Especial | Centenário de L. A. Costa Pinto (parte 3), por Jacob Carlos Lima

O Blog da BVPS publica o terceiro post do dossiê especial em homenagem ao centenário do sociólogo Luiz de Aguiar Costa Pinto, organizado por Glaucia Villas Bôas. Hoje, Jacob Carlos Lima, professor titular da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e presidente da Sociedade Brasileira de Sociologia (SBS) recupera o livro Recôncavo: laboratório de uma experiência humana, publicado em 1958, para discutir a atualidade da sociologia feita por Costa Pinto e, mais particularmente, suas possíveis interpelações contemporâneas para a sociologia do trabalho.

Para ler o primeiro post do dossiê, com textos de Glaucia Villas Bôas (UFRJ) e Patrícia Olsen de Souza (IFSP) basta clicar aqui. O segundo post, com texto de Antonio Brasil Jr (UFRJ), pode ser lido aqui.

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Boa leitura!

Sociologia, trabalho e desenvolvimento: (re)descobrindo Costa Pinto

por Jacob Carlos Lima[i]

Quando recebi o convite para discutir o livro Recôncavo: laboratório de uma experiência humana de Luiz Aguiar da Costa Pinto no seminário em comemoração aos 100 anos de seu nascimento, juntamente com o de Florestan Fernandes, me senti ao mesmo tempo honrado, preocupado e desafiado[ii].

Honrado, por participar da celebração de um autor basilar na construção da sociologia no Brasil, de uma sociologia crítica que, sem renunciar aos clássicos da disciplina, enfatizou o conhecimento social voltado a questões de uma sociedade com dinâmica própria, com uma estrutura social específica construída em sua inserção periférica aos fluxos do capitalismo contemporâneo. Em outras palavras, uma sociologia na qual os clássicos europeus e norte-americanos seriam relidos, questionados e complementados, criando não apenas um pensamento original, mas enriquecido no debate internacional, antecipando em décadas a discussão do chamado “decolonial”.

Preocupado, pois meu conhecimento acerca da obra de Costa Pinto se restringia ao seu artigo “Sociologia e mudança social”[iii], lido ainda na minha graduação, nas discussões sobre Sociologia do Desenvolvimento na década de 1970.

Desafiado, por fim, porque minha trajetória de pesquisa na Sociologia do Trabalho sempre conversou com a Sociologia do Desenvolvimento, da qual, no Brasil, a primeira é tributária, uma vez que os estudos sobre trabalho, até a década de 1970, referiam-se aos binômios industrialização-urbanização, modernização-mudança social e trabalho-classes sociais, temas que integravam a Sociologia do Desenvolvimento. Minha tese de doutorado foi construída nessa perspectiva[iv]. Mesmo assim, não conhecia Recôncavo, de Costa Pinto.

As subdisciplinas da Sociologia foram se constituindo a partir da expansão e consolidação do “campo” no sentido bourdiesiano, no qual uma comunidade de pesquisadores estabelece as fronteiras temáticas disciplinares e subdisciplinares, os critérios de entrada e permanência e os conflitos analíticos. Isso aconteceu entre nós na década de 1970, com a constituição do sistema de Universidades Federais, da implementação da pós-graduação, e do fortalecimento de entidades de fomento à pesquisa como a Capes e o CNPq, o que permitiu à Sociologia e outras ciências sociais se fortalecerem em termos de formação e pesquisa.

Se fossemos marcar uma data para esse surgimento poderíamos recuperar o primeiro Encontro Nacional da ANPOCS, em 1977, no Rio de Janeiro, com seus grupos de pesquisa que passaram a aglutinar os pesquisadores por temáticas[v]. Uma década depois, já no processo de democratização, tivemos a retomada dos Congressos da SBS, em Brasília, além de outros encontros regionais e nacionais[vi]. Os grupos de estudo sobre trabalho se organizaram nesse momento, com forte presença da sociologia e, com ligeiras modificações de títulos, permanecem até hoje, numa regularidade que o destaca como campo consolidado.

