Simpósio 3 | Mundo Social e Pandemia

Pier and Ocean 1, 1914, Stephen Mazak & Co., New York (1)

O Blog da BVPS publica hoje o terceiro post do simpósio internacional Mundo Social e Pandemia, uma parceria com a revista Sociologia & Antropologia e a Sociedade Brasileira de Sociologia (SBS). A organização é de Andre Bittencourt (UFRJ e editor do Blog da BVPS) e Maurício Hoelz (UFRRJ e editor de S&A).

No simpósio, sociólogas e sociólogos do Brasil e do exterior responderam a um questionário com 4 perguntas, elaborado com a expectativa de indagar as diferentes dimensões sociais da pandemia e os desafios que ela representa para a sociologia. Mundo Social e Pandemia sairá às terças e quintas no Blog da BVPS, sempre com as respostas de 5 colegas. Para ver os outros posts da série, basta clicar aqui. As contribuições originalmente enviadas em inglês e francês serão disponibilizadas nesta página, que será sempre atualizada. Para acompanhar as atualizações do Blog, siga nossa página no Facebook.

Hoje teremos como convidados/as:

Gilberto Hochman, pesquisador da Casa de Oswaldo Cruz/Fundação Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz) e professor do Programa de Pós-Graduação em História das Ciências e da Saúde (PPGHCS/COC/Fiocruz). É autor, dentre outros, de A era do saneamento e História da Saúde no Brasil (organizador).

Andrew Linklater, Woodrow Wilson Professor do Departamento de Política Internacional da Universidade de Aberystwyth, País de Gales. É membro da British Academy. Autor, dentre outros, de Violence and Civilization in the Western States-Systems e The Global Civilizing Role of Cosmopolitanism.

Sergio Pignuoli Ocampo, pesquisador do Consejo Nacional de Investigaciones Científicas y Técnicas (CONICET) e professor da Universidade de Buenos Aires, Argentina. Autor de uma série de artigos, como “Aportes de las teorías sociológicas a la discusión de la ontología. Los casos de Luhmann, Habermas y Latour” e “La comunicación como unidad de análisis en Luhmann y Habermas”.

Renato Ortiz, professor titular do Departamento de Sociologia e professor permanente do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP).  É autor, dentre outros, de O universo do luxo e Mundialização e cultura.

Bila Sorj, professora titular do Departamento de Sociologia e professora permanente do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia (PPGSA) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). É autora, dentre outros, de Genre, race, classe. Travailler en France et au Brésil (organizadora) e Reconciling work and family: issues and policies in Brazil.

Boa leitura!

 

1. Sociólogos/as e cientistas sociais, em geral, estão se mostrando mobilizados/as para produzir e compartilhar interpretações sobre os efeitos sociais e políticos da pandemia. A teoria sociológica está equipada para enfrentar o desafio de compreender/explicar o fenômeno?

Gilberto Hochman: Será difícil responder à emergência sanitária sem ciências sociais e estas não podem silenciar diante da pandemia. As humanidades em geral, e as ciências sociais em particular, têm arsenal teórico e conceitual para a compreensão da pandemia como fenômeno social, político e econômico. Há dois roteiros possíveis para interpretação desse fenômeno tão interconectado: a compreensão das epidemias na sua dimensão fundamentalmente social baseada na reflexão desde os clássicos das ciências sociais e, um movimento mais provocador, mas não por isso superior, de compreensão interconectada entre os fenômenos biológicos e sociais, por uma parte dos Estudos Sociais da Ciência e da Tecnologia. Da teoria sociológica clássica ao STS, o desafio para muitos é interpretar os efeitos sociais e políticos da crise, mas também participar de diversos modos, e criticamente, das respostas públicas à Covid-19, sejam elas comunitárias ou estatais. O dicionário público da pandemia é o das ciências sociais: afastamento, contágio, crise, cuidado, desigualdade, distopia, insegurança, interação, isolamento, limpeza, máscara, medo, morte, ocultamento, políticas, práticas, resistência, resiliência, risco, ruptura, entre dezenas de outros vocábulos. Portanto é inescapável que cientistas sociais devam participar da comunicação pública da ciência da Covid-19 que, nos limites de suas expertises profissionais, remete diretamente aos seus arsenais teórico-conceitual e metodológico.

