Especial | Centenário de L. A. Costa Pinto (parte 1), por Glaucia Villas Bôas e Patrícia Olsen de Souza

O Blog da BVPS dá início hoje a uma série de três posts em homenagem ao centenário de nascimento do sociólogo baiano Luiz de Aguiar Costa Pinto, um dos mais importantes personagens dos processos de institucionalização e internacionalização das ciências sociais no Brasil. Nosso dossiê especial foi coordenado por Glaucia Villas Bôas, professora titular da UFRJ, que também assina o texto de abertura que segue abaixo. No post de hoje trazemos ainda um ensaio de Patrícia Olsen de Souza, professora do IFSP, que discute o legado do autor. Na sexta-feira (04/12) e na segunda-feira (07/12) publicaremos, respectivamente, textos de Antonio Brasil Jr. (UFRJ) e Jacob Carlos Lima (UFSCar e presidente da SBS).

Assim como nos posts em homenagem aos outros centenários de 2020, Florestan Fernandes e Celso Furtado, nosso objetivo com essa série foi trazer aos leitores do Blog da BVPS análises qualificadas de especialistas sobre a obra e a trajetória de L. A. Costa Pinto que também permitam calibrar sua importância para a sociologia hoje.

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Boa leitura!

A Sociologia de L. A. Costa Pinto

por Glaucia Villas Bôas[i]

Rever a trajetória dos pioneiros da sociologia brasileira e revisitar suas ideias é tarefa que estudiosos do pensamento social vem cumprindo com o objetivo de ampliar, fortalecer e valorizar o conhecimento de nossa tradição intelectual. Nem é preciso dizer que as ciências só avançam com o diálogo entre diferentes gerações de pesquisadores. Contudo, a escolha de autores ou instituições para estudo não obedece a um plano prévio, mas varia de acordo com interesses e contextos diversos. Nesse sentido, o caso de Luiz de Aguiar Costa Pinto (1920-2002) é emblemático. A pesquisa de sua trajetória e obra tem merecido, recentemente, a atenção de sociólogos, depois de um período de silêncio sobre o pensamento do autor. 

Algumas razões podem ser elencadas para a “redescoberta” do sociólogo baiano, que escreveu sobre mudanças sociais, desenvolvimento, relações raciais, relações de trabalho, nacionalismo e militarismo. Penso que  o período de esquecimento, sobretudo na década de 1980, se deve ao fato de que Costa Pinto estudou e exerceu suas atividades de sociólogo no Brasil, na cidade do Rio de Janeiro, nas décadas de 1940 e 1950, saindo do Brasil, no início dos anos de 1960, com a idade de 43 anos e vindo a se estabelecer no Canadá, como professor da Universidade de Waterloo, até o final da vida.  Sua produção intelectual mais conhecida entre nós se refere ao período em que viveu no país, embora ela tenha se prolongado até pouco antes de sua morte.  A interrupção da carreira, nos anos da ditadura militar, não impediu, entretanto, que importantes editoras brasileiras publicassem livros de sua autoria. Algumas dessas publicações, a exemplo de Sociologia do Desenvolvimento (1963), com mais de sete edições, e Desenvolvimento econômico e transição social  (1967) com três, evidenciam que Costa Pinto tinha um público leitor significativo. 

Nos anos de sua atuação na Universidade do Brasil, hoje Universidade Federal do Rio de Janeiro, como livre docente da Faculdade Nacional de Filosofia e professor catedrático da Faculdade de Economia, Costa Pinto não logrou  formar um grupo de alunos que levasse à frente suas ideias sobre o desenvolvimento social, tampouco sua posição em favor da pesquisa comparada, abordagem que utilizou em seu programa de estudo de sociedades latino-americanas. Na realidade, Costa Pinto fez uma carreira internacional, envolvendo-se bem mais com seus compromissos com pesquisadores, organismos e centros de pesquisa internacionais, muito deles ligados a UNESCO/ONU, do que com as novas gerações de cientistas sociais em seu país.

Uma retomada dos contatos com o sociólogo e releitura de seus escritos ocorreu em 1989, quando ele voltou ao Brasil para receber o título de Professor Emérito da UFRJ, onde fora “de calouro a catedrático”, como ele próprio afirmou por ocasião da solenidade de entrega do título.  Os estudos sobre seu percurso intelectual e sua obra surgiram no contexto dos anos de 1990, no qual um interesse crescente pelo estudo das ideias e trajetórias de intelectuais brasileiros favoreceu  o aumento de pesquisas na área do pensamento social, diversificando o leque das abordagens, que se voltaram então para o perfil institucional, cognitivo ou histórico da sociologia sem abrir mão de perspectiva biográfica.