Em busca do tempo perdido, fui atrás de conseguir o livro Recôncavo em plena pandemia. A biblioteca da minha universidade (UFSCar) tem um volume na Coleção Especial Florestan Fernandes, mas o livro tinha ido para restauração. Localizei o livro na biblioteca da UFRJ, mas o sistema de COMUT entre bibliotecas não estava funcionando. Foi-me enviado então o PDF de extrato do livro, com o capítulo “O drama” publicado na Antología del pensamiento crítico brasileño contemporâneo (Costa Pinto, 2018), e em seguida comprei, num sebo, a coletânea organizada por Maria Azevedo Brandão (1998) Recôncavo da Bahia: Sociedade e economia em transição, que reproduziu a obra quase completa, com algumas mudanças autorizadas pelo autor e com exceção apenas do epílogo. Além disso, me debrucei sobre outros textos do autor e de seus intérpretes, os quais me ajudaram a familiarizar com seu pensamento.

Farei aqui uma breve análise de Recôncavo, seguida de observações pontuais a partir da sociologia do trabalho que evidenciam o caráter original e fundante da contribuição de Costa Pinto.

Em Recôncavo, Costa Pinto destaca a esfera do trabalho como fundamental para a compreensão das relações sociais a partir da sua espacialidade, o lugar como referência, como microcosmo da sociedade mais ampla e de suas transformações. O referencial marxista, que ele utiliza, é complementado com autores contemporâneos na análise da exploração do trabalho e das mudanças na composição das classes sociais no espaço regional. Costa Pinto enfatiza a diferença entre modernização e desenvolvimento, este último sempre provocado e tendo no Estado seu elemento propulsor. Mais ainda, ressalta que a modernização é sempre superficial pois não afeta necessariamente as estruturas. O desenvolvimento, ao contrário, poderia fazer isso, mas não necessariamente, resultando na convivência de arcaísmos e modernidades que se retroalimentam. Ele se contrapõe ao dualismo tradicional/moderno, ressaltando o caráter desigual e combinado do capitalismo. Ao mesmo tempo que a crise do arcaico se configura, o moderno também está em crise, e essa dialética implica rupturas, mas mantém resíduos que moldam a mudança social, seu alcance e limites. Esta situação é definida como marginalidade estrutural, na qual a modernidade não se generaliza, coexistindo e recompondo o tradicional, dando o caráter contingente e aberto da mudança social (Costa Pinto, 1967; Brasil Jr., 2013; Villas Boas, 1999; Villas Boas, 2005).

A primeira divisão de seu texto traz o subtítulo “O anfiteatro: o Recôncavo como uma síntese regional”, na qual descreve a região que circunda a Bahia de Todos os Santos, berço da nossa colonização, e que hoje integra, em grande parte, a Região Metropolitana de Salvador.  Esse espaço geográfico é apresentado como espaço social construído pelas relações sociais advindas das atividades econômicas em transição, contextualizando o período da pesquisa de campo, 1950-1951 e 1952-1953. De início, descreve-se a orla, o mar e as ilhas junto com seus personagens: “o pescador, o marinheiro, o artífice, o oleiro, o trabalhador da caieira, o cortador de lenha e piaçava, o carregador, o comércio e o transporte de mercadoria e pessoas” – os mercados e as feiras, bem como as relações sociais que as envolvem, como o trabalho assalariado e a remuneração por tarefa na pesca, a pesca como bico e o trabalho autônomo em barco próprio ou alugado, recebendo em dinheiro ou espécie, com uma pluralidade de patrões. O moderno é representado pela pesca em alto mar para empresas, as novas tecnologias representadas pelo “gelo” para conservar o pescado e o intermediário como novo personagem que se imiscui entre o produto do trabalho e sua venda. Além do gelo, as inovações estão também na mudança nos transportes: o declínio da cabotagem marítima na Bahia de Todos os Santos, a ferrovia e principalmente a rodovia e os caminhões.

O próximo cenário é o da produção fumageira e da agricultura de subsistência. Neste cenário, os atores são os trabalhadores não agrícolas dos escritórios, armazéns e trapiches das empresas exportadoras de fumo. As relações sociais vão do arcaísmo presente nas atividades agrícolas de subsistência às atividades fabris com relações contratuais com pagamentos de salário por hora ou tarefa. Neste ponto, é destacada a permanência de uma estrutura agrária extremamente concentrada, marcada por “muita terra e poucos donos”. O fazendeiro obtém sua renda com a venda direta ou por intermediários às empresas exportadoras ou fábricas de charutos, arrendando parcelas de sua propriedade; o trapicheiro que compra o fumo dos lavradores o beneficia de forma rudimentar, além de armazenar e revender a produção, que pode ser financiada, podendo ainda incorporar terras como pagamento de dívidas. Nas fábricas de charuto, a mão de obra é predominantemente feminina, com sua dupla sujeição, ao patrão e a seu companheiro. A mobilidade social é representada pela saída da lavoura para a fábrica de charuto ou pela emigração para outras regiões do país. O grau de precariedade da vida se manifesta nessa emigração, com a falta de perspectivas de melhoria de vida na região e a consequente perda da população dos municípios fumageiros. A fábrica, como representação da modernidade, já está em crise, mesmo que a tecnologia, embora ultrapassada em outros lugares, fosse, no contexto local, o que tinha de mais avançado. O novo está na presença majoritária das mulheres nas fábricas e seu papel como provedoras da família, o que não impede sua degradação.

