A ciência e a política como vocação – o discurso de Merkel e a pandemia de Covid-19 na Alemanha, por Renata de Sá Gonçalves

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Na atualização de hoje da série Pandemia, Cultura e Sociedade a antropóloga Renata de Sá Gonçalves escreve sobre sua experiência como pós-doutoranda na universidade de Tübingen, na Alemanha, em meio à pandemia do coronavírus, propondo uma reflexão sobre a relação entre cultura política e gestão da crise sanitária a partir do diálogo com as conferências clássicas de Max Weber “A ciência como vocação” e “A política como vocação”.

Pandemia, Cultura e Sociedade é uma parceria do Blog da BVPS com a revista Sociologia & Antropologia (PPGSA/UFRJ). Assine o blog para receber as atualizações e curta nossa página no Facebook.

Boa leitura!

 

A ciência e a política como vocação – o discurso de Merkel e a pandemia de Covid-19 na Alemanha

Renata de Sá Gonçalves [i]

 

Desde dezembro de 2019, nos mudamos eu e minha família para a cidade universitária de Tübingen, no sudoeste da Alemanha. Como pesquisadora, integro a equipe do projeto de cooperação “Territórios desconfortáveis: imagens, narrativas e objetos do Sul Global” desenvolvido pelo Interdisciplinary Centre for Global South Studies da Universidade de Tübingen com a Universidade Federal Fluminense, onde sou professora. Desde esse lugar, e como estrangeira, tenho estranhado muitas rotinas, modos de se relacionar e de estar no mundo. Uma nova vida em um lugar diferente pela língua, pelos hábitos e pelas sociabilidades nos ambientes que passei a frequentar.

A pequena cidade difere também em escala da grande metrópole do Rio de Janeiro de onde venho. Aqui residem cerca de 90 mil habitantes e a maior parte deles se vincula à vida da Universidade. Desde nossa chegada, com o registro obrigatório no departamento para estrangeiros no escritório da municipalidade e a entrada na Universidade, fomos acolhidos com orientações sobre serviços públicos, apoio educacional e dicas diversas sobre a vida na cidade. Meus filhos de 5 e 10 anos ingressaram na creche e na escola pública perto de casa, a cinco minutos a pé. 

Em março deste ano de 2020, tudo mudou por aqui com a ameaça da Covid-19, causada pelo vírus SARS-CoV-2 ou novo coronavírus. Passamos a viver as restrições sociais diárias de acordo com o isolamento social instaurado, com a suspensão de atividades presenciais nas escolas e na Universidade. Apenas o comércio essencial, supermercados e farmácias permaneceram em funcionamento.

Naquele momento, a Alemanha figurava entre os países mais afetados pela pandemia, com 12 mortes e mais de 8000 casos confirmados. Com a identificação de um importante número de pessoas contaminadas e as necessárias medidas de controle, a chanceler Angela Merkel fez um pronunciamento transmitido pela televisão em 18 de março, apelando para que a população levasse com muita seriedade a pandemia que estava em curso exponencial. Em suas palavras, a Alemanha enfrentaria os maiores desafios, comparáveis aos da Segunda Guerra mundial e a sociedade alemã deveria estar preparada para uma “ação solidária coletiva”.

Em um tom sério e objetivo, Merkel destacou a gravidade e a extensão da pandemia. Em suas palavras embasadas por pesquisas e projeções, explicava que o contágio poderia atingir até 70% da população e que medidas severas eram necessárias para que houvesse um progressivo e cauteloso programa de mitigação e de controle do vírus, mas também confiava na cooperação social mais ampla devido ao desafio econômico que se avizinhava.

Em contraste com a posição de outros chefes de Estado, Merkel desde cedo diferenciou-se por não desprezar a escala do problema epidemiológico, político, econômico e social que se erguia. Para reduzir a velocidade de propagação do vírus, medidas foram tomadas como o fechamento de escolas, de vários estabelecimentos de comércio e de espaços públicos, sem contudo impor a quarentena compulsória a seus cidadãos.

Dois meses depois, em 18 de maio deste ano, os números divulgados na Alemanha era de 177.289 casos confirmados e de 7000 mortes, demonstrando a agressividade do contágio. O número de mortes, entretanto, permanecia proporcionalmente inferior ao dos países vizinhos europeus, sobretudo a Itália, a Espanha e a França, cujas taxas de letalidade se mostraram bem mais elevadas. Com as mortes numerosas na Itália, e o cenário mais positivo na Alemanha, a imprensa mundial passou a destacar este último como o país que melhor gerenciava a crise, ou um dos melhores lugares para se viver em um contexto mundial, já tomado pela pandemia.

