Simpósio 6 | Mundo Social e Pandemia

Ocean 1, 1914, Moderna Museet, Stocolmo

O Blog da BVPS publica hoje o sexto post do simpósio internacional Mundo Social e Pandemia, uma parceria com a revista Sociologia & Antropologia e a Sociedade Brasileira de Sociologia (SBS). A organização é de Andre Bittencourt (UFRJ e editor do Blog da BVPS) e Maurício Hoelz (UFRRJ e editor de S&A).

No simpósio, sociólogas e sociólogos do Brasil e do exterior responderam a um questionário com 4 perguntas, elaborado com a expectativa de indagar as diferentes dimensões sociais da pandemia e os desafios que ela representa para a sociologia. Mundo Social e Pandemia sai às terças e quintas no Blog da BVPS, sempre com as respostas de 5 colegas. Para ver os outros posts da série, basta clicar aqui. As versões originais das contribuições enviadas em inglês e francês são disponibilizadas nesta página, que será sempre atualizado. Para acompanhar as atualizações do Blog, siga nossa página no Facebook.

Hoje teremos como convidados/as:

Sari Hanafi, professor do Departamento de Sociologia, Antropologia e Estudos de Mídia da Universidade Americana de Beirute, Líbano. É o atual presidente da International Sociological Association (ISA). Autor, entre outros, de Knowledge Production in the Arab World: The Impossible Promise (em colaboração) e Palestinian Refugees: Identity, Space and Place in the Levant (organizador).

Tatiana Landini, professora do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Autora, entre outros, de Norbert Elias and Violence (organizadora) e Norbert Elias and Empirical Research (organizadora).

João Marcelo Maia, professor do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) da Fundação Getúlio Vargas (FGV-RJ). Editor-chefe da Revista Estudos Históricos.  É autor, entre outros, de Knowledge and Global Power: making new sciences in the South (em colaboração) e A terra como invenção: o espaço no pensamento social brasileiro.

Stephen Turner, professor honorário do Departamento de Filosofia da Universidade do Sul da Flórida, Estados Unidos. Autor, entre outros, de Liberal Democracy 3.0: Civil Society in an Age of Experts e The Politics of Expertise.

José Szwako, professor do Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Autor, entre outros, de Movimentos sociais e institucionalização : políticas sociais, raça e gênero no Brasil pós-transição (organizador) e Curso livre de teoria política (organizador).

Boa leitura!

 

1. Sociólogos/as e cientistas sociais, em geral, estão se mostrando mobilizados/as para produzir e compartilhar interpretações sobre os efeitos sociais e políticos da pandemia. A teoria sociológica está equipada para enfrentar o desafio de compreender/explicar o fenômeno?

Sari Hanafi: Existe mais de uma teoria sociológica. Mesmo assim eu vejo algumas características gerais em comum. Gilles Deleuze argumentou que a esquerda (e com ela, a maioria dos cientistas sociais, exceto pelos economistas ortodoxos!) enxerga o mundo em termos de relações que começam das mais distantes e se movem em direção às mais próximas. A desigualdade social, por exemplo, já foi compreendida como um fenômeno global de exploração cujas relações podem ser reconstruídas em direção ao imperialismo e colonialismo. Por isso, a maioria dos cientistas sociais chama atenção para a existência e as estruturas do imperialismo e colonialismo a fim de abordar de forma apropriada o sofrimento das classes sociais afetadas (em abstrato). Contrariamente a isso, existem movimentos políticos identitários (por exemplo, movimentos islâmicos e conservadores de extrema-direita) que enxergam as relações partindo das mais próximas em direção às mais distantes. Eles acreditam em trabalho comunitário, na família e em relações de bairro. Por exemplo, apoiadores de Trump acreditam na sua capacidade de abordar as desigualdades sociais enfrentadas por comunidades rurais esquecidas de norte-americanos brancos. E organizações religiosas no Líbano são atualmente as ONGs mais proativas na lida com famílias que perderam seus empregos com as restrições de circulação motivadas pela pandemia. Para outros movimentos de política identitária (organizados em torno de etnias, gênero, sexualidade etc.), a luta pode variar consideravelmente a depender do contexto, mas frequentemente se baseia numa luta comunitária, armada da doutrina universalista dos direitos humanos. Sim, para Richard Rorty, essa “esquerda cultural”, ao mesmo tempo que avança numa agenda cultural de pluralismo trava uma luta muito mínima de justiça social em termos de classe (como é o caso nos Estados Unidos).

Eu vejo nossa sociologia pós-Corona como sendo capaz de reinventar a forma pela qual tradicionalmente orientou o seu foco (de fora para dentro ou de dentro para fora) para criar métodos que usem focos multi-escala: repensando a importância da família, da comunidade e da ética do amor, hospitalidade e cuidado, e então aumentando a escala para o nível do Estado-nação e da humanidade como um todo.