Desde a publicação de Problèmes démographique contemporaines (1944), em colaboração com Jacques Lambert, até sua participação como perito do comitê de relações raciais da UNESCO, e atuação na direção do Centro Latino Americano de Pesquisas em Ciências Sociais/CLAPCS e na vice-presidência da International Sociological Association/ISA, Costa Pinto se dedicou à circulação de ideias no plano internacional (López, 2011). Em suas relações profissionais sempre estiveram presentes pesquisadores brasileiros e estrangeiros. Por esses motivos, minha segunda suspeita, no que concerne à releitura das  pesquisas de Costa Pinto e revisão de seu papel nos meios sociológicos, associa-se ao atual movimento de internacionalização das ciências sociais, que se define pelo trânsito dos estudiosos em diferentes centros de pesquisa, dentro e fora de seus países, pelo intercâmbio de hipóteses de trabalho e circulação de resultados de pesquisas. Vínculos acadêmicos e práticas colaborativas vêm se tornando mais estreitos, fortalecidos por novas tecnologias de comunicação e apoio de agências de fomento. É possível que a demanda pela internacionalização de cientistas sociais, relacionada ao interesse pela memória daquela área de conhecimento, tenha incentivado as pesquisas sobre a carreira internacional de Costa  Pinto.  

Na trajetória de Costa Pinto, destaca-se sua atuação como primeiro diretor do CLAPCS. Criado em 1957, por decreto assinado pelo Presidente Juscelino Kubitscheck, em cumprimento a um acordo do Brasil em assembleia da UNESCO, o centro de pesquisa tinha o objetivo de promover o conhecimento científico de questões sociais da América Latina.[ii] Funcionou no bairro da Urca, no Rio de Janeiro, tornando-se uma referência para as áreas de sociologia, antropologia e ciência política. Na direção do CLAPCS,  de 1957 a 1961, Costa Pinto soube  agregar numerosos e importantes cientistas sociais da América Latina em programas de pesquisa comparada voltados para a investigação de questões relativas às desigualdades sociais, mobilidade social, estruturas agrárias e estruturas urbanas e marginalidade.[iii]

Um ano depois de sua criação, o CLAPCS começou a publicar seu Boletim com projetos ou resultados de pesquisa, além de informações bibliográficas. Em 1962, o Boletim se transformou na revista trimestral América Latina. De 1959 a 1976, o Boletim e a Revista América Latina publicaram  cerca de 250 artigos, assinados, entre outros, por Costa Pinto, Gino Germani, Wright Mills, Aldo Solari, Torcuato di Tella, Pablo Casanova, Aparecida Joly Gouveia, Manuel Diégues Junior (Oliveira, 2005, p 122).

Além da criação do Boletim, em 1959, Costa Pinto organizou o Seminário Internacional Resistências à Mudança: fatores que impedem ou dificultam o desenvolvimento, evento que teve aparticipação de Florestan Fernandes, Fernando Henrique Cardoso, Wright Mills, Alfred Métraux, entre outros. Os anais do seminário, publicados em livro em 1960, são uma fonte preciosa para o entendimento da diversidade de concepções sobre os entraves ao desenvolvimento em  países latino americanos, além de revelar a posição de Costa Pinto, para quem o desenvolvimento social não seria alcançado de forma espontânea mas mediante tensões e conflitos. 

Finalmente, outro motivo para revisão das ideias de Costa Pinto, em período mais recente, possivelmente se deve ao debate sobre a persistência da desigualdade social, do racismo e da violência na esfera pública, temas focalizados pelo autor.  Um dos aspectos relevantes de seu pensamento foi trazer para o primeiro plano de sua análise a natureza das relações de trabalho, contratuais e não contratuais[iv], que definiam a vida dos pobres e dos abastados, legitimavam a partilha desigual dos bens materiais e simbólicos pelos diferentes grupos sociais, e estabeleciam a fatia de poder que cabia a alguns poucos. Saveiristas, pescadores, operárias, operários, balconistas, comerciantes, donos de engenho, usineiros, engenheiros, trabalhadores estrangeiros, Costa Pinto retirou da obscuridade – através de suas pesquisas – um sistema de dominação sobre o qual até hoje poucos falam, embora a situação econômica mundial, agravada pela pandemia da Covid-19, tenha colocado na ordem do dia o debate sobre as desigualdades sociais, o racismo e a violência.  

