Simpósio 8 | Mundo Social e Pandemia

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O Blog da BVPS publica hoje o oitavo post do simpósio internacional Mundo Social e Pandemia, uma parceria com a revista Sociologia & Antropologia e a Sociedade Brasileira de Sociologia (SBS). A organização é de Andre Bittencourt (UFRJ e editor do Blog da BVPS) e Maurício Hoelz (UFRRJ e editor de S&A).

No simpósio, sociólogas e sociólogos do Brasil e do exterior responderam a um questionário com 4 perguntas, elaborado com a expectativa de indagar as diferentes dimensões sociais da pandemia e os desafios que ela representa para a sociologia. Mundo Social e Pandemia sai às terças e quintas no Blog da BVPS, sempre com as respostas de 5 colegas. Para ver os outros posts da série, basta clicar aqui. As versões originais das contribuições enviadas em inglês e francês são disponibilizadas nesta página, que será sempre atualizado. Para acompanhar as atualizações do Blog, siga nossa página no Facebook.

Hoje teremos como convidados/as:

Craig Calhoun, professor de Ciências Sociais da Universidade do Arizona, Estados Unidos, e professor honorário da London School of Economics, Inglaterra. Autor, entre outros, de Does Capitalism Have a Future? (em colaboração) e Nations Matter: Citizenship, Solidarity, and the Cosmopolitan Dream.

Luiz Gustavo da Cunha de Souza, professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Autor, entre outros, de Reconhecimento como Teoria Crítica? A formulação de Axel Honneth e Reconhecimento, redistribuição e desreconhecimento. Um debate com a Teoria Crítica de Axel Honneth.

Luiz Antonio de Castro Santos, professor visitante sênior/CAPES na Universidade Estadual do Maranhão. É professor aposentado do Instituto de Medicina Social (IMS) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Autor, entre outros, de O pensamento social no Brasil: estilos, idiomas e Contrapontos: ensaios sobre saúde e sociedade.

Marcia de Paula Leite, professora titular do Departamento de Ciências Sociais na Educação da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Autora, entre outros, de O trabalho em crise: flexibilidade e precariedades (organizadora) e O futuro do trabalho. Novas tecnologias e subjetividade operaria.

Pablo de Marinis, professor da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Buenos Aires e pesquisador do CONICET, Argentina. Autor, entre outros, de Exploraciones en teoría social. Ensayos de imaginación metodológica e Comunidad: estudios de teoría sociológica.

 

1. Sociólogos/as e cientistas sociais, em geral, estão se mostrando mobilizados/as para produzir e compartilhar interpretações sobre os efeitos sociais e políticos da pandemia. A teoria sociológica está equipada para enfrentar o desafio de compreender/explicar o fenômeno?

Craig Calhoun: A teoria sociológica é um campo vasto de recursos, não uma série de instruções precisas para produzir explicações. Isso é crucial para entender a Covid. Obviamente, a Covid é uma questão biológica e de saúde individual, mas igualmente óbvio é o fato dela ser uma doença infecciosa transmitida pelo contato social. Fatores sociais como a desigualdade, a forma como o trabalho é organizado e a moradia é construída modelam seus efeitos. Assim como o fazem as respostas socialmente organizadas – interromper ou não viagens, deixar de comer fora ou acabar com reuniões públicas. E como o fazem as infraestruturas socialmente organizadas, como sistemas de comunicação que permitem a alguns – principalmente os mais privilegiados – trabalhar de casa enquanto sistemas de entrega os fornecem comida e suprimentos – para os que podem comprá-los.

Para entender tudo isso, precisamos de insights durkheimianos sobre solidariedade e anomia; insights marxistas sobre contradições sociais, desigualdade de classe e ideologia; insights weberianos sobre racionalização e burocracia; insights feministas sobre o trabalho de cuidado social e onde ele está visível e invisível na ordem social; insights duboisianos ou em teoria crítica racial sobre as complexidades da identidade, consciência, poder e inclusão social; teoria da dependência ou do sistema-mundo para enxergar os padrões globais. Na verdade, é bom que diferentes perspectivas produzam explicações em disputa, já que elas iluminam diferentes aspectos dos objetos que tentamos entender e nos encorajam a pensar com mais afinco no todo. É claro que às vezes as explicações estão erradas, são testadas e descartadas. Mas em geral elas são fragmentos de um panorama maior que ainda não somos capazes de ver com clareza. Então sim, a teoria sociológica está equipada para a tarefa – se a usarmos criativamente e mesmo acrescentando a ela.