Tatiana Landini: Responderei às perguntas com base na teoria à qual estou “filiada”, a sociologia de Norbert Elias. A sociologia de Elias está assentada em dois princípios fundantes, a noção de que a sociedade é formada por indivíduos e grupos interdependentes e a noção de processo, quer dizer, a noção de que é a relação entre indivíduos e grupos interdependentes que direciona o processo de desenvolvimento social (ou processo da civilização). A atual pandemia de coronavírus demandou a adoção de medidas de contenção drásticas – o fechamento de escolas, universidades, comércio, parques, clubes. As pessoas foram instruídas a ficarem em suas casas, saindo apenas para o essencial. Essa nova organização social, ainda que temporária, mostrou claramente a questão da interdependência, característica essencial do conceito de figuração. A instrução para que todos fiquem em casa é não apenas para evitar que sejamos contaminados pelo vírus, mas principalmente para diminuir o risco de contaminação de outros, evitando assim a demanda por hospitais e cuidados médicos para além da capacidade instalada. Perceber que qualquer indivíduo ou grupo que não segue as recomendações pode colocar a minha saúde em risco, mesmo que não haja contato direto entre nós, é uma bela demonstração da interdependência, e, portanto, do conceito de figuração. E interdependência implica poder. Na Europa, há plantações que estão sendo perdidas por falta de pessoas que trabalhem na colheita, normalmente realizada por imigrantes, inclusive imigrantes em situações de ilegalidade. O poder, para Elias, não é algo que um detém e o outro se submete, sendo preferível falar em equilíbrio (ou balança) de poder, o que fica ilustrado nesse simples exemplo.

Momentos como o que estamos vivendo mostram também a pertinência da noção de processo. Como vocês afirmam na pergunta, os cientistas sociais responderam rapidamente à atual pandemia, apresentando análises e reflexões, em especial no que diz respeito a desigualdades (econômicas, de raça, gênero, etc.) que aumentam ou diminuem o risco de contaminação, bem como de desenvolver as formas mais graves da doença. Essas desigualdades não são características apenas do momento presente, mas decorrentes de todo o processo de formação econômico-social de nosso país, da formação de nossas crenças e modos de ser e pensar (habitus social), da classe política, das classes sociais e de suas relações de interdependência, etc. – em suma, do processo da civilização em nosso país. Não há como me estender mais. Em suma, o que estou querendo dizer é que o atual momento de crise tem mostrado a pertinência dos princípios fundantes e fundamentais da sociologia de Elias, o que significa que esse instrumental pode auxiliar em muito para cumprirmos esse desafio de compreender o momento por que passamos, assim como de auxiliar estratégias de manejo da atual crise sanitária.

João Marcelo Maia: É difícil falar sobre sociólogos e cientistas sociais como uma categoria homogênea dotada de capacidade única de resposta. Mas, ao menos no caso brasileiro, vejo um esforço tanto das associações de área (caso da Anpocs, que tem editado boletim sobre ciências sociais e coronavírus), como de centros de pesquisa e instituições (Cebrap, Iespetc.) para produzir espaços de debate sobre os temas relevantes. Mas, o timing das nossas pesquisas empíricas é outro (aliás, como fazer trabalho de campo e entrevistas atualmente?), o que explica uma ênfase em análises de conjuntura e prognósticos sobre possíveis consequências político-sociais.

Acho que a teoria sociológica terá dificuldades para lidar com a questão por dois motivos: a) Primeiro, porque a pandemia é um fenômeno global e altamente veloz. Ou seja, a reflexão sobre ela terá que “seguir” arranjos sócio-políticos altamente instáveis e que desafiam a circunscrição do Estado-Nação. Embora vários autores venham trabalhando com ideias de globalismo ou transnacionalismo, permanece um desafio rotinizar essa reflexão e operá-la empiricamente. Sem contar o eurocentrismo que costuma transformar as experiências do Norte Global em modelos gerais para pensar qualquer questão, o que pode se refletir em teorizações que tomam os impactos do vírus nos Estados Unidos e na Europa como suficientes para generalização.  b) Além disso, porque a pandemia mescla aspectos biológicos, tecnológicos, políticos etc., não sendo facilmente capturada pelo conceito mais tradicional de “sociedade”. Nesse sentido, talvez a antropologia da ciência esteja mais equipada para dar conta, mas parte significativa da grande teoria sociológica não debate com esse ramo das ciências sociais.

Stephen Turner: Aqui, há diversos problemas e diferentes assuntos para compreender e explicar. Me concentrarei em um. A característica extraordinária dessa situação é o fato dos especialistas falharem na previsão das consequências epidemiológicas do vírus. Até o momento em que os números explodiram na Europa e, logo depois, em Nova Iorque e alguns outros locais nos EUA, os especialistas ignoravam essa possibilidade. Quando ficou evidente que haveria uma perda significativa de vidas, eles aplicaram modelos que exageravam amplamente os efeitos prováveis. Isso direcionou atenções para a modelagem — e suas limitações —, mas também apontou para o fato de tratar-se de um problema multidisciplinar e, por isso, não haveria especialistas capazes de dar declarações de autoridade sobre todos os seus aspectos: a virologia, a epidemiologia, as políticas públicas necessárias e assim por diante. Sem dúvida, houve divergências e uma confusão generalizada em relação a fatos básicos sobre como o vírus foi de fato transmitido de pessoa para pessoa, além da confusão sobre como ele mata e quais são os tratamentos eficazes.

