“Desbravar o mundo dentro do Brasil”, uma entrevista com Ilessi

Na atualização de hoje da coluna Interpretações do Brasil e musicalidades, trazemos uma entrevista com a cantora e compositora carioca Ilessi e uma resenha do seu último disco, lançado no início de 2020, e dedicado à obra do compositor brasileiro Manduka. O texto e a entrevista abordam a trajetória da cantora, seus projetos e escolhas estéticas e a atualidade da obra de Manduka. Discutimos sua visão ao mesmo tempo cosmopolita e enraizada no Brasil “profundo”, sua crítica às visões sobre o “progresso” do país e sua defesa incondicional da liberdade do artista popular.

Ilessi é carioca da Zona Oeste e já lançou três discos: Brigador – Ilessi canta Pedro Amorim e Paulo César Pinheiro (2009), Mundo Afora: Meada (2018) e Com os pés no futuro – Ilessi e Diogo Sili interpretam Manduka (2020). Está prestes a lançar seu primeiro disco de canções autorais, intitulado Dama de Espadas. Em 2019 venceu na categoria “Melhor Intérprete” a Mostra Competitiva Novos Talentos da Música, realizada pela FIRJAN, com a canção “Ladra do lugar de fala” (Thiago Amud). Ilessi é formada em Licenciatura em Música (2018) pela UNIRIO, com estágio na Universidade de Örebro (Suécia), e em Serviço Social (2004) pela UFRJ. Vem sendo apontada pela crítica musical como uma das vozes mais potentes e marcantes da cena contemporânea da MPB.

Interpretações do Brasil e musicalidades é uma das colunas do Blog da BVPS e tem curadoria de Pedro Cazes (Colégio Pedro II), que escreveu a resenha que segue e conduziu a entrevista com Ilessi. Para ler mais textos da coluna, basta clicar aqui. Não deixe de nos seguir no Instagram e no Facebook!

Boa leitura!

Com os pés no passado e no futuro: redescobrindo Manduka

Pedro Cazes[i]

Quando se trata de procurar novos ângulos, novas vozes e perspectivas para pensar e sentir o Brasil, o olhar atento da produção artística mais exigente não se volta apenas à multiplicidade do presente imediato, mas também ao passado, subitamente redescoberto por vias ainda pouco desbravadas. Essa fórmula geral pode ser bem vislumbrada nos trabalhos da cantora e compositora carioca Ilessi. Após lançar em 2018 o primeiro disco do projeto “Mundo Afora”, em que grava novos compositores de todas as regiões do país, a artista lançou, com o violonista Diogo Sili, no início de 2020 o disco Com os pés no futuro, voltado para a obra do compositor brasileiro Manduka (1952-2004). O disco traz para perto de nós, para os nossos tempos turbulentos, uma obra que, ao ser redescoberta, revela enorme atualidade em sua sede de liberdade conjugada a um sentimento muito “pé no chão” do país, avesso a qualquer nacionalismo farsesco desses que assolam não só o Brasil nos dias de hoje.

Filho do poeta amazonense Thiago de Mello, Manduka foi um multi-artista (músico,artista-plástico, escritor, produtor cultural), andarilho e engajado politicamente. Aos 18 anos de idade se muda para o Chile, acompanhando o exílio de seu pai durante a ditadura militar brasileira e, a partir de então,vive em permanente deslocamento pela América Latina e Europa. Desde muito novo esteve envolvido com artistas como Glauber Rocha, Augusto Boal e Geraldo Vandré, tendo lançado em 1972 seu primeiro LP, Brasil 1500. Sua obra parece ter ficado menos conhecida dentro do próprio país, tendo alcançado maior sucesso comercial apenas com uma de suas parcerias com Dominguinhos, “Quem me levará sou eu”, consagrada vencedora no Festival da Canção de 1979, da TV Tupi, na interpretação de Fagner. Mesmo para os amantes da MPB, a obra de Manduka ainda espera ser (re)descoberta. Seus discos foram gravados e lançados em países como Chile, Argentina, França e México[ii], e muitos se mantinham raridades de difícil acesso, até serem disponibilizados recentemente para streaming online. Quando Manduka retorna ao Brasil, em 1979, passa boa parte do tempo em Barreirinha (AM), onde a família se reunia na casa de seu pai às margens do rio Andirá.Foi nessa época que compôs grande parte do repertório escolhido por Ilessi e Diogo Sili para o disco.