Luiz Gustavo da Cunha de Souza: Sim. É evidente que se trata de um fenômeno novo cuja forma imediata, a ocorrência de uma patologia viral, parece ser tema das ciências médicas. Todavia, as implicações de uma mudança radical e compulsória das formas de sociabilidade, de interação e de experiência do mundo social são temas para os quais as ciências sociais, e a sociologia em particular, fornecem as categorias incontornáveis de reflexão. Nesse sentido, seria preciso se perguntar, antes, se é possível haver explicações para os efeitos sociais e políticos da pandemia fora das ciências sociais. Feita essa ponderação, um segundo ponto a ser notado é que, de modo quase paradoxal, tanto a especialização científica quanto a interdisciplinaridade que marcam tendências opostas das ciências sociais nas últimas décadas contribuíram para que a teoria sociológica possa, nas atuais circunstâncias, incorporar as experiências de outras disciplinas e mesmo de outras áreas da ciência para ajudar a compreender a pandemia do Covid-19. Certamente também é necessário ter o cuidado de não exagerar a capacidade explicativa da teoria sociológica, antes de mais nada porque se trata de um fenômeno novo, inesperado e inusitado, cujos efeitos dificilmente serão unívocos. Mas também porque a teoria sociológica deve poder se considerar equipada para oferecer explicações adequadas para um determinado evento quando categorias que fazem parte de seu arcabouço são mobilizadas para analisar o tempo presente. Assim, não é tanto se o que a sociologia disse sobre a pandemia e seus efeitos faz sentido que deve ser considerado acertado, mas se o que se pode dizer sobre a pandemia precisa da teoria sociológica para fazer sentido, então pode-se afirmar que essa teoria é adequada para a explicação e a compreensão daquilo que ocorre.

Luiz Antonio de Castro Santos: Se hoje temos acesso à literatura nacional sobre pandemias que devastaram populações inteiras (veja-se a obra de Liane M. Bertucci e meu próprio texto sobre a cólera – “Itinerário do Medo”), note-se, no entanto, que o tempo foi o que “maturou” esses textos, essas e outras interpretações. O mesmo ocorre com a literatura internacional, que parece fazer o melhor uso da teoria sociológica – sobretudo histórico-sociológica – depois de um longo tempo de “maturação”. O clássico do grande historiador William McNeill, Plagues and peoples, data dos anos 70! Então, cabe sugerir que, diferentemente das ciências da saúde e da epidemiologia, que podem levantar pistas e sugerir análises e caminhos interpretativos quase “on the spot”, as ciências sociais trabalham mal no curto prazo, diante de fenômenos epidêmicos de toda natureza. Mas, para além das barreiras do tempo, a teoria sociológica está equipada para enfrentar os desafios postos pelas epidemias e pandemias de terrível impacto social.

Marcia de Paula Leite: Eu não posso responder por todas as áreas da sociologia, porque não as acompanho, mas na área da sociologia do trabalho, tenho visto muitas iniciativas nesse sentido. Acho que a teoria sociológica nos dá muita base para podermos compreender e interpretar o fenômeno.

Pablo de Marinis: Desde la irrupción de la pandemia ha habido una verdadera explosión de contribuciones en el campo científico-social en todo el mundo. Tanto en intervenciones breves en las redes sociales como en textos más extensos en revistas o periódicos político-culturales, muchxs colegas han sentido la necesidad o se les (se nos) ha pedido que interpreten (interpretemos) los perfiles de este “nuevo mundo” emergente ante nuestros ojos. Esto no debería sorprendernos. Después de todo, es nuestro trabajo, y se nos paga un salario (también) para hacer precisamente eso. Las ciencias sociales siempre han estado comprometidas con la creación de imágenes del mundo.