A lavoura de cana e a produção de açúcar nas usinas, embora em decadência no Recôncavo, ainda representavam 60% da produção de açúcar do estado, concentrada em apenas quatro usinas. Destaca a existência de relações contratuais nessas usinas, em sua parte industrial, assim como uma maior tecnologia comparativamente aos banguês remanescentes.

O ciclo do petróleo, entrando na região, foi visto como uma possível ruptura aos padrões dominantes, com o início das atividades da Petrobrás de prospecção e a construção da Refinaria de Mataripe, que ainda não apresentava fortes impactos. A vinda de técnicos e engenheiros, majoritariamente de outras regiões do país e mesmo do exterior, com melhores salários, não chegou, porém, a alterar a situação dos municípios onde atuavam, pois eles residiam majoritariamente em Salvador, ou em acampamentos provisórios, contribuindo economicamente para o desenvolvimento dos serviços especialmente na capital. Sobre esse período foram relatados os conflitos iniciais com os usineiros e acordos de não recrutamento de trabalhadores da cana, para manter os salários baixos, indicando a acomodação do novo e do velho.

Ao lado desses atores principais, são indicadas as camadas residuais na estruturação de classes: setores médios representados por alambiqueiros, caminhoneiros e uma pequena burguesia urbana de serviços. Os catingueiros, trabalhadores migrantes e temporários se encontravam na escala mais baixa do proletariado local.

Esse anfiteatro resume os processos sociais básicos: as relações contratuais capitalistas, o declínio do patriarcalismo, o surgimento de novas camadas sociais e o surgimento de novos valores; a convivência entre o velho e o novo conformando a marginalidade estrutural somada ao amplo analfabetismo predominante naquele contexto e seu papel, destacando a ignorância como um fator funcional na manutenção de estruturas arcaicas. Esses são os elementos que constituem o “Drama” de uma estrutura social em mudança com ritmos distintos, onde o novo e o velho se interlaçam na crise que os constitui.[vii] Toda essa descrição nos remete ao modo como um texto se torna clássico, isto é, pela contribuição singular do processo de mudança social e pela contribuição de seus achados na compreensão do atual, do contemporâneo (Alexander, 1999). Sobretudo o caráter de “Laboratório”, integrado ao projeto Unesco, o que permitiu dar conta das diversas dimensões do processo.

Algumas questões levantadas no texto refletiam situações similares, com variações em outras regiões do país, e continuavam a demarcar a hibridização entre o moderno e um “arcaico” recriado e ressignificado, conforme os interesses da reprodução do capital. Posteriormente, trabalho e desenvolvimento continuaram na agenda política e econômica do país, mas incorporados nas questões mais gerais e contextuais resultantes da forma como o país se inseriu no capitalismo global.

Farei apenas algumas observações pontuais a partir da minha experiência empírica, dada a amplitude assumida pelas pesquisas na área e os limites deste texto. Deve-se considerar que nestes mais de 60 anos da publicação de Recôncavo o Brasil mudou muito em termos de população e estrutura produtiva, mas manteve as características destacadas por Costa Pinto: as lentas mudanças estruturais, a permanência de uma imensa desigualdade social e a capacidade dos setores dominantes em negociar as mudanças conforme seus interesses.

