BVPS recomenda | ENTREVISTA Silviano Santiago: O literato cosmopolita, por Revista Pesquisa FAPESP

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O Blog da BVPS convida todas e todos para a leitura da entrevista “Silviano Santiago: O literato cosmopolita”, com o escritor e crítico literário Silviano Santiago, publicado no site da Revista Pesquisa FAPESP. No texto, Santiago comenta desde os anos fundamentais da sua formação e trajetória como pesquisador até suas escolhas intelectuais e inserção nos diversos ambientes acadêmicos em que militou no Brasil e em outros países.

Abaixo reproduzimos os primeiros parágrafos da entrevista e convidamos os/as leitores/as a terminarem no site do Revista Pesquisa FAPESP.

Boa leitura!

 

Silviano Santiago: O literato cosmopolita

por Christina Queiroz
para Revista Pesquisa FAPESP

 

Nascido em 1936 em Formiga, interior de Minas Gerais, a trajetória intelectual de Silviano Santiago é marcada por passagens em instituições do Brasil, França e Estados Unidos. Romancista, poeta, crítico literário e ensaísta, inovou ao ancorar suas análises sobre a literatura brasileira nas teorias dos estudos pós-coloniais.

Na década de 1970, como professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), disseminou o pensamento do filósofo franco-magrebino Jacques Derrida (1930-2004), com quem conviveu durante o período em que ensinou literatura francesa na Universidade do Estado de Nova York (Suny), em Buffalo, Estados Unidos. Como crítico, também foi um dos primeiros a incorporar documentos do período colonial brasileiro nas análises literárias, abrindo perspectivas de leitura de autores brasileiros desde o viés da literatura comparada.

Autor de cerca de 30 obras, entre romances, ensaios e livros de contos e poemas, sua produção já foi traduzida para o inglês, espanhol, italiano e francês. Agraciado com cinco prêmios Jabuti, Portugal Telecom de Literatura e Oceanos, em 2019 recebeu o Prêmio de Ensaio Ezequiel Martínez Estrada, da Casa de las Américas, de Cuba, pelo livro Uma literatura nos trópicos. No marco dos 40 anos de seu lançamento, a obra foi reeditada pela Cepe Editora no ano passado, com a incorporação de ensaios inéditos.

Nesta entrevista concedida a Pesquisa FAPESP, em seu apartamento no bairro de Copacabana, no Rio de Janeiro, Santiago falou da gênese de conceitos-chave de seu pensamento, do interesse em abordar questões relacionadas ao envelhecimento e da escassez de pesquisas que permitam mapear autores emergentes.

Vamos começar falando dos seus anos de formação?
Considero decisivos para o desenvolvimento do meu projeto intelectual e docente três anos do início da minha carreira: 1960, 1961 e 1962. Em 1948, quando tinha 12 anos, minha família mudou-se para Belo Horizonte, onde em 1959 me graduei em letras neolatinas pela UFMG [Universidade Federal de Minas Gerais]. Naquela época não havia programas de mestrado e doutorado no Brasil. Em geral, o candidato fazia concurso para tornar-se livre-docente em alguma universidade e, se aprovado, recebia o título de doutor. Por causa disso, após a graduação, quem quisesse prosseguir com os estudos tinha de sair do Brasil. Eu me interessava por literatura e cultura francesas e consegui uma bolsa da Capes [Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior] para fazer especialização em um programa da Maison de France, no Rio de Janeiro. O curso era ministrado por dois franceses e dirigido a graduados de todo o Brasil que tivessem boas notas. Fui o único selecionado de Minas. Em 1960, mudei-me para o Rio. Durante o curso, retomei de maneira mais cuidadosa e atrevida os conhecimentos sobre literatura francesa, estudando autores como o filósofo Jean-Paul Sartre [1905-1980] e os poetas Paul Valéry [1871-1945] e Charles Baudelaire [1821-1867]. Também conheci o meio literário do Rio, a partir do convívio com o escritor e jornalista Alexandre Eulálio [1932-1988]. Nesse período, tomei gosto pela literatura. O programa durava um ano e meio. Os três estudantes com as melhores notas ganhavam bolsa do governo francês para estudar em Paris. Foi o meu caso.