Ahora bien, la pregunta acerca de si la teoría sociológica está bien equipada (o no) para asumir este desafío, en su generalidad, me resulta de muy difícil respuesta. Intentaré de todos modos hacerlo. La pandemia (y la cuarentena) nos han sorprendido en la situación en la que nos encontrábamos antes como sociedad (con sistemas de salud y seguridad social fuertes o débiles, con mercados de trabajo protegidos o precarios, con gobiernos más o menos democráticos) y como individuos (en la familia, en la vivienda, en las redes relacionales, y en el puesto de trabajo que teníamos). Queda por elucidar si de todo esto saldremos mejores (más allá de lo que quiera entenderse por “esto” y por “salir”, e incluso por “mejores”). Lo mismo vale para las teorías con las que contábamos. Es necesario ponerlas ahora a funcionar en esta coyuntura excepcional, y ver qué sucede con ellas, si reaccionan bien, si resisten el desafío. Si pasan el examen, quizás podamos explorar qué nuevos rendimientos nos van a dar. Pero, más importante aún, si no superan la prueba, me parece fundamental estar dispuestos a revisarlas o descartarlas. En el marco de esa intensa proliferación discursiva de la que hablaba más arriba, pocos ejercicios resultan más patéticos que los de quienes (por pereza, por comodidad o por temor) se aferran obstinadamente a sus esquemas interpretativos previos, aun cuando ellos puedan haber envejecido de manera irremediable.

 

2. Como a sua área de pesquisa especializada pode contribuir para a reflexão sobre diferentes dimensões desse fenômeno?

Craig Calhoun: Para entender a crise da Covid – tanto pela doença quanto pelas respostas a ela – é necessário pensar de uma só vez a respeito da organização social em larga escala e de forma mais local e nas relações interpessoais. Tendemos a separar esses níveis como se fizessem parte de questões diferentes. Algumas pessoas estudam o sistema-mundo moderno e algumas estudam comunidades locais.Vejamos as redes através das quais a doença se espalhou. Nós normalmente e de forma correta apontamos para a globalização e os padrões de transmissão internacional. Mas os padrões locais e mesmo domésticos são igualmente importantes. As conexões entre os diferentes níveis são cruciais. E nós subestimamos o quanto elas mudaram e estão mudando. O termo “distanciamento social” se tornou comum para descrever a prática da manutenção de distância física entre pessoas que, em outras condições, interagiriam face a face. Ele pode ser algo frustrante, doloroso e solitário. Não é possível para todos. E lembra às pessoas o quanto elas valorizam interações sociais das quais frequentemente não faziam muita questão. Procurar saber de amigos e família passou a ser uma nova rotina diária. Tentamos deixar de nos distanciar socialmente até quando estamos distantes fisicamente.

A perturbação nas relações interpessoais diretas nos fazem ver sua importância. Por exemplo, as universidades mudaram abruptamente suas aulas para o ambiente on-line. Isso trouxe os seus próprios problemas, e há muito debate a respeito do que se perde na mudança do cara-a-cara para o on-line. Mas isso também é uma demonstração do fato de que nós temos ferramentas para nos conectar a distância. Acadêmicas e acadêmicos usam o e-mail e ferramentas de videoconferência para os mesmos objetivos. Assim como movimentos sociais, que não são apenas grupos de protesto mas organizações. Sociedades modernas são grandes demais para se costurarem apenas com relações diretas pessoais.

Ao mesmo tempo que a pandemia nos faz valorizar comunidades locais e espaços públicos, ela também nos demonstra a importância de relações sociais indiretas. Mercados, sistemas de transporte e meios de comunicação são os veículos óbvios para esse tipo de ligação de longa distância. Mas eles podem ser o suporte de uma variedade de diferentes estruturas de relações sociais. A Amazon e outras grandes corporações não são simplesmente “o mercado”. A organização dos mercados em si se transformou. Não à toa eles se tornaram menos centrados em locais físicos – centros comerciais deram lugar a lojas, depois a shopping centers e agora a uma “economia logística” que usa armazéns e sistemas de transporte mas conta com bem menos conexão face a face. Isso tem relação próxima com a priorização da eficiência sobre a resiliência. Por exemplo, quando carregamentos saindo de Wuhan, na China, foram interrompidos para conter o vírus, fábricas de automóveis na Coreia tiveram que paralisar a produção porque faltavam peças. Mais significativo ainda, talvez, seja o fato de que sistemas de saúde e hospitais sofreram escassez de equipamento de proteção para seus trabalhadores porque, em vez de estocar, dependiam de compras “just in time” na economia logística.