Alguns aspectos foram levantados para os relativos bons resultados na Alemanha. Um deles seria a capacidade de realização de testes em grande escala desde os primeiros casos em fevereiro, o que permitiu rastrear e prevenir novos contágios. Outro aspecto teria sido o bem estruturado sistema de ciência, o desenvolvimento de pesquisa nas distintas áreas, e a expertise e desenvolvimento tecnológico em saúde e medicina. E ainda, a garantia de direitos básicos assegurados por uma política de bem estar social mais ampla.

Se condições preexistentes ajudavam, houve ainda forte reforço em investimentos e melhorias de condições de saúde e de planos para assegurar a economia e a manutenção de empregos. Um plano imediato para ampliar a capacidade do sistema de saúde foi colocado em prática, mesmo diante do já bem estruturado sistema de saúde alemão, um dos mais fortes da Europa, com maior número de leitos e unidades de terapia intensiva em relação proporcional à população do país. 

O novo desafio foi lidar com o controle da circulação mundial do novo coronavírus, e com sua potencial agressividade no contato com toda a população não-imune. Como indicado pelos especialistas e pelo Instituto Robert Koch (RKI, agência responsável pela prevenção e controle de doenças na Alemanha), em acordo com os dados baseados na experiência dos outros países, a diminuição do contato social foi entendida como a medida mais eficiente para se evitar uma disseminação em massa e descontrolada do vírus. Caso contrário, não haveria chance para uma preparação mais adequada do sistema de saúde, com a demanda aumentada de atendimentos nos hospitais e da necessidade de mais profissionais.

Merkel destacou os epidemiologistas, os estatísticos, entre outros tantos cientistas dedicados aos estudos em permanente curso que orientam o modo de condução das decisões políticas por meio da transparência dos dados, da projeção dos riscos de saúde, econômicos, políticos, sociais e das possíveis alternativas. Com experiência e formação em pesquisa, e título de doutorado em química quântica, Merkel soube fazer um bom balanço entre o avanço e a cautela. A potencialidade da investigação científica em testar e comprovar somava-se ao esforço necessário em não pular etapas e cumprir o passo a passo para se chegar a resultados seguros. Cada passo pensado, debatido, e avaliado permitiu uma adequada análise dos limites que se impunham como necessários.

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O mérito pessoal de uma liderança que já está há quinze anos no governo é inquestionável. Mas também há um modo de situar a crise que têm raízes sociais mais profundas.  E aqui podemos nos aproximar de algumas ideias do sociólogo alemão Max Weber, especialmente em dois de seus escritos [1] “A ciência como vocação” e “A política como vocação” publicados em 1919. Como destaca a socióloga Glaucia Villas Bôas, as conferências seriam textos sobre questões da cultura moderna: a ciência e a política, a construção da nação alemã e de um estado nacional moderno, dependente da prontidão dos indivíduos de se engajar em tarefas que exigem auto-renúncia e distanciamento. Algumas ideias abrangentes de Weber nesses dois ensaios nos inspiram a compreender a racionalidade da ciência e da política referidas a uma equação dinâmica entre meios e fins.  

Como afirmava na conferência “Ciência como vocação”, a própria prática científica contribui para a racionalidade humana, especialmente por promover o desenvolvimento de métodos de pensamento. A pesquisa pressupõe inspiração, mas também trabalho, método e rigor, e a consciência de que as verdades e descobertas não são permanentes, mas estão sempre em processo crítico de questionamento. A escolha que faz um cientista diante de um conjunto de decisões é assim ascética, auto limitada, assentada na ética da responsabilidade.

A racionalidade da ciência ocupou lugar central no tratamento dado por Merkel à pandemia, de forma a “equacionar meios e fins”. Ao mesmo tempo, um tipo de “racionalidade política” também a acompanhou. Em “A política como vocação”, Weber indicava como a racionalidade do sistema político depende de organizações políticas que balizam o poder individual e exercem o monopólio do poder de uma sociedade. “Viver para a política” ou “viver da política” são distinções necessárias à racionalidade do sistema político, cujo sucesso depende da ação especializada no desempenho e no conhecimento das organizações que limitam a atuação da política. O político que vive “para a política”, e não “da política”, representaria o tipo ideal no âmbito de atributos do político vocacionado com dedicação apaixonada a uma causa, movido pela clareza e pela conduta responsável em torno de ideais e utopias, e com senso de responsabilidade como guia de ação e de proporções.