Ao insistir nas desigualdades sociais, Costa Pinto não as considerou formas anômalas ou patológicas da vida social, mas, ao contrário, argumentou que faziam parte integrante da dinâmica das mudanças que se operavam no país, onde o velho e o novo conviviam, “adaptando-se” um ao outro. Em seus primeiros livros, Lutas de família no Brasil (1943) e Recôncavo: laboratório de uma experiência humana (1958), Costa Pinto esboça o conceito de marginalidade estrutural (Villas Bôas, 2005) Para ele, a sociedade tradicional se modernizava de modo singular, negociando com a História. A coexistência de temporalidades distintas, enredando-se no complexo processo de instauração do moderno no país, acabava por estimular um conflito estrutural que obstaculizava o desenvolvimento. Em tal configuração nem a ordem moderna nem a tradicional se impunha como dominante, gerando uma crise.[v]


Costa Pinto nunca abandonou sua sociologia crítica como mostra Patrícia Olsen de Souza em artigo neste dossiê.  Mas  ele tinha uma visão cautelosa do futuro. Não acreditava que as mudanças econômicas aceleradas pudessem necessariamente levar a mudanças sociais. Diferente de seus colegas, com quem debateu e, não poucas vezes, polemizou, Costa Pinto foi possivelmente um dos primeiros sociólogos brasileiros a chamar atenção para a marginalidade estrutural, o conflito e as resistências ao desenvolvimento do país.

Referências bibliográficas

Brasil Jr. Antonio, A Reinvenção da sociologia da modernização: Luiz Costa Pinto e Florestan Fernandes (1950-1970), Trabalho, Educação e Saúde, Rio de Janeiro, v 11, nº1, jan/abril, 2013, p. 229-249.

Lopez, Matias, Araújo, Mateus D. A., Desenvolvimento e narrativas da modernidade: Costa Pinto e a construção de uma sociologia transnacional para o terceiro mundo, Aurora,  Marília/ SP, ano V, nº 8, agosto, 2011, p 213-225. 

Oliveira, Lucia Lippi de, Diálogos intermitentes: relações entre  Brasil e América Latina, Sociologias, Porto Alegre, ano 7, jul/dez, 2005, p 110-129.

Villas Bôas, Glaucia, Por que rever mais uma vez o conceito de marginalidade estrutural de L.A. Costa Pinto?, Perspectivas, São Paulo, vol 28, 2005, p 79-103.


Notas

[i]  Professora titular de sociologia e pesquisadora permanente do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia (PPGSA) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

[ii] O CLAPCS funcionou de 1957 a 1979.

[iii] Breno Bringel vem realizando importante pesquisa sobre o CLAPCS e a circulação de ideias em países da América Latina. Reuniu documentos dispersos no Brasil e em países da América Latina, fundamentando seus estudos com fontes desconhecidas até então.

[iv] Ver neste sentido o artigo de Jacob Lima neste dossiê.

[v] Em trabalho recente, Antonio Brasil Jr. (2013) evidencia como Costa Pinto e Florestan Fernandes se confrontaram com as ideias da modernização de pesquisadores norte-americanos e elaboraram ideias próprias sobre o assunto.

O que Luiz de Aguiar Costa Pinto nos ensina?

por Patrícia Olsen de Souza[i]

Entre os sociólogos há os que (…) aceitam que toda ciência tem sua práxis menos as ciências sociais (…) Veem todos os fenômenos como algo em mudança – menos os regimes sociais de cuja ideologia faz parte a ciência social acadêmica; concordam em que todas as ciências procurem conhecer o estado futuro dos fenômenos que estudam – menos as ciências sociais para que não deixem de ser objetivas. Estranha objetividade essa que deixa de “objetivar” o que há de mais importante na nossa sociedade em crise e que é precisamente a transformação profunda de todos os seus quadros institucionais, dos alicerces à cúpula! O que daí resulta é uma profunda mistificação da realidade tanto mais profunda quanto, apresentando-se esta atitude como a atitude da ciência, transfere-se para a ideologia  de um tipo de organização social e de cultura todo o prestígio e a autoridade quase mágica que a palavra ciência adquiriu no último século (COSTA PINTO, 1947: 296-7).