Garimpando as fitas cassetes com dezenas de canções inéditas do compositor, o duo escolheu 15 canções que mostram o estilo de Manduka em toda sua versatilidade. Letras que carregam grande carga imagética e metafórica, um teor político muito relacionado à experiência do exílio, da perda de um país sonhado, mas também da insistência na liberdade e no sonho. Não é difícil enxergar certa proximidade entre a música de Manduka e a de outros compositores que encarnaram a figura do cantador, reinventada pela geração das “canções de protesto”, como Sergio Ricardo, Geraldo Vandré (aliás, parceiro de Manduka em “Pátria Amada Idolatrada Salve Salve”, gravada no seu primeiro LP, Brasil 1500) e, um pouco mais distante, Elomar, Belchior e Sérgio Sampaio.Entre esses gigantes, porém, Manduka talvez seja o mais afeito à linguagem metafórica, menos voltada para a denúncia de nossas mazelas. Ao mesmo tempo, como andarilho nômade, está menos associado à paisagem urbana sudestina (ou ao tema da migração para o Sudeste), algo que é evocado no disco de Ilessi e Sili pela escolha de privilegiar a sonoridade mais orgânica possível do violão e voz, dispensando o uso de eletrônicos e efeitos sonoros.

O violão de Diogo Sili buscou recuperar e traduzir o jeito com que o próprio Manduka se acompanhava nas gravações caseiras que deixou. Passando para o violão de sete cordas, o acompanhamento de Sili pôde explorar ainda mais o contraste dos arpejos nas cordas agudas com o baixo “caminhante” que está presente em várias canções. Outras músicas têm levadas mais ritmadas, ainda que se sinta mais a influência da música “latina” e do rock do que do samba, por exemplo. Em um disco longo, de composições com letras compridas, as interpretações cuidadosas de Sili e Ilessi respeitam muito os silêncios, a respiração, o tempo da canções, deixando ressoar as palavras e cordas do violão. Algo necessário para que o teor reflexivo das letras de Manduka ganhem uma ambiência por vezes quase meditativa de tão delicada. A enorme expressividade vocal de Ilessi entra em campo para criar mil nuances, variando desde o sussurro até o grito, do riso irônico ao vocalize apoteótico. Assim, o disco trabalha uma dinâmica de contenção e expansão que embala o ouvinte ao longo de mais de uma hora de duração, navegando os caminhos melódicos e harmônicos originais do compositor. Como comenta a própria Ilessi, nas composições de Manduka não há nada “sobrando”. E o duo soube também respeitar nos arranjos esse princípio de concisão e intensidade, convidando o percussionista Bernardo Aguiar em apenas 3 faixas e mantendo as outras faixas na sua roupagem original.

Nas canções de Manduka, a projeção de um interlocutor ao qual se dirige a palavra é um recurso frequente, que pode ser visto em faixas como “Conseguiram Parabéns”, “Pode levar”, “Falamos até às pedras” e “O viço e o prumo”. O recurso faz da canção uma forma de acertar as contas com o mundo,justificando suas escolhas e apresentando sua recusa à ordem vencedora. Outras canções trazem um pendor mais filosófico, reflexivo, mas quase sempre com uma assertividade de sangue nos olhos, prenhes de um enorme desejo de vida, como em “Abrindo estradas”, “Com os pés no futuro” e “Asas no fundo azul”. No cenário terrível que vivemos hoje, ouvir essas canções na interpretação visceral de Ilessi nos traz um sopro de energia para enfrentar de cabeça levantada os desafios do presente. Em menor número, temos aquelas que constroem narrativas e cenas do Brasil “profundo”, como “Viagem de barco” e “Barão de Macaúbas”, citadas por Ilessi na entrevista abaixo. Na primeira, uma crônica cheia de ironia que marca distância tanto dos discursos sobre o “progresso” nacional que veem a floresta como um inesgotável manancial de recursos a ser explorado, quanto do “exotismo” dos estrangeiros deslumbrados com a natureza supostamente intocada. Já “Barão de Macaúbas”conecta o tema da educação libertadora com a luta pela terra, vislumbrada na historia de conflitos em torno de uma escola rural – algo tão vivo hoje quanto na época em que a canção foi composta.

