Simpósio | “Glossário de Derrida”, de Silviano Santiago (Org.)

O Blog da BVPS publica nesta semana dois posts especiais sobre o Glossário de Derrida, livro supervisionado por Silviano Santiago que ganhou uma nova edição em 2020 pela editora Papéis Selvagens. Hoje trazemos um simpósio feito com cinco especialistas, conhecedores tanto da obra de Silviano Santiago quanto de Jacques Derrida, organizado pelo editor do Blog, Andre Bittencourt. Na quinta-feira (1º de outubro) teremos a alegria de publicar um texto ainda inédito em português do próprio Silviano sobre o filósofo franco-argelino.

Após uma breve apresentação do livro, fiquem com as respostas ao simpósio de Eneida Maria de Souza (UFMG), Florencia Garramuño (Universidad de San Andrés, Argentina), raúl rodríguez freire (Pontifícia Universidad Católica de Valparaíso, Chile), Roberto Said (UFMG) e Mario Camara (Universidad de Buenos Aires, Argentina).

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O Glossário de Derrida, publicado originalmente em 1976 pela editora Francisco Alves, foi fruto de um trabalho experimental bastante inovador. O livro nasce de um curso de pós-graduação sobre Derrida oferecido por Silviano Santiago na PUC-Rio em 1975, logo após retornar em definitivo ao Brasil.

Ao longo dos anos 1960 e início dos 1970 Silviano fez doutorado na Sorbonne (França) e carreira de professor nos Estados Unidos, onde lecionou nas universidades do Novo México, Rutgers (Nova Jersey) e Buffalo (Nova York), além de uma passagem pela Universidade de Toronto (Canadá). Na University of New York at Buffalo, onde esteve de 1969 a 1973, Silviano é contratado como professor do Departamento de Francês, tornando-se chefe e recebendo o tenure. Essa última experiência é fundamental para o Glossário. É sobretudo lá, mais do que em Paris, que Silviano estabelece contato direto com intelectuais como Michel Foucault, René Girard, Julia Kristeva, Michel Serres e o próprio Jacques Derrida, que frequentaram ou deram aula na Universidade.

De regresso ao Brasil, traz esse conjunto de discussões, especialmente do que se convencionaria chamar pós-estruturalismo, para suas aulas na PUC. O debate não era novo apenas no Brasil. Como nota Ana Skinner, uma das alunas do curso de 1975 e que assina o posfácio da nova edição, o Glossário foi apenas o sexto livro publicado em todo o mundo sobre a obra de Derrida, reconhecido pelo próprio filósofo. Trata-se, portanto, de um livro precursor.

Vejamos como a experiência do Glossário foi conduzida. Cito aqui explicação do próprio Silviano Santiago sobre a metodologia adotada no curso, que resultaria na escolha dos verbetes do livro, presente na Introdução à primeira edição:

a –   selecionar previamente e discutir em aulas textos de Derrida que nos pareciam ser os núcleos mais significativos de configuração e definição de termos;

b –   dividir a turma de 21 alunos em quatro grupos de estudo e pedir para que cada grupo apresentasse no final do semestre seu próprio glossário;

c –   de posse de quatro versões diferentes de cada verbete, selecionar apenas a que nos parecia a mais realizada.

O livro, portanto, é organizado por verbetes apresentados em ordem alfabética. Começa em Arquiescritura e vai até Tradução, passando por termos-chave da obra de Derrida como Desconstrução, Différance, Escritura, Gramatologia e Suplemento. Cada um dos verbetes remete a outros e contém indicações bibliográficas. Todo esse processo foi feito de forma anônima, de modo que o livro resultante é de autoria coletiva, sob supervisão de Silviano Santiago. A nova edição ganhou orelha de Wander Melo Miranda, prefácio de raúl rodríguez freire e posfácio de Ana Skinner.

Como atestam as respostas do Simpósio, o Glossário não foi apenas inovador nos anos 1970, mas segue sendo obra incontornável para a compreensão das ideias de Derrida e capítulo dos mais importantes de sua recepção no Brasil e – como também ficará claro a seguir – em outros países da América Latina.

Em nome do Blog da BVPS agradecemos aos respondentes do Simpósio, ao Rafael Gutiérrez, editor da Papéis Selvagens, e ao Silviano Santiago. As imagens que acompanham este e o próximo post foram cedidas ao Blog pela artista Lena Bergstein, a quem também agradecemos. Os trabalhos compõem a mesma série das imagens usadas na atual edição do Glossário de Derrida.