Comemoramos o centenário de nascimento do sociólogo baiano Luiz de Aguiar Costa Pinto, no ano emblemático de 2020, início da segunda década do século XXI, momento no qual os diversos países e as sociedades que os compõem passam por um acelerado processo de mudança social em virtude da crise de acumulação capitalista acirrada pela crise financeira de 2008. Atores sociais e governos afinados com os discursos neoliberais alçaram essa alternativa como o único caminho possível para resolver os problemas da mudança social, em meio à introdução de novas tecnologias da informação e comunicação, como o uso generalizado dos telefones celulares, o alcance das redes sociais e a manipulação de dados de indivíduos do mundo todo por essas redes.

O processo de mudança social pelo qual passamos transforma radicalmente a maneira como as pessoas lidam consigo e com o próximo (BAUMAN, 2001). A dinâmica das relações sociais em redes ao mesmo tempo em que encurta distâncias, favorece o isolamento, o aumento da depressão e do suicídio, e o fechamento dos diálogos, pois devolve ao usuário um espelho distorcido de si mesmo. Os arranjos institucionais herdados do século XX parecem desmoronar em nossas cabeças (BERMAN, 1986) em um momento no qual não conseguimos reerguê-los, mas que também não temos forças suficientes para solidificar novos arranjos institucionais. Em meio aos influxos da modernidade radicalizada (GIDDENS, 1991), assistimos atônitos ao espetáculo do declínio das democracias (LEVITZKY, ZIBLATT, 2018) e do renascimento de autoritarismos que pareciam enterrados.

Por ter dedicado toda sua obra ao estudo teórico e interpretativo da mudança social e por ter concebido a sociologia como uma ciência crítica, que não deve meramente descrever a ordem social, Luiz de Aguiar tem muito a nos ensinar neste início de século. Cabe lembrar que Costa Pinto também é um personagem importante para a construção da sociologia no Brasil e na América Latina[ii] e para o debate intelectual sobre as formas, os condicionantes, as possibilidades e os limites do desenvolvimento do capitalismo nesta região. Ainda quando jovem sociólogo, aos 27 anos de idade, provocou acirrada polêmica[iii] no meio sociológico brasileiro ao publicar o artigo “Sociologia e mudança social”, em 1947, na Revista Sociologia, editada pela Escola Livre de Sociologia e Política (ELSP).

Neste artigo, Costa Pinto realizou uma reflexão epistemológica ao investigar como a mudança social agia sobre o aparato teórico-metodológico e conceitual da sociologia (COSTA PINTO, 1947: 288). O autor defendeu e cobrou da sociologia uma postura crítica frente aos desafios que a sociedade capitalista lhe impunha no final dos anos de 1940, um momento de crise, tanto da sociedade capitalista quanto da sociologia. O diagnóstico de crise formulado pelo sociólogo baiano foi construído pelo olhar atento à conjuntura do fim da era de ouro do liberalismo, aos conflitos da 1ª e da 2ª guerras mundiais e também pela alternativa ao capitalismo que a revolução russa, a União Soviética e a teoria marxista representavam naquele contexto. A atitude científica adequada a “uma época de transformações aceleradas” (COSTA PINTO, 1947: 28) era o compromisso com o estudo da mudança social.

Para Costa Pinto, a sociologia praticada naquele momento na maioria das universidades não fazia frente aos desafios que a mudança social impunha aos sociólogos, por isso ele teceu duras críticas ao que chamou de “sociologia acadêmica”. A começar pelos pioneiros da sociologia, Comte, Spencer e Le Play, cujas obras “levam ao estudo da sociedade o selo da ideologia”, pois eram “a síntese perfeita” de “uma estrutura social [a capitalista] que eles representam como expressão intelectual” (COSTA PINTO, 1947: 306). Também não poupou autores como Karl Mannheim, que para ele era o exemplo das “crises de conciliação” na sociologia[iv]. Entretanto, a metralhadora de Costa Pinto direcionava-se, especialmente, à sociologia norte-americana. O autor criticou de forma incisiva o “psicologismo”, os estudos de comunidade, as noções de estratificação social que confundiam classe e status, a adoção do laissez-faire como “filosofia imutável da vida social”, os conceitos de normal/patológico e desorganização social, a incapacidade de uso prático dos conhecimentos, a inaptidão para discernir o fundamental do secundário no estudo da sociedade (COSTA PINTO, 1947: 325-6).

