigma de “inserção” da obra no contexto cosmopolita.

Em ensaio sobre o romance Machado, Wander Melo Miranda (2017) aponta  que o escritor “encarna, em todos os significados do termo, a dinâmica dessa inserção original da literatura brasileira, que a obra de Silviano Santiago suplementa descentrando.”  Ximenes também assinala a defesa de Silviano (1983) da “grilagem” do capital cultural (metáfora borgeana), atualizada para a metáfora da “estética da usucapião” em “O trabalho do alfaiate” (2003): “a posse de Silviano contra a propriedade (estilística) de Graciliano”, lemos em Fisiologia. Como “condição inexcedível da mentira ficcional”, a usucapião deve ser “tratada como problema extramoral”, mas acredito, embora não possa desenvolver aqui, que também significa um deslocamento em relação à matriz antropófaga do entre-lugar, até porque supõe uma outra relação com o Direito.

 Na segunda parte, “Machado de Assis, planilhas de sismógrafo”, Silviano oferece uma “leitura meticulosa” de Memórias Póstumas de Brás Cubas, em que destaca o papel do leitor, desdenhado pelo narrador por ter formado seu gosto no cânone do romance setecentista europeu. “As memórias póstumas apresentam uma composição literária em que a grafia-de-vida do autor e a do leitor contemporâneo são incompatíveis”.  Por meio de um estilo digressivo e um processo de composição “por ausências”, em que o narrador é simultaneamente ”bêbado e defunto”, Machado rompe com a racionalidade cartesiana da narrativa autobiográfica, linear, cronológica e evolutiva, se afastando, assim, também do novel britânico, cujo modelo seria Robinson Crusoé.[vii] Essa ruptura se instala nas Memórias póstumas pela intermitência dos terremotos do corpo humano: “a écriture em ausências (…) se repousa na constatação da grafia-de-vida e da composição literária como exercícios homológicos que se suplementam”.[viii] A instabilidade física, emocional e intelectual do narrador e do personagem das memórias póstumas, e as rupturas no desenrolar da trama assemelham sua composição à escrita da oscilações da terra, tal como registradas numa planilha de sismógrafo. (Lembremos que esta sismografia do corpo também é importante no romance Machado, em que a epilepsia do “bruxo de Cosme Velho” assume um lugar central como condição fisiológica de sua literatura).

De acordo com Silviano, a hospedagem das tramas de ficção machadiana em obras universais, como é o caso de Esaú e Jacó, hospedado no Gênesis, é contraponto a esta instabilidade. A referência bíblica aos gêmeos, de que – os duplos – Pedro e Paulo seriam por sua vez duplos, afasta uma leitura realista do romance, que passa a ter outras significações inseridas na História Universal.[ix] O personagem “Nóbrega” faz da esmola recebida da mãe dos gêmeos e furtada ao seu verdadeiro destinatário, a igreja, um “empurrãozinho” financeiro que, mediante o Encilhamento, lhe permitirá “subir na vida”. Silviano aponta a crítica, no romance, a esse “empurrãozinho financeiro” dado ao “parasita”, em referência irônica à arrivista burguesia pós-monarquista, e seu contraponto no narrador anônimo com sua valorização do trabalho (da arte). Silviano ainda adensa o sentido da ascensão fraudulenta acrescentando em rodapé uma pequena pérola para o leitor referindo a um vocabulário que entrelaça fisiologia, geologia e economia: em geologia, as “falhas de empurrão” são fenômenos tectônicos que provocam a deformação (“metamorfismo”) das rochas. “Um pouco de imaginação e se terá belas imagens de metamorfismo”, desafia Silviano, mas deixa também a dica: “A Nobre/za do Nóbre/ga não é tão diferente da nobreza de boa cepa dos colonizadores, dos monarquistas e dos republicanos. Pilhamos a terra dos indígenas e exploramos o trabalho dos escravizados. Enriquecemo-nos e enriquecemos nossos herdeiros. Existe expressão mais falsa e ridícula que as Capitanias hereditárias?”.  Nóbrega, que recebe a esmola no início do romance, desaparece por completo até a metade – no que Silviano chama de uma escrita convulsiva – disputando a mão de Flora com os gêmeos e procurando apagar seu passado, em contraponto com o narrador anônimo que procura revelar sua identidade. “O Nóbrega e o leitor coprodutor do sentido se contentam em saber que nenhuma memória falante preserva as marcas do empurrãozinho”.