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Os convidados do Simpósio são:

Eneida Maria de Souza, professora titular em Teoria da Literatura e professora emérita da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Autora, entre outros, de A pedra magica do discurso e Janelas indiscretas – ensaios de critica biográfica.

Florencia Garramuño, professora do Departamento de Humanidades na Universidad de San Andrés, Argentina. Autora, entre outros, de Genealogías Culturales. Argentina, Brasil y Uruguay en la novela contemporánea (1980-1990) e Modernidades Primitivas. Tango, Samba y Nación.

raúl rodríguez freire, professor da Pontifícia Universidad Católica de Valparaíso, Chile. Autor, entre outros, de La condición intelectual. Informe para una academia e Crítica literaria y teoría cultural en América Latina: para una antología del siglo XX (co-editora). Traduziu também o Glossário de Derrida para o espanhol.

Roberto Said, professor de Teoria da Literatura da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Autor, entre outros, de A angústia da ação: poesia e política em Drummond e Jacques Derrida: entreatos de leitura e literatura (co-organizador)

Mario Camara, professor de Literatura Brasileira na Universidade de Buenos Aires e pesquisador do CONICET, Argentina. É autor, entre outros, de Cuerpos paganos. Usos y efectos en la cultura brasileña e Restos épicos. Relatos e imágenes en el cambio de época.

Boa leitura!

1) Como foi o seu contato com o Glossário de Derrida? De que maneira o livro contribuiu para as suas reflexões e/ou  formação enquanto pesquisador (a)?

Eneida Maria de Souza: O contato com o Glossário de Derrida, na década de 1970, foi uma espécie de materialização do aprendizado que nos era transmitido por Silviano Santiago em suas aulas no mestrado da PUC-Rio, em que foi introduzido o pensamento pós-estruturalista do filósofo. De difícil apreensão pelos jovens alunos, uma vez que contávamos apenas com a tradução de A escritura e a diferença (1971) e Gramatologia (1973), as dificuldades residiam no intrincado e multifacetário vocabulário teórico, ao lado de inovações quanto à diferente maneira de considerar questões relativas ao pensamento filosófico tradicional, quando transportado para a crítica literária. A elucidação, sob a forma de Glossário dos termos empregados na sua obra, representou não só a entrada de certa parcela da intelectualidade brasileira do momento a uma confraria privilegiada, como representou o marco de uma geração que começava a se distinguir de outras pertencentes a instituições diferentes. A publicação, com a supervisão do professor e do crítico, rompia com os estudos tradicionais da crítica literária vigente, pautados na defesa da disciplina segundo parâmetros exclusivos, além de contracenar com outras vertentes do estruturalismo francês, introduzidas na PUC-Rio, como a antropologia de Lévi-Strauss, a semiologia barthesiana, a filosofia de Gilles Deleuze e Félix Guattari. De natureza didática, o Glossário de Derrida poderia ter se transformado em modelo a ser seguido quanto à definição dos verbetes, resultando na sua transmissão passiva, o que seria contrário às intenções da teoria interpretativa do filósofo. A composição do livro estava em conformidade com o trabalho audacioso e complexo da teoria derridiana, no qual o processo remissivo e a interação entre os termos, por meio da intertextualidade e a contaminação, incitava cada vez mais o leitor a participar do jogo e de aceitar o desafio de um saber em movimento contínuo.

Florencia Garramuño: Meu contato com o livro foi só nos anos 90, enquanto eu estava fazendo meu doutorado na Universidade de Princeton. Na época, eu acompanhava um seminário com Homi Bhabha e assistia a palestras da Gayatri Spivak,  e achar o Glossário escrito por um coletivo de pesquisadores latino-americanos me fez dar-me conta que se a desconstrução podia ser pensada junto com os estudos pós-coloniais, os estudos latino-americanos podiam ser uma perspetiva muito interessante para discutir e debater com essas duas formas de pensar e estudar a literatura e a cultura. Isso alargou muito a minha compreensão dos estudos pós-coloniais e da importância que a desconstrução podia ter para um pensamento latino-americano e para o questionamento do etnocentrismo. Mas acho que o mais importante daquela minha primeira leitura do livro foi me encaminhar para uma pesquisa onde o Brasil, e a obra de Silviano Santiago, teria uma importância fundamental. Porque achei nos ensaios e na ficção de Silviano Santiago uma reflexão que ao mesmo tempo em que incorporava o pensamento derridiano, o relocalizava em problemas latino-americanos que faziam com que esse pensamento se alargasse em novas inspirações para uma crítica cultural de cunho latino-americano, onde a literatura comparada conseguia desterritorializar as literaturas nacionais e era capaz de cruzar as fronteiras na busca de uma solidariedade transnacional.

