Simpósio 14 | Mundo Social e Pandemia

Piet Mondrian. Composition, 1916. Solomon R. Guggenheim Museum, Nova York, EUA_recorte

O Blog da BVPS publica hoje o último post do simpósio internacional Mundo Social e Pandemia, organizado por Andre Bittencourt (UFRJ e editor do Blog da BVPS) e Maurício Hoelz (UFRRJ e editor de S&A). Como dissemos na apresentação da série, nosso objetivo ao formular e distribuir as 4 perguntas não era tanto receber análises sistemáticas ou diagnósticos já fechados sobre as implicações sociais da pandemia de Covid-19, mas antes compor uma espécie de repertório de questões – teóricas, empíricas e históricas –, referências e insights capaz de nos interpelar, enquanto cientistas sociais e cidadãos, durante a crise global e além dela. Por isso apostamos em propor um painel diverso e amplo, reunindo especialistas de áreas de pesquisa e com posições teóricas distintas. Ao todo, nos 14 posts do simpósio, trouxemos as respostas inéditas de 69 sociólogas e sociólogos pertencentes a instituições de pesquisa de 18 países e 5 continentes.

Muita coisa aconteceu desde que iniciamos o simpósio, em 12 de maio. Naquele dia o Brasil contava 177 mil notificações de contágio e 12,4 mil mortes causadas pelo novo coronavírus. Hoje já são 1.453.369 e 60.713, respectivamente, de acordo com os dados oficiais. Por outro lado, o desenvolvimento de vacinas, que então parecia algo distante, agora já se vislumbra como uma possibilidade. Em meio às inclementes turbulências e incertezas da vida política brasileira, tivemos nesse curto período o assassinato de George Floyd, em Minneapolis (EUA), os protestos que rapidamente se espalharam pelo mundo em defesa do movimento Black Lives Matter e a intensa discussão provocada pela derrubada de estátuas de escravocratas e colonizadores. Ainda que todos esses movimentos e processos sociais tenham sua própria história, tornou-se impossível pensá-los sem as conexões e cruzamentos com capítulos da pandemia. Da mesma maneira, como muitas das respostas que recebemos destacaram, a pandemia, além de deflagrar uma crise econômica mundial sem precedentes, reforçou e aprofundou alguns dos problemas estruturais do mundo contemporâneo, especialmente no que diz respeito às desigualdades sociais de gênero, raça, classe e idade, mas também à vitalidade (ou não) das democracias.

Para a sociologia especificamente, esse fenômeno complexo e multidimensional da Covid-19 nos obriga, portanto, a reavaliar nosso papel no debate público e a recolocar em discussão alguns de seus pressupostos teóricos e cognitivos mais tenazes – como a relação entre estrutura e contingência ou processos e eventos, e as difíceis, e talvez insolúveis, relações entre o corpo como base última da individualidade subjetiva e como fonte de impulsos vitais e a sociedade como instância objetiva da sua regulação. Ao mesmo tempo os efeitos e as respostas sociais e políticas diferenciadas em relação à pandemia acentuam que, embora a crise e os riscos alcancem escala planetária, “não existe senão uma globalização que ocorre localmente, modificando o local”, evocando Ulrich Beck, um dos autores mais citados pelos participantes do simpósio. Ela também tem nos impelido a refletir sobre a própria relação que mantemos, enquanto disciplina, com a temporalidade: a imediatez das respostas à conjuntura e a necessidade de pesquisas de longo prazo, a demanda por novos marcos de análise e o caráter cumulativo da teoria sociológica. A Covid-19, portanto, implica em desafios contínuos e esperamos que as excelentes respostas dadas no simpósio nos estimulem a fazer melhores e renovadas perguntas daqui para frente.

Finalmente, reiteramos os nossos maiores agradecimentos aos/às colegas que encontraram tempo e energia para responder às perguntas, mesmo em meio a tantas demandas e num momento de tanta intensidade. Agradecemos também aos leitores e leitoras, a todos/as que nos ajudaram nas indicações e na elaboração de alguns dos convites, a André Botelho, coordenador da BVPS, pelo estímulo ao projeto, à revista Sociologia & Antropologia (PPGSA/UFRJ) e à Sociedade Brasileira de Sociologia (SBS) pelo apoio, e a Lucas van Hombeeck pela tradução da maior parte das respostas dadas originalmente em inglês e francês.

Todos os posts do simpósio Mundo Social e Pandemia podem ser lidos neste link e as versões originais das contribuições enviadas em inglês e francês são disponibilizadas nesta página. Aproveitamos para sugerir aos leitores e leitoras que sigam o Blog da BVPS no Facebook para acompanhar nossas atualizações. Agora também temos uma conta no Intagram: @blogbvps

Neste post final teremos como convidadas:

Nísia Trindade Lima, professora do Programa de Pós-Graduação em História das Ciências e da Saúde (PPGHCS) da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). É a atual presidente da Fiocruz. Autora, entre outros, de Médicos Intérpretes do Brasil (Org.) e Um Sertão Chamado Brasil.

Raewyn Connell, professora emérita da Universidade de Sydney, Austrália. Autora, entre outros, de Gênero em termos reais e Southern Theory: The Global Dynamics of Knowledge in Social Science.

Saskia Sassen, professora do Departamento de Sociologia da Universidade de Columbia, Nova York, Estados Unidos. Autora, entre outros, de Expulsões: Brutalidade e complexidade na economia global e A Sociology of Globalization.

Patricia Hill Collins, professora emérita do Departamento de Sociologia da Universidade de Maryland, College Park, Estados Unidos. Autora, entre outros, de Pensamento feminista negro: conhecimento, consciência e a política do empoderamento e Intersectionality as Critical Social Theory.

Boa leitura!

 

1. Sociólogos/as e cientistas sociais, em geral, estão se mostrando mobilizados/as para produzir e compartilhar interpretações sobre os efeitos sociais e políticos da pandemia. A teoria sociológica está equipada para enfrentar o desafio de compreender/explicar o fenômeno?

Nísia Trindade Lima: Sim. Na teoria sociológica temos importantes trabalhos que, seguindo diferentes perspectivas e metodologias, podem contribuir de forma mais ampla para a análise dos efeitos sociais e políticos da pandemia da Covid-19. Em primeiro lugar, faz-se necessário lembrar que os processos de saúde e doença têm sido objetos de estudos antropológicos, sociológicos e da ciência política, além dos estudos históricos, uma vez que eles são fenômenos, a um só tempo, biológicos e sociais indicadores de processos mais amplos, tais como desigualdades e inequidades sociais; relações público e privado; representações sobre o corpo e os fenômenos biológicos, apenas para citar algumas das questões mais frequentes nesse campo temático.

No caso de uma doença causada por um vírus novo, altamente transmissível e acarretando graves complicações em alguns indivíduos, para a qual não há medicamentos eficazes e seguros, tampouco vacina, as estratégias de enfrentamento implicam complexa engenharia social de controle epidemiológico: distância social; isolamento social; rastreamento de contatos com pessoas infectadas. Tais medidas tornam-se referências constantes deslocando-se do discurso epidemiológico para a gramática do cotidiano das populações em todo mundo.