O papel do leitor ressaltado na obra de Machado e em sua recepção (“ser leitor de Machado requer decisão, e comporta, entre outros requisitos, identidade e assinatura”, lemos no ensaio) ganha outras ressonâncias se lembrarmos do “temperamento socrático” de Silviano (em palavras de André Botelho), e da importância do endereçamento na sua própria ficção e ensaística. “Por essa via – aponta Celia Pedrosa (2014) – [Silviano] reinveste no valor ético-político da tensão entre autoria e leitura, tal como mobilizada pela teoria literária pós-estruturalista (…)”. De fato, assim como ele se coloca diante da obra de Graciliano e de Machado como leitor-destinatário (“singular e anônimo”), em Fisiologia Silviano estabelece um diálogo com o seu leitor – também este singular e anônimo: por um lado, o ensaio é dedicado a dois professores-críticos que leram Em liberdade em suas respectivas teses de Doutorado, a Wander Melo Miranda e a Florencia Garramuño, por outro, Fisiologia se dirige “principalmente à pessoa que, um tanto inexperiente, deseja compor um livro. Quer ousar ser criador. Interessa a meu leitor e a mim perceber como o corpo de Graciliano ou de Machado “inventa” a composição para um livro”. Na explicitação de suas referências e no cuidadoso anexo com fragmentos dos textos referidos que acompanha o ensaio, Silviano é extremamente generoso com seu leitor, sem, no entanto, adotar em momento algum um tom didático.

A terceira parte, “Finale”, é de fato como o terceiro movimento (rápido e contundente) desse concerto-ensaístico que é Fisiologia. Nela Silviano traz a cartas trocadas entre Machado e o médico que trata suas crises de epilepsia, o Doutor Miguel Couto, e entre Machado e outro dos pacientes dele, o amigo Mário Alencar (filho de José Alencar), que acredita também ser epiléptico. São documentos pessoais de Machado, portanto, “nada se desenvolve a partir de construção aritmética” e “o corpo do remetente, na sua grafia-de-vida, não está em relação homológica com um construtor composicional”. No entanto, com a análise das cartas, Silviano tenta autenticar as hipóteses desenvolvidas sobre a presença do corpo do autor na relação homológica entre grafia-de-vida e composição da obra. “As grafias-de-vida dos convulsivos se escrevem à semelhança dos movimentos que se traduzem pelo ponteiro na folha do sismógrafo, o aparelho que detecta, amplia e registra as vibrações da Terra. E, no caso, detecta, amplia e registra as vibrações dos dois corpos”. Assim, os inconvenientes do corpo (as “ausências” provocadas pelas crises de epilepsia) se traduzem em procedimentos literários, e estes, por que não, em sintomas dos primeiros. “Os dois amigos trocam planilhas que espelham os respectivos corações” (…) “se entregam de corpo e alma ao tempo fora do tempo da composição literária (…) comungada pelos dois, a ausência fabrica (…) seu próprio remédio das entranhas do corpo.” 

Bibliografia

Botelho, André. “Cosmopolitismos e interpretações do Brasil. Puxando conversa com Silviano Santiago e Mário de Andrade”. Em Melo Miranda, Wander (org). Suplemento Literário Especial Silviano, Belo Horizonte, maio /2017.

Garramuño, Florencia. Genealogías culturales. Rosario: Beatriz Viterbo, 1997.

Melo Miranda, Wander. “A beleza convulsiva”. Em Melo Miranda, Wander (org). Suplemento Literário Especial Silviano, Belo Horizonte, maio /2017.

___. Corpos escritos. Graciliano Ramos e Silviano Santiago. São Paulo: Edusp, 2009 (ed. original de 1992).

Pedrosa, Celia. “Poesia, crítica, endereçamento”. Em Expansões contemporâneas. Literatura e outras formas. Belo Horizonte: Editora UFMH, 2014.

Rodrigues Freire, Raul. “Elogio da literatura”. Em Melo Miranda, Wander (org). Suplemento Literário Especial Silviano, Belo Horizonte, maio /2017.