raúl rodríguez freire: El acercamiento al Glosarrio no se debe a mi interés en Derrida, sino en Silviano, quien en 1975 había publicado una edición anotada de Iracema, y en 1976 Carlos Drummond de Andrade. De distintas maneras, en ambos libros se pone en juego una lectura deconstructora, así que me interesaba comprender la relación de Silviano con Derrida. No sabría decir de quién de los dos he aprendido más. Mi lectura del trabajo de Silviano es, creo, distinta a la que puede realizar algún colega de Brasil, pues lo leo en clave “latinoamericana”. Silviano es para mí un gran lector, y es eso lo que lo hace un escritor formidable, como hemos podido ver una vez más a partir de Genealogia da Ferocidade. Lo que me interesa también de Silviano es que su relación con la “teoría” es estratégica, pues recurre a ella en función de las exigencias de un objeto determinado, y, al hacerlo, puede ser “infiel” a la teoría (o a Derrida), pero ello no le preocupa.  En cuanto a Derrida, con cada texto que leo o releo, aprendo nuevamente a leer o a mejorar la forma de hacerlo. “La farmacia de Platón” es el texto del que más he aprendido. Derrida nos enseña que leer no es reconocer palabras, ni determinar sus sentidos, sino establecer relaciones que esas palabras, por distintas razones, no quieren mostrarnos, por lo menos no de manera inmediata, pues un texto contiene su propia deconstrucción. Derrida no le impone una lectura al texto, lo lee atentamente, página a página, incluso, como en el caso del Fredo de Platón, línea a línea. Y siempre lo hace, por cierto, a partir de textos marginales.

Roberto Said: No final dos anos de 1990, cursava pós-graduação em Estudos Literários na UFMG e patinava, como quase todos os iniciantes, nas leituras dos filósofos pós-estruturalistas. A obra de Jacques Derrida já se apresentava àquela altura como decisiva para minha formação. Foi, então, que tomei conhecimento, nos corredores da faculdade, da existência do Glossário, que logo assumiu em minha imaginação contornos míticos. Primeiramente, porque, estando esgotado há muitos anos, o livro era uma verdadeira relíquia, pelo menos em Belo Horizonte. Além disso, o modo como fora concebido e realizado, como um trabalho coletivo, resultado de uma disciplina ofertada na PUC-Rio, em um período em que o estruturalismo era dominante no meio acadêmico e os estudos sobre o franco-argelino eram incipientes, todos esses fatores, reunidos, contribuíam para a construção de uma “aura” em torno dele. Consegui com dificuldade um exemplar usado, vindo de um sebo paulista, já que não circulavam versões em PDF na internet naqueles tempos.

A estratégia empregada no livro, à maneira do vocabulário psicanalítico de Laplance e Pontalis (1967), oferecia múltiplas entradas na obra derridiana, ao materializar a trama móvel dos conceitos em um sistema remissivo, por um lado, e enfrentar a densidade das formulações e da escrita “pouco cartesiana” do filósofo, com verbetes que não pretendiam aplainar a complexidade em pauta, antes se valiam dela, sobrepondo cada um deles como suplementos, conforme a lição do filósofo, por outro. Tudo isso sem perder de vista que o pensamento de Derrida sempre tomou os limites da conceitualidade filosófica tradicional como objeto crítico.

A esse respeito, vale ressaltar que a obra de Derrida coloca em pauta, desde a publicação de seus primeiros textos, o problema de sua própria inscrição. Como inscrever-se no terreno filosófico, em horizontes institucionais, disciplinares e teóricos, com abordagens excêntricas, isto é, descentradas em relação à tradição da história da filosofia, seja em relação à metafísica, seja em relação ao empirismo, foi sempre uma de suas indagações permanentes. E, como um redemoinho do qual o filósofo nunca desejou se desvencilhar, esteve sempre presente nas dobras de seu pensamento, tecendo uma dupla impossibilidade: a de estar dentro ou fora da filosofia. Sua inscrição realizou-se sob o signo da aporia: nem na filosofia, nem fora dela. O Glossário – e isto é, de fato, surpreendente, pois ele foi elaborado no calor da hora, sem que estivesse constituída a fortuna crítica derridiana – soube respeitar essa inscrição tão problemática da obra de Derrida.