Frente ao desafio representado pela Covid-19, um dos temas-chave são os grupos vulneráveis e a análise de conceitos e práticas epidemiológicas à luz de questões centrais para a teoria social, tais como desigualdades e sua percepção; impacto nas relações de gênero e nas discussões sobre ciclo de vida, especialmente no que se refere aos idosos. Ainda que com financiamento restrito comparativamente a outras áreas do conhecimento, as ciências sociais têm sido contempladas em alguns editais e, na Fiocruz, o Programa Inova Covid abrange todos os campos disciplinares. À guisa de exemplo, cabe mencionar também que o CNPq aprovou um projeto integrado de pesquisa em ciências sociais dedicado ao estudo dos impactos sociais da pandemia de Covid-19, com foco em grupos vulneráveis, e coordenado pelos pesquisadores Jean Segata (UFRGS) e Denise Pimenta (Fiocruz Minas Gerais). O projeto enfatiza a ampla agenda de pesquisas que relaciona preocupações socioantropológicas e emergências sanitárias, envolvendo questões como equidade e desigualdade; relações humano-animais; bioética e biopolítica.

Raewyn Connell: Nessa semana as mortes reportadas por Covid-19 somam um total de mais de quatrocentas mil. Já que existe subnotificação, provavelmente mais de meio milhão de pessoas morreram do vírus em apenas alguns meses. Há muitos por vir. Segundas ondas estão sendo reportadas em países que conseguiram conter suas primeiras ondas. Os governos nacionais de países que se saíram mal na primeira onda, incluindo os EUA, o Brasil, a Grã-Bretanha e a Índia, sabotaram as práticas de interação interpessoal eficientes para deter um agente infeccioso (como descobrimos com o ‘sexo seguro’ em relação ao HIV). Ao invés disso, esses governos, junto com a ditadura Chinesa, produziram uma enxurrada de mentiras e fantasias hostis projetadas para desviar a responsabilidade sobre a crise, criar confusão e desempoderar seus cidadãos.

É um desastre no sentido mais profundo do termo. Os contatos sociais humanos são precisamente os meios do crescimento populacional do coronavírus. Face à má gestão e a malevolência na escala em que as vemos, que teoria sociológica estaria equipada para o desafio que está colocado? A teoria da escolha racional está eliminada de partida. Teorias da reprodução social parecem irrelevantes quando olhamos para a destruição intencional de consensos culturais e ideológicos. Teorias dos sistemas, marxistas ou neofuncionalistas, têm pouca aderência quando olhamos para a irrupção de uma ameaça biológica e a súbita metástase do poder arbitrário. Existe a sociologia dos desastres, mas ela analisa sobretudo desastres depois de seu acontecimento para entender como a gestão da situação de emergência poderia ter sido mais bem feita – e aqui estamos, no meio do acontecimento e a gestão é o desastre.

A teoria sociológica como a conhecemos é muito branda para lidar com esse show de horrores global. Precisamos de formas de pensar a crueldade fria dos centros de poder globais e seus avatares regionais; a cascata tóxica de consequências da imensa concentração de riqueza; o fracasso sinistro da solidariedade humana envolvido na incitação deliberada do racismo, nacionalismo, sexismo e ódio religioso do nosso tempo. Não precisamos de uma ciência social contemplativa; precisamos da imaginação para organizar novos caminhos.

Saskia Sassen: Essa é uma pergunta interessante – a primeira desse tipo a surgir no grande número de entrevistas que dei sobre o assunto. A teoria sociológica não dá conta de compreender totalmente as características e consequências desse vírus. Isso exige um conhecimento especializado bem específico. Além disso, uma abordagem completa do assunto requer um misto de saberes especializados diversos.

Patricia Hill Collins: As tradições de pesquisa sociológica empírica, em políticas públicas e da sociologia pública estão bem posicionadas para analisar aspectos variados da pandemia de Covid-19. A pesquisa sociológica empírica quantitativa, por exemplo, descreve importantes dinâmicas organizacionais, estruturais e culturais da Covid-19, e mais visivelmente como desigualdades sociais de classe, raça, gênero, etnia e cidadania fazem dessa uma experiência amplamente diferente para populações privilegiadas e desprivilegiadas; descreve por que pessoas negras e pardas, pobres, idosos e aquelas que fazem o trabalho pesado têm mais chances de morrer de Covid-19; como políticas públicas em saúde e questões de financiamento têm um impacto importante no espalhamento e tratamento da Covid-19; e como a mídia modela as percepções da própria pandemia. As tradições de pesquisa sociológica empírica qualitativa oferecem discussões nuançadas de como as pessoas experimentam essas tendências sociais mais amplas em suas famílias, locais de trabalho, comunidades, escolas e entre si.

Ao mesmo tempo a teoria sociológica hegemônica, em especial na sociologia norte-americana, talvez seja menos útil para iluminar as forças sociais por trás dessa pandemia global, principalmente porque ela tem sido tímida demais na assunção de uma postura crítica face a temas importantes dos nossos tempos. A Covid-19 é um desses temas, assim como os protestos em todo o mundo contra o racismo estrutural que ocorreram no contexto de uma pandemia global, e a vulnerabilidade econômica de uma grande porcentagem da população mundial cujas demandas ficaram mais nítidas. Essas três questões sociais interligadas estão visíveis hoje, mas também sinalizam problemas sociais globais de longa duração que demandam análises estruturais. As tradições sociológicas teóricas e de pesquisa podem ter ferramentas para produzir uma análise crítica de fenômenos como esses, mas é improvável que o façam se uma postura crítica não for construída dentro do próprio tecido da área.

A pandemia de Covid-19 revelou uma clivagem na sociologia enquanto disciplina acadêmica. Fundamentalmente, a teoria sociológica hegemônica permanece desconectada das análises teóricas que podem informar e guiar as cada vez mais sofisticadas ferramentas metodológicas de sua própria pesquisa empírica. Mais do que isso, ela está desconectada do engajamento em questões sociais importantes de desigualdades na área da saúde, racismo estrutural e vulnerabilidade econômica que permanecem marginalizadas no mainstream da teoria sociológica. Muito da teoria predominante enfatiza demasiadamente questões que interessam sobretudo a elites, ou aborda tais questões de forma direcionada a elas, às custas dos tipos de questões que preocupam pessoas comuns.

A teoria social dentro da sociologia se atrofiou, com o valor da teoria sociológica mainstream sendo progressivamente reduzido para providenciar algum tipo de enquadramento explicativo para conjuntos de dados previamente coletados, numa reflexão posterior em vez de anterior aos trabalhos. Temos pesquisas sociológicas empíricas fortes que descrevem tópicos como as diferenças profundamente enraizadas e crescentes de patrimônio e renda, disparidades raciais na saúde e diferenças de gênero indo de encontro a problemas sociais como a violência. No entanto, nossas teorias, não importa o quão bem amarradas ou eloquentes, permanecem escritas em prosa densa que a maioria dos sociólogos não consegue ler ou entender. Num contexto em que questões relativas a uma pandemia global, racismo estrutural e insegurança econômica mundial para pessoas desfavorecidas demandam análises estruturais do poder e da riqueza, a ênfase excessiva da teoria sociológica predominante sobre questões culturais e de identidade individual parecem estranhamente fora de tom em relação às preocupações das pessoas comuns. O produto disso é uma área que se omite de investigar questões de pesquisa e interpretar conclusões que se afastem muito do conhecimento convencional.