Como sugere a faixa-título do disco, “É preciso que alguém ponha os pés no futuro que nunca chegou/ Pra deixar registrados no chão os caminhos por onde passou”. As canções inéditas de Manduka gravadas por Ilessi e Diogo Sili nos lembram que continua sendo necessário imaginar futuros, e nos dão impulso para tal. Pois a voz que canta as dores e desejos de um outro país faz circular entre nós novos ares, novos ventos, tão necessários em um presente horrivelmente asfixiante.

Capa do último disco de Ilessi e Diogo Sili (2020)

“Desbravar o mundo dentro do Brasil”, entrevista com Ilessi – por Pedro Cazes

De onde veio a ideia de gravar novos compositores de todas as regiões do Brasil, realizada no projeto “Mundo Afora”?

A impressão que eu tenho é que desde o início da minha carreira eu já tinha uma vontade de fazer discos com músicas de diversos compositores, não só os da minha geração, mas também compositores que não são conhecidos, como, por exemplo, meu pai (Gonzaga da Silva), que é como se fosse um compositor “novo”, no sentido de não ser um cara conhecido. A primeira ideia que eu tive foi gravar um disco com um panorama da obra dos compositores da minha geração. Eu ia na casa dos compositores fazer essa pesquisa, comecei a criar um arquivo enorme com músicas, uma pastinha pra cada compositor. Quando estava na EPM (Escola Portátil de Música), eu conheci o Pedro Amorim e suas músicas, e tomei um susto porque eu imaginava que ele era um compositor que só compunha samba e choro, mas no seu repertório tinha valsa, bolero, toada, baião… Então foi um apaixonamento, assim como aconteceu com o Manduka. E assim acabei optando por gravar as parcerias do Pedro Amorim com o Paulo César Pinheiro no meu primeiro disco Brigador, gravado em 2007mas lançado apenas dois anos depois, em 2009. Já em 2008 eu fiz um show chamado Mundo Afora, com a ideia de gravar músicas de compositores de todas as regiões do Brasil. Nessa época eu conheci alguns compositores aqui do Rio como Edu Kneip e Thiago Amud, que me chamaram para participar dos shows deles no Semente, na Lapa. Assim a coisa foi crescendo, eu fui encontrando a minha turma no Rio de Janeiro.

 Por uma série de questões, o disco acabou demorando para ser gravado. De certo modo, foi bom que tenha demorado tanto porque eu amadureci muito e conheci muito mais gente. Então a coisa foi ganhando essa forma, de ter compositores de todas as regiões do Brasil. Eu conheci compositores de Belém, do Ceará, de Brasília, de Belo Horizonte, do Sul… O disco acabou sendo dividido em dois. O primeiro foi o Mundo Afora: meada e o próximo (ainda a ser lançado) será o “Mundo Afora: do caminhar”. O Mundo Afora foi muito importante pra mim, um divisor de águas, no sentido de experimentação, de instrumentação, de rompimento com uma ideia de “gêneros musicais” pré-estabelecidos (samba, choro, bolero, etc). É como se as coisas se atravessassem e dessem numa outra coisa. Pensamos que para dar uma noção mais clara dessa radicalidade era muito importante a gente pensar no rompimento de um padrão de instrumentação que é muito comum nos discos da música popular brasileira. Então, começamos nessa pesquisa de instrumentação e eu logo pensei na galera de Belo Horizonte, que já estava bem a frente nesse sentido. Lá tinha o Leandro César com os instrumentos que ele inventava, de certa forma uma herança do pessoal do UAKTI. Depois eu tive a ideia de chamar o Edson Fernando, que era o baterista de um grupo mineiro chamado Quebra-Pedra. E acabou acontecendo uma coisa muito louca. Eu queria fazer uma homenagem ao meu pai, que gosta muito das coisas do George Harrison com o Ravi Shankar e usar uns instrumentos indianos na canção “Miragem“, que é de autoria dele. E descobrimos que o Edson era íntimo da música indiana, tinha ido pra India, e trouxe os instrumentos como o pakawaj e os morchangs (berimbau de boca). Já na canção “Meada” usamos diversos tambores andinos, latino-americanos. Essa proposta de arranjos e instrumentação, construída com o músico e compositor Thiago Amud, cria o discurso que dá unidade ao disco: ter um caráter cosmopolita e ser ao mesmo tempo um mergulho muito fundo em nós mesmos, porque o Brasil é essa multiplicidade toda. Então o Mundo Afora foi esse desbravar o mundo dentro do Brasil. Um desejo de apontar toda essa multiplicidade que tem dentro de mim e que eu acho que é um reflexo da cultura brasileira em sua diversidade. Tivemos muita liberdade para desconstruir os “gêneros” das composições escolhidas e reconstruí-las de um modo novo.