Andrew Linklater: Vou restringir minhas observações à contribuição que a perspectiva sociológico-processual de Norbert Elias pode trazer para o entendimento da crise de saúde pública trazida pela Covid-19.[i] O alto nível de conformidade às estratégias de confinamento em muitas sociedades ilustra um tema central em seu estudo do processo civilizador, a saber, a existência de uma transformação de longa duração no equilíbrio de poder entre o autodomínio e o medo de constrangimentos externos enquanto fatores influenciadores da conduta humana. Elias analisou livros sobre costumes para demonstrar de que forma novos muros eram erguidos entre as pessoas como resultado da mudança nas concepções de propriedade social, reforçados em períodos posteriores por preocupações com higiene. As medidas de distância social no presente, incluindo a frequente lavagem das mãos, devem ser vistas nesse contexto, a saber: em uma perspectiva de longa duração e em conjunto com mudanças estruturais maiores, tais como a formação do Estado e sua pacificação interna, examinadas por Elias.

As sociedades em questão adquiriram poderes imensos sobre a natureza, mas Elias repetidamente ressaltou a sua suscetibilidade a processos de tirania que elas não podem controlar. Um tema recorrente é que o maior poder societal sobre a natureza se desenvolveu lado a lado com o perigo crescente de sujeição a processos incontroláveis, como a guerra. Uma citação do livro Teoria simbólica mostra como ele nuançou o ponto: “a espécie humana ganhou ascendência sobre a maioria de seus rivais e inimigos potenciais do reino animal”. As sociedades humanas “mataram, encarceraram ou confinaram a reservas outras espécies animais, e estão apenas começando a se dar conta de que a dominação sobre outros acarreta alguma responsabilidade para si mesmas”. Além disso, a vitória está incompleta. Ao nível dos “vírus e bacilos”, argumentou Elias, “a luta continua”.

Uma questão central para o autor é até que ponto sociedades podem transcender respostas a crises que sejam guiadas pelo medo, e até que ponto elas podem adquirir pontos de vista mais autônomos que aumentem suas chances de ter controle sobre processos não planejados. A relação entre perspectivas nacionais altamente comprometidas e orientações humanistas mais autônomas é crucial.

Sergio Ocampo: La “teoría sociológica” comprende un conjunto numeroso y heterogéneo de programas de investigación. Los proyectos de integración no han logrado avanzar ninguna agenda recíproca y conjunta de problematización. De hecho, no han logrado hasta el momento más que convertirse irónicamente ellos mismos en nuevos programas. Esto se debe a que sus invectivas han despertado la heurística negativa de los programas que se pretendía integrar, en lugar demostrar y desarrollar una heurística positiva de la integración. Con todo esto en mente, no considero adecuado responder de manera abarcadora la pregunta: no todos los programas de investigación están igualmente equipados, algunos de ellos está mejor munidos que otros para modelar objetos de investigación dentro de la pandemia y el desastre humanitario de la Covid-19.

En este sentido, encuentro que determinados supuestos teóricos mejorarán el equipamiento de partida y la capacidad de respuesta de aquellos programas que los tengan. Si bien asumo que indagaciones ulteriores podrían ampliar su número, considero que estos supuestos son tres: 1) una apertura interdisciplinaria hacia la epidemiología, la virología, la inmunología, la infectología y la demografía, 2) una perspectiva integral hacia la sociedad mundial y hacia las decisiones, preferentemente de nivel organizacional y 3) una estrategia para atender y seguir de cerca los problemas y oportunidades generados por el proceso en ámbitos primordiales como la economía, la política, las relaciones internacionales, la ciencia, los media, el derecho, los movimientos de protesta, la agenda ambiental, etc.

