Rodas Culturais: democracias anônimas? por Priscila Telles e Claudio Medeiros

No post de hoje, a coluna Interpretações do Brasil e poéticas publica um texto de Priscila Telles e Claudio Medeiros sobre as rodas culturais e as faíscas de democracia que elas permitem. Numa espécie de antropologia política desses acontecimentos e dos imaginários que eles instauram e reproduzem, os autores refletem sobre as formas sociais de uma política de mundos esporádicos, democracias contingentes, MCs, rinhas e rimas.

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Boa leitura!

Rodas Culturais: democracias anônimas?

Priscila Telles e Claudio Medeiros

Dois MCs prontos pro bang bang, o que vocês querem ver?

E o público, eufórico, gritava de volta:

Saaangueeee!! Saaangueeee!!

Há pelo menos 10 anos, diversas praças do Rio de Janeiro tornaram-se lugar de um movimento aglutinador da cultura de rua: as rodas culturais. Sem aportes financeiros ou institucionais de prefeituras e secretarias de cultura, as rodas se configuram como eventos independentes com participação aberta a todo e qualquer artista, gratuitamente. Se no início a proposta era reunir MCs ao lado de caixas de som para disputarem as rinhas de MCs e jogos de palavras, com o tempo passaram a compreender eventos compostos pelo encontro de diferentes grupos e múltiplas atividades: poetas, grafiteiros, fotógrafos, artistas circenses, MCs, DJs, skatistas, pixadores, dançarinos de break, entre outros, fazem da rua seu palco. Em 2016 eram mais de cem rodas culturais no estado do Rio de Janeiro.

De longe, a roda parece um pouco o que partido-alto foi outrora, porém na rua, em praças baldias criadas para serem vales, becos. Territórios democraticamente reinventados e ritualisticamente preenchidos. As rodas permitem isso, faíscas de democracia: uma ideia de democracia como acontecimento esporádico, contingente, que de vez em quando ocorre e esporadicamente evapora. É um dos poucos lugares onde o garoto vai e ninguém vai dizer a ele que ser indisciplinado é uma coisa errada, que ele sentir ódio é uma coisa errada, que ele não se conformar é um problema. É uma escola da rua para descargas criativas, onde ele pode ser bom em algo sem que o dinheiro seja a régua que vai dizer se ele é bom em algo. O dinheiro não medeia as relações, e o fato de você vencer uma rinha não reproduz uma hierarquia, não te dá poder sobre ninguém. Pixadores bem treinados no asfalto, e subaproveitados do mercado de trabalho, MCs nos BRTs da vida, inclassificáveis nos editais de cultura.

Nas palavras de Thai Flow, MC e moradora do Complexo do Alemão no Rio de Janeiro: “A roda cultural acaba sendo uma faculdade de rua, entende? Dentro de uma roda a gente agrega projeto, agrega grafite, eventos. A função social a meu ver, numa roda cultural é ‘movimentar’, tá ligado? É fazer a arte acontecer dentro de um local que não tem graça ou onde a galera acha que aquilo ali tá esquecido ou abandonado. Onde os projetos sociais mesmo, de fato, que eram pra prefeitura ou sistema investir dinheiro e não investe. A função da roda seria nutrir esses vazios, esses vácuos que o sistema nos deixa, entendeu? Acho que essa seria a função social de uma roda: suprir esses vazios que o sistema impõe.”[1]

Onde escola e universidade fracassam para proteger o poder dos inteligentes sobre os ignorantes, as rodas demonstram a forma como tais relações desiguais são um pressuposto pedagógico, ou seja, condição para que os “incapazes” fiquem de fora e o desajustado se reconheça enquanto tal. Assim também seria na política. Se política é o fundamento do poder de governar o ingovernável, sob a total ausência de fundamento deste poder, o que aconteceria se ritualizássemos territórios onde certos ingovernáveis, certos modos de subjetivação dissensuais, afirmassem sua diferença? O que aconteceria agora se aquelas relações que nos acostumamos a considerar consensuais, na militância, na representatividade política, aparecessem como dependentes de uma prática de anulação dos ambientes de dissenso democrático, isto é, ambientes onde os incategorizáveis pudessem falar, fazer cultura? A rua é este lugar, uma praça ocupada também, é por aí que passa o potencial democrático das rodas culturais: produzir a rua, desobstruir a rua das viaturas, produzir encontros a partir da rua, destituir o policiamento de suas competências, suspender o policiamento daqueles elementos que são intransigentes para manutenção da ordem justamente porque impróprios para a identificação policial.