Carybé. Bico de pena 2, 1950, Museu de Arte da Bahia

No parágrafo inicial de “O drama”, segunda parte do texto, Costa Pinto recupera uma notícia publicada num jornal do Rio de Janeiro acerca da situação sócio econômica da Bahia, que dizia que o estado precisaria de um milhão de trabalhadores europeus para renovação da mão de obra local, substituindo-a por uma melhor qualificada. Aqui estamos diante não apenas da marginalidade estrutural, mas do racismo estrutural, constituinte do nosso país enquanto nação. A imprensa reproduzia o ideário presente no plano executado quando da abolição da escravidão, da substituição dos trabalhadores negros por brancos europeus, estes mais qualificados e adequados aos novos ritmos da produção, promovendo assim uma desqualificação recorrente da nossa população, vista como indolente e preguiçosa. O “tabaréu do Recôncavo”, obediente, servil, mas pouco produtivo, não era adequado a relações de trabalho modernas e racionalizadas.

Leite Lopes (1988) reproduziu documentos de um conflito entre o empresariado têxtil do Sudeste e a fábrica Paulista em Pernambuco nos anos 1940 que utilizava mão de obra mais barata e com isso era mais competitiva. E a fábrica respondeu com a mesma justificativa, os trabalhadores pernambucanos por serem “escurinhos” eram indolentes e pouco produtivos, o que explicava um salário mais baixo e a utilização do sistema fábrica-vila operária que juntava a produção com a reprodução social através da imobilização da família operária. Essa justificativa sempre esteve presente entre o empresariado para legitimar salários baixos e sua resistência à CLT, vista como potencialmente disruptiva das relações sociais.

Mas essa questão não se restringiu à primeira metade do século XX. Dados publicados pelo IBGE em 2019 demonstraram que pretos e pardos são maioria entre trabalhadores desocupados (64,2%) ou subutilizados (66,1%) no país, e se encontram entre os mais precarizados. Reafirma-se continuamente a suposta inferioridade racial da população negra, seja pela forma precária como se insere no mercado de trabalho, seja nos estereótipos reforçados por falas racistas, não apenas de parte do empresariado, mas também de diversas instâncias governamentais a partir das eleições de 2018.

O processo de modernização implementado pelo Regime Militar mudou a estrutura produtiva da região do Recôncavo com a implantação do Polo Petroquímico de Camaçari. Salvador, que possuía menos de 500.000 habitantes na década de 1950, passou para quase 3 milhões, ou 4 milhões se considerarmos a região metropolitana. Isso, contudo, não alterou a desigualdade social e a alta concentração de renda. Em 2018, seis em cada dez trabalhadores baianos eram informais, 57% no estado e 41% em Salvador. Estes dados apontam que as relações sociais contratuais características do capitalismo moderno não resultam numa melhoria das condições de vida e trabalho.

A informalidade, que Costa Pinto apontou em Recôncavo, embora sem utilizar o conceito[viii], sempre marcou as relações sociais na região e no país, com parcela reduzida de trabalhadores com contrato regulares. Se considerarmos que a fiscalização do trabalho era extremamente limitada nos inícios dos anos 1950, com exceção de grandes empresas estatais ou privadas, a maioria das empresas formalizadas atuava com contratos irregulares ou mesmo sem contrato. Outra situação apontada por Costa Pinto encontra-se na “viração”, termo não utilizado então, presente na pesca, na venda do pescado, nos biscates com que a maioria da população vivia. A Petrobrás foi efetivamente o divisor de águas, com os investimentos infraestruturais como o Polo Petroquímico e o surgimento de um operariado industrial na região (GUIMARÃES & CASTRO, 1990), além da expansão dos serviços diversificando a composição dos trabalhadores. Essas mudanças foram provocadas pelas políticas estatais de desenvolvimento e os grandes projetos estruturantes que alteraram o cenário econômico e social das diversas regiões onde foram implementados.

A precariedade, entretanto, se reafirma e se reproduz. Mudanças recentes na legislação do trabalho a reatualizaram, mais uma vez, em nome da modernidade. O Ministério do Trabalho foi extinto e a fiscalização do trabalho reduzida ao mínimo em nome do enxugamento de custos e de uma pretensa obsolescência da CLT, atendendo as reivindicações empresariais que nunca aceitaram o estatuto do trabalho e as limitações à sua livre exploração em nome do mercado[ix].

A presença das mulheres na indústria fumageira foi apontada como elemento de mudança, a partir da sua ocupação nas fábricas de charuto e no artesanato, mas resultando igualmente em maior desagregação familiar. Costa Pinto destacou que a mulher “tende a sustentar o companheiro que passa o dia nos bares e bilhares, pegando um ou outro biscate” (p.128). Submissão, conformismo, disponibilidade sexual e miséria física evidenciavam sua subalternidade como mulher e como operária. Grandes conquistas foram obtidas desde então, com a entrada massiva da mulher na força de trabalho, embora ainda ganhe mesmo que o homem em tarefas iguais e permaneçam os estereótipos acerca da sua presença na esfera pública, estereótipos esses voltados à sua pretensa incapacidade ou a sua disponibilidade sexual.

