Especial | Centenário de L. A. Costa Pinto (parte 2), por Antonio Brasil Jr

Na atualização de hoje damos continuidade a nosso dossiê especial em homenagem ao centenário do sociólogo Luiz de Aguiar Costa Pinto. Abaixo trazemos um texto de Antonio Brasil Jr., professor do Departamento de Sociologia e do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia da UFRJ, que trata do sentido cosmopolita da teorização do autor, destacando o caráter ao mesmo tempo plural, contingente e conflituoso de sua abordagem sobre os processos de mudança social.

O dossiê sobre L.A. Costa Pinto é organizado por Glaucia Villas Bôas (UFRJ) e procura retornar ao pensamento do autor discutindo sua atualidade. Clicando aqui é possível ler o primeiro post da série, que conta com texto de abertura de Glaucia Villas Bôas e com um ensaio de Patrícia Olsen de Souza (IFSP). Segunda-feira (07/12) publicaremos o terceiro post do dossiê, assinado por Jacob Carlos Lima (UFSCar e presidente da SBS).

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Boa leitura!

Cosmopolitismo sociológico, complexidade e contingência: Luiz de Aguiar Costa Pinto e o tema da mudança

por Antonio Brasil Jr[i]

O tema da mudança social atravessa do início ao fim a sociologia de Luiz de Aguiar Costa Pinto[ii]. Embora o autor tenha refletido sobre um conjunto variado de problemas empíricos e de questões metodológicas ao longo de sua trajetória, o eixo de gravitação de sua obra sempre foi a pergunta sobre os sentidos (plurais, ambíguos, ambivalentes ou mesmo contraditórios) assumidos pelos processos de mudança social.

O seu conceito-chave, que amarra toda a sua sociologia, é o de “marginalidade estrutural” (Villas Bôas, 2006), definido numa primeira versão em 1947, em artigo chamado justamente “Sociologia e mudança social”, publicado na revista Sociologia. Muito grosso modo, através da noção de “marginalidade estrutural” o autor procurou mostrar que, nas sociedades em desenvolvimento, não seriam apenas os elementos “tradicionais” que estariam em crise por conta das mudanças sociais em curso, mas também o próprio padrão “moderno” que se queria impor, porquanto incapaz de redesenhar a totalidade da estrutura social. Ele rejeitava a noção de “sociedades duais”, comum em seu contexto intelectual, porque não se tratava de uma passagem automática de um tipo de sociedade a outro ou sua mera coexistência lada-a-lado. Não seriam duas sociedades, mas o encontro entre processos assíncronos, descompassados, cujas reverberações criavam no conjunto das relações tensões, conflitos e problemas inéditos. Dito de modo sintético, era a combinação de arcaísmo e modernidade, cuja interação criava inclusive problemas novos e imprevistos – o que desafiava, é lógico, a própria sociologia dominante de seu tempo, da qual Costa Pinto sempre foi crítico (Lima, 1999; Maia, 2019).