Nos últimos vinte anos, têm ocorrido debates em sociologia, e particularmente em estudos de sociológicas das ciências, sobre a especialização e a criação da ignorância. Sabemos muito sobre a construção social de problemas e fatos científicos e compreendemos como funciona o processo de criação de especialistas e fatos especializados. Também conhecemos bem as formas pelas quais Estados e democracias lidam com as afirmações de especialistas. Em especial, temos bons trabalhos sobre as diferentes maneiras em que o conhecimento interage com diferentes tradições burocráticas e políticas nacionais, principalmente focadas nos EUA, Alemanha e Grã-Bretanha. As diferenças nas reações destes países se mantiveram fiéis à norma, isto é, partes interessadas sendo lideradas pela burocracia na Alemanha, a delegação a uma figura central na Grã-Bretanha e diversas experiências de diferentes jurisdições no sistema federal dos EUA, direcionando o foco para as melhores práticas.

José Szwako: Várias obras e escolas de pensamento nas ciências sociais vêm há décadas debatendo o risco potencial implicado nas relações entre tecnociência, capitalismo e seus efeitos no mundo. Ricas, essas reflexões raramente tendem a convergir. Sobrenome evidente aí é o de Beck, mas ao seu lado poderíamos citar aqueles que, na fronteira dos estudos ambientais com as humanidades, vêm defendendo uma ciência ‘pós-normal’, ou aquelas denúncias e disputas mais fortemente mobilizadas ao redor do antropoceno. Não saberia dizer o quanto cada uma delas está equipada ou preparada para encarar tal desafio. Me parece, porém, e se não me engano quanto ao ethos das e dos cientistas no Brasil, que a resposta (prática e teórica) ao fenômeno deverá variar conforme a vocação institucional na qual cada pesquisa/grupo/laboratório se inscreve. Assim, enquanto alguns grupos, por sua vinculação institucional, estão mais próximos de chegar a conclusões das quais já dispunham antes da crise – repetindo um ‘eu avisei’ em defesa do antropoceno ou contra a necropolítica ou ambos –, outros grupos, devido a tradições institucionais como, por exemplo, a da Fiocruz, poderão liderar a explicação da pandemia e seu combate.

A primeira parte da questão faz notar o investimento hercúleo de cientistas sociais em seu esforço de tradução para um público maior. Diversos periódicos e blogs acadêmicos e várias associações de pesquisa, como a Anpocs, por exemplo, passaram a divulgar ensaios e insights de nossos colegas sobre a pandemia. Por um lado, esse investimento salutar abre uma senda até hoje pouco (ou quase nada) explorada por nós cientistas sociais brasileiros que diz respeito à divulgação científica e à democratização do acesso a nossos resultados e caminhos de pesquisa. No entanto, por outro lado, essa ênfase atual nas tomadas públicas de posição não precisa ser lida como uma ruptura ou inauguração histórica. Não é a primeira nem a última vez que o contexto político nos interpela nos levando a tomadas de posição. E isso não significa que “tudo é político” nem traz, a meu ver, consequências epistemológicas dogmáticas do tipo “não existe neutralidade”.

 

2. Como a sua área de pesquisa especializada pode contribuir para a reflexão sobre diferentes dimensões desse fenômeno?

Sari Hanafi: Meus interesses de pesquisa atualmente orbitam em torno dos paradigmas de produção de conhecimento no mundo árabe e além, e de como conectar as ciências sociais com a filosofia moral. Como presidente da International Sociological Association (ISA), estou interessado em promover uma sociologia global. Essa sociologia se move em duas direções particulares: o suplemento da abordagem pós-colonial com uma abordagem anti-autoritária e a teorização de uma sociedade pós-secular. É impossível ignorar as feridas da era colonial, mas ao mesmo tempo que os estudos pós-coloniais foram muito bem usados eles também foram abusados. Eu identificaria dois abusos: a ênfase exagerada em fatores externos combinada com o descuido com fatores locais e a lógica binária de categorias antagônicas como ocidente/oriente, universalismo/contextualismo. Por isso, defendo o suplemento da abordagem pós-colonial com uma abordagem anti-autoritária. Além disso, como ultrapassar a concepção militante de secularismo em direção a multi-secularidades? E como teorizar a sociedade pós-secular? Para mim, o termo ainda é relevante por dois motivos: primeiro como uma declaração da necessidade de encontrar uma nova abordagem para o secularismo, distinta da forma histórica de vê-lo; segundo, por conta da mudança religiosa que vai de sua secularização social a sua ressurgência pública e sua prática de devoção carregada de subjetividade política (que as revoltas da primavera árabe, por exemplo, acionaram). Já argumentei em outras ocasiões que a sociedade pós-secular deveria ser teorizada como uma sociedade que lida com três desafios: primeiro, a necessidade em sociedades multiétnicas e multiculturais de que a religião seja administrada pelo Estado; segundo, a ascensão da religião pública; e terceiro, a deliberação na esfera pública em confluência com o neoliberalismo.