Luiz Gustavo da Cunha de Souza: A teoria social é aquele tipo de reflexão que não trata diretamente de um objeto empírico, mas também não se dirige privilegiadamente à reflexão sobre a própria teoria, isto é, sobre suas condições de produção ou sobre sua lógica interna. Em termos amplos, teoria social é uma reflexão sobre a experiência coletiva de fazer parte de um mundo social e sobre as formas, reais e possíveis, dessa experiência. Já nessa forma genérica, sua contribuição para a análise de uma pandemia que possui como uma de suas principais características a alteração radical da organização social é visível. Isso porque o isolamento social que foi a primeira resposta à propagação do coronavírus – e também a resistência à quarentena, seja sob a forma de uma alteração das disposições sociais para a interação, seja sob a forma do negacionismo científico, ou ainda da perversão política – afeta diretamente nossos laços com o espaço em que nos encontramos e, consequentemente, com as relações e formas de interação entre indivíduos, com o ambiente social e com a natureza que são possíveis e desejáveis agora e no futuro. Indo um pouco mais a fundo na questão, uma das características da teoria social é a formulação de paradigmas, ou, posto de outro modo, de teorias sobre a sociabilidade. Nesse caso, tanto reflexões que caracterizaram e qualificam diferentes aspectos das sociedades em que vivemos, quanto reflexões a respeito da natureza mesma das sociedades modernas têm se mostrado frutíferas para entender a situação atual, revelando que a teoria social, muito longe de ser uma área de conceitos abstratos, pode contribuir enquanto instrumento de descrição, análise e crítica da situação atual.

Luiz Antonio de Castro Santos: Na verdade, as múltiplas áreas de pesquisa em ciências sociais e humanas têm a varinha de condão para uma espécie de mutação e “sensibilização” incomparáveis, para dar conta de múltiplos fenômenos! Tal não ocorre, por contraste, com os princípios e métodos da epidemiologia ou da demografia, para citar campos epistêmicos distintos da ciência social. Veja-se o amplo leque de temas cobertos, por exemplo, pela revista Contexts, da American Sociological Association. Um “cardápio” variadíssimo, se vale o bom humor. Ou, para inglês também ver, confrontem-se os campos cobertos pela revista Contemporary Review, igualmente da ASA. Minhas áreas de pesquisa “especializadas”, a sociologia histórica da saúde e a saúde coletiva, contribuem para entender o modo pelo qual nações (modos de vida, símbolos e identidades) são impactadas por uma pandemia, e, da mesma forma, Estados e líderes são fortalecidos ou fragilizados (políticas públicas, segurança nacional e armamentos, inclusão e exclusão social de etnias, minorias, raças, gênero). Mas vejamos as áreas, digamos, consagradas da sociologia. A exemplo de desigualdades e iniquidades; interação social, laços sociais e laços de sangue; trabalho e organizações; emoções e identidades; ideologias e “cultural production”; movimentos sociais e estados; normas, leis e controle social; saúde, enfermidade, medicina; teorias e epistemologias; metodologias e técnicas de pesquisa. (Apenas percorri os temas tratados, há vinte anos, em um único exemplar de Contemporary Sociology, volume 29, número 5, 2000). Todas essas áreas de pesquisa têm uma palavra a dizer, não a silenciar, sobre uma pandemia. Então, cada uma de nossas “áreas especializadas”– privilégio da ciência social – está apta a contribuir para a reflexão sobre inúmeras dimensões do fenômeno “pandemia” e seus impactos sobre a vida humana. “Minha” área, ainda que se destaque pela relação direta com “saúde, enfermidade, medicina”, está longe de ocupar uma posição hegemônica.

Marcia de Paula Leite: Como já antecipei a sociologia do trabalho tem produzido muita coisa sobre o tema. No caso do Brasil, como não podemos desvincular a pandemia do contexto político que estamos vivendo, de uma crise política profunda, nem das transformações que vêm ocorrendo nas relações de trabalho desde 2017, a sociologia do trabalho tem produzido muita coisa analisando as medidas provisórias que vêm sendo editadas pelo governo na área do trabalho, seus efeitos deletérios sobre os trabalhadores e trabalhadoras, assim como as implicações da maneira errática como os governos vêm enfrentando a crise sanitária sobre os trabalhadores/as, especialmente os informais, os trabalhadores por conta própria, e, sobretudo, os da periferia, sem deixar de lado, obviamente, os assalariados/as.