Luiz de Aguiar Costa Pinto nasceu em 1920 em Salvador, capital do Estado da Bahia, em família tradicional e de prestígio, herdeira de engenhos na região do Recôncavo e com ligações no mundo político. Seu pai fora professor da Faculdade de Medicina da Bahia e, graças aos contatos herdados, Costa Pinto se aproximou de alguns intelectuais baianos, como Afrânio Peixoto, Arthur Ramos e Anísio Teixeira. Chegou a cursar dois anos de medicina, em Salvador, mas largou o curso quando da morte do pai. Mudou-se para o Rio de Janeiro junto com a família, com a intenção de cursar direito. Porém, com a criação da Faculdade Nacional de Filosofia (FNFi), realiza os exames vestibulares para a primeira turma de ciências sociais. Em razão de sua participação com grupos estudantis de esquerda, de oposição ao Estado Novo, ficou preso durante grande parte do primeiro ano do curso. Estabeleceu relações próximas com o catedrático Jacques Lambert, chegando a publicar, em 1944, um livro em parceria com o sociólogo francês, intitulado Problèmes demographiques contemporains, além de se tornar seu assistente, ao lado de Hildebrando Leal. Em 1947, defendeu a tese de livre-docência intitulada O ensino da sociologia na escola secundária. Em 1945, com o retorno de Lambert à França, Leal assumiu interinamente a Cátedra de Sociologia na FNFi, na qual permaneceria até sua aposentadoria em 1965. Costa Pinto contornou criativamente este bloqueio ao controle da Cátedra através da multiplicação de suas vinculações a instituições e projetos de pesquisa, bem como da bem-sucedida internacionalização de sua circulação acadêmica. Além de participar do grupo de experts da Unesco que redigiu a Declaração das Raças da Unesco, em 1950, foi personagem crucial para viabilizar o patrocínio daquela instituição das pesquisas sobre relações raciais no Brasil (Maio, 1997). Membro do comitê executivo da International Sociological Association (ISA), chegou ao cargo de vice-presidente da instituição entre 1956 e 1959, integrando também o comitê sobre Estratificação social e Mobilidade, coordenado por David Glass (Costa Pinto, 1989). Conseguiu, por meio de concurso, em 1958, a Cátedra de Princípios de Sociologia Aplicados à Economia na Faculdade Nacional de Ciências Econômicas da Universidade do Brasil (atual UFRJ). Um ano antes, criou e se tornou o primeiro diretor do Centro Latino-americano de Pesquisas em Ciências Sociais (CLAPCS), com suporte da Unesco. Em 1959, organizou o “Seminário Internacional Resistências à mudança”, que reuniu vários sociólogos brasileiros e estrangeiros na sede do CLAPCS, no Rio de Janeiro.

Em 1949, Costa Pinto publicou, na prestigiosa coleção brasiliana, o livro Lutas de famílias no Brasil, cuja primeira versão já havia saído em forma de artigo na Revista do Arquivo Municipal, de São Paulo, em 1943. Neste livro, o autor, em intenso diálogo com os trabalhos de Jacques Lambert, trata da vingança privada na América portuguesa como forma de ação coletiva e de controle social típica de uma “sociedade de parentes”, haja vista a “hipertrofia do poder privado” e a “dispersão e fraqueza do poder público” (Costa Pinto, 1980, p. 22) que caracterizaria a ordem colonial. Para tal, mobiliza, além de extensa pesquisa empírico-documental, o repertório dos ensaios de interpretação do Brasil, sobretudo os de Oliveira Vianna, Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freyre e Nestor Duarte. Porém, comparando-se o argumento de Costa Pinto com o de Oliveira Vianna, vemos que não há em Lutas de família uma concepção dualista das relações entre poder privado e autoridade pública. Enquanto Vianna enxerga entre estas duas esferas sociais uma relação de oposição constitutiva – e, mais ainda, que caberia ao Estado centralizado promover, de modo autoritário, a imposição do poder público em uma sociedade marcada pela “insolidariedade” –, Costa Pinto prefere, por sua vez, uma visão não disjuntiva e não teleológica do processo de assentamento da autoridade do Estado (Botelho, 2009). Antes, “a história do poder político no Brasil”, assinala Costa Pinto,

é a história dessa competição entre, de um lado, os fatores de dispersão social e política que suscitam e engendram a formação de agências de autoridade privada e, de outro, os fatores de unificação e centralização do poder social que contribuem para a consolidação definitiva da organização estatal – que aliás, até hoje, não se pode dizer completada (Idem, 1980: 29).

Assim, no lugar da passagem linear da autoridade privada em direção à consolidação progressiva da autoridade pública, o autor prefere tratar suas relações como ordens sociais em competição, já que os valores e práticas de cada qual não conseguiriam impor-se inteiramente uns aos outros no conjunto do processo social. E, no mesmo passo, contra a ideia normativa de que o autoritarismo pudesse acelerar um assentamento bem-sucedido do poder do Estado, adverte que os “os ensaios recentes de ‘governo forte’” – vale lembrar que o livro foi escrito em pleno Estado Novo –, “longe de serem reação contra esse estado de coisas, representam, de facto, produtos dele – produtos híbridos, de acomodação entre o passado político feudalizante e as formas totalitárias de organização social” (Idem, 1980, p. 28). Esta visão de que a ordem social herdada do passado e os valores e instituições típicos da sociedade moderna pudessem conviver de maneira tensa, híbrida ou em acomodação recíproca seria fundamental para a teoria da mudança social que iria desenvolver e aperfeiçoar ao longo das décadas de 1950 e 1960 (Botelho, 2009). 