E como você descobriu a obra do Manduka, como ele entra nisso?

R: O Thiago Amud e o Thiago Thiago de Mello fazem parte do Coletivo Chama e tiveram um programa de rádio na Roquette Pinto chamado Rádio Chama, que era uma maravilha caótica que quem ouviu não esquece. Eles tocavam desde música sinfônica, orquestral, clássicos da música popular brasileira, músicas folclóricas e de vez em quando colocavam umas gravações caseiras. Em um dos programas eles abordaram a obra do Manduka e tocaram uma gravação caseira de “Viagem de Barco”. Eu fiquei ouvindo e pensando: “quem é esse cara?”. E tive uma crise de choro. Eu achava que era um cara da nossa geração, porque eles já tinham colocado outras gravações caseiras de novos compositores. Então eu liguei pro Thiago Amud e ele falou que o Manduka já era falecido, e que era irmão do Thiago Thiago de Mello (Thiagão). Através do Thiagão conhecemos as fitas cassetes gravadas pelo Manduka, que ele dava títulos como se fossem discos, escolhendo e reunindo parte do seu repertório de composições. A grande maioria das músicas que escolhemos para o nosso disco estava em duas fitas, chamadas “O Desmantelo 1” e “2”. E aí entrou o Diogo Sili, violonista excepcional e muito amigo do Thiagão. Eu estava procurando uma pessoa para fazer esse trabalho comigo, mas é um trabalho muito difícil, com um violão muito elaborado, e não estava nada escrito, porque o Manduka não escrevia partitura… Então ninguém queria pegar. E o Diogo já tinha um conhecimento da obra do Manduka, se aprofundou mais ainda, tocou, tirou tudo de ouvido e transcreveu, um trabalho muito dedicado, feito com a mesma paixão. Ele é muito importante neste trabalho, porque ele trouxe o violão do próprio Manduka, que é muito potente, parece que todo o arranjo já está ali presente, toda a ideia, toda a confecção da música – ele se basta. Então pensamos que não era a hora de adicionar outros instrumentos, fazer arranjos com banda, pelo menos nessa primeira apresentação da obra. Ser o mais fiel ao jeito que o Manduka fazia as músicas. Realizamos o primeiro show na sala Baden Powell em 2013 e foi arrebatador.Eu acho que, de todos os shows que eu fiz, de todos os projetos da minha vida, o do Manduka foi o mais arrebatador, num sentido catártico mesmo. As coisas que aconteciam, de eu cantar e chorar cantando,e a plateia toda chorar… Foi um encontro de almas, uma coisa muito impressionante.

Capa do primeiro LP de Manduka, Brasil 1500 (1972)

O que te fisgou na composição do Manduka? O que você encontrou ali que te fez querer cantá-lo?