El primer supuesto ofrecerá un acceso de primera mano al aspecto microbiológico del fenómeno y también a la progresión de su impacto poblacional. El segundo permitirá establecer la unidad del fenómeno, sin desmembrarlo regionalmente,e identificar la diferencia de las dinámicas decisionales, sin aunarlas holísticamente. Lograr una observación teórica de la unidad y de la diferencia del mundo social en estado de pandemia es tan importante como mantener balanceadas las observaciones evitando así que una se imponga sobre la otra – sea la unidad o la diferencia, el error es equivalente. A su vez, no considero imprescindible conservar este balance al momento de informar los resultados de las investigaciones. Es muy factible que debamos incorporar y/o fortalecer el factor alarma en nuestras intervenciones, pero debemos eludir la tentación de darle al alarmismo sociológico rango epistemológico. El tercer supuesto, finalmente,permitirá que los procesamientos teóricos que planteemos dentro del fenómeno se enriquezcan de manera permanente. Es importante concentrar la atención en los problemas y las oportunidades que se produzcan en el mundo social porque ellos registran alteraciones de expectativas y los eventuales rumbos en disputa ante el desconcierto. El registro de estos fenómenos no tiene afán prospectivo – la sociología no sabe leer el futuro –, sino que guarda el propósito de mantener continuamente irritadas nuestras afirmaciones con información candente de los procesos en curso.

Renato Ortiz: A pandemia que conhecemos pode ser definida como um “fato social”, isto é, algo que se exerce, do exterior, de maneira coercitiva, sobre os indivíduos. Nos acostumamos a diversas críticas em relação a tal “exterioridade”, e em muitos casos, eram corretas, mas a situação de crise que enfrentamos desloca a dimensão individual (não desaparece, longe disso) para outro plano. De certa forma, um dos emblemas da modernidade, o indivíduo, se enfraquece diante das necessidades prementes. Primeiro, em relação ao combate à própria epidemia, é necessário organizar as forças sociais para conter a ameaça; para isso medidas drásticas (quarentena, confinamento, lockdown) devem ser tomadas. O paralelo com a guerra torna-se uma metáfora corriqueira e plausível. Momentos excepcionais exigem medidas excepcionais. Entretanto, não é somente o que difere que importa; a excepcionalidade nos fala sobre algo maior, os mecanismos da própria vida em sociedade. Retomemos, por exemplo, alguns debates contemporâneos (globalização, pós-modernidade, sociedade de consumo, celebridades etc.): em todos eles a dimensão do indivíduo é determinante. O consumidor “escolhe” os produtos de sua preferência, a celebridade é a personificação de alguém que se projeta para além do círculo de conhecidos, as diferenças definem o meu Eu. Há, portanto, um deslocamento em relação à discussão anterior. Um exemplo, a ideologia neoliberal. A ideia de Estado mínimo (espaço da ação econômica dos indivíduos “livres” no mercado) perde em convencimento sendo contraposta pela de um Estado que se transforma em demiurgo do protagonismo econômico. O lema da sociedade de consumo – “I want, and I want it now” – também fica em suspenso diante da magnitude da crise. A noção de “bem coletivo” retorna e nos faz pensar sobre os limites do individualismo. É um pouco como se nos deparássemos com a interrupção (para não usar o termo “fim”) de uma narrativa superficialmente convincente, isto é, a fragilidade de uma crença que se contentava com a contemplação de sua própria debilidade.

Bila Sorj: O acompanhamento do desenrolar do debate público sobre a pandemia, principalmente através da mídia, permite constatar que sociólogos e cientistas sociais estão sendo muito pouco procurados para falar sobre o tema. De fato, as vozes que comparecem são dos epidemiologistas, infectologistas, intensivistas etc., considerados representantes da ciência. Isso dá a impressão de que podemos enfrentar esta crise sem considerar as abordagens sociológicas. Na verdade, os cientistas sociais estão muito ativos na produção de análises sobre a pandemia, mas suas interpretações circulam sobretudo no interior dos círculos acadêmicos, nas revistas científicas e blogues especializados. É uma pena que as ciências sociais não ocupem um espaço mais amplo, conversando com uma audiência leiga. Os sociólogos têm muito a dizer sobre tudo o que se move na sociedade.