São numerosos os achados de pesquisa nos quais a desqualificação da mulher no mercado de trabalho é evidenciada, isso sem considerar as diferenças salariais e a qualidade dos empregos e ocupação. Citarei apenas um exemplo para ilustrar: uma pesquisa com mulheres trabalhadoras fabris realizada por mim e duas colegas na cidade do Crato, no Ceará (Araújo & Lima & Borsoi, 2011). A fábrica foi instalada na região a partir de políticas do governo do Estado de atração de investimentos industriais nos anos 1990, com a abertura do mercado brasileiro às importações e a eliminação do projeto de planificação anterior, durante o Regime Militar e o fim das chamadas políticas desenvolvimentistas centralizadas. Foi o período da chamada guerra fiscal entre estados na busca por investimentos (Lima, 2002). Sem industrialização significativa, a fábrica empregava mais de 2000 trabalhadores, a maioria mulheres, em três turnos diários, um deles à noite. Era uma empresa do setor de calçados para exportação, aproveitando os menores custos e os incentivos fiscais do Estado.

A descrição é similar à realizada por Costa Pinto com relação às operárias fumageiras: na falta de empregos regulares para os homens, elas se constituíam na sustentação do grupo familiar. Os homens viviam de bicos, passando o dia nos bares. Uma “nova” variável constatada foi a visibilidade da violência doméstica. Segundo um gerente, as mulheres iam trabalhar à noite todas arrumadas e pintadas, o que era uma provocação aos homens e aos maridos que se sentiam inseguros. Ao retornarem à casa, apanhavam, pois eram consideradas vagabundas pelos maridos e pelos colegas de trabalho. O novo agora se encontrava na conquista de políticas sociais de defesa da mulher no caso a implementação de delegacias das mulheres na década de 1990. Várias operárias as utilizaram e se empoderaram, denunciando seus maridos violentos e mesmo os deixando. Entretanto, a violência doméstica, seja qual for o motivo, está longe de desaparecer.

A modernização, agora globalizada, continua incorporando novos territórios e trabalhadores(as) aos fluxos da economia, numa nova concepção de desenvolvimento, novidade esta que continua tendo a indústria como tipo ideal. As relações de trabalho estão racionalizadas e, independente do contexto regional, um emprego industrial ainda é uma forma de mobilidade social num entorno social cada vez mais precário. No caso do Crato, no Cariri cearense, o grosso da mão de obra permanece na informalidade, ressignificada agora como empreendedorismo, mais adequado à flexibilidade da produção e da utilização da mão de obra, que considera que o custo do contrato de trabalho prejudica a competitividade das empresas. A precariedade constituinte da relação capital e trabalho está longe de qualquer superação.

 Sobre o paternalismo presente nas relações sociais no meio rural, apontada por Costa Pinto, permanece convivendo com formas racionalizadas. Uma pesquisa junto a trabalhadores da cana e de usinas de açúcar no Nordeste recuperou as relações desses usineiros com trabalhadores e com grandes projetos desenvolvimentistas que retornaram no período dos chamados governos populares do PT. Foi o caso do Porto de Suape em Pernambuco, lócus da realização da pesquisa, onde os usineiros negociaram vender suas terras a preços bem acima do mercado para tirar vantagens dos investimentos direcionados ao Porto e repetindo os acertos históricos entre o Estado e as elites regionais. Elites estas, que poderíamos afirmar, mantidas por esse Estado, considerando uma produção pouco competitiva e que se mantém através de incentivos estatais e com relações contratuais que mesclam a modernidade da flexibilização e paternalismos variados (Maciel, 2016). E agora sem preocupação com a perda de trabalhadores, considerando que o Porto não iria incorporar todos, o que terminou acontecendo a partir do aborto dos investimentos com o golpe parlamentar de 2016. O projeto “desenvolvimentista” não teve continuidade e não afetou a produção canavieira local. Mesmo com as diferenças históricas, reafirma-se o os acordos entre o arcaico e o moderno. Para incorporar as terras das usinas foram necessários acordos favoráveis aos “donos das terras”: negociações para que as coisas mudassem para que permanecessem as mesmas.