R: Eu acho que o processo ter começado por “Viagem de Barco” tem um significado muito forte. Porque é uma música que, apesar de ter uma delicadeza e suavidade no âmbito estritamente musical, essa suavidade é debochada. É uma crônica ácida sobre esse olhar das pessoas que chegam aqui, de fora, vendo a nossa realidade com se fosse um objeto de consumo ou algo exótico, e ao mesmo tempo a nossa relação um pouco submissa em relação a isso. E o Manduka tinha um olhar muito amplo em relação a realidade do Brasil, só que ao mesmo tempo ele não era um cara com perfil militante mais “caricato”, digamos assim. Ele tinha uma visão de nação, mas uma visão mais livre, um olhar poético para as coisas, um olhar filosófico, existencialista. Uma liberdade muito grande de que ele não abria mão. Então talvez ele pudesse, com a inteligência que ele tinha de criação poética, de criação artística e musicalidade, ele poderia ter pego carona em alguns movimentos, em algumas turminhas, mas ele era um cara que não estava afim disso, ele queria ser fiel à sua verdade. Inclusive criticar alguns olhares que se julgavam progressistas sobre o Brasil. Então, eu acho que essa solidão, essa ousadia, essa falta de medo do Manduka, essa coragem dele foi a coisa mais impressionante, foi o que mais me arrebatou. Ele não queria ser enquadrado para pertencer a nada. Essa liberdade acaba trazendo uma característica de atemporalidade. Não há nada que soe datado na sua escrita. Parece que é algo que atravessa e vai atravessar gerações. 

A sua ideia de nação também pode ser vista em músicas como “Cantar de Raiz“, em que ele fala sobre ser um nômade, um cara que andava pelo mundo, mas que tinha uma noção de brasilidade muito grande: “de vento em sonho/ de corpo inteiro/ por ser do mundo/ e brasileiro”. Ele passou boa parte da vida viajando pelo mundo, e quando ia pra esses lugares mergulhava naquelas culturas e absorvia aquilo tudo, ressignificando… Construía a obra dele bebendo na fonte, sabe? Isso acabava dando esse resultado que é tão fascinante, que nos dá essa impressão, que o olhar dele parte de vários ângulos. Então é romper com as estruturas, romper com as amarras, e “eu traço o meu destino”, sabe? Eu sinto isso assim também no Sergio Ricardo, essa dignidade de afirmar: “eu não abro mão do que eu acredito”. Acho que são conceitos afins. Essas mentes pensantes pagaram um preço, né? Mas acho que tem uma beleza muito grande nisso, acho que tinha uma paz interior, de alguma forma, nessa escolha. Mas o que a gente mais quer é que não precisemos sempre pagar esse preço para ter essa coerência, essa dignidade, essa verdade na escolha dos nossos trabalhos. A gente não quer ter sempre que fazer concessão.

Algo muito impressionante pra quem ouve o disco é a atualidade dessas canções, como você enxerga isso?

R: Quando eu ouvi “Viagem de barco”,aletra me parecia tão atual, fala tanto desse discurso que acontece agora, por exemplo, sobre o “progresso do interior” que seria trazido pelo “comércio do jacaré”, que daria pra pagar “o dinheiro emprestado dos bancos estrangeiros”… Exatamente o discurso que a gente continua vendo. Então a voz dele me parecia a de alguém que está aqui. Um lado disso é triste porque é uma constatação de como a gente avançou muito pouco em relação às mazelas do nosso país. Por outro lado, tem coisas que possuem tal caráter de atemporalidade pois são coisas do mundo que sempre estarão aí, que vão permanecer, da relação que a gente tem com a existência, com a profundidade das relações humanas, da nossa relação com a espiritualidade, a nossa relação com cidadania, com sentimentos humanos. Nada soa datado no Manduka. Mesmo a canção “Barão de Macaúbas“, que é uma música muito “paulofreiriana”, ela traz um conceito, uma visão sobre a educação que vai atravessar gerações. Que “a escola está dentro de cada um”… Não é porque a gente identifica a fonte de onde veio isso que só serviria àquele tempo. Quando ele faz a descrição da invasão da terra, ele fala: “uns poucos anos e essa pessoa/ que deu a terra, sumiu no mundo/ alguém em seu lugar, achou de reclamar/ aquela propriedade”. Uma coisa que pode acontecer a qualquer tempo. Só que ele descreve isso de uma maneira sempre poética: “Só por desconfiar/ que ali podia estar/ ela, a felicidade”. Aí depois ele descreve de uma forma mais direta o conflito: “alguns jagunços, com picaretas/ quebraram tudo, botaram fogo/ ‘isso é pra você ver e pra desaprender/ a esfera e o quadrado'”. Manduka não é pros fracos, são letras densas, muito imagéticas, muito metafóricas, grandes. Ele tinha uma carga literária absurda. O pai dele é poeta, o padrinho de batismo era o Manuel Bandeira. Ele vivia cercado de poetas, era uma coisa muito forte.