Pablo de Marinis: Mi campo de especialización tiene dos aspectos interrelacionados. Uno es teórico-conceptual, el otro es metodológico. Dentro del primero, vinculado al estudio de teorías sociales clásicas y contemporáneas, mi trabajo se ha centrado mayormente en los conceptos de “comunidad” y de “masas/multitudes”. En el segundo, me han interesado sobre todo los procesos de importación-exportación cultural entre “Sur” y “Norte”, los cambios conceptuales derivados de estos procesos y, más precisamente, las formas mismas de analizarlos.

No pretendo meramente legitimar mi propio espacio académico, pero creo tener algunos elementos de reflexión para ofrecer de cara a las reconfiguraciones de la vida colectiva que están emergiendo ante nuestros ojos. En las teorías sociales, “comunidad” y “masas” siempre han designado determinadas formas de vinculación social. Con gran probabilidad, de la mano de la pandemia y sus efectos, estas formas van a resignificarse en el futuro, por ejemplo, en el nuevo alcance que en ellas pase a tener la co-presencialidad. No es ahora la primera vez que en la historia de estos conceptos se experimenta un “revuelco” de lo que venía manifestándose previamente (como en su momento fue el pasaje de la “crowd” a la “mass”, o la propia idea de “comunidad imaginada”). Lo único claro es que, por el momento, no nos resulta posible saber si estos cambios serán provisorios, y luego de un cierto tiempo recobrarán su forma previa; o bien si asumirán nuevos formatos más o menos estables. Y todo esto vale tanto para los actores sociales legos que participan de estas cambiantes formas de vinculación social, como para quienes, en su condición de expertos, toman esas configuraciones como objeto de análisis.

Vivimos un momento histórico en el cual las diferencias entre “Sur” y “Norte” se vuelven más irrelevantes que nunca, porque la pandemia no se ha detenido ante las fronteras, y ha atacado de manera igualmente impiadosa países con las más disímiles formas de organización social, política, religiosa, etc. Pero a la vez se refuerza el alcance de las diferencias previamente existentes entre regiones, y aún dentro de ellas. Valga esto sólo como un ejemplo para subrayar el hecho de que nuestro presente está signado por una fuerte ambivalencia, pero que no es ésta la primera vez en la que ello sucede (¿no decían esto mismo los sociólogos clásicos acerca de la modernidad y el capitalismo?). Lo que vuelve a quedar claro una vez más es que si las teorías sociales no se ponen a la altura de la multidimensionalidad de este escenario, quedarán condenadas a ser apenas comentarios deshistorizados y empecinados en que las cosas funcionen como ellas quieren que lo hagan, pero ciertamente poco capaces de la descripción y el análisis de las complejidades emergentes.

 

3. A pandemia estaria provocando mudanças sociais, políticas e/ou culturais profundas? Ou acelerando tendências já em curso? Se sim, é possível vislumbrar os contornos das sociedades pós-Pandemia?

Craig Calhoun: Na maioria dos aspectos a pandemia está acelerando tendências em curso, mas ela também pode ser um ponto de ruptura. Ela coloca pressões imensas sobre governos democráticos que já vinham enfraquecidos pelas lutas contra o populismo – e pela junção de corrupção e condescendência das elites que ajudaram a moldar o populismo. É bem provável que ela intensifique ainda mais a concentração de renda entre os riquíssimos que o neoliberalismo, a financeirização e o capitalismo global ajudaram a produzir. Muitos líderes estão adotando o nacionalismo beligerante, não apenas ao culpar uns aos outros, mas ao permitir o declínio da cooperação e de instituições globais. Os danos podem vir a longo prazo. Nós podemos acabar nos mantendo dependentes de sistemas de larga escala compostos por relações indiretas, mas com bem menos capacidade de governá-los para o bem público. É claro que também podemos observar um cenário de solidariedade nacional reforçada e fortalecida, mas há poucos países em que os cidadãos estão se mobilizando efetivamente nesse sentido.

Uma das grandes perguntas é como confrontar a pandemia – e a resposta global desigual – e se essa forma também modificará o nosso combate às mudanças climáticas. Eu não tenho essa resposta, mas me parece provável que no curto prazo a emergência econômica privilegiará aqueles que afirmam que a garantia de empregos passa na frente de salvar o meio ambiente ou reduzir as emissões de carbono. No longo prazo, contudo, a experiência da pandemia pode fornecer suporte àqueles que salientam que não precisamos exclusivamente de crescimento econômico, mas de uma economia diferente.