 Como dito acima, nas várias pesquisas que desenvolveu na década de 1950, Costa Pinto articula o conceito de “marginalidade estrutural” como forma de garantir inteligibilidade sociológica aos processos de mudança. O uso deste conceito é perceptível tanto em sua pesquisa sobre o negro no Rio de Janeiro, realizada no âmbito do projeto Unesco, quanto em sua investigação sobre o Recôncavo baiano, fruto de uma cooperação entre o Estado da Bahia e a Universidade de Columbia.

No caso de O negro no Rio de Janeiro: relações de raças numa sociedade em mudança (1953), o autor, através de uso de diferentes materiais e métodos – análises demográficas, dados estatísticos sobre o sistema de estratificação, mapas de distribuição ecológica das populações negras e métodos típicos da Escola de Chicago, como a escala de distância social de Emory Bogardus –, demonstrou a persistência de fortes desigualdades e assimetrias nas relações sociais entre brancos e negros em um contexto de expansão de uma economia industrial moderna. Ao longo da série histórica tratada no livro, assinala Costa Pinto que “a maior distância percorrida pela grande massa dos homens e mulheres de cor do Distrito Federal nos últimos setenta anos de mobilidade social” seria a “de escravo a proletário” (Idem, 1998, p. 144, grifos no original). Isso revelaria que o processo de modernização, em vez de redesenhar o conjunto da sociedade, conviveria com elementos herdados da ordem escravista e senhorial, gerando tensões que tendiam a se agravar ao longo do processo. A questão central, para o autor, “não é somente a sobrevivência do passado”, “nem somente o avanço para o futuro” (Idem, 1998, p.  54), já que isto impor-se-ia a qualquer observação superficial,

mas a coexistência desses dois mundos, marginalizado a sua estrutura de alto a baixo, neutralizando-se reciprocamente, nem um nem outro possuídos da devida força histórica para dominarem sozinhos o panorama e imprimirem rumo definindo e claro à civilização brasileira que assim permanece, marginalizada e bifronte […]. (Ibidem)

No lugar de uma sequência linear de transição, é a própria convivência – conflitiva ou acomodatícia – entre ordens sociais a princípio opostas que configura o modo pelo qual Costa Pinto reconstrói os processos sociais de mudança. Daí que sua sociologia apresente uma visão mais cética e cautelosa em relação ao futuro que a média de sua geração (Villas Bôas, 2006).

Esta perspectiva ganharia ainda mais densidade em Recôncavo: laboratório de uma experiência humana (1958), primeira publicação do CLAPCS, pesquisa que Costa Pinto apresentou para a Cátedra na Faculdade de Ciências Econômicas da UB. A complexidade das relações sociais e das formas de trabalho na região, em transformação acelerada graças à expansão de atividades econômicas modernas, como a exploração de petróleo pela Petrobrás, desautorizaria a visão dualista exposta por Jacques Lambert em Le Brésil (1953) – traduzida ao português como Os dois Brasis (1959) –, posto que inovações capitalistas e formas de produção de origem colonial não estariam apartadas umas das outras, e sim “adjacentes, vivendo numa mesma pequena área geográfica, contradizendo-se reciprocamente”, sem que pudessem “se impor como forma predominante de estrutura e de estilo de vida social” (Idem, 1958, p. 49). Neste caso, faria mais sentido, em vez de dualidade, empregar o termo “contraponto” – que ele retira, de modo relativamente livre, da obra do cubano Fernando Ortiz – a fim de exprimir a “dramática dialética” que “decorre na zona do açúcar e do petróleo” (Idem, 1958, p. 66), colocando lado-a-lado uma atividade que remonta os inícios da colonização e a empresa de vanguarda do desenvolvimento industrial. A região do Recôncavo seria, portanto, heurística para análise da mudança social, pois justamente a “coexistência interdependente, dinâmica e complexa de tipos sociais distintos” (Idem, 1958, p. 22), possibilitando o trânsito, “com facilidade e com frequência”, “do primitivo ao moderno” (Idem, 1958, p. 25), do “pré-industrial ao supercapitalista” (Idem, 1958, p. 26), permitiria observar com grande nitidez o caráter assincrônico existente em todo processo de transição social. E, indo além deste ponto, a presença organizada da intervenção do Estado na economia, com a instalação das refinarias da Petrobrás, tornaria a região propícia para observar os efeitos da “mudança social provocada” (Villas Bôas, 2006), cujos efeitos, em vez de um maior equilíbrio, poderia levaria ao agravamento das assincronias entre as diferentes partes da sociedade em mudança. À luz do conceito de “marginalidade estrutural”, proposto por Costa Pinto, nada garantiria de antemão o sucesso dos planos de desenvolvimento. Nos termos do autor:

[…] é fácil compreender que as contradições e assimetrias que resultam dessa diferença de ritmo de transformação tornam-se ainda mais agudas e profundas quando intervém no processo uma ação consciente e deliberada no sentido da aceleração do ritmo de mudança do regime econômico. Este é o caso das sociedades de economia menos desenvolvida, em que a promoção da transformação se faz intencional e racional, como meio de suprir, pelo planejamento do desenvolvimento econômico, os índices de atraso, que se procura superar a curto prazo (Idem, 1958, pp. 143-144).

Ainda no estudo sobre o Recôncavo, Costa Pinto defende a importância de se compreender o processo de mudança sem minimizar suas contingências históricas, distinguindo, para tal, as condições sociais do desenvolvimento, por um lado, e suas implicações sociais, por outro. Em relação às condições, trata-se “de analisar os padrões e as formas econômicas e sociais pré-existentes”; afinal, “é nesse padrão tradicional que se vai encontrar a matéria-prima social e histórica” com a qual “se vai moldar um novo padrão” (Idem, 1958, p. 146). Já no que se refere às implicações do desenvolvimento, o fundamental seria analisar, em perspectiva de conjunto, “a ação moldadora que ele exerce no sentido de criar um padrão de economia e de sociedade” (Idem, 1958, p. 147). 

Com base neste quadro de referência, Costa Pinto procurou, durante o período em que dirigiu o CLAPCS (1957-1961) (Bringel et al, 2015), organizar uma ampla pesquisa comparativa em quatro capitais latino-americanas – Rio de Janeiro, Buenos Aires, Montevidéu e Santiago do Chile – com o intuito de divisar os efeitos da transição nos sistemas de estratificação social, bem como as consequências da mobilidade social, de acordo com as especificidades históricas de cada contexto a ser analisado. Pelo tipo de cooperação internacional apresentado, seria algo pioneiro na sociologia da região (Idem, 1964, p. 129), uma vez que se tratou de um empreendimento conjunto desde a redação do projeto até a apresentação e discussão de seus resultados em sucessivos encontros científicos de âmbito latino-americano (em Buenos Aires, em 1958, em Montevidéu, em 1959, e novamente em Buenos Aires, em 1962) ou internacional (em Perugia, Itália, no subcomitê de Estratificação da ISA). As equipes eram lideradas por T. Pompeu Accioly e José Arthur Rios (Rio de Janeiro), Gino Germani (Buenos Aires), Isaac Ganón (Montevidéu) e Eduardo Hamuy (Santiago do Chile) (Idem, 1964: 116-117), e a confecção das amostras e dos questionários aplicados foi concebida tenda em vista uma posterior análise de dados coletados pela sede do CLAPCS, no Rio de Janeiro.