Você vai lançar ainda nesse segundo semestre o seu primeiro disco de composições autorais. Como surgiu e se fortaleceu o seu lado compositora?

R: Eu comecei a compor muito timidamente e ao longo dos anos isso vem se intensificando de uma forma que às vezes eu sinto necessidade mesmo de compor, sabe? E o meu processo de compor não é rápido, ele é lento, artesanal, eu preciso de tempo, de solidão, de muita paciência no sentido de chegar no som perfeito, no acorde perfeito, na relação de acorde e melodia perfeita, tudo com muito esmero, assim… E depois de um tempo já compondo música (melodia e harmonia) eu comecei a sentir necessidade de escrever. A composição acabou tomando um lugar onde eu posso me expressar de uma maneira que eu não identifico que outros compositores consigam fazer. Existe uma maioria de compositores homens, e acho que tem uma coisa do homem que sempre vai carregar características de uma formação, cultura machista… Todos nós somos atravessados por isso, inclusive mulheres, mas acho que acaba sendo um modelo que eu, mulher, percebo que por mais sensível que seja o compositor ele não vai alcançar. Então eu fui sentindo uma necessidade de construir a minha própria maneira de discursar musicalmente, e também através de algumas poucas letras que eu fiz. Por exemplo, eu fiz uma música chamada “Como nossas mães” que é uma música que fala sobre o lugar da mulher no mundo e como a mulher carrega a responsabilidade de tudo. Então é um vômito de tudo que eu queria dizer em relação ao machismo, uma letra enorme… É uma “anti-canção”, tem nove minutos e tanto… Mas assim, eu nunca vi ninguém falar isso, então chegou um momento que eu senti uma necessidade sufocante de falar aquilo e querer cantar aquilo. Então a composição também me atravessa nesse lugar, de necessidade de dizer algo que não foi dito ainda, que eu preciso botar pra fora, e também de construir música de uma maneira que eu acho que não foi feita. Que acho que talvez seja o olhar feminino pra música né? Eu acho que a composição passa por isso. 