Porque eu sou alguém de dentro da sociologia, eu ofereço essas críticas de um lugar de amor. Vejo um tremendo potencial na teoria sociológica contemporânea se fizermos um trabalho melhor no desenvolvimento de tradições teóricas críticas dentro da sociologia que confrontem os problemas sociais dos nossos tempos. Ir de encontro ao desafio de entender e explicar essa pandemia global exige abordagens arrojadas e imaginativas que ironicamente pensem fora da caixa de modo a fazer uma nova “caixa” para a teoria contemporânea. As peças dessa análise arrojada existem, mas não necessariamente na sociologia enquanto disciplina. Quando eu ensinava teoria sociológica contemporânea para alunos de graduação, dependia cada vez mais de teorias sociais desenvolvidas fora da disciplina. Outras áreas de estudo me ofereceram muito mais espaço para a exploração teórica crítica de questões importantes sobre descolonização, opressão das mulheres, racismo, direitos humanos, e fenômenos globais semelhantes do que a própria sociologia norte-americana. A filosofia, a crítica literária e tradições narrativas nos estudos de mídia, estudos de mulheres, estudos americanos, estudos culturais e áreas interdisciplinares semelhantes oferecem insight analítico rico para pensar o mundo social. Apesar disso, porque essas áreas de estudo geralmente não têm a análise estrutural da sociologia e das ciências sociais, seus enquadramentos teóricos críticos foram incorporados de forma assimétrica à sociologia.

Mas a teoria social crítica desenvolvida fora da sociologia não substitui a teoria social crítica desenvolvida dentro dela. A Covid-19 oferece uma oportunidade importante para a sociologia examinar seus próprios pressupostos e práticas. Como uma disciplina de fronteira, ela faria bem em direcionar seu olhar para fora em direção às muitas áreas que também estão lidando com o significado dessa pandemia, e construir novos padrões para a prática sociológica. Eu ofereço um diagnóstico de um problema de primeira ordem dentro da área: a relação entre a teoria sociológica crítica e a pesquisa sociológica empírica ilustra um vão que existe entre a produção de análises fortes acessíveis a um grande número de sociólogos na esfera pública que estejam preocupados com a abordagem de problemas sociais e a pesquisa sociológica em andamento que informa questões sociais. Questões de discriminação no mercado de trabalho, desemprego estrutural, déficit de moradia e disparidade na educação, moradia adequada e bem-estar das famílias são todas estudadas na sociologia. Todas essas questões refletem preocupações econômicas e podem formar a base para o desenvolvimento de uma teoria sociológica crítica que analise, explique e/ou sugira estratégias de ação em termos que possam ser compreendidos por leigos.

A teoria sociológica equipada para o desafio de lidar com uma pandemia global não surgirá da natureza detalhada, metódica e cumulativa da pesquisa empírica em ciência social nem da desconexão com as necessidades de nossos estudantes e do público em geral. Estou cansada de ver gente ofegante com as descobertas das disparidades na atenção a negras e negros no sistema de saúde, chegando à conclusão de que talvez seja por causa do racismo, sem ter muita exposição à teoria crítica da raça. Antes da Covid-19 e dos protestos globais contra o racismo estrutural os sociólogos podiam se esconder atrás dos seus dados, produzindo análises eloquentes de tendências que eles não ajudaram a criar e em relação às quais não podem fazer nada. Os teóricos da sociologia têm estado mais afastados que seus colegas que fazem trabalhos mais empíricos, e é fácil assumir que o racismo, o sexismo e a pobreza estão acontecendo com alguém e não nos afetam. Mas a Covid-19 implodiu essa fantasia. Essas práticas dentro da sociologia que nutriam consensos teóricos agora parecem tacanhas e míopes no contexto. Por exemplo, os sociólogos estão muito mais de acordo a respeito do que a teoria sociológica foi no passado do que a respeito de para onde ela pode estar indo. Ironicamente, Marx, Weber, Durkheim e Simmel entre outros, os pais fundadores da sociologia, aparentemente têm mais a dizer sobre como a teoria sociológica informa a pesquisa sociológica contemporânea do que a teoria sociológica do nosso próprio tempo. Suas ideias duram porque eles foram pensadores críticos dos grandes problemas de suas épocas. Esses pensadores incorporaram ideias sobre o mundo social com que eles se confrontavam ao coração da disciplina. A teoria sociológica contemporânea faria bem em copiá-los.

 

2. Como a sua área de pesquisa especializada pode contribuir para a reflexão sobre diferentes dimensões desse fenômeno?

Nísia Trindade Lima: Na área de pensamento social no Brasil, alguns temas fundantes têm grande importância para o estudo da pandemia. É o caso das discussões sobre nação e região, que trabalhei em diferentes textos, como por exemplo no livro Um sertão chamado Brasil, e mereceram uma bela síntese em artigo de Elide Rugai Bastos, “Região e nação: velhos e novos dilemas”, publicado no livro Agenda brasileira (organizado por André Botelho e Lilia Schwarcz). Um tema de forte presença no imaginário da pandemia é o do “país continental” e que, portanto, teria diferentes momentos de manifestação epidêmica. Bem, qualquer pandemia trará diferentes relações tempo/espaço, não se configurando como fenômeno sincrônico nos diferentes países por onde o vírus circula. Isso parece um tanto óbvio, mas o que precisa ser acentuado são as desigualdades entre as regiões de um mesmo país, o que é bem o caso do “continente chamado Brasil”. No que se refere à dualidade nação/região, o texto de Elide Rugai Bastos ressalta a atualidade do problema, referindo-se à distribuição desigual de bens entre as regiões e os componentes da população brasileira, expressos não somente na participação na renda, mas na “desigualdade de acesso à educação, à saúde, à moradia, ao transporte, aos bens culturais, aos direitos de cidadania, à representação política para a própria formulação dos problemas” (p. 456). Pode-se acrescentar a participação desigual em um processo de desenvolvimento econômico e social que requer a ciência, a tecnologia e a inovação como seus fundamentos.

No caso da pandemia da Covid-19, a análise do que ocorre nas diferentes regiões desnuda essa desigualdade e põe em destaque aspectos que não vêm sendo adequadamente considerados seja pela análise sociológica da epidemia, seja pelas políticas públicas muitas vezes propostas. No caso da pandemia tem se falado em vulnerabilidade relacionada à desigualdade social, não apenas de renda, mas de moradia, acesso a saneamento e a outros serviços públicos. Pouca atenção vem merecendo a distribuição espacial dos recursos públicos e os problemas de mobilidade geográfica. Quanto a esse aspecto, vale mencionar a dramática situação vivida na Região Norte. Nessa região verificou-se a grande importância da distância em relação a centros hospitalares e os problemas de circulação e mobilidade. Especialmente no estado do Amazonas verificou-se que os caminhos do vírus foram os mesmos dos barcos, muitos navegando ilegalmente, percorrendo os rios, principais vias de transporte. A interiorização da doença vem sendo intensa e, segundo o inquérito sorológico realizado pela Universidade Federal de Pelotas, a região Norte responde pelo maior índice relativo de contaminação. Outro grave problema refere-se à contaminação dos indígenas, em grande parte como resultado das atividades de garimpo e grilagem de terras, problema também observado no Centro Oeste.

Contudo, o par nação/região não deve ser visto apenas sob o prisma das desigualdades regionais, mas também como uma relevante construção política. Verificamos durante a pandemia o fortalecimento de alguns arranjos locais, a exemplo do Consórcio Nordeste, associação criada originalmente com o mesmo propósito de outros arranjos regionais no país para facilitar processos administrativos dos governos estaduais, e que hoje tem ganhado maior identidade e protagonismo na definição de diretrizes e ações frente à pandemia.