Vale destacar o esforço de Costa Pinto em traçar, através do diálogo com as equipes de cada país, um esquema teórico-metodológico sensível tanto às dimensões mais gerais dos processos de mudança social na América Latina quanto aos processos históricos de cada cidade e país analisado. Criticando a orientação ideológica implícita nos estudos sobre estratificação e mobilidade feitos especialmente na Inglaterra e nos Estados Unidos, que se limitariam à “verificação prática, em cada estrutura, do destino que a sociedade capitalista” teria dado “às teses liberais” da “‘igualdade de oportunidades’” (Idem, 1963), atribuindo estabilidade relativa ao sistema de estratificação como um todo, o diretor do CLAPCS propõe uma outra perspectiva para o caso das “sociedades em processo de recente e acelerado desenvolvimento econômico”. Nestes contextos, não seria possível separar a análise da mobilidade do processo mais amplo de transformação da estrutura de estratificação, pois “os indivíduos mudam de posição dentro de um sistema que também está mudando desde as suas bases” (Idem, 1963, p. 186). Daí a necessidade de incorporar a dimensão histórica como constitutiva da análise dos padrões de mobilidade e de estratificação, o que não permitiria uma comparação apenas sincrônica das quatro cidades investigadas. O artifício metodológico adotado no documento final do projeto foi o de considerar a existência, em cada contexto específico, de um “momento histórico de significação”, visto como o “momento em que fatores quantitativamente acumulados dentro da sociedade haviam começado a imprimir mudanças qualitativas no sistema de estratificação social” (Idem, 1962, p. 17), o que permitiria identificar e comparar as inflexões cruciais no processo de transição social mesmo que estas não tenham ocorrido no mesmo período histórico. Mais uma vez recuperando o conceito de “marginalidade estrutural”, Costa Pinto assinala que a transição para um sistema de estratificação moderno não seria inexorável e que a persistência de padrões tradicionais de status não seria um mero “desvio”. “Ao invés disso”, completa, o que se encontra são duas situações, ambas ‘normais’, que coexistem e, entretanto, se opõem” (Idem, 1963, p. 192).

Por motivos variados, e que não nos cabe assinalar aqui, a pesquisa sobre as quatro cidades latino-americanas não chegou a se completar, pelo menos não nos termos previstos por Costa Pinto. A massa parcial de dados gerada pelas equipes nacionais foi analisada pelo sociólogo britânico Bertram Hutchinson, expert da Unesco designado para o CLAPCS (entre 1962 e 1966), que publicou uma série de artigos a respeito na revista América Latina, editada pelo centro de pesquisa. Hutchinson, aliás, já havia sido criticado por Costa Pinto por ter usado, em pesquisa anterior sobre mobilidade social em São Paulo, os “mesmos padrões já empregados na Inglaterra pelo professor David Glass e seus colaboradores” (Idem, 1963, p. 191). A não conclusão da pesquisa, ou melhor, sua conclusão de acordo com os procedimentos teórico-metodológicos alheios aos definidos anteriormente, pode ser indicativo da falta de êxito, por parte de Costa Pinto, em rotinizar o tipo de sociologia do desenvolvimento que ele vinha articulando desde meados da década de 1950, muito mais sensível às contingências históricas e ao caráter não-linear dos processos de mudança do que a média dos trabalhos que viriam a ser publicados nas páginas de América Latina nos anos seguintes (Oliveira, 1995a).

Seja como for, a despeito dos azares de sua trajetória, Costa Pinto sempre pensou alto o alcance de sua sociologia. Lembremos que, já em 1947, em seu artigo “Sociologia e mudança social”, ele fazia crítica contundente à sociologia dominante de seu tempo, em particular da norte-americana, porque, esquecendo-se dos clássicos da disciplina, ela parecia não levar mais à sério a mudança social. Para ele, a sociologia dominante no cenário global estaria crescentemente orientada para os problemas da ordem, criando problemas teóricos e empíricos fundamentais para a observação não só de suas próprias sociedades, mas especialmente das sociedades “periféricas”.

O sentido cosmopolita de sua teorização, sempre preocupada em descentrar as perguntas da sociologia da experiência histórico-social particular das sociedades “centrais”, se inscreve, portanto, na própria noção de “marginalidade estrutural”. Lembremos que, para Costa Pinto, o uso deste termo está longe de ser um simples preciosismo conceitual: ele chama atenção, contra as visões mais lineares, para o fato de que o padrão “moderno”, nas situações de transição rápida, não se generaliza para o conjunto do tecido social, coexistindo e se recompondo em muitos âmbitos – e de maneira muitas vezes ambígua – com o padrão “tradicional”. Dito de outro modo, como nem os traços “tradicionais” nem as características “modernas” conseguem impor os seus dinamismos de maneira mutuamente exclusiva, o próprio sentido geral da mudança social seria aberto e contingente. Num dos muitos exemplos dados por Costa Pinto, vale a pena destacar a questão do sistema político. De acordo com o mainstream da “sociologia da modernização”, haveria uma correlação funcional forte entre desenvolvimento e democratização (Lipset, 1963). À luz da perspectiva da “marginalidade estrutural”, as repercussões do desenvolvimento na esfera política poderiam ser múltiplas e nem sempre democráticas:

Nessas sociedades, por serem sociedades em transição, nas quais se encontram e coexistem situações objetivas as mais distintas e contraditórias, a impressão que se tem é que igualmente as mais diversas soluções políticas têm probabilidades equivalentes de prevalecer, desde a supercentralização política, desejada pelo “partido da ordem”, até a “democracia popular”, preconizada pela extrema revolucionária (Costa Pinto, 1963, p. 99).