O “Dama de Espadas” é o disco que eu vou lançar agora no segundo semestre de 2020. Tem uma coisa curiosa que, na véspera do primeiro show que eu fiz com banda sobre o meu repertorio autoral, tinha uma música que estava bem fresquinha no repertório, mas era um tema muito curto, muito denso, seria algo mais instrumental. Porém, na véspera do show eu tive a ideia de ler um trecho da fala do James Baldwin no filme “Eu não sou seu negro”, que eu tinha visto algumas semanas antes.Lembrei de uma cena que foi a que mais me marcou no filme, quando ele está num programa de TV falando de forma genial sobre a condição do negro nos EUA e a experiência dele depois que foi morar em Paris e sentia mais tranquilidade pra criar lá fora. Porque ele tinha pavor, tinha medo dentro do próprio país, vendo esses caras todos morrerem (Malcom X, Martin Luther King). E no meio do programa entra um cara branco, mais velho, e o entrevistador fala assim: “Você estava ouvindo o que o Baldwin estava falando?” aí ele fala “estava sim, mas concordo com quase nada”. Aí o Baldwin arregala o olho e manda aquele olhar fuzilante. O cara segue “essa coisa de negro, de negro, porque não falar que somos humanos?…” E é um discurso que está presente hoje, as pessoas permanecem falando isso. Aí o Baldwin começa a disparar a metralhadora… E ele fala com um embasamento tão impressionante, o discurso dele é tão sólido que parece que ele preparou, parece um texto escrito. O Baldwin fala aquelas coisas “se você virar as costas pra essa sociedade, você pode morrer…”. Então me veio à cabeça a cena toda, e eu recortei uma pequena fala dele antes desse cara entrar e depois a fala toda dele depois que esse cara entra na cena. E descobri que pela primeira vez eu estava ali falando, me apresentando como compositora, com uma banda tocando as minhas músicas, me ajudando a construir os arranjos, e pela primeira vez eu estava falando de uma maneira mais panfletária sobre a questão do negro, que é uma coisa importantíssima de acontecer também. No primeiro show, eu li a fala do Baldwin no meio da canção e, quando terminou, foi um silêncio, ninguém aplaudiu. Algumas pessoas depois vieram me falar assim “Cara, eu não soube lidar com aquilo, com aquele texto” e então eu percebi que era um texto forte demais. Falando da realidade norte-americana, mas que dizia muito da nossa realidade também. Fiquei pensando, então,que não queria que ficasse parecendo uma imitação do formato americano. Nós temos a nossa própria história e a nossa forma de contar essa história, de discursar sobre isso. Então eu vim com a ideia de emendar a leitura do texto do Baldwin com a música “Ilê de Luz” do bloco de Afoxé Ilê Ayê. Os blocos de afoxé trazem essa coisa muito colorida, muito solar, que é um lance muito deles e que informa o movimento negro da Bahia. Eles encontraram um caminho para essa militância identitária, como um lance mesmo de empoderamento, de enfrentamento, mas com um formato original, não é uma cópia dos americanos. Essa música do Ilê Ayê caiu na minha mão. Eu estava procurando outra coisa e acabou que vi “Ilê de luz”, e me chamou atenção, claro, porque meu nome é Ilessi. Eu abri o disco e era o Caetano Veloso cantando aquilo. Foi um presente do destino, era oque faltava para o show[iii]. Por um convite do Sylvio Fraga, que viu um stories de um show do Dama de Espadas na Etnohaus, em 2018, eu fui convidada para gravar o disco e acabou sendo incrível, porque realmente acho que foi o impulso que eu precisava para disparar a coisa da criação. 

Qual foi a importância dos coletivos de compositoras que vocêparticipou?

R: Foi muito por causa desses movimentos que eu tomei força para a composição. Eu conheci uma pessoa muito importante que é a Deh Mussulini, compositora mineira que começou a fazer o Sonora, os festivais de compositoras, e que construiu um coletivo chamado Mulheres Criando. Ela me chamou para fazer a curadoria do festival aqui no Rio, com a ideia de fazer algo internacional, e disse para mim: “você tem que ser uma das atrações”. Eu respondi:  “mas eu não sou compositora”. Ela então me questionou “uai, você não faz música?”, e eu “ah, eu tenho umas seis músicas…”. E ela afirmou “se você tem então você é compositora”. A partir daí eu fui intensificando, tomando coragem. Depois eu me envolvi com a curadoria de outros projetos, como a mostra Mulheres Criando, que ela quis fazer uma coisa nacional, e em seguida eu criei o LUA (Livre União de Autoras) que era um grupo musical. Eu chamei a Milena Tibúrcio, a Iara Ferreira, Carla Capaldo e Luane Dias. Fizemos alguns shows aqui no Rio e foi bem bonito. Esse movimento de compositoras foi importante pra todas nós. Uma coisa que eu notei no discurso de todas as mulheres era que a gente é tão massacrada que não acredita muito nas próprias criações. Então quando esses espaços são criados parece que uma dá força para a outra. Eu vi tanto casos de pessoas novas que não tinham coragem de mostrar suas composições quanto de pessoas mais “velhas”, que já estão na estrada há muito tempo, gravando disco e fazendo trabalhos à beça, mas não tinham coragem de mostrar as próprias músicas. Muitas delas falaram: “é a primeira vez que eu estou fazendo um show só com músicas minhas”. Portanto, foi algo muito marcante, que abriu caminhos não só pra mim. 


[i] Professor do Departamento de Sociologia do Colégio Pedro II e doutor pelo IESP/UERJ

[ii] Para a discografia e trajetória biográfica de Manduka ver http://dicionariompb.com.br/manduka/

[iii] Assista aqui o vídeo de Ilessi interpretando ao vivo “Eu não sou seu negro”/”Ilê de Luz”.

A foto que abre o post é da autoria de Helena Cooper.

* Os textos publicados pelos colaboradores não refletem as posições da BVPS.

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