“Resistir” é estar na praça, andar de skate, jogar basquete, mandar freestyles numa roda de amigos, participar das rinhas de MCs, das “reús de xarpi”, promover debates ou até mesmo organizar mutirões para plantio, ainda que seja por meio de uma caça não autorizada.[2]Na praça, a roda agrega aquilo que a sociedade e as instituições colocam na margem e em não lugares. Ela acaba dando aos corpos “descartados” um lugar momentâneo munido de uma teia de relações, entretenimento e criatividade astuciosa. Ela reinventa o cotidiano da cidade. Ou mais que isso, ela produz a cidade.


Numa roda cultural, embora ocorra um conjunto de atividades, são as rinhas de MCs que constituem um dos momentos mais aguardados da noite. Embora elas sejam marcadas pela dualidade, pelo conflito e pela competição, as sangrentas rinhas não configuram uma briga no sentido literal, mas apenas em termos simbólicos, pelo confronto verbal.

Já o Freestyle é como um canto livre. Não há regras. Não há jogo contra um adversário. Se há um jogo, é aquele das palavras. Nas rodas de freestyle, o clima é de total descontração. Da mesma forma que começa, ele termina: espontâneo. É comum que nos intervalos das rinhas de MCs, o “mic” fique aberto para qualquer pessoa presente na roda pegá-lo para falar qualquer coisa: mandar um recado, recitar um poema, cantar. Às vésperas das eleições municipais do Rio de Janeiro em 2016, MC Duclan tomou o mic na Roda de Olaria e mandou seu free:

Eu voto nulo ou não voto não

Prefiro pagar multa, mas também não pago não

Por isso que sou revoltado e dou calote no buzão

Aê, parceiro, na moral é nós que tá

Aê, parceiro, a gente tem que reagir… se revoltar

Aê parceiro, não aceite a conta

Esses político tá achando que o povo é barata tonta

Aê, parceiro, na disciplina e no respeito,

Mostro pros políticos o meu dedo do meio

É liberdade Rafael Braga, vamos protestar

Vamo reagir

É por isso que a gente faz a luta de um MC

Você pode entender que aqui a gente vai criticar

Cada vez mais que eles quiser arregar

Na moral, parceiro, eu mudo o clima

O que eles têm de dinheiro eu tenho de rima

Aê parceiro, eu mando nessa tática

Só vou acreditar quando derem liberdade para Rafael Braga

Aê parceiro isso é mó adrenalina

Mas eu não acredito que um saco de pão virou um quilo de cocaína

Eles querem forjar, mas aqui a gente tá na rua e representa tua voz.


Mas resistir não é um contra-poder? Não é um gesto de reatividade, como quem já reage convencido de que “jogar o jogo” é a única resposta? Uma rinha de MCs é a teatralização da guerra, e a guerra é a força dispersiva que não é senão resistência contra qualquer consciência política indivisível que garanta o poder de unificação da ordem estatal. É menos resistir à hegemonia de um poder totalizador, do que uma resistência à lógica colonizadora e biopolítica do Estado que reclama aquele poder. A performance dos MCs nas rinhas é um exemplo de antídoto contra a sedução pela alienação da igualdade, ocorrida quando somos capturados pela lógica de um consenso organizada, por sua vez, em torno de um poder político externo, institucionalizado, independente, domesticador. “Enquanto houver guerra, há autonomia: é por isso que ela não pode, não deve cessar, é por isso que ela é permanente. A guerra é o modo de existência privilegiado da sociedade primitiva enquanto esta se distribui em unidades sociopolíticas iguais, livres e independentes: se não houvesse inimigos, seria preciso inventá-los.”[3] As rinhas de MCs sustentam um ambiente onde guerra e democracia anônima não são termos contraditórios, nada implica negação de uma pela outra. Thai Flow recupera de forma clara o que os MCs, frequentadores e produtores culturais entendem como “resistência”. Não significa, apenas, estar em um ambiente, mas ocupar a praça, como forma de sabotar a metropolização da vida[4] e da rua. Quanto mais houver dispersão neste processo, menos haverá unificação, e qual é esse poder legal que engloba diferenças a fim de suprimi-las, que só se sustenta ao abolir a lógica do múltiplo para substituí-la pela lógica da unificação? A polícia.

