12 de outubro de 1927, por Carolina Casarin

Na atualização de hoje Carolina Casarin nos transporta para 12 de outubro de 1927, mais especificamente para um almoço na Fazenda de Santa Teresa do Alto onde estavam presentes, dentre outros, Mario de Andrade, Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral. A partir de imagens fotográficas e do vestido Lampion usado por Tarsila na ocasião, a autora discute a sociabilidade intelectual paulista dos anos 1920, principalmente o espaço social das fazendas, sublinhando as tensões e contradições do modernismo.

Assine o blog para receber as atualizações, curta nossa página no Facebook e siga o nosso perfil no Instagram.

Boa leitura!

12 de outubro de 1927

por Carolina Casarin [i]

paisagem

O cafezal é um mar alinhavado

Na aflição humorística dos passarinhos

Nuvens constroem cidades nos horizontes dos carreadores

E o fazendeiro olha os seus 800.000 pés coroados

Oswald de Andrade

No projeto de brasilidade modernista que elaboraram, Tarsila do Amaral e Oswald de Andrade incluíram suas presenças sociais, suas aparências, e também determinados lugares, como salões, clubes, circos, as viagens e o espaço da fazenda, incorporados às obras e aos registros fotográficos. Esses cenários em que se desenrolaram os atos da primeira fase do Modernismo brasileiro, recortada entre 1917 e 1929, formam um circuito feito de espaços onde aconteciam trocas culturais, afetivas e políticas. As fazendas Santa Teresa do Alto, Morro Azul e Sertão, de Tarsila e sua família; Santo Antonio, de Olivia Guedes Penteado; e São Martinho, de Paulo Prado, fizeram parte desse circuito. Pela “majestosa” São Martinho, aliás, “passa a bitola larga da Companhia Paulista de Estrada de Ferro, que transporta o café do conselheiro Antônio Prado ao porto de Santos. É cantada em versos de Oswald e em passagens do poeta Blaise Cendrars, que ali sempre vai a convite de Paulo e Marinette Prado” (FONSECA, 2007, p. 197). Por aí circularam algumas figuras que compõem o quadro do Modernismo brasileiro, de artistas de vanguarda a políticos conservadores, além, é claro, dos próprios fazendeiros.

Na segunda metade da década de 1920, Tarsila do Amaral usou roupas da maison Paul Poiret, importante costureiro do século XX, em diferentes ambientes e ocasiões. Inclusive, na Fazenda Santa Teresa do Alto. A atitude de Tarsila de usar moda na fazenda sublinha a tensão, própria ao sentido do vestuário de moda, entre espaço rural e urbano. A moda Ocidental foi construída como intrínseca à vida social e à dinâmica da cidade. Entretanto, vê-se que o uso da moda está relacionado a uma sociabilidade burguesa e urbana que pode ser transportada para o espaço da fazenda. O fato de Tarsila ter sido fotografada nos anos 1920 com roupas de Poiret em Paris, no Rio de Janeiro, em São Paulo e em Santa Teresa do Alto ilustra esse trânsito. A maneira como os modernistas conviveram nas fazendas congrega esses dois aspectos, o espaço rural e a vida social urbana. As datas em que foram realizadas as fotografias mostram que as temporadas na Fazenda Santa Teresa do Alto foram reservadas a ocasiões especiais: comemorações de aniversário, festas de fim de ano. Datas comemorativas, registros afetivos. No fundo Mário de Andrade do Arquivo do Instituto de Estudos Brasileiros da USP e no acervo do Museu da Imagem e do Som de São Paulo, existem várias fotografias que atestam que a vida social promovida pelos modernistas em suas fazendas acabou por emprestar a esses espaços privados, onde se desfruta a intimidade, um estado público.

Em outubro de 1927, por exemplo, Tarsila foi fotografada por Mário de Andrade em Santa Teresa do Alto usando o vestido Lampion, da maison Paul Poiret, datado de março de 1926. Além das imagens, as legendas escritas por Mário no verso das fotografias dão informações sobre a data, os convidados e a ocasião. Foi um almoço realizado a 12 de outubro de 1927. Dia de Nossa Senhora Aparecida, certamente uma data a ser lembrada pelos católicos Mário e Oswald, e é muito provável que na ocasião tenha sido festejado o aniversário de 34 anos de Mário de Andrade, nascido a 9 de outubro de 1893. Nas fotografias desse dia, todos parecem animados. Mário é surpreendido ao piano, num momento de cantoria. Quando é ele o fotógrafo, registra Tarsila, Dulce, filha da artista, e Oswald na varanda da Fazenda Santa Teresa do Alto. Esse evento contou com a presença de Abelardo Pinto, o palhaço Piolim, admirado por alguns dos modernistas paulistas, entre eles, Mário e Oswald. É interessante notar que a ocasião do dia 12 de outubro de 1927 criou boas condições de visibilidade para que a aparência dos convivas modernistas possa ser interpretada como um vetor de produção de sentido. “Na construção das figuras de escritor”, afirmam Gonzalo Aguilar e Mario Cámara, as atitudes do corpo importam” (2017, p. 23). Sendo que a posição do escritor é aqui pensada de maneira ampla, a partir da qual é possível analisar a figura do artista ou até mesmo daquele que ocupa funções públicas.

Tarsila do Amaral veste o traje Lampion, da maison Paul Poiret, na Fazenda Santa Teresa do Alto, 1927. Acervo do Museu da Imagem e do Som de São Paulo.