Mario Camara: Como lector argentino comencé a conocer la producción ensayística y literaria de Silviano Santiago a partir del año 2000, es decir, tardíamente.  La primera traducción de uno de sus ensayos, O entre-lugar apareció en una compilación realizada por Adriana Amante y Florencia Garramuño titulada Absurdo Brasil y editada en el mes de marzo del año 2000. Poco después, en el stand de Brasil de la Feria del Libro de Buenos Aires, compré la edición de Uma literatura nos trópicos de tapas rojas que todavía conservo. De modo tal que leí aquel libro más de veinte años después de su edición original. Si tengo en cuenta que O cosmopolitismo do pobre es de 2004 compruebo que mi lectura de la producción crítica de Silviano se ha ido construyendo de un modo un tanto anacrónico. Lo mismo, podría afirmar, sucedió con sus textos de ficción.

Mi contacto con Glossário de Derrida corrió la misma suerte. En Buenos Aires teníamos un Centro de Estudos Brasileiros con una buena biblioteca y allí encontré un ejemplar del Glossário, perdido en algún anaquel. Recuerdo mi impresión por la claridad conceptual de sus entradas y la sensación de que una prosa compleja como la de Jacques Derrida se tornaba más transparente. En este sentido, en el de la comprensión de un pensamiento como el de la deconstrucción, fue importante para mi formación como profesor e investigador en el área de la crítica literaria.

2) O Glossário de Derrida, cuja primeira edição data de 1976, é reconhecidamente um dos trabalhos pioneiros no mundo todo sobre o pensamento do filósofo franco-argelino. Relançado mais de quarenta anos depois, como você avalia esses momentos distintos e as diferentes inserções do livro nos debates da teoria literária?

Eneida Maria de Souza: É importante frisar que o trabalho de Derrida foi e é reconhecido fora da França, pelas incursões do filósofo nos Estados Unidos e pela divulgação de seu pensamento na América Latina. Silviano Santiago foi realmente um dos pioneiros nessa tarefa, quando publica o livro e com ele a oportunidade de um contato mais próximo com sua obra. Por muito tempo sem ter segunda edição, realizada agora em 2020, foi traduzida no Chile (2015), contou com nova introdução de Silviano e posfácio do tradutor, raúl rodrigues freire. A demanda dos estudiosos brasileiros por uma nova edição foi finalmente concretizada, após quarenta e quatro anos – o que impede avaliação mais acurada de sua função no meio acadêmico até o momento – devendo despertar em outros interessados a existência de uma reflexão que teve seu início na década de 1970. A literatura e a teoria não se esgotam facilmente ao longo do tempo, constituindo-se matéria anacrônica e reservada a posteriores indagações. O legado de Derrida permanece na maioria de seus leitores, pelo aspecto iconoclasta de seu comportamento teórico e metodológico e pela audácia em ter sempre o olhar atento à polêmica e à discussão de questões complexas, colocadas à prova. Silviano pode ser considerado um dos mais derridianos escritores e críticos literários, pela sua posição criativa e audaz diante do que considera o senso comum e a ausência de opinião crítica, presente em grande parte da crítica literária e cultural. Os critérios analíticos empregados desde o início de seus ensaios, como os de descentramento, interpretação, etnocentrismo, apropriação, transgressão, paradoxo, indecidibilidade, sem esquecer o entrelugar, são conceitos que emprega também na construção ficcional. Não há dúvida de que hoje a permanência e o uso desse vocabulário não passam incólumes no discurso crítico das ciências humanas, não só pela extrema eficácia interpretativa, como pelo grau de expansão de um saber considerado ainda atual e de forte adesão. A reflexão pós-colonialista e os caminhos percorridos pela crítica comparada são tributários da leitura inspirada na obra de Derrida, o que intensifica sua repercussão fora do âmbito europeu, com o olhar voltado para os países periféricos. Na minha formação acadêmica, aproprio-me ainda dos princípios de sua leitura desconstrutora, com especial ênfase no deslocamento e sobrevivência dos conceitos, na concepção anárquica e no poder contido na pesquisa dos arquivos, desvinculando-me de aproximações ingênuas e heurísticas dos documentos em estudo. A lição fornecida pela desconfiança e aprofundamento das questões em análise literária e ensaística permanece de forma contundente nas minhas considerações atuais.