Nesses tempos sombrios de coronavírus essas preocupações permanecem válidas, mas eu gostaria de colocar um pouco mais de ênfase em três tarefas para a sociologia: construir focos multinível que alcancem da comunidade à humanidade; assumir uma postura ativa na luta contra as doenças do antropoceno e capitaloceno; e finalmente o estabelecimento de uma agenda melhor para o reconhecimento e a obrigação moral. Essa agenda é semelhante àquela de sociólogos anti-utilitaristas e convivialistas como Alain Caillé mas também, no Brasil, Frédéric Vandenberghe e Paulo Henrique Martins. Estamos todos conscientes de que a luta pelo meio ambiente é inseparável da nossa escolha de política econômica e da natureza do nosso sistema econômico desejado – e essas conexões entre seres humanos e natureza nunca estiveram tão imediata ou intimamente conectadas quanto agora.

Tatiana Landini: As ciências sociais aprenderam muito na década de 1980-1990, à época do início da epidemia de Aids (quando assim era chamada); a parceria entre ciências sociais e saúde tem sido muito frutífera. As discussões sobre a pandemia de coronavírus estão já muito ricas, elementos importantes têm sido levantados, pesquisados e dimensionados. Uma das riquezas da sociologia de Elias é também um de seus maiores desafios, discutir as relações entre mudanças que ocorrem em três níveis distintos: o âmbito mais individual ou micro (mudanças na estrutura da personalidade e nas figurações a que chamamos família, por exemplo), mudanças mais amplas (na estrutura das sociedade, no Estado e em sua conformação) e na relação entre Estados e na Humanidade de forma geral. A pandemia, justamente por sua amplitude, nos coloca desafios que permitem direcionar o foco da discussão justamente para as interdependências entre esses três níveis. Trabalhos comparativos entre países (com formações econômico-sociais similares e distintas) poderiam ajudar a refletir sobre razões para a adesão mais forte ou mais fraca à demanda por isolamento social, o que implica o desenvolvimento da autocoação. Da mesma forma, ajudaria a pensar em características do habitus social que funcionam como efeito de trava para determinadas mudanças. O papel da OMS e de outras agências supra-estatais merece também ser trazido para o debate.

João Marcelo Maia: Eu trabalho com história da sociologia e do pensamento social no Brasil, tendo feito também alguns trabalhos no campo da sociologia da ciência, embora reconheça que esta última não seja minha “área de pesquisa especializada”. De uma forma geral, os estudos sobre o pensamento social no Brasil podem nos ensinar muito sobre como lidamos com outras epidemias e como elas possibilitaram a emergência de novas formas de falar sobre o mundo. O que significa, por exemplo, pensar o Brasil a partir da ideia de “doença”? Quais os efeitos de discursos que se estruturam a partir de metáforas e analogias com o corpo? Como novos grupos intelectuais se legitimaram pela posse de algum conhecimento específico tido como “científico” e como eles moldaram o Estado brasileiro? Essas são algumas perguntas que foram trabalhadas por estudiosos do pensamento social, particularmente colegas como Nísia Trindade Lima, Marco Chor Maio, Gilberto Hochman, entre outros.

Já a sociologia da ciência tem muito a dizer sobre um tema crucial para o mundo pós-pandemia – a geopolítica da produção de conhecimento –, caso esteja atenta à recomposição de arranjos entre centros e periferias globais e articule as práticas dos laboratórios e dos cientistas aos espaços de poder. Uma pergunta interessante: como os mecanismos de cooperação científica para a produção de remédios e vacinas são afetados pelas desigualdades entre Estados e entre comunidades de especialistas de diferentes países? Que novos arranjos transnacionais surgirão para efetivar uma política sanitária potencialmente global, e que interesses, grupos e ideias serão mobilizados? Essas questões demandam trabalho empírico, mas também um conhecimento da história das ciências sociais em contextos periféricos, nos quais emergiram interessantes reflexões sobre os nexos entre conhecimento, dependência e colonialismo.

Stephen Turner: Grande parte da minha pesquisa se relaciona à expertise – como se organiza, as relações sociais das quais ela depende, seu papel na política e as dificuldades resultantes da ocorrência de problemas mal formulados — dependentes de considerações de diferentes especialistas e nos quais não há solução ideal de todos ou muitos pontos de vista relevantes disponíveis. Esse tipo de pesquisa é retrospectiva, mas pode, portanto, preocupar-se com erros de especialistas, que têm um valor potencial na elaboração de instituições que seriam melhores para enfrentar novos problemas. Mas planejar-se para o próximo erro de especialista é como planejar-se para a próxima guerra com base nas experiências da última: sempre dá errado. No entanto, a pandemia atual fornecerá a futuros analistas uma variedade extraordinária de casos distintos apresentando diferentes políticas, diferentes relações entre especialistas e políticas, além de diferentes estruturas organizacionais lidando com os problemas de conhecimento e política envolvidos.