 

2. Como a sua área de pesquisa especializada pode contribuir para a reflexão sobre diferentes dimensões desse fenômeno?

Gilberto Hochman: A história importa para a análise de políticas públicas de saúde? Essa é uma pergunta sobre a qual tenho refletido na trilha de economistas e sociólogos da política, e a minha resposta tem sido, nas últimas duas décadas, incisiva e insistentemente positiva, ainda que longe de unanimidades e grandes audiências. Tanto o substantivo “história”, como o adjetivo “histórico”, passaram a frequentar mais o meu vocabulário corrente assim como deste campo de análise, ainda que se saiba que a história esteve mais presente na formação e nos caminhos das ciências sociais. É no campo disciplinar da sociologia que esse diálogo tem sido mais constante e persistente, de onde deriva a expressão “virada histórica das ciências sociais”, a constatação de uma “era de ouro” ou uma “segunda ou terceira onda” da sociologia histórica. Essas questões estão presentes em minha linha de pesquisa, que versa sobre gênese, natureza e desenvolvimento de políticas sociais no Brasil contemporâneo, uma continuidade de análises que discutem o papel da saúde na construção de Estado. A preocupação teórico-conceitual é compreender quando, porque e como, em um determinado contexto histórico, surgem arranjos coletivos, nacionais e compulsórios para proteger populações de riscos e cuidar e compensar agravos (como analfabetismo, desnutrição, doença, envelhecimento, pobreza, morte etc.), e quais são as suas consequências sociais e políticas. Portanto, diz respeito ao processo de constituição de autoridade pública em que epidemias são eventos únicos, trágicos e dramáticos que exacerbam os efeitos negativos da interdependência social (como interdependência sanitária) e, potencialmente, as possíveis saídas (ou arranjos) individuais e coletivas para minorar, solucionar e prevenir.

Andrew Linklater: Uma pesquisa recente foi realizada visando elaborar um livro sobre a ideia de civilização na política mundial e preparar as bases para um estudo dos símbolos em uma perspectiva de longa duração. Gostaria de fazer alguns comentários sobre as conexões entre esses projetos e a atual crise de saúde. O livro discute o argumento de Elias de que no curso do processo civilizador europeu os níveis de violência em geral declinaram, os níveis de autodomínio aumentaram, a identificação emocional entre pessoas foi ampliada e o planejamento social foi intensificado. Podemos, contudo, nos perguntar até que ponto essas quatro tendências estão evidenciadas na política mundial, utilizando os critérios fornecidos pelos escritos de Elias como base para que investiguemos as principais direções da mudança.

Passando à questão dos símbolos, quaisquer mudanças no poder relativo de símbolos nacionais ou internacionais podem iluminar tendências globais gerais. Por exemplo, partidos nacional-populistas dos últimos tempos têm conseguido elevar os níveis de apoio a símbolos nacionais, acarretando um grande desafio a organizações internacionais, tais como a UE, associadas a uma hegemonia global frequentemente acusada de negligenciar os interesses de grupos vulneráveis e diminuir o papel das filiações nacionais.O simbolismo global permanece fraco, mas movimentos tais como Rebelião da Extinção criaram símbolos que ressoam em várias sociedades. Será importante analisar o simbolismo da crise de saúde: se tonará o vírus Covid-19 um símbolo de medos e ansiedades nacionais derivado da imprevisibilidade das interconexões globais? Ou um símbolo de ameaças à humanidade que possa comprometer novas solidariedades transnacionais? Em outras palavras, que papel a Covid-19 desempenhará nas imagens futuras de uma civilização global ou na consolidação de diretrizes nacionais?Pesquisas recentes influenciadas pela sociologia do processo ressaltam que a luta pelo simbolismo da Covid-19 pode ter um papel crítico no período por vir, e que tentativas de controlar seu sentido podem ter um efeito profundo no equilíbrio de poder entre perspectivas nacionais e internacionais.