Como foi a experiência na França?
Outro ano decisivo foi 1961. Ingressei na Universidade de Paris, Sorbonne, com a bolsa de doutorado do governo francês. No projeto, pesquisava a gênese de Os moedeiros falsos, publicado por André Gide [1869-1951], em 1925. Eu tinha descoberto um manuscrito desse livro no Rio de Janeiro e o achado me mobilizou. Mas a bolsa era de 400 francos e com esse dinheiro não era possível sobreviver direito. Passei a trabalhar em um programa da Rádio Televisão Francesa (RTF) para o Brasil e comecei a perceber que os dois anos para a conclusão do doutorado não seriam suficientes. Foi quando um amigo me escreveu dizendo que havia sido aberto concurso para professor de literatura brasileira e portuguesa na Universidade do Novo México, em Albuquerque, Estados Unidos. Resolvi me candidatar e fui aprovado. Assim, em 1962, mudei novamente de país. Isso significa que entre 1960 e 1962 eu deixei o contexto do populismo no Brasil, cheguei à França no momento da guerra colonial contra a Argélia e fui aos Estados Unidos um ano antes de o então presidente John F. Kennedy [1917-1963] ser assassinado. No intervalo de três anos, tive a sorte de vivenciar uma experiência profissional e pessoal diversificada, em momentos cruciais da história desses países e do mundo.

Naquela época, o senhor tinha menos de 30 anos. Como enfrentou tantos desafios em intervalo tão curto de tempo?
Quando cheguei aos Estados Unidos, tive de começar a dar aulas de literatura brasileira e portuguesa. Não estava preparado. Minha especialidade era literatura francesa. Para dar conta da tarefa, suspendi o desenvolvimento da tese e comecei a estudar. Esse período da minha vida é crucial para entender por que minha visão da literatura valoriza pouco a questão do nacional. Desde cedo, o contato com diferentes contextos culturais me deu uma noção clara de que o caminho do crítico literário é o da literatura comparada. Tive uma boa formação no Brasil e na França e, de repente, me tornei professor universitário nos Estados Unidos, passando a conviver com uma sociedade que se transformava a passos de gigante, com a eclosão de movimentos sociais e estudantis. Por outro lado, observava o desenvolvimento da situação no Brasil e as circunstâncias que levaram ao golpe militar, em 1964. Ao mesmo tempo, acompanhava a onda de protestos que se espalhou pela França, em 1968, com uma das maiores greves gerais da Europa e que levou o então presidente francês, Charles de Gaulle [1890-1970], a renunciar no ano seguinte. Ou seja, tive a possibilidade de viver intensamente e in loco essas sociedades em transição. Cada uma delas me ensinou algo e muito.

Como essas experiências impactaram sua visão da literatura brasileira?
As leituras que proponho são marcadas por um viés pós-colonial e, ao mesmo tempo, inclusivo. Quando comecei a me preparar para dar aulas nos Estados Unidos, não tinha me especializado em literatura brasileira e portuguesa. As experiências no Brasil, na França e nos Estados Unidos me fizeram olhar para a literatura brasileira com certa inocência. Esse olhar me motivou a fazer questionamentos a respeito do fato de que a visão que eu tinha da nossa literatura ignorava o período colonial. Na graduação, aprendemos que nossa história literária começa no século XVIII, principalmente a partir do Romantismo, deixando de lado o período colonial. Uma das ideias mais marcantes dessa visão envolve o conceito de “formação”, que se refere ao momento em que o sistema literário brasileiro começou a se constituir, a partir da criação de um público leitor e do esforço de escritores brasileiros para explorar o que seria a genuína identidade nacional do país. Dessa forma, essa visão define que a literatura brasileira se iniciaria quando autores locais começam a refletir sobre a identidade nacional do país. O conceito de “formação” me impressiona desde aquela época. Quando montei o curso de história da literatura brasileira na Universidade do Novo México, em 1962, resolvi começá-lo com a Carta, de Pero Vaz de Caminha [1450-1500], documento que registra suas impressões sobre a terra que mais tarde seria o Brasil. Dessa maneira, propus uma leitura da nossa história literária a partir de um movimento de inclusão de documentos que não são literários. Nessas aulas, fiz uma leitura literária da carta, mostrando como ela apresenta uma metáfora capital, a da semente, que será retomada por sucessivos autores.

Continue lendo na Revista Pesquisa FAPESP.

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