Florencia Garramuño: Definitivamente, como momentos muito diferentes. Nos anos 1970, e na América Latina, um certo pensamento de esquerda desconfiava da desconstrução e do pensamento derridiano como apolítico. Na teoria literária se insistia sobretudo na desconstrução como uma metodologia de leitura que não necessariamente incluía ou supunha uma leitura política. No contexto de uma forte politização da esfera cultural – lembremos que era a época das violentas ditaduras do Cone Sul e do Brasil – , nem sempre o pensamento de Derrida foi considerado como um pensamento que propiciava a discussão política, muito embora também tenha tido os seus seguidores na América Latina. Para muitos pensadores, e incluo como exemplo Habermas, o pensamento de Derrida era justamente um pensamento não político. Mas a partir sobretudo dos textos que Derrida vai publicar, digamos, nos anos 80, vai ser progressivamente muito mais difícil sustentar essa posição. Alguns estudiosos vão defender a existência de um “giro ético-político” no pensamento de Derrida. Para outros, no entanto, trata-se de um deslocamento da ênfase, uma ênfase que vai ser durante os últimos anos mais acentuada sobre a questão da responsabilidade ética. É o que defende Emanuel Biset, por exemplo.

Isso demonstra a importância do Glossário, que já nos anos 70, descobria no pensamento derridiano ferramentas interessantes para se pensar a questão política, e muito especialmente para pensar as relações entre a Europa e o seu outro colonial.

raúl rodríguez freire: Los libros más marcantes de Derrida, aquellos que constituirían algo así como la “emergencia” de la decontrucción, se publicaron entre 1967 y 1972. Me refiero, por un parte, a De la grammatologie (1967), La Voix et le Phénomène (1967) y L’Écriture et la différence (1967), y a Marges – de la philosophie (1972), Positions (1972) y La dissémination (1972), por otra. El Glossário se publica entonces pocos años después de este momento, en que el nombre de Derrida se conoce principalmente en departamentos de filosofía y, sobre todo en Estados Unidos, también de literatura. 40 años después la situación es bastante distinta. No hay quien no haya escuchado la palabra “deconstrucción” y el pensamiento de Derrida en su conjunto ha tenido un fuerte impacto no solo en la filosofía y en los estudios literarios, sino también en el derecho, la arquitectura, la historia, la antropología, los estudios visuales, el cine, etc. De manera que su publicación en 1976 contribuía a diseminar la deconstrucción, mientras que hoy muestra que el pensamiento crítico contemporáneo ya no se puede pensar sin la firma de Jacques Derrida. Y lo mismo puede decirse de Silviano, que publicó Uma literatura nos trópicos en 1978 y desde entonces no se puede pensar la crítica latinoamericana sin su nombre. Pero el “éxito”, tanto de Derrida como de Silviano, se debe a que han permitido que otras y otros, lectores y alumnos, continúen poniendo en juego sus escrituras, en pos de un mundo democrático, sin claudicar en el intento.

Roberto Said: É sempre uma tarefa arriscada antecipar o modo como uma obra será recebida, mesmo em se tratando de um relançamento. Novas gerações de leitores poderão usufruir do Glossário, cujo valor no seio da fortuna crítica derridiana, para além do valor histórico e documental, mantém-se de pé, posto que os verbetes seguem relevantes para o entendimento da obra. Vivemos hoje outro momento, no Brasil e no mundo. Novos modos de poder e de exclusão social se reinventam e se efetivam, e, curiosamente, a demanda pela liberdade do pensamento é tão urgente agora quanto fora naqueles anos da primeira edição.

Não deve ser considerado epidérmico o fato de a recepção da obra de Derrida ter se consolidado no meio universitário inicialmente nas Faculdades de Letras, no mundo anglo-saxão. Foi, sem dúvida, uma recepção seletiva, marcada por resistências e conflitos teóricos e políticos. A escrita elaborada fora dos padrões, tecendo afinidades e compromissos com o literário, além de aproximar o pensador dos meios artísticos, desencorajava a crítica de filosofia, em especial aquela voltada à filosofia política. Sua temática não abordava diretamente as questões políticas imediatas. Penso que essa foi também uma das linhas do pensamento de Silviano.

As duas obras permanecem, a meu ver, incontornáveis não apenas porque avaliam as condições de possibilidade da literatura em nosso tempo, tratando dos impasses e exclusões da literatura da cena pública e social, do apequenamento do espaço literário – processo que se consuma passo a passo e que tem cobrado vigência no campo dos estudos literários –, mas também porque oferecem meios, e o glossário é sem dúvida um interessante mediador, para se refletir, no terreno político, um novo futuro diante de nosso presente sombrio. Pois, como dizia o pensador francês, a democracia só pode sobreviver como devir.