O modelo alemão contemporâneo chama a atenção pela característica descentralizada da sua política: pouco poder para a federação, mais responsabilidades para as cidades e os estados federados. Há uma delimitação sobre o que é a função do governo federal, dos estados e das cidades e uma dinâmica colaboração entre cidades e estados. Além disso, a atuação e o reconhecimento da sociedade civil não são menos relevantes. A confiança na cooperação da população, destacada no referido pronunciamento de Merkel, se ancora na atuação das mais diversas organizações e associações locais, em bairros, em escolas, em municipalidades. As organizações estão não apenas nas capitais, mas também em pequenas cidades e em zonas rurais.

E aqui chegamos a um ponto importante: a capilaridade das tomadas de decisões que, horizontalizadas, ressoam positivamente. Senti pessoalmente esse forte aspecto de decisões compartilhadas no meu dia a dia. Na escola onde meu filho estuda, são realizadas assembléias semanalmente em que os alunos reunidos conversam, apresentam demandas e decidem coletivamente alguns encaminhamentos. Logo no início das aulas na escola do meu filho, me surpreendi com uma mensagem enviada pelos pais representantes de turma em que solicitavam doações de livros e jogos para a sala de convívio que os alunos da primeira série tinham solicitado em assembléia.

Com a quarentena, a professora da turma passou a nos contatar por telefone ou email e, logo em seguida, passou a fazer pessoalmente uma visita semanal a casa de cada aluno quando entregava um plano de trabalho e um envelope com tarefas impressas e um pirulito. Dava dicas, perguntava sobre a semana e se colocava à disposição para o que precisássemos. No mural do prédio onde moro, um morador afixou um bilhete com a oferta de ajuda para compras e o contato telefônico para realizar essa tarefa para os vizinhos que desejassem. Na caixa de correspondência, panfletos da associação do bairro com telefones de apoio psicológico. Campanhas dos lares de idosos sugeriam que as crianças fizessem cartões para alegrar os avós. Os serviços de atendimento médico por telefone e a possibilidade de realizar consultas a distância para receber orientações e realizar testes rápidos em estações de atendimento ao público em que se pode ir com facilidade foram divulgados amplamente.

No início deste mês de maio, mediante estudos e índices que comprovariam um determinado controle da contaminação pelo vírus, a chanceler se reuniu com os representantes dos estados para implementar o início do relaxamento de algumas medidas. Um novo plano passou a ser organizado em cada estado, e localmente em cada cidade. A interpretação dos dados em cada estado e cidade balizava o quanto se pode ou não relaxar algumas restrições, como e quando fazê-las. Medidas de distância entre pessoas, e do uso obrigatório de máscaras em lojas e transporte público foram adotadas. Alguns segmentos da escola começaram a retornar com atividades presenciais, horários reduzidos e número limitado de pessoas, mediante o cumprimento de medidas específicas de higiene. A Universidade passou a enviar emails mais frequentes com orientações diversas sobre novas organizações e fóruns de discussões para as atividades que seriam realizadas à distância, com o permanente monitoramento das possibilidades futuras dentro dos limites a serem adotados.

O sentimento de segurança e o de reconforto estão presentes na experiência local, de cada um, no seu cotidiano de relações. Um ponto muito caro a uma população que rejeita a limitação de liberdades conquistadas e rememoradas ao longo de sua história e tem na garantia da liberdade um valor central a ser constantemente protegido e reforçado nas atitudes de adesão e respeito às necessidades de cada um e de todos.

Em meio a toda essa conquista, sabemos como disse Merkel que “caminhamos sob uma fina camada de gelo”, demonstrando que não é possível estabelecer a guerra por vencida, quando ela ainda está em curso e longe de ter seu fim.

Diante desta trágica pandemia, poderíamos pensar que estamos todos “no mesmo barco”. Mas não. As realidades do “Norte” ou do “Sul” do Globo são muito distintas, resultadas de processos sócio-históricos próprios. Na Alemanha, a execução de ações descentralizadas vêm em seu favor engendrando a capilaridade de modos de organização e de tomada de decisões. O poder central coordena e não impõe as regras propostas. Não é necessariamente um modelo a ser copiado e reproduzido, mas bom para pensar.

Os países da América do Sul têm seguido trilhas bem mais tortuosas,  por sua tradição histórica, os processos de colonização, os violentos processos de ocupação de territórios e de desigualdades sociais de longa data. No Brasil, país com escala continental com uma população de 209,5 milhões de habitantes e com enormes diversidades sociais, culturais, étnicas, a gestão da pandemia nos leva a desafios imensos e ao encontro com paradoxos e ambivalências socioculturais já estruturais. De um lado, o país apresenta forte atuação na pesquisa científica, inclusive na produção de conhecimento e de tratamento de doenças endêmicas, a exemplo da atuação da Fundação Oswaldo Cruz-FIOCRUZ, vinculada ao Ministério da Saúde, a mais destacada instituição de ciência e tecnologia em saúde da América Latina e também das universidades públicas que se espalham por todo o país (ainda que diante de menos investimentos sistemáticos). De outro lado, há o país que é atravessado pela “política para si”, que ameaça o espírito crítico e científico, a liberdade de pensamento e as responsabilidades.