Luiz Gustavo da Cunha de Souza: É difícil dizer se a pandemia do Covid-19 produz rupturas ou acelerações de tendências. Teóricas e teóricos de cada uma dessas vertentes gostariam de interpretar a presente situação através das lentes analíticas que vêm utilizando em suas análises já há tempos e possivelmente teriam contribuições instigantes a fazer em cada uma das direções. Essa riqueza de perspectivas que marca as ciências sociais e a sociologia, porém, não deveria desviar a atenção nem do choque e da surpresa causados pela crise sanitária e nem das condições sociais em meio às quais ela ocorreu. Eventos sociais, afinal, não são raios num céu azul. Assim, mais do que a questão das mudanças profundas ou da aceleração de tendências é preciso refletir sobre o fato de que eventos distópicos ou revolucionários são uma possibilidade real no mundo em que vivemos e, principalmente, que esses eventos ocorrem sobre uma base de relações sociais concretas. Durante a pandemia do Covid-19 tais indagações ajudariam a pensar em que medida a contaminação causada por um vírus, algo que à primeira vista parece escapar à ação coletiva dos seres humanos, se relaciona com as condições de competição científica tornadas naturais em sociedades contemporâneas ou ainda como encarar o fato de que é sempre tarde demais para pensar em alternativas que impeçam que os efeitos sócio-econômicos de um fenômeno como esse atinjam de modo privilegiado as camadas mais pobres da população. Isso sim permitiria refletir sobre a relação entre o presente e seu passado imediato, mas também identificar os contornos de uma necessária mudança após o fim da pandemia, mudança na qual termos como segurança social, renda básica universal e solidariedade deverão desempenhar o papel de horizonte possível e necessário.

Luiz Antonio de Castro Santos: A meu ver, a pandemia deverá mudar padrões e estilos sociais de vida – e que não configuram tendências “já em curso”. Se excetuarmos grupos sociais e elites políticas infensas a qualquer “mudança de curso” – correntes que se posicionam, por exemplo, contra verdades aceitas mundialmente, tais como desastres ambientais – o papel legítimo atribuído ao discurso científico pareceria ser um fato sociológico dificilmente previsível antes da pandemia. Veja-se, por exemplo, a aceitação crescente de fatos estatísticos ou hipóteses sobre enfermidades, mortalidades ou letalidades – uma postura “pró-ciência” que, no passado, produziria risinhos de mofa. Em 4 de maio, por ocasião da Marcha Virtual pela Ciência, promovida pela SBPC, essa mudança de curso da opinião pública foi destacada em pronunciamento do antropólogo Alfredo Wagner, da qual retiramos uma passagem exemplar: “Eu gostaria de ressaltar a relação entre a pandemia e o processo de recuperação da autoridade científica e institucional da Universidade, enquanto se revela como lugar social de produção e reprodução do conhecimento científico”. Excelente pronunciamento do conselheiro da SBPC.

Marcia de Paula Leite: No nosso caso, a pandemia está provocando um aprofundamento das mudanças em curso desde a reforma trabalhista de 2017. Isso significa uma insistência na ideia de que os trabalhadores/as não precisam de proteção estatal, nem sindical, mas devem ser deixados à livre negociação das condições de trabalho com seus empregadores. Se isso não for obstaculizado, a tendência é de que as consequências para os trabalhadores/as no pós-pandemia sejam absolutamente desastrosas: de um lado, trabalhadores precarizados, mal pagos, terceirizados, em trabalhos parciais, intermitentes e autônomos, sem proteção social; de outro lado, sindicatos fragilizados, sem condições de protegê-los.

Pablo de Marinis: Para calibrar adecuadamente el alcance de los cambios en curso, creo que será necesario tomar la precaución de no sucumbir ante dos tendencias habitualmente presentes en numerosos análisis sociales, y que me parecen igualmente erróneas. Una, la que parte del básico supuesto de que “no hay nada nuevo bajo el sol”. Otra, la que postula la “absoluta novedad” de las configuraciones emergentes. A la primera, con su insistencia en el eterno retorno o en la persistencia de “lo mismo”, podría escapársele de las manos la irrupción de fenómenos que quizás sean enteramente nuevos (la “tesis del cambio social profundo” sugerida en la primera pregunta). A su vez la segunda, al abonar unilateralmente la idea de “lo nuevo”, podría perder densidad histórica en su incapacidad de reconocer que lo presuntamente novedoso quizás sólo exhiba un cambio de grado o de intensidad de lo ya existente con anterioridad (es decir, la “tesis de la aceleración” indicada en la segunda pregunta).