Mario Camara: Propongo pensar el Glossário de Derrida en relación con el proyecto crítico de Silviano Santiago. Aunque editado en 1976, recordemos que el contacto de Silviano con el pensamiento posestructuralista y el clima de agitación política y cultural en Estados Unidos fueron determinantes en la redacción de “El entre-lugar”. En efecto, el uso situado de algunos conceptos provistos por el deconstruccionismo derridiano, pero también de aportes provenientes de los escritos de Roland Barthes y de Michel Foucault, le han resultado a Silviano de suma utilidad para construir su propio pensamiento. Por ejemplo, haciendo suyas las críticas al concepto de unidad y pureza que se realiza desde la deconstrucción, Silviano sostendrá que la mayor contribución de América Latina a la cultura occidental consiste en la destrucción sistemática de dichos conceptos. El sujeto colonizado latinoamericano, también propone, nunca culmina su proceso de convertirse en un “original”, ni nunca será aceptado como un igual por la cultura dominante. Nociones como “mestizaje” o “transculturación” o, más contemporáneamente, “cosmopolitismo del pobre”, forman parte de su vocabulario crítico. La operación de Silviano sitúa, desuniversaliza, retirando el estigma de la copia a la cultura latinoamericana, desnuda no tanto el carácter ficcional de la cultura europea, sino la ficción de su pretensión universalista.

En este sentido, si la edición original del Glossário daba cuenta del advenimiento de un pensador que sería central para la crítica latinoamericana, la reedición del libro da cuenta de la actualidad de ese pensamiento y permite, de paso, observar las fidelidades y traiciones que sobre el pensamiento de Derrida ha operado Silviano.

3) Na “Introdução” à primeira edição do Glossário, Silviano Santiago ressalta algumas características do “gesto básico” dos textos de Derrida, tais como: o “agressivo questionamento dos pressupostos históricos sobre que se apóia o discurso da metafísica ocidental”, a “violência contra a interpretação clássica de certos livros” e o “pensamento iconoclasta”. Dezesseis anos após a morte do filósofo, o que o “gesto” de Derrida ainda pode nos dizer hoje, em particular na América Latina?

Eneida Maria de Souza: Na desconstrução dos pressupostos do discurso da metafísica ocidental, a desconfiança em relação à hegemonia das culturas europeias frente às coloniais constitui uma de suas maiores conquistas. A crítica ao pensamento único do ocidente, com a supremacia do homem branco, de valores religiosos e econômicos europeus se justifica pela crítica ao etnocentrismo, herança maldita dos colonizadores dos mundos novos. Na atualização do descentramento da metafísica ocidental, desfaz-se a hierarquia entre paternidade e filiação das obras, posição endossada por Derrida, principalmente, no texto A farmácia de Platão (1972). A escrita, ao contrário do logos, do discurso oral, afasta-se do pai e inscreve-se como alteridade e ausência de autoridade. Na condição de simulacro da fala, a escrita é ainda interpretada como parricida, desfazendo-se a ligação com a origem. Nesse sentido, a leitura de Silviano via Derrida é significativa para os estudos da dependência e da literatura comparada, ao ampliar e reconhecer o poder de força dos textos ditos colonizados. A interpretação que se processa por meio de textos periféricos, sem o aparato determinista, pautado pelo regime de oposições, opera a transgressão desejada para desobedecer leis paternas de cunho universalista. Como núcleo operador da diferença, as relações entre os polos comparativos são marcadas pelo endosso de categorias que matizam o binarismo e contemplam as noções de paradoxo, indecidibilidade, heterogeneidade, hibridez, mestiçagem, entre outras.

O pensamento iconoclasta de Derrida pode ser considerado sua mais notória qualidade, motivo de desavenças com seus contemporâneos estruturalistas, principalmente Lévi- Strauss, quando questiona sua visão fechada de estrutura, optando por estruturalidade da estrutura, por estar sempre em movimento. Jacques Derrida, em “El cartero de la verdad”, de 1975, coloca em xeque a análise lacaniana realizada no “Seminário sobre a Carta roubada”, por se constituir enquanto reiteração da verdade do significante e, portanto, essencializá-lo. Segundo o filósofo, a interpretação do conto por Lacan permite reunir as funções do detetive e do psicanalista, por terem como objetivo o desnudamento do sentido oculto. Conclui ser a interpretação de Lacan vinculada ainda à articulação entre desnudamento e desvelamento como revelações da metáfora da verdade. Com Foucault, a crítica ao prefácio de A história da loucura, estaria na pretensão do filósofo em fazer a história da loucura com as marcas da organização, do racionalismo e da linearidade, contrapondo-se, paradoxalmente, à própria noção de loucura. Empregando recursos de um discurso racionalista, o deslize de Foucault estaria para Derrida, em contraposição com o objeto do livro.