As pesquisas na sociologia do trabalho apontam numerosas situações que evidenciam a atualidade de Costa Pinto, impossíveis de serem elencadas aqui.  Mas uma outra questão me chamou a atenção por conta do meu desconhecimento do autor, que teve grande visibilidade na sociologia brasileira do final dos anos 1940 até o ano de 1970:  o relativo apagamento da sua contribuição, que veio acompanhado da secundarização das políticas desenvolvimentistas. Isso me levou a buscar as referências a Costa Pinto em pesquisas sobre a questão trabalho-desenvolvimento-classes sociais a partir da década de 1970. Inicialmente fui atrás de algumas pesquisas desenvolvidas na Bahia por sociólogos sobre a formação do operariado industrial, o papel da Petrobrás e a criação do Polo Petroquímico. A primeira delas, Operários e Sociedade Industrial na Bahia (Carvalho, 1971) do CRH da UFBA, e a segunda uma coletânea editada pelo CEBRAP, “Bahia de Todos os Pobres” (Adeodato & Souza & Faria, 1980), ambas resultantes de projeto conjunto e que analisaram a pobreza urbana, trabalhadores por conta própria, operários fabris, estratégias de sobrevivência e marginalidade social.

Ambas ainda não apresentaram as transformações sociais resultantes dos grandes projetos então em implementação na Bahia, destacando a precariedade de uma industrialização parcial e a larga informalidade na cidade. Em nenhum deles Costa Pinto é citado. O mesmo ocorre com uma série de pesquisas que marcaram o debate sobre marginalidade social no Brasil (BERLINK, 1975; KOWARICK, 1975; PAOLI, 1974). A partir dos anos 1980, as pesquisas do CRH na UFBA, que se tornaram referências na sociologia do trabalho brasileira, destacando os impactos dos projetos na construção de um novo operariado na região[x], mas nos quais a questão do desenvolvimento se dissolve da discussão da modernização capitalista, e seu caráter excludente patrocinado pelo Regime Militar[xi].

Um explicação plausível é dada pela hipótese de Leite Lopes, Peçanha e Ramalho (2012), ao se referirem às primeiras gerações de sociólogos do trabalho, de uma hegemonia da chamada “escola paulista de sociologia”, onde um grupo reduzido de autores e suas relações com editoras tornaram mais visíveis sua produção em detrimento, no caso, de sociólogos do Rio de Janeiro, os quais foram profundamente afetados com repressão política a partir de 1964 e a desarticulação dos centros de pesquisa. Essa hipótese pode ser ampliada destacando o campo restrito das pesquisas sociológicas no país até a década de 1970 e sua baixa circulação.

Essa situação se alterou a partir do final dos anos 1990, com a consolidação da área nacionalmente com centros de pesquisa espalhados pelo país, num quadro de maior circulação de informações e do advento da Internet que, de certa forma, democratizou o acesso a obras antes quase impossíveis de serem localizadas.

Destaque-se também a homenagem feita a Costa Pinto no 14° Congresso Mundial de Sociologia, em 1998, em Montreal no Canadá, por sua participação no comitê executivo da ISA entre 1954 e 1957 e como seu vice presidente entre 1956 a 1959 (Amorim, 1999) que deu maior visibilidade a sua obra. A partir daí sua contribuição passou a ser recuperada pelos pesquisadores da área de Pensamento Social Brasileiro[xii]. Pela sociologia do trabalho, com este breve texto busquei atenuar essa lacuna.

Para finalizar, uma observação sobre a defesa da sociologia feita por Costa Pinto. Suas obras destacam o papel e a importância da sociologia brasileira e sua cientificidade, o que, ao lado de Florestan Fernandes, o coloca como um dos patronos da disciplina, da sua institucionalização e da atuação profissional do sociólogo. Em seus embates no campo das ciências sociais, sempre lutou por seu caráter crítico e por sua especificidade. Repetindo a fala de G. Myrdal no Congresso Britânico de Sociologia no início dos anos 1950: “ciência é crítica: ciência social implica crítica da sociedade”, concluindo que isso se aplicava melhor à sociologia do que às outras ciências sociais,  percebidas para além da ciência política e da antropologia em sua classificação institucional[xiii]. E justifica que “cada uma delas (ciências sociais) estuda uma árvore; a sociologia estuda a floresta” (Costa Pinto, 1999).