Rico, MC e produtor cultural da Roda de Olaria, afirma incisivamente: “O único diálogo que a gente tem com o poder público é de forma truculenta que é com a polícia. A polícia não entende quando você chega num espaço e quer ocupar para mudança. É revitalização do espaço. É algo que o governo deveria fazer pra gente. Eu não tenho dinheiro para pagar um show no Circo Voador de cem reais, cara. Como um equipamento criado pelo governo para disseminar cultura, arte e entretenimento, e cobra cem reais para assistir os Racionais MCs?”[5]


Congadas, entrudos, ranchos do quilombo na Pedra do Sal, desfiles das escolas de samba no antigo boulevard, as procissões carnavalescas performaram aberturas temporárias de penetração coletiva em territórios policiados: essas reterritorializações asseguraram a presença de tempos tridimensionais[6], diferentes das formas arcaicas do ocidentalismo. Podemos chamar de assentamentos culturais as ocasiões em que tempo não é um dado a priori da sensibilidade, mas abertura instaurada no movimento da ação pelo tambor, em que a síncope – e não o relógio – passa a ser a régua de temporalidade.

Na biografia da Cruz e Sousa, Leminski cita entrevista a um intelectual nigeriano que ele não nomeia: “Os brancos nos trouxeram coisas de valor. Como o seu pensamento científico e filosófico, incluindo o marxismo. Mas o preço que temos que pagar é alto demais. O ateísmo é a morte dos deuses. Com a morte dos deuses, vem a morte das danças, que são para os deuses. Com a morte da dança, vem a morte da música, que acompanha as danças.”[7] Mais recentemente, as macumbas cariocas performaram a reiteração de um tempo em que música, dança e sagrado não eram realidades autônomas, independentes entre si, mas expressões rizomáticas de Exu. É exusíaco o princípio dinâmico que instaura, na fissura de um universo ordenado, a temporalidade mítica. O tempo é obra do rito, toda gira abre com ponto para Exu.


ESTE FILME NUNCA VAI PASSAR NA SESSÃO DA TARDE[8]

Não há duelo nos versos finais

Coroando com alguma honra esse episódio

Eu não tenho uma arma pressionada contra o punho

Ou inimigos às minhas costas

Estou olhando as miragens

Ouvindo o que o vento sussurra hoje e antes

Nomeando as coisas entre amigos e bichos

O bairro é esse fruto que cai das árvores

Algumas mãos catam ou pássaros bicam brevemente

Dizendo adeus enquanto passo

Aprendi a ser aquele que está em movimento

Feito trens de carga

Muitos me veem

Poucas sabem para onde vou

E de onde venho.

Nossas carroças só deixam poeira nos olhos

Jamais encontrarão a estrada que abrimos em segredo

Na noite funda

Quebramos suas barricadas e fronteiras

Somos a clareira no fim da mata

Vocês sempre ouvirão nossos tambores

Todo chão é terreiro


Subúrbios foram assentados nos dias de festa, no intervalo dos dias de normalidade, quando ancestrais bantus e nagôs recebem dos primeiros habitantes alguma solidariedade hospitaleira, alguma exogenia, algum ponto riscado do Tupinambá e o passe do Caboclo, algum desleixo com a pureza narcísica no europeu. Daí os assentamentos culturais, apesar de adquirirem formas diversas (desde a extensão em linha nas ruas e avenidas – procissões de folia de reis, turmas de bate-bola, blocos e desfiles carnavalescos – até territorializações circulares – rodas de samba e capoeira, giras de umbanda, rodas culturais e rinhas de MCs), mudarem necessariamente de natureza à medida que aumentam suas conexões. Às conexões que implicam aumento das intensidades de existência chamamos sincretismo. À tecnologia rítmica da qual é dotado o beat que constitui o tempo como obra de criação devemos a interação com o invisível: a captura do presente pelas memórias coletivas das culturas de diáspora.


Lima Barreto diz que “a fundação de uma cidade é, antes de tudo, um desejo de comunhão, de associação”[9]. Desejo de comunhão e associação com o quê? A guerra que existiu segue seu cortejo, não há intervalo de história em que aldeias não fossem pisoteadas, rios mortos, indígenas não sofressem exílio e escravidão. Qual é a cidade fundada na comunhão e na associação que não a reconhecida na letra morta dos calendários? Queremos achar que talvez não estejamos exatamente distantes da remota rua praticada pelo Lima. As rinhas de improviso nas praças baldias dos subúrbios, o xarpi rarefeito nos viadutos, as turmas de clauns e bate-bolas ventilando caos e essências, os rolés de motoboys e mototaxis em procissões gigantescas rumo ao mar levam a sobressalto as viaturas da madrugada e as classes de herdeiros de uma vida desencantada e segura. Porque renovam o estoque de pólvora e liberdade excedida que comandou a luta dos nossos ancestrais contra a escravidão. O mesmo estoque que atiçou o povo, em mutirões, no assentamento de terreiros, na vitalidade cultural pujante que definiu nossa pré-histórica subida aos subúrbios.