Por fim, e associada à noção de “marginalidade estrutural”, Costa Pinto introduz mais duas distinções finas que completam, a nosso ver, o quadro de inovações teóricas de sua ‘sociologia do desenvolvimento’. Por um lado, em diálogo com C. Wright Mills, a distinção entre os termos “over-developed Society” e “well-developed society”, que, esclarece o autor, “na bibliografia de língua inglesa” aparecem “sempre como sinônimos, propagando, consciente ou inconscientemente, uma tábua de valores e um critério de aferição ética, ideológica e política” (Costa Pinto e Bazzanella, 1967, p. 13). A proposta de nomear os países “desenvolvidos” como “superdesenvolvidos” implica toda uma rotação intelectual, porquanto permite questionar a adesão acrítica ao modelo societário por eles representados – e aí Costa Pinto incluía os países tanto do bloco capitalista quanto do bloco soviético. Um processo intenso de desenvolvimento não seria sinônimo necessariamente de ‘bom’ desenvolvimento – exemplo disso seriam os “desequilíbrios e as assimetrias internas” presentes nos Estados Unidos e na União Soviética, o que comprovaria a coexistência, nesses países, de “muito desenvolvimento e desenvolvimento deformado” (Costa Pinto e Bazzanella, 1967, p. 13; grifado no original).

Por outro lado, ele introduz uma distinção entre “modernização” e “desenvolvimento”, outros dois termos que também costumavam – e ainda costumam – andar juntos. De acordo com Costa Pinto, entre os dois processos representados por esses termos podem até existir correlações, “mas não identidade”. E agrega: “ousamos, mesmo, adiantar que entre eles existe talvez uma oposição antitética e se explorarmos a análise destas diferenças poderemos aprender muito em relação ao processo de mudança social” (Costa Pinto, 1967, p. 193). Mas, afinal, em que se distinguem? Vale a pena transcrever um trecho do artigo “Modernização e desenvolvimento”, originalmente uma conferência realizada em 1963 na Universidade de Buenos Aires:

(…) entendemos que modernização é um processo que consiste na adoção, por uma sociedade em mudança, de padrões de consumo, de comportamento, de instituições, valores e ideias característicos de sociedades mais avançadas enquanto desenvolvimento, por outro, implica mudanças estruturais que alteram basicamente o perfil da estrutura econômica e social. Nesse sentido a modernização, sociologicamente encarada, é um processo mais epidérmico, enquanto o desenvolvimento é um processo mais profundo. A modernização pode ser, por um tempo relativamente largo, compatível com a permanência de uma estrutura econômica e social de tipo colonial; enquanto o desenvolvimento, por definição, implica necessariamente o câmbio desta estrutura colonial de economia e de sociedade (Costa Pinto, 1967, p. 196).

Com base nessa definição, torna-se possível avaliar sociologicamente a “qualidade” da mudança social progressiva, isto é, o seu sentido. Isso porque Costa Pinto não desconsidera a “modernização” como uma forma de mudança. “O que acontece”, pondera, “é que, por definição, essas mudanças por largo tempo permanecem restritas a uma parte da sociedade” (Costa Pinto, 1967, p. 196). Justamente por esse aspecto “restrito” e “epidérmico”, por terem gastado “tudo o que ganharam no passado modernizando a sua fachada e deixando intactas as bases estruturais de sua economia e de sua sociedade” (Costa Pinto, 1967, p. 189-199), as sociedades historicamente marcadas pela “modernização” – como seria o caso do Brasil e da América Latina – chegariam a situações potencialmente (e politicamente) explosivas: “na medida em que o processo avança, o setor moderno vai exercendo uma espécie de ‘efeito-demonstração’ sobre as massas do setor arcaico, multiplicando necessidades e aspirações que o sistema não pode satisfazer sem se transformar” (Costa Pinto, 1967, p. 196). Portanto, apesar de promover a aceleração da dinâmica histórica, a “modernização”, por não romper com as condições estruturais de uma sociedade de tipo colonial, tenderia quase inevitavelmente a desembocar em “crise”: “a contradição se estabelece, as tensões se formam, as situações de conflito se generalizam, cria-se uma situação de instabilidade e de crise estrutural” (Costa Pinto, 1967, p. 196-197). Em suma, Costa Pinto traça o perfil de um padrão de mudança social que, além de repor reiteradamente arcaísmos de todo o tipo, está associado, de maneira crônica, a situações de enorme instabilidade social e política.