Raewyn Connell: Certamente precisamos de novas formas de compreensão dos poderes econômicos, estatais e seus portadores de maneira adequada às suas atuações na crise da Covid-19. Para pesquisadores da área de gênero, não é mistério nenhum que a maioria dos detentores de poder são homens, embora eu ainda não ache que os estudos da masculinidade tenham criado os vínculos necessários com a discussão do Estado e das elites corporativas. Em especial, ainda não fizemos as sinapses necessárias para compreender de forma satisfatória a irresponsabilidade homicida evidente em figuras como Johnson, Modi, Duterte, Bolsonaro e Trump.

Para pesquisadores de classes sociais, não é mistério algum o fato de que poder político e privilégio econômico estão ligados. Mas nossas antigas ideias sobre “autonomia relativa” e tipos de capital não ajudam muito. A sociologia do imperialismo e colonialismo me parece a ferramenta mais útil para entender nossa situação. Essa área tem alguma aderência com a discussão sobre raça, Estados, capital transnacional, trabalho forçado, estupro e genocídio. Mas é muito influenciada por teorias dos sistemas e por isso tem dificuldades em perceber os deslocamentos selvagens do nosso mundo.

A sociologia do corpo parece necessária para a compreensão de qualquer epidemia. Mas grande parte do que é produzido como sociologia do corpo é na verdade sociologia do discurso, ou do controle social, ou biociência ou medicina. Os corpos suados, fedorentos, que sangram não estão eles próprios tão em evidência, e nem sua agência social. Uma recalibragem é necessária aqui também.

Saskia Sassen: Talvez um dos elementos nesse concerto – me parece – é que as ciências sociais têm a opção de estudar humanos e, portanto, de traçar o que funciona ou não para esses humanos, de uma perspectiva bastante ampla.

Patricia Hill Collins: Essa é uma pergunta direta e frustrante de se responder, para mim, principalmente porque não estou surpresa com as maneiras pelas quais as múltiplas formas de desigualdade social modelaram a emergência da Covid-19 enquanto um fenômeno global bem como a vasta gama de reações organizacionais, políticas e emocionais a ela. Desigualdades sociais de raça, classe, gênero, nacionalidade e sexualidade não são simplesmente diferentes especialidades acadêmicas para mim. São signos de sistemas de poder que constituem enquadramentos explicativos importantes para a compreensão do mundo social, mas, mais do que isso, também modelam minha vida cotidiana, incluindo minha carreira como socióloga. Enquanto mulher negra criada entre a classe trabalhadora, não era esperado de mim que tivesse um assento na mesa da teoria sociológica e certamente nem uma posição de comando dentro da própria disciplina. Enquanto uma teórica social crítica, já tive que perguntar muito a respeito das próprias condições que fazem meu trabalho possível e acessível e, caso elas não existam, trabalhar para que passem a existir. A economia política da produção e do consumo da teoria social em geral, e da teoria sociológica em particular, modela as questões, as bases do conhecimento e as implicações de todo trabalho intelectual.

Para mim, no entanto, tem sido fascinante e desalentador ver como a mídia norte-americana e muitos de meus colegas, assim como o público norte-americano aparentemente se surpreendeu com o que eu experimento como fatos sociais, nomeadamente, que afro-americanos morrem em taxas mais altas de Covid-19 do que norte-americanos brancos, um padrão também observado entre latinos, membros do povo Navajo e outras pessoas de cor, além de idosos vivendo em casas de repouso. Essa narrativa das mortes em excesso na sociedade norte-americana não é nova, e reaparece com uma frequência deprimente nas estatísticas de abuso policial, negligência médica, altas taxas de encarceramento, ou qualquer outra vulnerabilidade associada à pobreza. Afro-americanos, latinos, lideranças indígenas e intelectuais progressistas vêm levantando esses tópicos há algum tempo. Conforme a pandemia se desenvolveu, padrões semelhantes de mortes em excesso emergiram em variados contextos nacionais. Como essas mortes nos EUA e no Brasil tornam dolorosamente visível, a qualidade da liderança nacional faz uma grande diferença na abordagem de temas sociais importantes mesmo no melhor dos momentos. E a Covid-19 é o pior dos momentos. Essa pandemia desfez um acordo de cavalheiros de não falar de desigualdades sociais de raça, classe, gênero e sexualidade, um acordo com o qual muitos acadêmicos foram coniventes. Ao longo da minha carreira, tem sido exaustivo encontrar uma espécie de ingenuidade a respeito das desigualdades sociais em pessoas que querem que eu as veja como boas pessoas. Essa ignorância é benigna ou profundamente conivente? De qualquer forma, qual deveria ser minha resposta numa situação assim? Lidar com a Covid-19 é emocionalmente exaustivo, em especial quando é necessário confrontar as mesmas perguntas que já escuto há anos.

Intelectualmente, seria muito mais fácil identificar aspectos aparentemente não-controversos das minhas pesquisas já feitas e simplesmente dizer mais do que já venho dizendo há algum tempo. Se eu bater na tecla da desigualdade social no contexto da Covid-19, pode ser que finalmente seja ouvida, mas de formas que podem ser tão facilmente esquecidas no futuro quanto as legiões de intelectuais antes de mim que pensaram que mais evidência era a solução para a falta de sensibilidade. Mas eu acho que precisamos nos esforçar para além do que pensamos ser verdade e nos perguntar como a Covid-19 desafia tudo que pensamos saber, especialmente sobre os enquadramentos que invocamos com total certeza. Para muitos acadêmicos, a pandemia criou uma oportunidade para “vender” mais das mesmas ideias dentro da academia, um lugar que valoriza nosso pensamento e mesmo nosso corpos se servirmos a agendas neoliberais. Nossas experiências com o capitalismo e sua forma-mercadoria dentro de espaços acadêmicos refletem processos de suavização intelectual que modelam nossa habilidade de resistir agressivamente às condições de mercado que limitam nossa habilidade de enquadrar os argumentos de que precisamos. Esse tipo de auto-reflexividade e diagnóstico é desafiador mesmo no melhor dos momentos. Ele é especialmente difícil agora porque tentar analisar assuntos-chave em meio a eventos que explodem diariamente e podem mudar de direção tão rapidamente é algo extremamente difícil. No entanto, a disrupção da economia global significa que talvez esse seja exatamente o momento para recuar e avaliar onde estamos.

Quando comecei a responder às perguntas dessa entrevista, tive que me relembrar de que minha fadiga e stress relativos à forma como a Covid-19 estava se desdobrando significavam que eu precisava pensar e sentir ao mesmo tempo – a razão acompanhada da paixão sempre me serviu bem. A explosão de protestos sociais globais contra o racismo estrutural sob a bandeira do Black Lives Matter (Vidas Negras Importam) me energizou. Os protestos sociais globais não me deram um olhar novo em relação à forma como meu trabalho pode dialogar com o contexto da pandemia, mas eles me deram uma paixão renovada para esse trabalho. Esse é o outro público que forma os leitores do nosso trabalho. Se pensarmos, muito estritamente, que só estamos falando para acadêmicos, nossas análises serão tão limitadas quanto esse raciocínio.