Se onde há opressão há resistência[10], as rodas culturais estão nesse lugar. Elas vêm resistindo ao longos desses 10 anos através de uma criatividade astuciosa que ressignifica, revitaliza e movimenta aquele espaço da praça: se não pode fazer a roda com caixa de som, DJ, rinha de MCs, a rapaziada faz ali mutirão de plantio para horta coletiva para comunidade do entorno, faz cine clube, faz campeonato de basquete. “Estruturas de dominação trabalham na sua própria vida, à medida que são desenvolvidos pensamento e consciência crítica, à medida que se inventam hábitos novos e alternativos de ser e à medida que se resiste a partir desse espaço marginal de diferença definido internamente.”[11]

No entanto, diversas rodas deixaram de acontecer ao longo deste período. A questão financeira é um dos fatores. Como dito anteriormente, grande parte dessas rodas não recebe nenhum tipo de investimento por parte da prefeitura ou da secretaria de cultura. Os produtores arcam com toda a infraestrutura do evento: aluguel das caixas e mesa de som, microfones, aluguel da lona etc. Por outro lado, as que continuaram acontecendo, esbarram cotidianamente nas tentativas policiais de neutralizar estes assentamentos culturais da dissidência.

No dia 9 de janeiro de 2018 foi promulgada a Lei Estadual nº 7837 que declara Patrimônio Cultural Imaterial do estado do Rio de Janeiro a cultura hip-hop e todas as suas manifestações artísticas, como breaking, grafite, rap, MC e DJ. Dentro disso, pela lei, as rodas culturais finalmente estariam dispensadas da prévia autorização da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro – PMERJ, da Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro – PCERJ e do Corpo de Bombeiros Militar do Estado do Rio de Janeiro – CBMERJ, desde que não haja montagem de palcos, arquibancadas e camarotes.

O que aparentemente se apresenta como um respiro às rodas, uma vez que não se fazia mais necessário a negociação semanal – entre produtores culturais e policiais dos Batalhões de cada bairro – da documentação que permitiria a legalidade do evento, um impedimento ainda se fazia presente: o dinheiro. Felippe, também produtor da Roda de Olaria, afirma: “É foda. Só gasto. Coloquei 500 pra fazer, voltou 90. Vai melhorar, mas já tô cansado”. Ainda que amparadas pela lei, no caso da Roda de Olaria, as visitas dos policiais continuavam frequentes. Ao longo de todo o evento, a viatura da polícia ficava fazendo ronda passando pela praça. Por vezes, estacionavam, saíam da viatura e ficavam ali, sondando.

Aquilo que a polícia se compromete a fiscalizar não são rigorosamente atos qualificados como delituosos, mas um modo de vida qualificado como excessivo. A polícia não combate o crime, ela combate a desordem, por isso ocupar-se com o suspeito, o inclassificável, o anônimo, não com o delito. Seu papel é desarmar, manter sob o olhar, controlar o que somos capazes de fazer e onde somos capazes de ir. Controlar o anonimato é seu imperativo – embora isso não possa acontecer sem boa dose de cosmofobia, racismo e empobrecimento de mundo. A polícia afirma que a sociedade consiste em grupos dedicados a funções específicas, especialmente situados em lugares onde essas funções são exercidas, segundo formas de vida que correspondem a essas funções e a esses espaços. Segundo essa adequação entre funções, lugares e formas de vida, não há lugar para o exusíaco no universo ordenado. Qualquer inclassificável que perturbe esse arranjo, inserindo-se como um excesso face aos consensos necessários ao sentido universal da ordem política, será eventualmente alvo da polícia.


Na entrevista que dura cerca de trinta minutos e compõe a dissertação Roda Cultural de Olaria: “resistência” e formas de atuação[12], Gustavo afirma que a cultura carioca é acolhedora dos corpos desajustados e a roda de rima compreende um desses lugares que recebe toda esta juventude que enxerga em instituições como a escola, a família, entre outras instituições do mundo, uma espécie de “máquina de expulsão”. A roda de rima é um desses lugares, que enfim, recebe toda aquela juventude, e recebe não no sentido de transformá-la a priori, recebe como ela é, na intensidade dela, e que vai gerir aquilo ali, não de maneira absolutamente equilibrada, tendo problemas aqui, ali, mas o garoto ou a garota vai ter naquele espaço um lugar de expressão. Uma zona de linguagem inclusive, uma zona de corporeidade, de troca. E Gustavo, na entrevista, conclui: “o projeto social da roda, o projeto social das culturas de rua, é acolher, e dar troca e dar sociabilidade a jovens que não encontram isso em outros espaços. E se a gente for fazer uma pesquisa com essa juventude que foi descartada pelas instituições, as histórias de vida são muito graves, muito dramáticas, né? E, esse drama só é possível de tentar se equalizar com o que é possível, e o que é possível a roda faz. Então eu entendo a roda e todas as culturas de rua como berço de acolhimento sem seleção.”