Sergio Ocampo: Mis áreas de especialización son dos: la teoría sociológica comparada y la teoría de sistemas sociales. En mi opinión, sus potenciales aportes son dispares. La teoría sociológica comparada podría ofrecer un marco de problematización conjunta de aquellos supuestos que faciliten o entorpezcan el desarrollo de hipótesis fundamentales sobre lo social y su dinámica en condiciones de pandemia, crisis y mitigación. Un concepto de lo social abstracto y problematizar podría irritar diversos programas a la vez, estimular el diálogo entre ellos y triangular resultados. Lamentablemente, no veo en esta área condiciones para avanzar una agenda más ambiciosa. No vislumbro aportes en materia metodológica o técnica.

La teoría de sistemas sociales ofrece un marco de referencia para el trabajo multinivel demandado por la investigación dentro del fenómeno pandémico. Cuenta con una teoría de la sociedad mundial y de sus dinámicas diferenciadas, ofrece una teoría de las organizaciones y de la competencia entre ellas, brinda una teoría de la interacción y de las multiplicidad de sus formas y adaptaciones (corporal y/o remota, sincrónica y/o asincrónica, etc) y delinea una teoría de los movimientos de protesta. Asimismo sugiere abordajes de la co-dependencia de las relaciones sociales con sus entornos desde una perspectiva sociológica del riesgo y del peligro. Esto es destacable en la actual coyuntura, porque el programa sistémico lejos de ser indiferente, pone especial atención a las relaciones no-lineales que cada relación social mantiene con los sucesos y procesos virológicos, poblacionales, ecológicos, etc. de su entorno. Ofrece incluso un enfoque profundo de las condiciones de posibilidad de lo social para quienes deban lidiar con intrincados problemas de construcción de objeto, este se caracteriza por una extraordinaria labilidad y precisión para identificar condiciones de doble contingencia y de imputación de alteridad en condiciones de incomprensión forzosa.

Por último, pero no en orden de importancia, la teoría de sistemas sociales ofrece una perspectiva general sobre la co-irritación entre todos estos niveles teóricos.Es preciso señalarlo, esta opción es más precisa y concreta que la vaga e indeterminada “relacionalidad” entre objetos, que en los mejores casos alcanza una mera aditividad puntual de fenómenos de distintos nivel. Es a su vez, y esto merece subrayarse, más plástica y descriptiva que la “dialéctica” de niveles, pues no sólo vira plásticamente entre las posiciones de cada nivel y busca relaciones contradictorias entre ellos, sino que además logra escindirlos causalmente sin fracturar por ello la unidad del objeto. Así logra exhibir la selectividad de las dinámicas, en lugar de caer en el siempre espinoso principio de necesidad aplicado a las relaciones y niveles sociales, que en más de una ocasión no logra más que llevar la descripción y la explicación sociológicas a la falacias del tipo el huevo y la gallina.