Atualmente, estou questionando meu próprio trabalho sobre interseccionalidade a fim de avaliar onde estou com ele e para onde quero ir. Como os dois livros que eu acabei de escrever sobre interseccionalidade seriam lidos se eu os estivesse escrevendo durante a pandemia ou no contexto de um cenário pós-pandemia (ver Intersectionality as critical social theory, 2019; e Intersectionality, 2aedição, com Sirma Bilge, 2020)? Meu trabalho em andamento sobre o tema se apoia sobre um fundamento que consiste em tomar o mundo social como meu texto e colocar ideias que tipicamente não estão juntas em diálogo umas com as outras. A interseccionalidade oferece uma análise especialmente robusta tanto do porquê de certos padrões de desigualdade social existirem quanto da forma como as pessoas que se dedicam a combater essa desigualdade o fazem. A interseccionalidade faz uso e contribui para disciplinas existentes, p. ex., o foco da sociologia em documentar padrões existentes de desigualdade social (seu foco em estruturas sociais bem como na agência individual). Mas a interseccionalidade é tão boa quanto o uso que se faz dela – seu significado emerge pelo uso e a pandemia apõe à prova.

Em resposta à falta de sofisticação teórica a respeito do que a interseccionalidade é ­– a supracitada “descoberta” das desigualdades profundas de raça, classe e gênero, entre outras, inscritas na sociedade norte-americana – estou aproveitando essa oportunidade para identificar o que se destaca a meu ver dentro da interseccionalidade, ainda que isso seja algo silencioso dentro do meu próprio trabalho. Uma das premissas fundamentais da interseccionalidade é que a ideia de que as pessoas estão interconectadas por categorias de raça, gênero, classe, sexualidade, habilidade, etnicidade e status de cidadania é um constructo teórico importante nessa pandemia. Porque todas as categorias têm suas histórias específicas com a desigualdade social, a interseccionalidade fornece uma ferramenta maleável para examinar intersecções específicas, por exemplo entre raça e sexualidade, ou gênero e habilidade em localidades específicas. Porque a Covid-19 é um fenômeno global, sem favoritismos nas suas rotas de transmissão, ela reforça a tese da interseccionalidade de que é necessário examinar a interdependência entre seres humanos, não o que os separa. Estudar as interconexões de todos os aspectos do mundo social é algo profundamente sociológico. A pandemia nos trouxe a um momento histórico que torna essas conexões mais nítidas. O protesto social global que salienta essas interconexões reflete a forma pela qual pessoas comuns e protestos locais contra o racismo estrutural abriram caminhos mostrando como esforços separados estão de fato entrelaçados e são mutuamente dependentes. Nesse contexto, a interseccionalidade enquanto teoria social crítica fornece um enquadramento importante para se pensar sobre a globalização por meio da qual as vidas das pessoas estão interconectadas e mutuamente dependentes mesmo que tais conexões permaneçam invisíveis. Não há necessidade de tentar conectar as coisas – a questão, ao invés disso, é por que falhamos em ver as conexões que já existem. De que maneira os muros no nosso entorno prejudicam não apenas nossa análise, mas também nossa humanidade? Sem inventariar as interconexões existentes, é difícil imaginar e trabalhar por um mundo social pós-pandêmico mais justo.

 

3. A pandemia estaria provocando mudanças sociais, políticas e/ou culturais profundas? Ou acelerando tendências já em curso? Se sim, é possível vislumbrar os contornos das sociedades pós-Pandemia?

Nísia Trindade Lima: Discussões sobre mudanças sociais, políticas e culturais profundas relacionadas às epidemias e pandemias há muito tempo fazem parte do repertório das ciências sociais. Como a Covid-19 provêm de um vírus SARS-COV-2, que originalmente não infectava humanos, e o contexto de transmissão está relacionado ao mercado de Wuhan, na China, um primeiro ponto que me vem ao examinar a questão consiste na relação entre humanos e animais não humanos. Para melhor pensá-la remeto os leitores ao instigante texto de Claude Lévi-Strauss “A lição de sabedoria das vacas loucas”, publicado em Estudos Avançados e originalmente um artigo divulgado em La Repubblica, em 1996. Nele, o antropólogo francês analisou o fenômeno da vaca louca como uma indução ao canibalismo, uma vez que a fonte da contaminação estaria na farinha de origem bovina com a qual o gado era alimentado. Segue-se interessante texto com referências à premonição de Comte sobre animais como laboratórios nutritivos e os prováveis efeitos da pandemia, entre eles a possível mudança no regime alimentar das sociedades humanas. Sobre o papel da ciência e da técnica, ele diria “os agrônomos se encarregarão de fazer aumentar o teor proteico das plantas alimentares, os químicos, de produzir em quantidade industrial proteínas sintéticas. Mas, ainda que a encefalopatia espongiforme (nome científico da doença da vaca louca e de outras aparentadas) se instale de forma duradoura, apostamos que o apetite pela carne nem por isso desaparecerá. Sua satisfação se tornará apenas uma ocasião rara, custosa e cheia de risco” (p. 215-16).

Desse modo, uma primeira ordem de problemas a ser considerada refere-se às relações entre humanos e animais não humanos e a natureza. Esse é, por exemplo, o principal argumento levantado pelo biólogo Jared Diamond ao discutir a chegada de novos vírus, a exemplo do novo Coronavirus. O autor vem observando os riscos de novos patógenos originados de animais silvestres e com potencial transmissão para humanos, situando o problema entre os mais importantes referidos à questão ambiental na contemporaneidade.

Uma outra ordem de problemas consiste no impacto das medidas de distanciamento social, necessárias em parte enquanto não houver recursos científicos e tecnológicos, especialmente vacinas, para efetivo controle da doença. A médio prazo, interessantes análises abordam um novo tipo de estratificação social entre trabalhadores, com favorecimento para os que apresentarem anticorpos para a Covid-19. Ainda que não exista qualquer evidência científica sobre essa imunidade, chamada com frequência pela mídia como passaporte imunológico, em recente artigo publicado no periódico The Guardian, “Are you immune? The new class system that could shape the Covid-19 world”, epidemiologistas e cientistas sociais advertem para as implicações da crença de que a presença de anticorpos, detectados por testes sorológicos, sejam evidência de imunidade. No texto são enfatizadas possibilidades discriminatórias no mercado de trabalho, inclusive nas políticas imigratórias, com benefício para pessoas Covid free, conforme se passou a dizer em linguagem informal.

No que se refere ao mercado de trabalho, a tendência mais forte, que já estava em curso, consiste na redução do trabalho formal e consequente aprofundamento da perda de mecanismos de proteção social, no qual se observa a tendência para dramática redução das políticas do Estado de Bem Estar Social em países europeus e, no caso do Brasil, para perda de direitos sociais, cujo histórico de implementação remonta aos anos de 1930 e cuja efetiva ampliação se dá com a Constituição de 1988. Desemprego e mudanças de vínculo no mundo do trabalho são os mais importantes desafios, acelerando tendências já em curso. Ao mesmo tempo, para as classes médias a intensificação do chamado home office trará novos desafios para a sociabilidade no mundo do trabalho e os vínculos com as organizações empresariais. No que se refere à proteção social e à atenção à saúde, a análise dos distintos cenários no mundo vem demonstrando a importância dos sistemas universais de saúde – e, no caso brasileiro, do SUS – para o enfrentamento das iniquidades realçadas no contexto da pandemia. A imagem positiva de um sistema de saúde, objeto via de regra de forte valoração negativa por parte da mídia e outros setores, é um efeito positivo, mas que não se pode efetivamente afirmar como duradouro.

No plano global, a pandemia põe em relevo a relação entre os Estados nacionais, o controle de fronteiras e, também, a vulnerabilidade até mesmo de países ricos no que diz respeito à concentração da produção industrial de itens fundamentais para a saúde. Todos os dias lemos notícias sobre a falta de respiradores, equipamentos de proteção industrial e medicamentos. No Brasil, esse debate tem motivado o fortalecimento de um conceito e um conjunto de práticas há muito defendidos por instituições como a Fiocruz e que logrou institucionalização no âmbito do Ministério da Saúde: o do Complexo Econômico e Industrial da Saúde, englobando um conjunto de ações que partem da premissa de que ciência, tecnologia e inovação em saúde são parte constitutiva e crucial para o desenvolvimento sócio-econômico sustentado do país e devem combinar poder de compra do Estado, capacidade de transferência tecnológica e acesso aos produtos através do SUS.