Como puede verse, a las dos preguntas las estoy contestando simultáneamente por “sí” y por “no”. Eso es, por el momento, lo único para lo que me siento autorizado, con las herramientas teóricas con las que cuento y con las extremadamente precarias evidencias hasta ahora construidas. Creo que necesitaremos algo de tiempo y de perspectiva histórica para que los estados de cosas hoy en plena ebullición y excepcionalidad se estabilicen de alguna forma, y así poder elucidar estas cuestiones con algo más de precisión (¡el viejo tema del viejo búho de Minerva hegeliano, reloaded!). Un momento en el cual en buena parte de la humanidad se han detenido los sistemas de producción, de transporte, educativos, de entretenimientos masivos, las migraciones y muchos etc. más, no parece ser el más proclive para alumbrar diagnósticos de futuro muy contundentes.

 

4. Que obra(s) da sociologia e das demais ciências sociais podem nos ajudar a compreender e a conversar sobre os desafios em curso?

Craig Calhoun: Bem, um monte. É crucial trazer a ciência social para a compreensão pública agora, assim como para a produção de explicações melhores no longo prazo. No SSRC (Social Science Research Council), liderei esforços para encorajar a “ciência social em tempo real” com engajamentos analíticos imediatos. Alcançando milhões pela internet e um pouco menos que isso por múltiplos livros, abordamos assuntos que iam dos ataques de 11 de setembro nos Estados Unidos e a securitização global que se seguiu a eles, ao furacão Katrina e os impactos da desigualdade e falta de planejamento que ele expôs, à crise financeira de 2008-9 que enfatizou as fortes pressões para que tudo voltasse ao normal e consequentemente o fracasso em abordar problemas mais profundos. É crucial apontar para o fato de que a iniciativa contava com a mobilização de conhecimento em ciências sociais e análise, não apenas a expressão de opiniões.

É importante aprender com estudos sobre HIV/AIDS, Ebola e SARS. Unprepared, de Andrew Lakoff é excelente a respeito do que aprendemos e não aprendemos em termos de preparação em saúde desde a Guerra Fria. Mas também é importante estudar “condições sociais pré-existentes” que, como condições médicas pré-existentes, determinam resultados. Existem livros recentes importantes como o de Thomas Pikkety sobre o capital, Shoshana Zuboff sobre o capitalismo de vigilância e os de Andrew Lakoff. Eu recomendaria especialmente um retorno a The Great Transformation de Karl Polanyi para compreender não a doença infecciosa, mas como o poder, interesses materiais e a ideologia se combinam para moldar respostas desumanas para o sofrimento humano.

Luiz Gustavo da Cunha de Souza: Seria injusto apontar uma ou uma pequena porção de trabalhos das ciências sociais nesse momento, mas não é má ideia atentar para trabalhos que adotaram uma perspectiva sociológica reconstrutiva, ou mais especificamente de reconstrução normativa, como reflexões que ajudam a entender como e por quais trajetos as sociedades se tornaram aquilo que se tornaram. Na medida em que visam explicar a reprodução social por meio da legitimação de normas, valores e ideais, reconstruções normativas são perspectivas teóricas que analisam a história das sociedades com uma lupa na qual as ações coletivas, grupos sociais, instituições, disputas por poder e conflitos se deixam entender menos pelos objetivos de transformação e mais pelos processos que institucionalizaram formas de vida. Diante da crise atual, são teorias e trabalhos que podem explicar criticamente, por exemplo, como e porque as sociedades ocidentais agora enfrentam os desafios causados pela pandemia em um contexto de vulnerabilidade das populações carentes, de desmonte da seguridade social, de exacerbação da meritocracia neoliberal, de ceticismo frente à ciência e do suprematismo frente à natureza. Essa crônica das metamorfoses do social nas últimas décadas do século XX e início do século XXI tem renovado a teoria crítica da sociedade e mostrado como o desmonte da sociedade das regulamentações, por um lado, rendeu avanços importantíssimos (por exemplo, com a crescente e bem-vinda receptividade à desregulamentação dos papéis de gênero nas sociedades ocidentais e a consequente crítica à divisão sexual do trabalho) e em outros casos levou a situações trágicas, como revela a desesperadora situação daquelas pessoas que se viram obrigadas a enfrentar a pandemia recorrendo à economia de aplicativos. Que, em ambos exemplos, as desigualdades de gênero e as atividades profissionais desregulamentadas recebem o impacto frontal da crise atual, só reforça a importância de que se investigue como se pôde chegar até aqui.