Renato Ortiz: A literatura sobre os meios técnicos de comunicação sempre foi superlativa; isso se repetiu com a internet. Há vários textos ditirâmbicos que a consideram espaço privilegiado da democracia por excelência (lembro os escritos de Pierre Lévy sobre a ciberdemocracia). Uma das dimensões que surge no debate contemporâneo diz respeito ao “isolamento” do indivíduo e sua capacidade de desfrutar os bens materiais e culturais a partir da posição resguardada de sua “moradia”, de seu “lar”. Diante da expansão das trocas digitais tudo se resumiria ao acesso que cada um teria em relação a esses bens. Lembro um livro, A sociedade de acesso, de um desses escritores globais que repetem o jargão do senso comum planetário (Jeremy Rifkin). A ideia principal é a seguinte: o indivíduo, senhor de si, teria a sua disposição um conjunto de técnicas que lhe permitiria desfrutar o mundo. Tudo se resumiria ao acesso. A situação de pandemia coloca algumas questões sugestivas. Primeiro, a diferença, até então sublimada, entre isolamento digital e isolamento social. Tudo parecia em harmonia. Mas percebemos que são coisas realmente distintas. O fechamento das relações sociais é claramente um empobrecimento da vida, das relações amorosas às questões econômicas. O confinamento forçado suspende as relações sociais (não as anula) limitando-as a um espaço exíguo no qual sua materialidade é predominantemente virtual. Dizer que o indivíduo isolado digitalmente é o senhor de seu mundo (como se fazia antes) é não perceber que seu “confinamento” é metafórico, isto é, o mundo a que ele se refere permanece em pleno funcionamento “lá fora”. O confinamento forçado diz outra coisa, o mundo “lá fora”, pelo menos temporariamente, ruiu, devemos dele nos retirar para nos preservar. Há, portanto, um hiato entre a metáfora e a realidade, isto é, entre a idealização digital e o confinamento como fato social coercitivo. Segundo, pode-se ainda perguntar: as técnicas digitais criam realmente laços sociais, ou elas apenas reforçam os vínculos existentes anteriormente? Dito de outra maneira: elas criam solidariedade (como as religiões ou as ideologias)?

Bila Sorj: Uma das lições da pandemia é a necessidade urgente de se estudar a hierarquia social das ocupações, de acordo com nossos valores e em relação a sua real utilidade. As ocupações que se tornaram emblemáticas na crise são sobretudo aquelas desempenhadas por mulheres e ligadas às atividades de cuidado: são as enfermeiras, as auxiliares de enfermagem, as cuidadoras de idosos, crianças e deficientes, as faxineiras, além das médicas e médicos os grandes protagonistas na pandemia. Além disso, a estratégia de combate à doença conta basicamente com o suporte do trabalho das mulheres no âmbito familiar. Essas ocupações são muito pouco reconhecidas e, consequentemente, mal remuneradas. David Graeber, antropólogo americano, em seu livro Bullshit Jobs, nos convida a pensar o que diferencia um “trabalho essencial” de um trabalho “sem sentido”. Para saber o que configura um “trabalho essencial”, afirma ele, basta imaginar quais seriam as consequências sociais de seu desaparecimento. A crise alentou uma percepção, até agora pouco enraizada na sociedade, de que as ocupações essenciais são aquelas que nos permitem continuar vivendo.

 

3. A pandemia estaria provocando mudanças sociais, políticas e/ou culturais profundas? Ou acelerando tendências já em curso? Se sim, é possível vislumbrar os contornos das sociedades pós-Pandemia?

Gilberto Hochman: Em uma perspectiva histórica, desde meados do século XIX epidemias e pandemias provocaram respostas na direção do crescimento da autoridade pública na coordenação de entes federativos e na articulação com outros Estados nacionais e organizações internacionais. Portanto, essa seria a expectativa do Brasil pós-pandêmico. Todavia, como veremos na resposta seguinte, uma análise da sociologia histórica não autoriza previsões apenas otimistas sobre nosso futuro.

Andrew Linklater: Na conclusão de Mappae Mundi, Goudsblom e de Vries afirmaram que os processos sobre os quais as sociedades pensam ter mais controle podem se tornar os mais imprevisíveis. Nesse sentido, talvez seja melhor focar em critérios que possam ser usados para analisar quaisquer direções significativas de mudança nas figurações humanas.  Conforme mencionado, os escritos de Elias fornecem critérios importantes. De especial importância para a análise de tendências globais é saber se o autodomínio nacional está aumentando ou diminuindo, se a identificação entre pessoas está alargando ou estreitando, e se o apoio ao planejamento internacional de proteção aos vulneráveis está crescendo ou decaindo. Esses critérios podem ser especialmente úteis para examinarmos os efeitos da Covid-19 na ordem global. Eles apontam para a necessidade de focar em até que ponto preocupações nacionais autocentradas direcionam acontecimentos e em até que ponto solidariedades transnacionais estão ganhando força. É importante o equilíbrio de poder entre essas forças.O ponto, portanto, reside na relativa importância das orientações nacionais e pós-nacionais em relação ao mundo como um todo. No período recente, movimentos nacional-populistas têm escarnecido do globalismo. Símbolos nacionais tem sido centrais para o ataque a organizações internacionais. Movimentos ambientalistas têm estado na linha de frente de contra-ataques ressaltando problemas que afetam a humanidade como um todo que requerem ação global. O tempo dirá se a Covid-19 vai ser mais associado a pontos de vista nacionais ou globais, ou ao menos como o equilíbrio entre essas perspectivas se desdobrará. Esta é uma das questões centrais que merecerão atenção estreita da comunidade científica-social.