Ao se tratar de um evento multifacetado, o desenho de possíveis cenários remete a um amplo conjunto de problemas a ser analisado pelas ciências sociais. Impossível, e mesmo não desejável, situar o debate nos termos ingênuos do par otimismo/pessimismo. O fato é que a eclosão da pandemia coincidiu com outros processos sociais em curso. Já me referi ao impacto no mundo do trabalho, mas é importante também mencionar a presença de fortes argumentos científicos em um período no qual o ataque à ciência e aos cientistas tem sido uma constante, como bem analisou Jeffrey Alexander no artigo “Vociferando contra o Iluminismo”, publicado por Sociologia & Antropologia.

Por fim, o controle da Covid-19 hoje e, ao que tudo indica, nos próximos anos, ainda que atinjamos êxito com o desenvolvimento de uma vacina, requer o aprofundamento da democracia e de relações virtuosas entre direitos individuais e coletivos; esses últimos de reconhecimento tardio, mas de importância crucial para o futuro da humanidade. Desse modo, é na dimensão política das relações sociais que se pode antever algum aprendizado positivo com capacidade de construção de projetos orientados por mais equidade, justiça e cidadania. É apenas assim que se pode projetar um outro mundo após a trágica experiência hoje vivida em escala planetária.

Raewyn Connell: Eu não sei. O comentário sociológico mais frequente no meu feed on-line é que o vírus desvelou ou aprofundou distâncias sociais que já existiam – em contraste com a retórica Estamos-Todos-Juntos das autoridades. Talvez. Alguns ricos correram para os seus abrigos nas montanhas, abandonando a classe trabalhadora à própria morte. É impossível, nas favelas do Brasil ou nas periferias da África do Sul, praticar o distanciamento social recomendado por médicos de classe média-alta dos bairros nobres. (Não é impossível que outras formas de conter a doença não possam ser desenvolvidas pelos moradores locais, se tiverem a chance, como fizeram as comunidades locais com o HIV e o Ebola.) Outras distâncias sociais são agravadas durante a “recuperação”. Nosso governo de direita na Austrália tem despejado dinheiro na indústria da construção civil, em que muitos homens trabalham, e sufocado o financiamento de creches, onde trabalham mulheres, majoritariamente. Ao passo que maiores partes do trabalho e da vida social são transferidas para o modo on-line, as barreiras digitais existentes terão maiores consequências.

Certamente a epidemia criou um escopo maior para a expansão do militarismo no governo, e de prerrogativas administrativistas na vida econômica. É mais difícil organizar ações sindicais, mobilizar movimentos sociais ou articular outras formas de resistência quando temos um lockdown com apoio popular. Estranhamente, os manifestantes de direita que protestaram (com armas, nos EUA) contra o lockdown dificultaram o controle da população pelos próprios políticos de direita. Os protestos Black Lives Matter (BLM, Vidas Negras Importam) nos EUA depois do assassinato de George Floyd tiveram um efeito internacional. Na Austrália, por exemplo, apesar das tentativas do governo de detê-las, grandes manifestações ocorreram em solidariedade ao BLM, dando uma força súbita à campanha local em torno das mortes de Aborígenes encarcerados.

Talvez os eventos da epidemia mostrem a um número maior de pessoas os fundamentos brutais das nossas estruturas econômicas e sociais. Se isso de fato as deslegitimará não é algo determinado mecanicamente pela epidemia; isso depende de lutas sociais futuras.

Saskia Sassen: Nós, humanos, já passamos pela experiência produzida por diversos vírus agressivos… então isso em si não é novo. Quanto mais construímos sobre terra que já foi campestre, ou sobre fontes d’água, ou terra varrida por ventos contínuos, provavelmente mais empurramos um número crescente de vírus (e outras formas de vida) para domínios cada vez mais restritos… e então é claro que nós, humanos, ficamos mais e mais perto de vírus que podem ser agressivos e ávidos para acessar o que quer que tenhamos no nosso sangue que os interesse – porque é assim que esses vírus garantem sua própria sobrevivência.

Patricia Hill Collins: Como a situação da pandemia muda diariamente, minhas respostas a essas perguntas parecem mudar da mesma forma. Estou escrevendo para o simpósio passados três meses do início da pandemia, e logo depois dos protestos globais contra o racismo estrutural, e considero que é cedo demais para prever uma realidade pós-pandêmica. Eu certamente espero que o impulso gerado pelos protestos continue a iluminar o problema do racismo estrutural, e que a interseccionalidade enquanto ferramenta da teoria social crítica tenha protagonismo na reflexão sobre a desigualdade social global. Mas, dito isso, de fato vejo dois temas que têm se tornado cada vez mais visíveis na cobertura midiática da pandemia e que eu espero que produzam mudanças em políticas públicas nas sociedades pós-pandemia. O grande número de pessoas que perderam renda e trabalho, assim como outros benefícios, sublinha a importância do significado do trabalho na vida das pessoas. De maneira semelhante, a visibilidade da fome não apenas entre os mais pobres, mas também entre aqueles que achavam que sempre teriam o que comer, reforça a importância da segurança alimentar para a vida em si. Antes da pandemia, suposições a respeito dessas questões eram subestimadas, representando aquilo que eu chamo de assuntos escondidos debaixo dos nossos narizes e que naturalizaram e normalizaram a desigualdade social. A pandemia trouxe o trabalho e a alimentação à consciência pública.

A Covid-19 abalou as estruturas de tudo que pensávamos que sabíamos em relação à organização e ao significado do trabalho em nossas vidas. Aquilo que já foi subestimado não pode mais o ser. Por exemplo, a pandemia criou o espaço necessário à reavaliação da importância dos diferentes tipos de trabalho na sociedade. Numa pandemia, quem são os trabalhadores essenciais? A situação ressaltou a natureza vital daqueles que servem à sociedade ­– os trabalhadores da linha de frente em hospitais, técnicos em emergências médicas, enfermeiros e médicas. Seu trabalho atualmente é celebrado, mas eles estão protegidos contra a exposição à Covid-19 e são adequadamente remunerados? A Covid-19 revelou o caráter essencial do trabalho de cuidado. Ela nos mostrou como trabalhadores dos ramos da alimentação, saúde, cuidados especiais e educação (muitos dos quais levaram suas aulas e atividades para o ambiente virtual), além daqueles que ajudam a alimentar, nutrir e ensinar, são trabalhadores essenciais. Esses trabalhadores são o fundamento da riqueza e prosperidade de uma sociedade. A experiência de ver quem realmente importa numa pandemia estimula algumas perguntas desconfortáveis a respeito de que tipo de trabalho é valorizado e bem pago ou não. Quão importante ou essencial é um publicitário? E um influencer no Instagram?