Para Costa Pinto, a “sociologia acadêmica” era incapaz de se abstrair da ordem social capitalista para estudar o processo de mudança social, pois ela estava intimamente ligada à essa ordem social desde o seu nascimento. Por isso, a sociologia praticada na maioria das universidades não fazia uma crítica contundente do instrumental teórico-metodológico com o qual laborava. Inadequado, segundo o autor, para o estudo da mudança social porque centrado mormente na pesquisa empírica de objetos bastante delimitados – o que fazia da sociologia uma ciência laudatória da ordem social capitalista. Luiz de Aguiar apontou o método histórico de Karl Marx como o mais adequado para o estudo das profundas transformações pelas quais a sociedade passava naquele momento (COSTA PINTO, 1947: 307). Entendida como ciência crítica, a sociologia deveria estudar os problemas da mudança social e desvelar as inconsistências do status quo. Essa verve crítica não se encerra no jovem sociólogo, mas é amadurecida por Costa Pinto em sua carreira.

O conceito de marginalidade estrutural formulado pelo professor da Universidade do Brasil, na década de 1950, é um exemplo da maturação do instrumental teórico-metodológico a partir do qual ele pensou a mudança social e seus problemas. Neste conceito, está impresso uma visão de sociedade extraída do diálogo com a obra de Karl Marx. Para Luiz de Aguiar, a sociedade era uma estrutura fundamentada nas relações sociais de produção a partir das quais os homens criavam seu sistema de estratificação social, seus valores e suas instituições. As partes desta estrutura social relacionavam-se de forma dialética a partir das ações dos homens concretos e de relações sociais de classe. A incorporação que Costa Pinto fez da noção de contemporaneidade do não coetâneo de Willem Pinder[v] foi o elemento que lhe permitiu investigar de forma original as ambiguidades e assimetrias da estrutura social em mudança (VILLAS BÔAS, 2005).

Com esse arranjo conceitual, Luiz de Aguiar assinalava as ambiguidades e assimetrias do processo de mudança, pois ele permitiu ao sociólogo perceber que havia a coexistência de duas estruturas sociais distintas no mesmo tempo histórico e no mesmo espaço geográfico. O estudo de Costa Pinto sobre o acelerado processo de mudança social no Recôncavo baiano[vi], em virtude da introdução de refinarias de petróleo da Petrobrás, em uma sociedade tradicional, revela essa faceta de sua análise sociológica. “Em diferentes esferas da vida quotidiana, com freqüência, transita-se do primitivo ao moderno, do medieval ao contemporâneo, do pré-industrial ao super-capitalista, do auto-consumo ao consumo-conspícuo – pois aqui o tempo, parece, não fluiu sincronicamente” (COSTA PINTO, 1958, p. 25-6).

O processo de mudança social pelo qual passava o Recôncavo baiano se dava por meio da coexistência de duas formas de organização econômica e social, de dois estilos de vida; um arcaico e tradicional, oriundo do passado colonial e escravista; outro moderno e capitalista, fruto das transformações sociais em curso. O passado arcaico se fazia vivo nas formas primitivas de organização da produção e nas relações sociais pessoalizadas, baseadas no mandonismo e no paternalismo, entrelaçando-se à modernidade capitalista e à industrialização expressas em relações sociais contratuais, impessoais e secularizadas. Os filhos dos trabalhadores das lavouras de fumo iam laborar nas fábricas de charutos como operários e levavam ao ambiente doméstico e local novas formas de comportamento, mais secularizadas. No entanto, o inverso também ocorria, já que os operários descendentes de famílias de parceiros, meieiros ou colonos contribuíam para que nas indústrias permenecessem vivas as relações sociais e os estilos de comportamento patrimonialistas e tradicionais, que ainda predominavam na estrutura agrária (COSTA PINTO, 1958: 49).

Para Costa Pinto, não apenas o Recôncavo baiano, mas toda a sociedade brasileira[vii] estava marginalizada entre duas formas de organização econômica e social, entre dois estilos de vida. Este amálgama conferia um aspecto dramático à mudança social no Brasil, pois as alternativas apresentadas pelas duas estruturas sociais chegavam “quase” a se anular, fazendo da transição um processo lento e penoso.