José Szwako: Minha trajetória de pesquisa está marcada por duas subáreas: movimentos sociais e história intelectual. Na primeira delas, a ênfase analítica recai sobre as formas de mobilização e suas interfaces com o sistema político mais amplamente. Nessa seara, me parece que a contribuição é dupla. Por um lado, as pesquisas podem averiguar em que medida os protestos – que, na crise, foram das ruas às janelas – se relacionam com os descaminhos do governo federal e como o estardalhaço das janelas se liga, ou não, à parafernália (des)informacional nas plataformas e mídias virtuais. Por outro, as pesquisas sobre movimentos podem elucidar como, dada a política vacilante e conflituosa do executivo federal, as associações locais e de moradores de bairros e favelas têm estabelecido, no combate à epidemia, conexões seja com universidades e institutos de pesquisa, seja com os governos municipais ou estaduais. Assim, há uma camada socio-estatal (infra-federal) de análise que não se pode perder vista. A variedade das alianças e tensões travadas entre prefeituras, organizações civis e associações empresariais pode mostrar que, mesmo na crise atual, os significados do ‘combate à pandemia’ são disputados, no sentido de forjar e ampliar formas estatais de proteção, de voltar ao trabalho ou mesmo de negar a pandemia.

Na outra seara, a história intelectual pode ser pensada e praticada no cruzamento da história política com as sociologias do conhecimento e das ciências. Nessa acepção cruzada e politizada, a história intelectual pode contribuir com o diagnóstico ideacional mais acurado do negacionismo e do anti-intelectualismo hoje vigentes no país. Quem são as organizações e lideranças das carreatas contra o isolamento preventivo? Quem são seus intelectuais, partidos e textos-chave? Quais, enfim, suas fontes ideológicas e bibliográficas? A história intelectual da pandemia, desta como de outras, é assim a história de suas formulações e disputas, das apostas e respostas político-intelectuais a ela.

 

3. A pandemia estaria provocando mudanças sociais, políticas e/ou culturais profundas? Ou acelerando tendências já em curso? Se sim, é possível vislumbrar os contornos das sociedades pós-Pandemia?

Sari Hanafi: O pós-pandemia deveria ser preparado por nós, cientistas sociais, bem como por todos os atores sociais e propositores de políticas públicas para transformar essa tragédia num ativo. Só para lembrar, a grande depressão do início da década de 1930 teve um impacto profundo internacionalmente e as respostas políticas às crises foram radicalmente diferentes. Vejamos o exemplo dos EUA e do New Dealproposto pelo presidente Franklin D. Roosevelt entre 1933 e 1939. Ele consistiu na promulgação de uma série de programas, projetos de obras públicas, reformas financeiras, trabalhistas e nas relações raciais. A Alemanha, pelo contrário, substituiu a democracia por um sistema de governo nazista. Michel Wieviorka, numa entrevista em março deste ano para o jornal francês Libération, nos lembra que, para o pós-Segunda Guerra, a resistência francesa criou um programa de ação com o nome “Les jours heureux” (Os dias felizes) (em 1944). É essencial dizer que havia nele não só medidas políticas de restabelecimento da democracia, mas medidas econômicas radicais que caracterizaram a nacionalização de um feudalismo econômico e financeiro de larga escala na gestão da economia, além, é claro, de medidas sociais, em particular o significativo reajuste de salários, o restabelecimento de sindicatos e delegados trabalhistas independentes e um plano compreensivo de seguridade social. Os trinta anos seguintes foram de fato dias felizes para a França. Cabe a nós decidir que direção vamos tomar.

Tatiana Landini: De certa forma, já indiquei minha resposta na pergunta 1. Pensando a partir da sociologia de Elias, fica muito difícil pensar em mudanças que não estejam de alguma forma conectadas a características anteriores de uma determinada figuração. Da mesma forma, o que virá depende do que vivemos hoje. A palavra-chave é processo. A segunda palavra-chave é habitus.  O vírus possui seu próprio potencial de contaminação e de letalidade, estudos epidemiológicos amplamente disseminados demonstram isso. Mas o que fica claro olhando mapas e tabelas é que a incidência da doença em cada país depende também de inúmeros outros fatores, dentre eles a estrutura sanitária instalada, a ocupação espacial e demográfica, as desigualdades de classe, as decisões políticas e a legitimidade do Estado e do governo para fazer valer suas recomendações. A transformação na vida diária de cada um de nós foi muito grande, certamente deixará marcas. Mas o quão profundas serão essas marcas – e, portanto, a possibilidade de engendrar mudanças mais efetivas e duradouras – é ainda cedo para saber. Mudanças mais amplas, como a profunda desigualdade e relação entre classes sociais no Brasil, não acredito que vá mudar. Deixo uma citação do texto Mudanças na balança nós-eu para reflexão a esse respeito:

Ao estudar os processos de desenvolvimento social, defrontamo-nos repetidamente com uma constelação em que a dinâmica dos processos sociais não-planejados tende a ultrapassar determinado estágio em direção a outro, que pode ser superior ou inferior, enquanto as pessoas afetadas por essa mudança se agarram ao estágio anterior em sua estrutura de personalidade, em seu habitus social. Depende inteiramente da força relativa da mudança social e do arraigamento – e portanto da resistência – do habitus social saber se e com que rapidez a dinâmica do processo social não-planejado acarretará uma reestruturação mais ou menos radical desse habitus, ou se a feição social dos indivíduos logrará êxito em se opor à dinâmica social, quer tornando-a mais lenta, quer bloqueando-a por completo.

João Marcelo Maia: Essa é a pergunta de um milhão de dólares – caso o dólar continue sendo a moeda global de referência (risos). Uma primeira tendência que está se acelerando é a ampliação das técnicas empregadas pelos Estados para gerenciar os corpos e os movimentos de seus cidadãos. Se já nos acostumamos com câmeras de segurança e compartilhamento de dados digitais por grandes companhias, é bem provável que passemos a aceitar controles de temperatura em aeroportos e até mesmo maiores poderes dos Estados sobre nosso direito de ir e vir. Se essas técnicas pareciam a muitos estar associadas a regimes autoritários, é bem possível que se tornem parte do arsenal comum das sociedades usualmente classificadas como democráticas (que, diga-se de passagem, já fazem largo uso de técnicas de controle por meio de suas grandes companhias de comunicação privadas).

Já uma mudança que me parece plausível diz respeito ao lugar da ciência na vida contemporânea. Refiro-me menos ao seu papel cotidiano na reprodução de nossas vidas, algo que nunca esteve muito em questão, e mais ao seu estatuto político, isto é, ao seu lugar nas deliberações coletivas sobre como nos organizamos. Como se sabe, vários países são atualmente governados por líderes de extrema-direita que menosprezam as instituições científicas e as próprias dinâmicas necessárias para a produção de conhecimento. Acho que a pandemia vai produzir um certo freio de arrumação nessa tendência de desprestígio da ciência como parte da conversa pública sobre a vida moderna, mas isso não significa que esse reposicionamento se dará em moldes democráticos (vide a tendência descrita acima). Afinal, é possível que surjam novos discursos de autoridade científica que legitimem práticas muito restritivas de direitos.

Stephen Turner: Novamente, o problema dos especialistas e a sua relação com o mundo político e as políticas se agiganta. Paradoxalmente, a pandemia evidencia a nossa profunda dependência do conhecimento de especialistas — nenhuma tomada de decisão efetiva foi possível sem eles — e o fato de não podermos meramente confiar neles, ou “ouvir a ciência”. Pareceres devem ser julgados e as limitações de conhecimentos especializados examinadas caso a caso, modelo a modelo, assim como as diversas afirmações conflitantes de especialistas devem ser sintetizadas e as políticas e implementações conduzidas respeitando o julgamento e discussão democráticos, com sentido de responsabilidade democrática. Novas formas de organização social precisam responder a novas formas ou conhecimentos, bem como a novos problemas de especialização. A grande questão do momento é se este será um episódio de aprendizado ou um futebol político que revela divisões fundamentais na sociedade sobre questões de autonomia pessoal, o papel do Estado e problemas semelhantes. Mas, independentemente disso, o que mudou é o seguinte: as questões de conhecimento tornaram-se centrais na governança e na política e são o principal problema das sociedades modernas e não a solução para os seus problemas, como defendiam os iluministas.

José Szwako: Não saberia dizer do futuro, mas sim das apostas. A existência de apostas – mais impensadas ou mais racionalizadas – é traço, em grande medida, inarredável da pesquisa. Isso não significa, porém, que tais apostas não possam ser passíveis de auto-observação e crítica de nossa parte. As futurologias de hoje, tanto otimistas como pessimistas, causam algum espanto porque nenhuma delas lida adequadamente com o peso de suas categorias e diagnósticos. Leio aqui e acolá que o futuro será do cuidado ou que viveremos um horizonte feminista, mas não vejo razões concretas para vislumbrar tais horizontes. De outro lado, lê-se que o cenário da pandemia teria confirmado diagnósticos hipercríticos e conexos como os da biopolítica, da exceção e da necropolítica. Outros ainda afirmam que chegou a vez do antropoceno, a sua revanche… O que tais exercícios de imaginação do futuro e de crítica do presente me fazem notar é o pouco rigor com que seus defensores lidam com suas expectativas de mundo projetando nele suas noções e pré-noções. No que diz respeito à sociologia histórica dos movimentos (em especial, revolucionários), há hoje poucas das condições para apostas em grandes processos de mudança social. Esse diagnóstico, é evidente, depende daquilo que se considera como forças necessárias para a mudança histórica: elites rachadas, Estado com limitada capacidade repressiva e fiscal, conflito internacional, bem como alianças entre grupos outsiders e estabelecidos. Se alguns desses traços se fazem hoje presentes, eles infelizmente jogam, a meu ver, na contramão de uma interpretação da mudança histórica com sentido progressista ou emancipador, ao menos no caso brasileiro.