O legado de Derrida para as pesquisas realizadas no âmbito da crítica comparada e cultural na América Latina merece ser reconhecido pelo mérito da introdução desse espírito polêmico, de linguagem cifrada e difícil, além de ser o eterno desconstrutor de mitos do ocidente.

Florencia Garramuño: Acho que ainda pode nos dizer muito dentro desses mesmos termos [citados na resposta à pergunta anterior]. Mas também penso que o mais urgente que esse pensamento tem a nos dizer hoje diz respeito a duas questões:  por um lado, para os novos feminismos; por outro,  para uma ética da hospitalidade. O pensamento da deconstrução pode dizer muito aos novos feminismos pós-identitatários e às teorias contemporâneas do poder e da subjetividade (ver o caso de Elizabeth Grosz, entre tantas outras), que claramente estão muito atreladas a um pensamento sobre o outro e sobre a alteridade que no pensamento de Derrida sempre esteve relacionada com a questão da responsabilidade. Frente às violências do mundo contemporâneo e sua incapacidade de implementar políticas de hospitalidade efetivas, o pensamento de Derrida sobre uma ética da hospitalidade – que cobra força em vários textos escritos a partir dos anos 80 –  me parece absolutamente urgente.

raúl rodríguez freire: Hay un “gesto” en particular que me interesa destacar del trabajo de Derrida, a partir de su radical cuestionamiento del pensamiento dicotómico, logrando sustraerse a cualquier binarismo. Para ello, desarrolló en su propia escritura algo así como una política performática. Su conferencia sobre James Joyce, titulada “Ulises gramófono”, por ejemplo, está articulada por lo sonoro. No solo habla del gramófono de Joyce, sino que es el oído del propio Derrida y el oído que nos exige a sus lectores, lo que logra desestabilizar sus lecturas canónicas. El texto comienza por una llamada telefónica y concluye con la grabadora a la que Derrida le está dictando la conferencia que leemos. Algo similar encontramos en Limited Inc. Como sabemos, este libro reúne su polémica con John Searle, una polémica que tiene como eje de lectura o por lo menos como uno de sus ejes de lectura el parasitismo lingüístico. Searle atacó a Derrida con un texto titulado “Reiterating the Differences: A Reply to Derrida”, en el que criticaba su lectura de Austin, realizada en “Signature evenement contexte”. Bueno, en Limited Inc casi todo el texto de Searle ha sido “citado”, es decir, ha sido fagocitado o parasitado por Derrida. En otras palabras, Limited Inc escenifica en su escritura la propia noción de parasitismo, comiéndose el texto del otro. Basten estas dos referencias para señalar mi interés en Derrida y en la forma en que piensa, escribe, performa una problemática, sin dejarse “encasillar” en ningún momento, y siempre con una rigurosidad que muchos de sus críticos están lejos de alcanzar.

Roberto Said: A obra de Jacques Derrida, tomada em conjunto, coloca em movimento e em discussão um instigante dispositivo de leitura. Desde quando assumiu, em 1964, a docência de história da filosofia com a tarefa de preparar jovens filósofos para o concours de l’agrégation, na École Normal Supérieure, Derrida engendrou uma abordagem analítica que conjugava, sem desconsiderar a tradição francesa da explication de texte, apresentação e crítica do pensamento estudado, identificação minuciosa dos argumentos e exposição de suas pressuposições e limites, enfim, comentário e interpretação. Seu ato de leitura reúne, para dizer nos termos do próprio Derrida, uma dimensão maquínica e uma dimensão performática. De um lado, o movimento da repetição, com a lógica da máquina, sempre reconhecível, passível de identificação, de outro lado, a irrupção performática que se desenha a cada texto, a cada leitura, correndo por isso todos os riscos. Nesse empreendimento de leitura, que se dá no interior do texto estudado, em sua economia interna, não há um centro de significação capaz de elucidar a verdade da coisa, como propõe o platonismo. O inicio e o final, o maior e o menor, o destacado e o oculto não se submetem à hierarquia binária, quando o que se pretende é surpreender a dissimulação da textura.