A metrópole é o mais próximo e, contudo, sua proximidade permanece, para nós, a mais distante. Habitamos a metrópole e somos sua morada, simultaneamente somos os únicos guardiões da sua forma de vida. Ao desabamento da cosmologia que garante a vida metropolizada, seguirá invariavelmente a missão de salvar este mundo, nosso mundo. E, antes de tudo, “desejamos profundamente que o mundo como nos foi dado acabe. E que ele acabe discretamente, no nível das partículas, na intimidade catastrófica deste mundo destituído de mundo, este mundo que até a própria terra rejeita.”[13] Foucault ensina que a polícia foi inventada para garantir a boa circulação nas cidades, que se tornaram metrópoles, que por sua vez se tornaram máquinas de produzir misérias e ausências. Uma boa circulação na cidade é aquela onde nada se passa e onde eventualmente ocorre despovoamento e encurtamento de mundos. A polícia está “em todo lado onde tudo funciona. Lá onde reina a situação normal.”[14] À questão sobre se saberemos viver ao fim da normalidade metropolitana, sob o risco de desbloqueio de estranhas visões escatológicas, respondemos com uma mudança de direção do olhar: há inúmeros mundos no mundo, assim pensaram os zapatistas. Não precisamos pensá-los, muito menos torná-los possíveis enquanto essa constelação nem sequer é desejável. Mas há mundos esporádicos, democracias anônimas, como as rodas culturais dos subúrbios. É para elas e através delas que imaginamos este texto.


[1] OLIVEIRA, Priscila Telles de. Roda Cultural de Olaria: “resistência” e formas de atuação. Mestrado em Antropologia. Niterói: UFF, 2018,   p. 143.

[2]  Cf. CERTEAU, M. A invenção do cotidiano: 1. artes de fazer. Petrópolis, RJ: Vozes, 1994, p. 175.

[3] CLASTRES, P. Arqueologia da violência: pesquisas de antropologia política. Trad. Paulo Neves. São Paulo: Cosac & Naify, 2004, p. 185.

[4] Cf. CONSELHO NOTURNO. Um habitar mais forte que a metrópole. Trad. Edições Qualquer. São Paulo: GLAC Edições, 2019.

[5] OLIVEIRA, 2018, p. 93.

[6] Cf. MEDEIROS, C. “Aos fantasmas da cidade: as mitologias espaciais”. In: GALDINO; MEDEIROS (Org). Experimentos de Filosofia Pós-Colonial. São Paulo: Editora Filosófica Politeia, 2020. (prelo)

[7] LEMINSKI, P. Vida – 4 biografias. São Paulo: Cia das Letras, 2013, p. 28-9.

[8] NASCIMENTO, Marcos. Os 2 lados da linha – A Última Fronteira Vol. 1, 2020. (no prelo)

[9] BARRETO, L. Vida Urbana: artigos e crônicas. São Paulo: Brasiliense, 1956, p. 79.

[10] Cf. KILOMBA, G. Memórias da plantação: episódios de racismo cotidiano. 1ed. Rio de Janeiro: Cobogó, 2019, p. 69.

[11] hooks, bell. Yearning: Race, Gender and Cultural Politics. Boston: South End Press, 1990, p. 15 apud KILOMBA, 2019, p. 69.

[12] Cf. OLIVEIRA, 2018, p. 114.

[13] MONBAÇA, Jota. “Veio o tempo em que por todos os lados as luzes desta época foram acendidas”. Acesso em 5 de outubro de 2020: https://jotamombaca.com/texts-textos/veio-o-tempo/

[14] ANÔNIMOS. Chamada: imaginação radical do presente. Trad. Leonardo A. Beserra, Lucas Parente e Zenite. São Paulo: GLAC edições, 2019, p. 102.

As imagens que ilustram o post são:

Roda de Olaria, 2016.

O Grafite. Fonte: RCO Filmes 

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