Com a construção e a aplicação analítica do conceito de marginalidade estrutural, Luiz de Aguiar nos ensina que a mudança social no Brasil se caracteriza pelos conflitos e também pela acomodação entre condutas sociais referidas à tradição e à modernidade. E que é por meio deste entrelaçamento que o homem brasileiro constrói o seu futuro. Também nos adverte de que a modernidade não é por si só redentora da tradição, já que ela se desenvolve por meio de crises e gera diversos problemas. Além disso, Luiz de Aguiar nos esclarece que para compreender as particularidades da mudança social no Brasil é preciso fazer a crítica rigorosa do aparato teórico-metodológico e conceitual existente, para que possamos edificar conceitos que dêem conta da complexidade e das especificidades de nossa realidade social.

Qual legado Luiz de Aguiar Costa Pinto deixa para os cientistas sociais do século XXI? Costa Pinto nos ensina que a sociologia não é uma ciência meramente descritiva da ordem social e que ela não deve se encerrar apenas no estudo empírico de objetos delimitados. Pelo contrário, a sociologia deve encarar o desafio de compreender de forma científica e sistemática os macro processos de transformação que caracterizam a existência das sociedades humanas. Luiz de Aguiar também nos adverte de que a sociologia deve ter uma postura crítica e epistemológica, que ela deve fazer minuciosa apreciação do arcabouço teórico-metodológico e conceitual com o qual trabalha. Mais que isso, nos ensina que os cientistas sociais dos países em desenvolvimento não devem importar acriticamente teorias, métodos e conceitos criados pelas ciências sociais norte-americana e europeia, sob pena de não compreendermos as particularidades de nossa sociedade e de deformarmos a realidade transvestindo-a em ciência.

Cabem, aqui, algumas provocações. A ciência social brasileira está realizando, de forma coerente, o estudo da mudança social, em um registro macroestrutural, ou ela se dedica mormente às microssociologias? Estamos fazendo um balanço das teorias, métodos e conceitos existentes, em busca de um aparato teórico-metodológico e conceitual que nos capacite a estudar as grandes transformações pelas quais passamos ou relegamos essa tarefa apenas ao estudo da história das ciências sociais? Além disso, a lógica quantitativa e produtivista que assaltou as ciências humanas nas últimas décadas nos permite estudar os macro processos sociais? Estamos fazendo um balanço crítico das teorias, métodos e conceitos importados ou estamos apenas assimilando e aplicando, sem grandes preocupações com as especificidades de nossa história e de nossa sociedade, o material produzido pelas ciências sociais estrangeiras? Relembrar a vida e a obra de Luiz de Aguiar Costa Pinto nos desafia a pensar sobre essas questões que, a meu ver, são fundamentais para as ciências sociais brasileira do século XXI.

Referências bibliográficas

BARIANI, Edison. A sociologia no Brasil: uma batalha, duas trajetórias (Florestan Fernandes e Guerreiro Ramos). Dissertação de mestrado. Araraquara: FCL – UNESP, 2003.

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.

BERMAN, Marshall. Tudo que é sólido desmancha no ar. A aventura da modernidade. São Paulo: Companhia das Letras, 1986.

COSTA PINTO, Luiz A. Sociologia e mudança social. Sociologia: Revista didática e científica v. 9, n. 4. São Paulo: 1947. pp. 287-331.

COSTA PINTO, Luiz A. Sobre as relações de raça. Sociologia. v. 12, n. 1. São Paulo: 1950. p.p. 3-21.

COSTA PINTO, Luiz A. Recôncavo: laboratório de uma experiência humana. Rio de Janeiro: Centro Latino- Americano de pesquisas em ciências sociais, n. 01, 1958.

COSTA PINTO, Luiz A. Sociologia e desenvolvimento. 8a. ed., Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980b (Retratos do Brasil, 20).

COSTA PINTO, Luiz A. O negro no Rio de Janeiro: relações de raça numa sociedade em mudança. 2ª. ed. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, [1953]1998.

GIDDENS, Anthony. As consequências da modernidade. São Paulo: Editora Unesp, 2011.