Luiz Antonio de Castro Santos: Penso em intelectuais de belíssima produção científica – ambos já falecidos. Primeiramente, a contribuição de Paul Singer. Uma das obras de nosso “Paulo”, que contempla desafios pré- e pós- o fenômeno mundial da atual pandemia, foi publicada em Portugal recentemente, organizada por Rui Namorado para a Editora Almeidina: Ensaios sobre economia solidária. Um segundo texto esclarecedor – sem falhas, nem vacilações – foi escrito pelo também “nosso” – o portenho Guilhermo O’Donnell – intitulado Democracia delegativa?. Ainda que procurem dar conta de outros contextos históricos, na América Latina, as ideias de O’Donnell dialogam à longa distância com a visão solidária de Singer, e antecipam desafios pós-pandemia. Democracias capengas como a brasileira anunciam duros problemas – desemprego, protagonismos sociais em queda, ensino básico calamitoso, condições miseráveis de vida, atentados impunes. O cenário é nacional, o cenário é local… Recentemente a jornalista Lígia Guimarães, da BBC-News Brasil, retratou a calamidade social e sanitária em São Luís do Maranhão, diante de um governador respeitável, mas paralisado por décadas de desvario político e social, obra de oligarquias funestas, como a Sarney.

Marcia de Paula Leite: Há muitas obras da sociologia que poderiam nos ajudar a compreender o que está acontecendo. É difícil citar um livro, ou uma pesquisa especificamente, mas eu entendo que há muitos autores que nos ajudam nesse sentido,entre os quais eu citaria Edgar Morin, Norbert Elias e Karl Marx.

Pablo de Marinis: Más allá de algunas indicaciones incidentales, como científicxs sociales no hemos sido mayormente capaces de prever la irrupción de una pandemia de esta magnitud. Tampoco parece que estemos en las mejores condiciones de anticipar los perfiles del porvenir. Si bien toda mi vida he consumido “Grand Theories”, y he escrito, investigado y enseñado durante años sobre ellas, hoy por hoy, en especial en la situación en la que estamos viviendo, encuentro mucho mayor provecho en aproximaciones de “alcance intermedio”, que vuelen “más bajo” y piensen “más corto”, que formulen buenas preguntas y que no necesariamente ofrezcan rutilantes respuestas. Me aburren considerablemente y me parecen huecos e irrelevantes los textos en los que se afirma de manera categórica que “vamos hacia un mundo X o Y”, con juicios en los que no suelen escasear prefijos del tipo “neo” o “post”. “El trabajo”, “la sociedad”, “el sujeto”, “la historia”, “el capitalismo”, “la clase obrera” y “Dios” ya fueron dados por muertos en numerosas ocasiones. No voy a decir que siguen sanxs y salvxs, pero cabe al menos admitir que allí están, entre nosotrxs, quizás golpeadxs y reconfiguradxs, seguramente reinventadxs, pero están, cambian, mas no perecen.

Por todo esto, en lugar de rimbombantes cantos de sirenas, de Grandes Nombres que producen eso que conocíamos como “Grandes Obras del Pensamiento Universal”, me gustaría realzar aquí el trabajo de esos ignotos equipos de investigación, del Norte y del Sur, que están tratando de describir y comprender, a escalas diversas pero siempre con gran sentido de la situatedness, qué significa enseñar y aprender cuando no hay ya aula “física”, cómo se reconfigura la dupla ver/ ser visto en entornos laborales virtuales, como cambian las pautas de movilidad en el espacio urbano cuando se desestandarizan los horarios y ritmos de la actividad colectiva, qué significado asumen las relaciones entre lo global y lo local cuando los Estados Nacionales parecen haber recobrado un protagonismo que habían perdido, cómo se redefine el papel del conocimiento experto en la producción de la verdad cuando se multiplican los discursos que pugnan por hablar en nombre de ella, y muchos temas más que hoy están en plena efervescencia.

 

 

A imagem que acompanha este post é:

••• Piet Mondrian. Pier and Ocean 5, 1915. MoMA, Nova Iorque, Estados Unidos.

 

 

 

* Os textos publicados pelos colaboradores não refletem as posições da BVPS.

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