 

4. Que obra(s) da sociologia e das demais ciências sociais podem nos ajudar a compreender e a conversar sobre os desafios em curso?

Sari Hanafi: A sociologia pós-corona só terá sentido se estiver armada de uma utopia ou de “utopias reais”, como diria Erik Olin Wright, que, ainda que não sejam absolutamente realizáveis, possam direcionar nossas ações. Não há vida ética sem utopia, e a diferença entre a pregação de um clérigo e a utopia de um sociólogo é que a última não necessariamente denuncia a visão anti-utópica dos outros, e pode procurar trabalhar com aqueles que acreditam nela. Essa sociologia, portanto, deveria apreciar e aprofundar a relação de dádiva maussiana e a obrigação moral que conecta as ciências sociais à filosofia moral.É importante repensar a construção da outridade, não apenas em relação àquele que é percebido como o adversário e o porquê disso, mas no que diz respeito a como nos importamos com “o Outro”. O sociólogo francês Eric Macé, num texto recente, nos lembra da importância de reconfigurar nossa interdependência (humano vs. não-humano, homem vs. mulher, sociedade vs. natureza etc.). A divisão de trabalho patriarcal entre mulheres que cuidam e homens que trabalham não pode continuar.

Aqui uma discussão ética séria poderia domar a procura pela defesa de nossos próprios interesses individuais. Esse é o sentido do aforismo de Paul Ricoeur “o objetivo de viver a boa vida com e para outros em instituições justas”, no qual, em outras palavras, a ética do amor, hospitalidade, cuidado e solicitude com e para outros pode ser incluída em molduras institucionais para garantir e reforçar a justiça social e a democracia. Isso vai de encontro ao que pensam Alain Caillé, Frédéric Vandenberghe, e muitos outros pesquisadores anti-utilitaristas, que propuseram diferentes manifestos com chamados ao “convivialismo” como sucessor às ideologias seculares do comunismo, socialismo e anarquismo.  Para nos lembrar sobre como pensar a responsabilidade em perspectiva com a liberdade e como promover e encorajar relações significativas com nossos “outros” semelhantes humanos, a sociologia deveria voltar a esses e outros insights relevantes de filósofos como Emmanuel Levinas que, de maneira simples e astuta, explicou que “avant cogito, il y a bounjour” (antes do cogito, vem o “bom dia”).

Tatiana Landini: A literatura é imprescindível! Atendo-me a Elias, selecionei dois livros que podem ajudar a pensar alguns desafios deste momento: 1) A solidão dos moribundos. Começo com uma citação: “A atitude em relação à morte e a imagem da morte em nossas sociedades não podem ser completamente entendidas sem referência a essa segurança relativa e à previsibilidade da vida individual – e à expectativa de vida correspondentemente maior. A vida é mais longa, a morte é adiada. O espetáculo da morte não é mais corriqueiro. Ficou mais fácil esquecer a morte no curso normal da vida. Diz-se às vezes que a morte é ‘recalcada’”. A pandemia nos coloca – a todos, novidade nesse mundo tão desigual – face à perspectiva de morte. O que havia sido legado aos bastidores da vida social ao longo do processo civilizador, agora nos é apresentado diariamente nas primeiras páginas dos jornais. A solidão dos moribundos de que fala Elias é a solidão do envelhecer, do adoecer. Adoecer de Covid-19 significa o isolamento completo; a morte ocorre numa solidão absoluta. E para os que ficam, o luto é também negado. Há muito a se pensar e pesquisar a partir da pandemia.

2) Os estabelecidos e os outsiders: Tendo como “paradigma empírico” o estudo sobre Winston Parva, Elias entende a relação entre estabelecidos e outsiders como um tema humano universal: relações que impliquem grande desigualdade na balança de poder (raciais, étnicas, de gênero, idade, religião, entre países, entre classes) podem ser iluminadas a partir desse estudo. Qual será o impacto da atual pandemia quando pensamos nas relações atuais e futuras, por exemplo, entre países, principalmente entre aqueles que conseguirem controlar melhor a situação sanitária e aqueles que não lograrem esse êxito? Ou entre classes sociais? No Brasil, pesquisas na região metropolitana de São Paulo têm mostrado um crescimento muito desigual na taxa de contaminados e de óbitos quando se considera regiões periféricas e centrais, mais pobres e mais ricas. Discriminação e preconceito são questões caras a nosso país. Será a Covid-19 um fator suplementar para a discriminação e preconceito contra grupos específicos?