LEVITSKY, Steven e ZIBLATT, Daniel. Como as democracias morrem. Rio de Janeiro: Zahar, 2018.

MANNHEIM, Karl. Ideologia e utopia. 2a. ed., Rio de Janeiro: Zahar, 1972.

SOUZA, Patricia O. A sociologia da mudança social de Florestan Fernandes e de Costa Pinto. Tese de Doutorado. UNESP – FCL/Ar, 2011.

VILLAS BÔAS, Glaucia. Por que rever mais uma vez o conceito de marginalidade estrutural de L. de A. Costa Pinto? Perspectivas. Revista de ciências sociais. UNESP: São Paulo, jul/dez, 2005, p. 79-104.

WILLEMS, Emilio. Sociologia “acadêmica” e Sociologia “socialista”. Sociologia: Revista didática e científica. v. 9, n. 4. São Paulo: ELSP, 1947. pp. 346-349.


Notas

[i] Professora de sociologia no IFSP – Campus Matão e doutora em sociologia pelo Programa de Pós-graduação em Sociologia da UNESP – FCL/Ar. E-mail: patricia.olsen@ifsp.edu.br

[ii] Luiz de Aguiar atuou como professor livre-docente de sociologia na FNFi e professor catedrático de sociologia da Faculdade de Economia e Administração, ambas na Universidade do Brasil. Participou de instituições de pesquisa como o Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais (CBPE) e o Centro Latino Americano de Pesquisa em Ciências Sociais (CLAPCS), do qual foi o primeiro diretor. Atuou no projeto de estudo sobre as relações raciais no Brasil, encomendado pela UNESCO na década de 1950, como responsável pela pesquisa na cidade do Rio de Janeiro. Teve inserção internacional relevante nas ciências sociais: participou da comissão de peritos convocada pela UNESCO para elaborar a 1ª. Declaração Sobre Raça (COSTA PINTO, 1950), foi vice-presidente e membro do comitê executivo da International Sociological Association (ISA), trabalhou como pesquisador nas Nações Unidas e em universidades do Canadá após o golpe militar de 1964.

[iii] O artigo de Costa Pinto criticou duramente a sociologia praticada em São Paulo, balizada pelos estudos de comunidade e pela adoção do instrumental teórico-metodológico da sociologia norte-americana. Por isso, Emílio Willems, na época professor da ELSP, e Florestan Fernandes, aluno do curso de mestrado da mesma instituição, rebateram os argumentos de Costa Pinto no mesmo número da Revista Sociologia (WILLEMS, 1947), (FERNANDES, 1947). O debate entre Costa Pinto e Florestan Fernandes foi analisado por (BARIANI, 2003) e revisitado por (SOUZA, 2011).

[iv] Costa Pinto referia-se à noção de intelligentsia formulada por Mannheim, uma camada de intelectuais intersticial, capaz de realizar a síntese entre os diversos pontos de vista que dilaceravam a sociedade na primeira metade do século XX – o liberalismo, o comunismo, o fascismo e o conservadorismo (MANNHEIM, 1968: 178-188).

[v] Willem Pinder foi um historiador da arte mobilizado por Karl Mannheim em Ideologia e utopia (MANNHEIM, 1968). Gláucia Villas Bôas esclarece que “Pinder questionava a linearidade dos tempos da história da arte e insistia em uma coexistência de tempos distintos” (VILLAS BÔAS, 2005, p. 92).

[vi] A obra Recôncavo: laboratório de uma experiência humana (COSTA PINTO, [1953]1958) foi fruto de investigações realizadas pelo Programa de Pesquisas Sociais Estado da Bahia – Universidade de Columbia, implementado quando Anísio Teixeira era Secretário da Educação e Saúde da Bahia. Costa Pinto ficou responsável pela pesquisa na região do Recôncavo baiano e também fez parte do Staff Diretor do projeto junto a Charles Wagley, antropólogo da Universidade de Columbia, e Thales de Azevedo, antropólogo da Universidade da Bahia.

[vii] Para uma visão mais ampla das análises de Luiz de Aguiar sobre a mudança social no Brasil, consultar O negro no Rio de Janeiro: relações de raça numa sociedade em mudança (COSTA PINTO [1953], 1998) e Sociologia e desenvolvimento (COSTA PINTO, 1980).

A imagem que ilustra o post é do acervo do Banco de Imagens da Petrobrás e reproduzida neste site.

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