Essa dupla injunção, que fomenta uma espécie de gênero de leitura, uma modalidade desconcertante frente aos protocolos estabelecidos pelas disciplinas do texto, está na base da desconstrução e, partir dela, um caminho para repensar a metafísica ocidental foi trilhado, bem como um modo de se considerar a diferença. Foi justamente a partir dessa senha que Silviano Santiago sugeriu uma leitura crítica e original das relações artísticas e culturais da América Latina com os centros dominantes do capitalismo. Foi também a partir dela que ele realizou a mais ousada revisão de nosso modernismo literário.

Penso que essa senha de leitura segue ativa e pode oferecer caminhos para sairmos do labirinto em que estamos enredados na contemporaneidade.

Mario Camara: Reflexionar sobre el gesto crítico de Jacques Derrida y aquello que nos pueda decir sobre Latinoamérica, creo que debería llevarnos a seguir reflexionando sobre el pensamiento de Silviano Santiago. Como transmisor de su pensamiento, a partir de un uso situado e intencionado, podríamos decir poscolonial, el “agressivo questionamento dos pressupostos históricos sobre que se apóia o discurso da metafísica ocidental”, a “violência contra a interpretação clássica de certos livros” e o “pensamento iconoclasta”, referidos en la pregunta, perduran en el proyecto crítico de Silviano. Me permito recordar entonces un texto reciente, leído por Silviano en el marco de unas jornadas realizadas en la Universidad de Tres de Febrero, aquí en Buenos Aires, titulado “La literatura brasileña desde una perspectiva poscolonial – un relato”, en el que analiza críticamente la idea de formación tal como funciona en la cultura brasileña del siglo XX, esto es como el deseo de integración a un Occidente iluminista. El concepto de formación, en palabras de Silviano:

nombra el trabajo indispensable de los ciudadanos privilegiados y letrados para que el adjetivo nacional, como aposición de literatura – o de la nación y su historia, o de su economía, etc. – pueda afirmarse como auténtico y original, manteniéndose estable y rentable en el conjunto de las naciones modernas de Occidente. Bildung marca el momento en que la nación llamada Brasil y sus habitantes – hasta entonces colonia y colonos, respectivamente – desean constituirse como partes soberanas e íntegras del Occidente iluminista. El propio autor afirma que su obra mayor relata “la historia de los brasileños en su deseo de tener una literatura”. También habla sobre el espíritu de Occidente en busca de una nueva morada en esta nuestra parte del mundo (Chuy Nº 1, 2014, p. 143)

En aquella lectura, Silviano narraba un cumulo de circunstancias vitales y académicas que hicieron que como estudiante y profesor fuera “descarrilando” de su formación, que fuera “situando” su pensamiento para, desde allí, desde ese “descarrilamiento” poder recepcionar adecuadamente la deconstrucción derridiana y el pensamiento posestructaralista en general y producir una peculiar torsión poscolonial. Silviano menciona expresamente dos. En primer lugar, el contacto con la población argelina en París, durante sus estudios doctorales, en plena movilización por las luchas por la descolonización de aquel país, que culminan en 1962, y por lo tanto víctima frecuente de ataques racistas.En el centro de la cultura europea, sede de las bellas letras, Silviano experimenta la violencia y la crueldad de su orden colonial. Y, en segundo lugar contaba su primera experiencia docente en Estados Unidos, en un antiguo territorio indígena, cuyo centro ultramoderno era la ciudad de Albuquerque, dando a ver el espesor temporal que emerge del montaje entre una capital ultramoderna y la presencia de esas sobrevivencias indígenas.

De este modo, en París o en Alburquerque, Silviano percibe la mezcla y la contaminación y la violencia por la separación de esas mismas mezclas que ejercen las culturas centrales. La lucha por la descolonización de Argelia actualizó, en los años sesenta, la presencia de argelinos, principalmente, en París y activó políticas represivas contra esa visibilidad, mientras que el antiguo territorio indígena funcionó como un recordatorio de las políticas de exterminio y luego de segregación que fueron llevadas adelante por los colonos americanos. Proveniente de una cultura, la brasileña, que había hecho de la figura del mestizo una suerte de “sujeto universal brasileño”, sumado a su propia condición de migrante latinoamericano, tanto en Francia como en Estados Unidos, todo ello, entrenó a Silviano en el desarrollo de una mirada dislocada, capaz de observar, e identificarse, con la población argelina perseguida y la población indígena diezmada, de observar el lado barbárico de la civilización. Es este descarrilamiento el que entrenó sus oídos en dirección al posestructuralismo, pero no para convertirse en un mero epígono, sino en un atento lector capaz de hacer uso de aquel armazón teórico.

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