Santiago, Silviano. Fisiologia da composição. Recife: CEPE, 2020.

___. Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.

___. Mil rosas roubadas. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.

___. Heranças. Rio de Janeiro: Rocco, 2008.

___. A vida como literatura. Sobre O amanuense Belmiro. Belo Horizonte: UFMG, 2006.

___. O cosmopolitismo do pobre. Belo Horizonte: UFMG, 2004.

___. “Singular e anônimo”. Em O eixo e a roda. Revista de literatura brasileira, vol 5, 1986.

___. Viagem ao México. Rio de Janeiro: Rocco, 1995.

___. Em liberdade. Rio de Janeiro: Rocco, 1982 .

___. “As incertezas do sim”.  Em Vale Quanto Pesa – ensaios sobre questões político-culturais. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982.

___. “O entre-lugar do discurso latino-americano”. Em Uma literatura nos trópicos: ensaios sobre dependência cultural. São Paulo: Perspectiva, 1978.

Ximenes, Vinicius. “Extrações e fragmentos no discurso latinoamericano: arquivo, leitura, pedagogia”. Em Revista Alea, vol.23, N1, 2021. (no prelo).


Notas

[i] Professora Associada de Teoria Literária da Universidade Federal Fluminense e autora, entre outros, de Escritas de si, escritas do outro. O retorno do autor e a virada etnográfica.

[ii] O trabalho de arte, de acordo com a leitura que Silviano desenvolve neste livro do conto “Amor”, de Clarice, é artesanal e se assemelha ao trabalho doméstico da dona de casa e ao trabalho do lavrador no campo, se afastando “da força humana alienada em trabalho socialmente útil e aferível pela produtividade e o lucro”.

[iii] Como o leitor provavelmente percebeu, estou citando aqui os versos de “Psicologia da composição” de João Cabral, e refiro também o poema “O passo” de Valéry.

[iv] Silviano reproduz o fragmento 382 de A gaia ciência sobre “a grande saúde”, em que Nietzsche diz escrever a partir do “júbilo das forças renascentes”, ao recuperar a saúde. Também com uma citação desse livro Silviano conclui sua palestra “Cadê Zazá? Ou a vida como obra de arte”, pronunciada no Rio em 2001 e publicada em O cosmopolitismo do pobre (2004), em que pensa “modos de subjetivação” face à ditadura de 1964, apontando para uma postura ética e estética em relação ao corpo.

[v] Como escreveu Florencia Garramuño a respeito de Em liberdade em Genealogías culturales (1997), “há várias indicações na vida de Graciliano que fazem pensar numa homologia entre o Estado Novo que foi seu contexto e a ditadura dos 70 em que  editor e leitor se aproximam”. Na leitura de Florencia, a referência explícita a Herzog desloca uma possível relação analógica, alegórica, dos três personagens e os três momentos históricos; o romance encontra a forma de não sublimar as diferenças -históricas e individuais-  e a tradição do memorialismo, gênero fundacional das letras brasileiras, aparece “descontínua, adotando em cada momento uma inscrição peculiar”.

[vi] E também desconstrução do paradigma da formação no sentido de Bildung, isto é,  cultivo de si como ideal romântico-normativo.

[vii] Silviano aponta detalhadamente outros procedimentos na obra de Machado em que se afasta do modelo do novel, como a “coletivização” do protagonista em Ressurreição, na contramão da singularização do “charater” no romance inglês do século XVIII e francês do século XIX. Nas Memórias póstumas o narrador é duplamente singular (bêbado e defunto), e duplamente coletivo (muitos são bêbados, todos seremos defuntos).

[viii] A leitura sintomal, da qual falamos acima, supõe um deslocamento importante na leitura da relação entre composição e grafia de vida com respeito a um tipo de leitura biográfica, como a de Augusto Meyer, que propõe uma relação direta entre a psicologia de Machado de Assis (“um homem subterrâneo”) e o personagem Brás Cubas.

[ix] A partir da figura do primogénito preterido, Silviano levanta toda uma cadeia de nomes próprios  e pseudônimos na obra de Machado de Assis que referem à Biblia, com múltiplas significações.

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