Racionalidades outras são presentes no sul do Globo. No texto publicado no blog por Els Lagrou, ao dar lugar aos Huni Kuin do Acre e do Leste da floresta amazônica peruana, a antropóloga nos apresenta filosofias ameríndias, ontologias relacionais dessas minorias indígenas que habitam a América do Sul, como uma forma alternativa e mais global de compreender o universo da floresta habitado por uma multiplicidade de espécies que são sujeitos e negociam seu direito ao espaço e à própria vida. Outros estudos no âmbito das religiões afro-brasileiras, apontam para a sua imensa variedade e criatividade nas formas relacionais de compreensão do mundo, não havendo pois a existência de algo como uma doutrina unívoca. Nas grandes cidades brasileiras, líderes comunitários atuam de forma corajosa, coordenada e eficiente, distribuindo tarefas e papéis na organização de medidas de proteção e ajuda a moradores de seus bairros e favelas.

As políticas, no seu sentido mais amplo, que em alguns âmbitos são ricas e complexas, em outros, são esmagadas pela irresponsabilidade ou por completo descaso. Em meio a falta de ações e medidas coordenadas de governo, o Brasil na metade deste mês de maio de 2020 registrava 13.149 mortes causadas pelo novo coronavírus, números que crescem exponencialmente com perto de 200 mil casos confirmados da doença. Diante da omissão deliberada do atual governo, a doença atinge fortemente os centros urbanos, sendo especialmente crescente em periferias e favelas, mas também tem avançado tragicamente em meio a comunidades tradicionais e populações indígenas.

As alternativas sociais mais capilares, relacionais, talvez sejam as que devem ser mais cuidadas e as que potencializam ações mais dinâmicas, participativas e adequadas a cada realidade. Como refletia Weber, a ciência contribui para o “ganho da clareza” sobre si e sobre os processos sociais. Que a clareza possa ser conquistada em cada uma das partes desse imenso planeta.  E as experiências sociais possam abrigar horizontes alternativos.

 

Notas

[i] Professora do Departamento de Antropologia e do Programa de Pós-graduação em Antropologia da Universidade Federal Fluminense. Atualmente realiza pós doutorado na Universidade de Tübingen, Alemanha (PROBRAL – Capes/DAAD)

[1] Segundo Villas Bôas, questiona-se se Max Weber pronunciou as conferências “Ciência como vocação” e “Política como vocação” em 1918 ou consecutivamente em 1917 e 1918. Estudiosos de Weber concordam que as duas conferências foram dirigidas aos jovens estudantes alemães da Associação dos Estudantes Livres da Baviera, que convidou o mestre e promoveu os dois eventos na Universidade de Munique. Fatos históricos relevantes haviam modificado o destino político e geopolítico da Europa naqueles anos. O Segundo Império alemão sofrera uma grave derrota militar, enquanto a Revolução de Outubro fora vitoriosa na Rússia; desfizeram-se as monarquias e os impérios austro-húngaro, germano e turco-otomano. VILLAS BÔAS, Glaucia. (2008), “Weber entre Duas Vocações”. Cult, Revista Brasileira de Cultura, Ano 11, no 124, pp. 58-61.

 

As imagens que ilustram o post têm a mesma autoria do texto e foram gentilmente cedidas para publicação no Blog da BVPS.

Legenda da primeira foto: Pequena loja de roupas no centro histórico da cidade de Tübingen. em 16 de maio de 2020. No quadro se lê: Pro Person eine Postkarte vom Teller nehmen. Ist keine Postkarte auf dem Teller bitte warten!  Um cartão postal por pessoa para pegar no prato. Se não houver cartão postal no prato, por favor espere!

Legenda da segunda foto: Pequena loja de roupas no centro histórico da cidade de Tübingen. 16 de maio de 2020. No quadro se lê: Bitte haltet Abstand 1,50m. Nur mit Maske und bis zu 3 Personen im Lädke. Por favor, mantenha uma distância de 1,50m. Somente com máscara e até 3 pessoas na loja.

* Os textos publicados pelos colaboradores não refletem as posições da BVPS.

3 comentários

  1. Excelente texto. Lamentamos a ausência, em nosso País, de políticos vocacionadas, que realmente estejam engajados em uma luta social, não somente contra essa pandemia, mas também em favor da própria humanidade. Parabéns a antropóloga Renata Gonçalves.

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