A Covid-19 desestabilizou as compreensões acerca dos supostos direitos e inseguranças relativos ao trabalho. Os tipos de trabalho que as pessoas fazem, como são vistos e como nos sentimos em relação a eles são algo que varia muito em sociedades democráticas e autocráticas, assim como em Estados-nação pobres e ricos. Ainda assim, a verdadeira alma de uma nação está em como ela valoriza e trata as pessoas que exercem trabalhos de cuidado e que fazem o trabalho pesado, assim como aquelas que por uma variedade de motivos não podem trabalhar. Se os trabalhadores essenciais são tão “essenciais” assim, por que tantos deles são tão maltratados como os da indústria de proteína animal, ou tão mal pagos (como os trabalhadores de creches) ou considerados tão descartáveis que precisam deixar suas famílias e mandar dinheiro para casa (trabalhadores sazonais empregados em colheitas)? Em alguns Estados nacionais a mensagem é crua: “trabalhe ou passe fome”.

Isso me leva a um segundo tema: a visibilidade da segurança alimentar enquanto um assunto político. Todos os humanos precisam se alimentar todos os dias, mas os alimentos não são distribuídos igualmente, de maneira que muitos passam fome e são subnutridos. Eu vivo num país em que quantidades imensas de comida são desperdiçadas em bairros nobres e restaurantes que servem clientes de classe média, e onde as pessoas pobres que precisam de assistência alimentar são estigmatizadas. A segurança alimentar é um tema político nos EUA, mas não tem sido encarado como tal.

Atualmente, a segurança alimentar pode ser um subtema para o movimento ambientalista, especialmente em sua ênfase sobre a natureza insustentável dos nossos modos de vida contemporâneos. Os povos indígenas têm liderado o debate sobre a santidade da terra e a necessidade do seu cuidado como forma de garantir a sobrevivência humana. Esse é um esforço coletivo que requer a atenção das pessoas não apenas para as suas relações de interdependência (algo difícil até no melhor dos momentos) como para as suas relações com a terra. Junto com outros atores sociais, as lideranças indígenas apontam para os danos feitos à terra pela agricultura em escala industrial e o agronegócio como formas não-sustentáveis de produzir alimentos. Ironicamente, a conexão humana crucial oferecida pela alimentação é frequentemente soterrada em discussões sobre o meio ambiente de acordo com as quais, uma vez que o ambiente fosse corretamente tratado, a fome deixaria de ser um problema.

A crise global da Covid-19 revela como a abundância, escassez ou ausência de alimentos entre diversos bairros, populações e Estados-nação traz essa discussão para o centro dos debates. Possivelmente, haverá mais mortos de fome durante essa pandemia do que em decorrência direta do vírus. Cientistas sociais e ativistas políticos fariam bem em nutrir análises e ações de advocacy capazes de alimentar as pessoas. Politicamente, é muito mais fácil organizar grupos em torno de problemas relativos à segurança alimentar em suas próprias casas, bairros, e regiões do que com base numa preocupação amorfa pelo planeta. É difícil trabalhar de maneira eficiente pelo ambiente se você estiver com fome. A alimentação tem o potencial de interligar movimentos já existentes dedicados à justiça ambiental e a disparidades de saúde de formas bastante agudas, sublinhando como a comida é central tanto para a saúde quanto para a mortalidade.

Trabalho e alimentação são dois temas intimamente ligados, e ambos apontam para o que há de essencial na vida de todos nós. Os significados da segurança alimentar e do trabalho constituem dois temas nucleares sociologicamente embasados, teoricamente ricos e que provavelmente não desaparecerão nas sociedades pós-pandêmicas. Ambos mudaram ou prometem mudar dramaticamente em resposta à pandemia e suas consequências. Ambos são capazes de demonstrar a interdependência entre as pessoas, seja num bairro, numa região e/ou entre fronteiras nacionais num contexto global. A Covid-19 está criando as bases para um pensamento relacional sobre o trabalho, a alimentação e mesmo sobre a mudança social. Está ficando cada vez mais visível para muitos de nós que nossas ações cotidianas têm implicações que estão para muito além do que podemos ver.

 

4. Que obra(s) da sociologia e das demais ciências sociais podem nos ajudar a compreender e a conversar sobre os desafios em curso?

Nísia Trindade Lima: De natureza essencialmente controversa, como o foram outras pandemias, o processo em curso não pode ocorrer sem graves dissensos e a efetivação de mecanismos de controle só pode se dar com fortalecimento da solidariedade social. Daí o relativo paradoxo de medidas de isolamento social parecerem indicar maior presença da sociedade, no sentido que um autor da teoria sociológica clássica, Émile Durkheim, tão bem desenvolveu em obras como O suicídio: a força da sociedade estaria na sua presença nas mentes individuais e capacidade de orientar comportamentos. Em outra perspectiva, Reinhard Bendix também contribui para esse debate sociológico sobre solidariedade social em seu conhecido livro Construção nacional e cidadania.

Em texto publicado no mês de abril neste blog da BVPS, Tatiana Landini recorreu a outro autor clássico da teoria sociológica, Norbert Elias, especialmente a sua obra O processo civilizador, para discutir a interdependência em tempos de Covid-19.  Ao se deter na obra do sociólogo holandês Johan Goudsban, mais especificamente Public health and the civilizing process, a autora retoma o conceito de interdependência como chave explicativa para a ação social e remete à discussão da interdependência provocada pelas doenças transmissíveis. Isso não implica simetria nas relações sociais, pois, inversamente, as desigualdades sociais se manifestam na história das doenças, do que seria exemplar a criação de Conselhos de Saúde e medidas de quarentena na Europa durante os tempos de peste. As classes altas teriam muito mais condições de proteção, refugiando-se em casas protegidas, restando aos pobres o isolamento em instituições asilares. Esse veio analítico também aparece na análise de Abram de Swaan sobre a interdependência entre Estados nacionais e a definição de políticas públicas de saúde, desenvolvida no livro In care of the State. Tema retomado por Gilberto Hochman em A era do saneamento, livro no qual realizou estudo da gênese de políticas públicas em saúde no Brasil, sobretudo o fortalecimento do papel do Estado nacional como resultado do aumento da consciência da interdependência social motivada pelas doenças transmissíveis.

Em termos contemporâneos um grande divisor de águas foi a epidemia de AIDS. O próprio termo com que a epidemia foi inicialmente denominada pela mídia, “câncer gay”, mobilizou importantes linhas de pesquisa em todas as ciências sociais, tal como se pode ver na produção da pós-graduação na área de ciências sociais e também na área de saúde pública ou saúde coletiva (termo consagrado no Brasil). Discussões sobre estigma e grupos de risco, processos de negociação entre ativistas, comunidade científica e autoridades políticas em torno de acesso a tratamentos, entre outras reivindicações, performaram a história dessa epidemia e tem valor heurístico para se pensar a Covid-19.  E também se reforçaram, durante os anos de 1980 e 1990, os estudos históricos sobre doenças sexualmente transmissíveis, a exemplo da sífilis, que no Brasil foi objeto, entre outros trabalhos, da tese, posteriormente publicada em livro, Tributo a Vênus, de Sergio Carrara.

No campo dos estudos históricos remeto os leitores à excelente coleção de textos direta ou indiretamente relacionados à pandemia publicados na página da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz. Alguns deles, a exemplo de “O laboratório e a urgência de mover o mundo”, de Simone Kropf, mobilizam os estudos sociais da ciência e perspectivas como as de Bruno Latour para nos lembrar que o papel das ciências sociais não se restringe ao impacto social, econômico e político das epidemias, mas antes nos permitem pensar as condições de possibilidade para o surgimento das doenças e sua construção como fato científico. Caminhos como esse nos ajudam a entender, ao mesmo tempo, a gênese da epidemia e a construção social dos conhecimentos a ela relacionados, uma chave de leitura importante a permitir que sigamos o percurso da Covid-19 do mercado de Wuhan aos laboratórios de virologia, à disseminação dos vírus através das viagens aéreas em um primeiro momento, até a construção dos diferentes cenários epidemiológicos e regramentos nos Estados nacionais e orientações da Organização Mundial da Saúde.