Lampion significa lanterna veneziana, luminária de papel, objeto colorido e delicado e o traje também é de uma delicadeza imensa. A saia do vestido, em camadas, lembra a forma da lanterna de papel. Nos babados da saia e das mangas o tecido é todo plissado, com dobras bem pequenas. A estampa, miúda, é uma folhagem graciosa. O decote do Lampion é arrematado por uma faixa de organdi fino com pequenos poás, cuja extremidade é plissada. A silhueta da roupa é tubular, mas o tecido maleável e os babados da saia facilitam os movimentos, como se pode ver na fotografia de Tarsila descendo a escada. Mesmo sendo um modelo da alta-costura francesa, uma roupa de luxo, sua composição visual denota certa simplicidade, e o fechamento transpassado, os babados, o plissado de organdi e o laçarote que ajusta o vestido atrás aproximam o Lampion do robe, um traje de interior a ser usado no espaço privado. Há, então, características nessa roupa que remetem à esfera da intimidade.

Nas fazendas, ficam evidentes as contradições do Modernismo brasileiro, pois aí convivem forças paradoxais, tais como o fausto e a pobreza, o afeto e a violência, a liberdade e a opressão. Como a fotografia de Tarsila e Oswald deitados em redes na varanda da Fazenda Santa Teresa do Alto, igualmente de outubro de 1927. “O cafezal é um mar alinhavado”, diz o poema de Oswald de Andrade, publicado na seção “São Martinho” do livro Pau Brasil, e é o que se vê na imagem. O movimento dos corpos – os braços cruzados sob a cabeça, a entrega à rede, pernas abandonadas – revelam uma cena de relaxamento e intimidade que tem a plantação de café e o telhado rendado da varanda como pano de fundo. Oswald parece estar de pijamas e usa nos pés mules, ou babuchas. Além do desenho do telhado, a herança árabe, marcante no Brasil colônia, também está presente nas chinelas de Oswald. A babucha[ii] é um calçado oriental de couro macio ou tecido, com fundo aberto e sem salto, usado especialmente na Turquia e copiado no Ocidente como chinelas de quarto, calçados de interior, vestidas nas circunstâncias da vida privada.

Tarsila e Oswald na varanda da Fazenda Santa Teresa do Alto, 1927. Acervo do Museu da Imagem e do Som de São Paulo.

Raul Bopp registra seu depoimento sobre a tranquilidade dos tempos de fartura: “Havia, em São Paulo, uma pequena elite culta, que ia e vinha todos os anos da Europa. Uma seminobreza rural, com longas tradições de família, florescia à base do café. Eram tempos tranquilos e de fartura plena. Latifúndios opulentos. Cafezais a se perderem de vista” (2012, s.n.). Assim, na imagem, a leveza expressa pelos gestos de Tarsila e Oswald parece estar irremediavelmente vinculada à “paisagem” da fotografia, com seus “800.000 pés coroados”. No poema de Oswald de Andrade, ele relaciona de modo sintético os caminhos abertos pelos carreadores nas lavouras de café e a construção das cidades, no horizonte de urbanização que se colocava naquele momento. Tudo sob o olhar do fazendeiro, coroado, como seus pés de café. Os únicos que se afligem, humoristicamente, são os passarinhos. A Fazenda Sertão, propriedade da família de Tarsila do Amaral, é citada pela artista em carta aos pais de 20 de junho de 1923. De Paris, ela escreve: “Hoje estive me lembrando de papai quando fazia questão que eu lhe levasse um copo d’água com uma pedrinha de gelo. Primeiro lavar as mãos; depois lavar o copo, depois refrescar o copo antes de enchê-lo. – Meu ideal: Paris–Sertão”.[iii] Na memória de Tarsila, construída como a imagem do ideal Paris–Sertão, o refinamento, associado à modernização e à sentimentalidade patriarcal, exemplificam o contexto da sociabilidade dos modernistas de São Paulo em suas fazendas.

Referências bibliográficas

AGUILAR, Gonzalo; CÁMARA, Mario. A máquina performática: a literatura no campo experimental. Tradução Gênese Andrade. 1ª edição. Rio de Janeiro: Rocco, 2017. (Coleção Entrecríticas)

ANDRADE, Oswald. Poesias reunidas. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.

BOPP, Raul. Movimentos Modernistas no Brasil, 1922-1928. Apresentação Gilberto Mendonça Telles. Rio de Janeiro: José Olympio, 2012. [recurso eletrônico]

BOTELHO, Cândida Arruda. (Org.). Fazenda Santo Antonio. São Paulo: Árvore da Terra, 1988.

CALLAN, Georgina O’Hara. Enciclopédia da moda: de 1840 à década de 90. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

FONSECA, Maria Augusta. Oswald de Andrade: biografia. 2ª edição. São Paulo: Globo, 2007.

TERMINOLOGIA DO VESTUÁRIO: português; espanhol-português; inglês-português; francês-português. São Paulo: Escola SENAI “Engº. Adriano José Marchini” – Centro Nacional de Tecnologia em Vestuário, 1996.


[i] Carolina Casarin é professora, editora e figurinista. Formada em Letras, é doutora em Artes Visuais pela Escola de Belas Artes da UFRJ. Sua tese, “O guarda-roupa modernista”, trata da aparência e dos trajes de Tarsila do Amaral e Oswald de Andrade, e da relação do casal com a moda francesa nos anos 1920.

[ii] Segundo o Dicionário Houaiss da língua portuguesa e o Dicionário Aulete digital, babucha, palavra feminina, foi incorporada à nossa língua no início do século XIX. Do francês babouche, pelo árabe babush, do persa papush.

[iii]Carta de Tarsila do Amaral aos pais. Arquivo IEB-USP, Fundo Aracy Abreu Amaral, código de referência AAA-TA-CT1-013.

A imagem que abre o post é:

Tarsila do Amaral e Oswald de Andrade na Fazenda Santa Teresa do Alto. Acervo do Museu da Imagem e do Som de São Paulo.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s