João Marcelo Maia: Acho que todos precisamos ler os estudos sociológicos e antropológicos sobre ciência.  Precisamos aprender a lidar com ambientes complexos que desafiam a separação entre sociedade e natureza, entre laboratório e política, algo que já vem sendo problematizado na antropologia há tempos, mas que não foi ainda absorvido plenamente na sociologia. Há um debate amplo sobre ciência e democracia que mobiliza autores diversos como Bruno Latour, Michel Callon e Harry Collins e que diz respeito ao modo como experts, “leigos” e demais agentes se engajam em coalizões e controvérsias públicas que mobilizam o conhecimento científico de diferentes modos. Esse debate sobre as potencialidades e os limites da ciência são fundamentais para nos orientarmos no nevoeiro atual, e precisam ser incorporados pelos cientistas sociais que não atuam no campo específico dos estudos sobre ciência e tecnologia – como eu mesmo.

Também acho que precisamos reabrir a tradição dos estudos científicos feitos no chamado Sul Global, em especial as obras e os autores que analisaram as desigualdades globais que moldaram as trocas científicas, mas que não impediram a emergência de práticas autônomas de produção de conhecimento. No caso latino-americano, nomes como Hebe Vessuri e Pablo Kreimer vem investindo há tempos nessa direção. Mais recentemente, uma coletânea bem interessante que sintetiza muitas discussões feitas no nosso continente sobre criação científica e condição periférica é Beyond imported magic: essays on science, technology, and society in Latin America, organizado por  Eden Medina, Ivan da Costa Marques e Christina Holmes (MIT, 2014). Como o próprio título da coletânea diz, a discussão proposta questiona a ideia da periferia como uma simples receptora de conhecimentos gerados nos grandes centros, apontando para formas de inovação locais que engajaram diversos tipos de atores sociais. Esse tipo de discussão será cada vez mais atual, em especial à luz dos novos equilíbrios de poder produzidos pela emergência da China na política sanitária global.

Stephen Turner: É provável que o texto mais importante para começar a pensar sobre os problemas da expertise seja a obra sintética de Roger Koppl, Expert Failure, que une a literatura sobre estudos sociológicos à literatura sobre economia. Dentre os sociólogos que contribuíram para este campo, Nico Stehr e Reiner Grundmann publicaram um panorama, Experts: The Knowledge and Power of Expertise. Key Ideas. Stehr editou uma série de volumes relacionados ao assunto. Uma série de livros escritos por Harry Collins e Robert Evans articularam um conjunto de definições de tipos de especialização “genuína” e eles escreveram um trabalho ainda mais polêmico, Why Democracies Need Science. Sheila Jasanoff tem sido uma voz pública a respeito das questões atuais envolvendo especialização e o coronavírus e ela desenvolveu um trabalho fundamental sobre a política comparativa de especialização entre os principais países europeus e os EUA. Em breve, haverá também o Oxford Handbook of Expertise and Democratic Politics, editado por Gil Eyal e Thomas Medvetz, que fornece um panorama das várias questões relacionadas à especialização.

José Szwako: Fundamental hoje é o recém-lançado Human Extinction and the Pandemic Imaginary, do antropólogo médico Christos Lynteris. Nessa obra, o antropólogo propõe o que chama de ‘imaginário pandêmico’, com destaque para sua análise da figura do ‘epidemiologista herói’ em recentes representações cinematográficas do fim do mundo e, ainda, para os discursos ao redor do ‘superspreader’ que podem e conseguem justificar, não formas de vida desumana ou sub-humana, mas formas de subvida. Inspirado pela teorização de C. Castoriadis e por sua ênfase na tensão entre o instituído e o instituinte, Lynteris não fica, contudo, refém do catastrofismo melancólico dos ecoteóricos nem do pessimismo apocalíptico frankfurtiano.

Outra obra preciosa para a compreensão do anti-intelectualismo e do negacionismo vigentes é The Crisis of Expertise, de Gil Eyal. O livro reconstrói a trajetória da noção de expertise para evidenciar que a sua ‘crise’ é correlata à sociedade agonística, pós-guerra, na qual não são evidentes as linhas que afastam o leigo do experte pelas quais são embaralhadas as redes de expertise. Contudo, não é toda e qualquer ciência que é hoje contestada; são, antes, as ciências regulatórias (ou policysciences), nas quais ação e julgamento se misturam, que encarnam os problemas ‘transcientíficos’, frente aos quais instituições de Estado irremediavelmente precisam agir lidando com a competição entre opinião pública, grupos de interesse e movimentos sociais. Destaque nesse livro para sua análise de casos de cientifização da política e de politização da ciência e, ainda, sua apropriação inspiradora do Habermas de Crise de legitimação.

 

 

A imagem que acompanha este post é:

Piet Mondrian. Ocean 1, 1914, Moderna Museet, Estocolmo, Suécia

 

 

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* Os textos publicados pelos colaboradores não refletem as posições da BVPS.

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