Por fim, é preciso não se descuidar da dimensão subjetiva dos fenômenos mais amplos citados. Para tanto, nos auxilia a perspectiva sociológica proposta por Norbert Elias, na qual as relações de interdependência social, entre grupos e também entre indivíduos, configuram uma economia dos afetos e nos ajudam a estabelecer uma hipótese que confere papel decisivo às ciências sociais em tempos de pandemia. De fato são as relações sociais que medeiam a relação biológica entre os corpos humanos e os vírus.

Raewyn Connell: Vale a pena prestar atenção em trabalhos sociológicos sobre outras epidemias. Ancestors and antiretrovirals (2013), de Claire Decoteau, sobre a política em torno do HIV/AIDS no país mais atingido pela doença, é bastante iluminador. Sustaining safe sex (1993), de Susan Kippax et. al, documenta a resposta comunitária criativa ao mesmo problema.

Mas, no geral, é preciso olhar para além da sociologia para encontrar textos adequados ao horror da nossa cena e à frieza do poder. Crítica da razão negra, de Achille Mbembe (2013), deve ser lida por sociólogos de qualquer forma; ela aborda a modelagem profunda da vida intelectual e cultural pela violência imperial e pela escravidão. O ensaio de Mbembe de 2003, “Necropolítica”, agora disponível num livro com o mesmo título, é a melhor anatomia do tipo de política que se desdobrou durante a pandemia. Silent Spring, de Rachel Carson (1962) é a clássica exposição da frieza e negligência do mundo corporativo não apenas com a vida humana, mas com toda vida.

Algumas respostas literárias à guerra mundial mostram autores às voltas com o poder, a moralidade e o extermínio em massa com a intensidade e escala de que precisamos. Exemplos: Matadouro 5, o romance de 1969 de Kurt Vonnegut centrado no bombardeio de Dresden, e o postumamente publicado Vida e destino, de Vasily Grossman, centrado na terrível batalha de Stalingrado.

The end of capitalism (as we knew it), livro de 1996 de J. K. Gibson-Graham é não apenas uma crítica importante de balanços hiper-sistematizados do “capitalismo”, mas também um recurso de esperança em novas formas da vida econômica para além do regime atual. Existe uma segunda edição de 2006.

Saskia Sassen: Tenho certeza de que há um número crescente de cientistas sociais interessadas(os) em abordar algumas dessas questões. Quanto a mim, estou interessada em mapear e traçar nosso uso/abuso/destruição de corpos d’água e terra fértil. Muitos vírus são afetados por nossa destruição da água e da terra. Em muitos sentidos entramos numa época na qual nos apropriamos crescentemente de terra para os nossos propósitos, o que significa que cada vez mais vírus estão se aproximando de nós… para o bem ou para o mal!

Patricia Hill Collins: A sociologia sempre teve que enfrentar o desafio de tentar compreender mudanças no mundo social enquanto elas aconteciam. Se não soubermos ler os sinais que nos cercam por nos apegarmos demais a nossas crenças sociológicas, vamos perder mudanças sociais importantes. Por exemplo, quem poderia esperar a emergência de protestos globais e multirraciais contra o racismo estrutural sob a bandeira Vidas Negras Importam? E quem poderia prever que eles aconteceriam no contexto de uma pandemia global? É sempre mais fácil ver as mudanças que estavam acontecendo quando elas já nos ultrapassaram.

Dito isso, a Covid-19 apresenta uma oportunidade para que a sociologia enquanto área de pesquisa possa repensar a relação entre teoria sociológica e (1) tendências mais amplas da teoria social crítica, especialmente a identificada com mulheres, pessoas de cor e outras que enfrentaram barreiras no trabalho intelectual; (2) tradições empíricas internas à sociologia enquanto ciência, em defesa da ciência ocidental contra as acusações de “fake news”, mantendo simultaneamente uma postura crítica da sua participação no racismo e colonialismo; (3) uma prática sociológica renovada que perspectivas mais teoricamente informadas tendem a evitar; e (4) a insistência para que a teoria sociológica seja mais intimamente associada a temas sociais importantes do presente, e não apenas aos interesses idiossincráticos de um teórico.

Pode parecer muita coisa, mas não é impossível. O corpus formado pelo trabalho de Zygmunt Bauman modela o tipo de teoria e prática sociológica que eu gostaria de propor. Em Para que serve a sociologia? Bauman explica como o seu trabalho tenta abordar essa ampla questão no contexto de uma longa entrevista. Em linguagem acessível, ele fornece um olhar dos bastidores para a complexidade envolvida na produção de teoria social crítica e trabalho empírico em sociologia. Como teórico social, Bauman enfrentou a questão existencial de qual uso sua sociologia teria para a análise do holocausto. O diagnóstico é de primeira qualidade – seu livro clássico Modernidade e holocausto oferece uma tese provocativa a respeito dos contornos burocráticos da naturalização e normalização do ato de matar na era moderna. Faríamos bem em nos colocar a pergunta que move o trabalho de Bauman – Para que serve a minha sociologia? Coletivamente, poderíamos perguntar Para que serve a teoria social?

As ferramentas que nos ajudarão a pensar esse mundo não podem ser receitas de bolo, algo como a escolha de um texto favorito para explicar a pandemia. Isso serviria apenas para reforçar o que já acreditamos ser verdade, em vez de desafiar nossas próprias práticas de leitura. O significado de um texto não está contido no texto em si, somos nós que o atribuímos. Precisamos nos equipar com as ferramentas do pensamento crítico para diagnosticar problemas sociais e desenvolver soluções criativas para eles. A noção de letramento e consciência crítica em Paulo Freire reverbera sua proposição da “leitura” do mundo social por uma lente dupla de diagnóstico e ação social. Estou menos preocupada em me voltar para textos que já existam à procura de orientação – há muitos textos assim na sociologia – do que em refinar habilidades diagnósticas que me capacitem a ler nossos tempos sem minhas próprias vendas.

Essa pandemia nos dá uma oportunidade para avaliar criticamente nossos estimados enquadramentos e práticas. Assim como tudo associado a ela parece estar de ponta-cabeça no momento histórico, esse também é o caso dos nossos marcos teóricos. Se formos tímidos e nos escondermos atrás de uma posição eterna de crítica do que existe, vamos desperdiçar esse momento. Se nos furtarmos a assumir responsabilidade pelos nossos argumentos e suas motivações, por definição, a teoria social acadêmica crítica será crítica cada vez mais só no nome. Os contornos do novo normal que vai emergir depois da pandemia dependem do que faremos agora para nos prepararmos para ele. Nosso ativismo intelectual está na habilidade de fazer novas perguntas, elaborar argumentos arrojados e propor estratégias de ação que resolvam problemas, e não meramente os diagnostiquem. Em termos da teoria social crítica, esse não é o momento para seguir o rebanho. Devemos pensar além do aqui e agora para imaginar a sociedade que queremos criar. E as sementes dessa sociedade estão no que pensarmos e fizermos agora.

 

 

A imagem que acompanha este post é:

••• Piet Mondrian. Composition, 1916. Solomon R. Guggenheim Museum, Nova York, EUA.

 

 

* Os textos publicados pelos colaboradores não refletem as posições da BVPS.

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