Num contexto em que o termo interdisciplinaridade se tornou panaceia para questionar o conhecimento disciplinar, como se alguma ciência não fosse interdisciplinar e não estivesse em constante mudança incorporando o novo; e num quadro de ataques sistemáticos ao conhecimento científico e ao sociológico em particular, é estimulante reencontrar um paladino da sociologia.

Referências Bibliográficas

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Notas

[i] Professor titular no Departamento de Sociologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e Presidente da Sociedade Brasileira de Sociologia (SBS).

[ii] Agradeço a Antonio Brasil Junior e a equipe do NEPS-IFCS e BVPS da UFRJ o convite para participar do “Seminário 100 anos de Luiz Aguiar da Costa Pinto e Florestan Fernandes”.

[iii] COSTA PINTO, L. A. Sociologia e desenvolvimento: temas e problemas do nosso tempo. 6ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1975.

[iv] LIMA, J. C. A formação do operariado fabril no desenvolvimento industrial de Pernambuco (Tese em Sociologia). São Paulo: USP, 1992. Publicado em 1996, com o título Trabalho e formação de classe: estudo sobre operários fabris em Pernambuco. João Pessoa: Editora Universitária UFPB.

[v] Na década de 1970 surgem as primeiras revisões bibliográficas de pesquisas sobre trabalho no Brasil. Entre elas, destaco: RODRIGUES, L.M.; MUNHOZ, F.A. Bibliografia sobre trabalhadores e sindicatos no Brasil. Estudos Cebrap, São Paulo, n. 7, p. 151-171, jan./mar., 1974; WERNECK VIANNA, L. Estudos sobre sindicalismo e movimento operário: resenha de algumas tendências. Dados, Rio de Janeiro, v. 3, p. 9-24, 1978

[vi] O primeiro congresso da SBS após sua desorganização com a ditadura militar aconteceu em Brasília, em 1987. Antes, em 1985, em João Pessoa, foi organizado o Seminário “Movimentos Sociais: para além da dicotomia rural urbano”, que deu início aos Congressos do CISO, encontros bianuais de Ciências Sociais que ocorreram no Nordeste até 2012.

[vii] Além do texto do autor, baseei-me nas análises de Kátia Mattoso, que fez o Prefácio do livro organizado por Brandão (1998), bem como em vários trabalhos de Glaucia Villas Boas (1999; 2005; 2006).

[viii] O conceito surge em 1972 a partir de pesquisa da OIT em Gana; é reformulado pela OIT em 2002 incorporando a flexibilização do trabalho resultante da reestruturação econômica global a partir dos anos 1980.

[ix] Sobre isto, veja-se a Reforma Trabalhista implementada após o golpe parlamentar de 2016 pelo governo Temer.

[x] Cf. GUIMARÃES, A.S.; AGIER, M.; CASTRO, N.A. Imagens e identidades do trabalho. São Paulo: HUCITEC, 1995; GUIMARÃES, A.S.; CASTRO, N.A. Espaços regionais de construção da identidade da Classe trabalhadora no Brasil pós-77. Os autores produziram uma ampla produção sobre o tema, além de outros pesquisadores do CRH que não iremos elencar por uma questão de espaço.

[xi] Com a expansão da pós-graduação, numerosas pesquisas nas áreas de História, Ciências Sociais e afins, sobre relações sociais no Recôncavo baiano, principalmente na UFBA, têm recuperado o texto de Costa Pinto.

[xii] A coletânea organizada por CHOR MAIO e VILLAS BOAS (1999) é referência desse momento.

[xiii] Ao contrário, em relatório produzido para a Capes em 1955, propondo mudanças nos cursos de Ciências Sociais, incluiu a Economia, a História e a Geografia no que seriam as faculdades de Ciências Sociais, propiciando uma formação mais consistente, assim como o desenvolvimento das disciplinas específicas. Veja-se COSTA PINTO, L.A.; CARNEIRO, E. As Ciências Sociais no Brasil. Rio de Janeiro: CAPES, Série Estudos e Ensaios – 6, 1955. Este modelo tem sido objeto de algumas experiências no país hoje, embora ainda muito tímidas. Refiro-me especificamente ao bacharelado de Ciências Humanas da UNILAB no Ceará, de duração de dois anos, com opção disciplinar em Sociologia, Antropologia, História e Pedagogia, por mais dois anos.

A imagem que abre o post é de Carybé, “Puxada de Rede”, óleo sobre tela, de 1968.

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