Em suma, armada desde sempre de um senso agudo do caráter complexo, contingente, aberto, plural e conflituoso do processo de mudança social, a sociologia de Luiz de Aguiar Costa Pinto, além de desconfiar corajosamente dos modelos prontos que estavam à sua disposição em seu próprio tempo, é capaz de se comunicar intensamente com os problemas teóricos, metodológicos e empíricos – e também políticos – do nosso tempo.

Referências bibliográficas

Botelho, André (2009). Passagens para o Estado-nação: a tese de Costa Pinto. Lua Nova, São Paulo, n. 77, p. 147-177.

Bringel, Breno et al (2015). Notas sobre o CLAPCS na ‘era Costa Pinto’ (1957-1961): construção institucional, circulação intelectual e pesquisas sobre América Latina no Brasil. Dossiê Temático NETSAL, nº 5, IESP/UERJ, Rio de Janeiro, pp. 10-18.

Costa Pinto, Luiz A. (1947). Sociologia e mudança social. Conferência pronunciada na Sociedade Brasileira de Antropologia e Etnologia. Sociologia, São Paulo, v. 9, n. 4, p. 287-331

Costa Pinto, Luiz A. (1958). Recôncavo: laboratório de uma experiência humana. Rio de Janeiro: CLAPCS.

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Costa Pinto, Luiz A. (1998 [1953]). O negro no Rio de Janeiro: relações de raças numa sociedade em mudança. 2. ed. Rio de Janeiro: Editora UFRJ.

Costa Pinto, Luiz A.; Bazzanella, Waldomiro (1967). Preâmbulo. In: ______ (Org.). Teoria do desenvolvimento. Rio de Janeiro: Zahar, p. 9-14.   

Lima, Nísia T. (1999). Sob o signo de Augusto Comte ou sob o signo de Karl Marx: a vocação das ciências sociais nas perspectivas de Costa Pinto e Florestan Fernandes. In: Maio, Marcos C. & Villas Bôas, Glaucia (Org.). Ideais de modernidade e sociologia no Brasil: ensaios sobre Luiz de Aguiar Costa Pinto. Porto Alegre: Editora UFRGS. p. 251-274.

Lipset, Seymour (1963). Political man. Nova York: Doubleday; Anchor.

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Oliveira, Lúcia L. (1995a). As ciências sociais no Rio de Janeiro. In: Miceli, Sergio (Org.). História das Ciências Sociais no Brasil. São Paulo: Vértice, pp. 233-307. Villas Bôas, Glaucia (2006). Mudança provocada: passado e futuro no pensamento sociológico brasileiro. Rio de Janeiro: FGV.


Notas

[i] Professor do Departamento de Sociologia e do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia (PPGSA) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

[ii] Este artigo se constrói de modo relativamente livre a partir de dois textos previamente publicados: Brasil Jr., Antonio. (2013). A reinvenção da sociologia da modernização: Luiz Costa Pinto e Florestan Fernandes (1950-1970). Trabalho, Educação e Saúde, 11(1), 229-249; e Brasil Jr., Antonio (2017). La sociología en Río de Janeiro (1930-1970): un debate sobre Estado, democracia y desarrollo. Sociológica (México), 32(90), 69-107. O argumento relativo ao cosmopolitismo sociológico de Luiz de A. Costa Pinto foi desenvolvido em interlocução com André Botelho no episódio de podcast SBS Convida#11 Florestan Fernandes e Costa Pinto: raça, mudança social e democracia.

A imagem que abre o post é do acervo de Glaucia Villas Bôas.

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