Sergio Ocampo: La investigación epidemiológica y la filosofía política continental han acaparado la discusión sobre tendencias en esta coyuntura. La epidemiología le ha mostrado al mundo la utilidad de modelar estados presentes del objeto para simular estados futuros y alertarnos sobre los escenarios a los que las decisiones pueden conducirnos. La filosofía política continental ha lanzado prematuramente polémicas de tipo prospectivo en torno a sociedades post-pandémicas, a tal fin ha revisado ciertas premisas clásicas sobre la economía y/o el Estado con algunos datos de actualidad y ensayar hipótesis sobre futuros órdenes sociales.

A diferencia de ambas construcciones de futuro, la investigación social no requiere esfuerzos prospectivos para construir su objeto. Hay tendencias sociales y es primordial ceñir su investigación a las metodologías de indagación de coyunturas y de procesos en curso. Los procesos sociales son irritables y alterables en cada uno de sus puntos de bifurcación. Así, al situar este objeto (tendencias) dentro de otro más amplio con estructuración y horizonte abiertos (procesos) y de naturaleza autoimplicada se logra exhibir su tensión, su selectividad y su autosimplificación. En este sentido, no huelga decir que la comunicación de tendencias puede alterar el curso de la tendencia descripta. En esta perspectiva, la investigación social ofrece a otros modelos de análisis tendencial elementos de problematización y criterios de control sociológicos. Las simulaciones epidemiológicas pueden reducir sus grados de incertidumbre al incorporar la reintroducción de las tendencias sociales dentro de procesos sociales. Y las prospecciones filosóficas sobre el Estado y/o el capitalismo podrían reducir los componentes especulativos de sus razonamientos, controlando sus afirmaciones en base a premisas sociológicas.

A partir de esta discusión considero prematuro ser concluyentes y me siento obligado a subrayar que el horizonte es aciago, pues en el reina el recrudecimiento del riesgo y de la calamidad humanitaria. Hecha la salvedad, al observar tendencias de la sociedad mundial no se identifican hasta el momento elementos que permitan aseverar que la pandemia esté llevando la diferenciación funcional a un umbral de catástrofe ni forzando el paso a una sociedad post-funcional. En los sistemas funcionales se observan impactos de signo y grado variables agrupables en tres tipos: 1) impacto positivo por espiralamiento acelerado de operaciones (ciencia, mass media, política y religión), 2) impacto negativo moderado por ralentización operativa (educación), 3) impacto negativo crítico, o bien por inactividad repentina (deportes y economía), o bien por colapso y simplificación (salud). En algunos sistemas y códigos los impactos son aún incipientes (derecho, arte y moral). Se observan también interacciones con otros riesgos globales, en especial con los ecológicos (por ej. se registra una disminución histórica de emisiones CO2). Cabe aclarar finalmente que la observación de tendencias en las organizaciones, las interacciones y los movimientos de protesta no se ciñe a estos esquemas y que cada uno de esos niveles demandaría una respuesta específica.

Renato Ortiz: Existiriam realmente “sociedades pós-pandemia”? Tenho sérias dúvidas. A utilização do pós, como na discussão sobre a pós-modernidade, demarca claramente dois tempos diversos. Uma ruptura se instaura entre eles. Mas haveria ruptura? Um reinício da história? Sinceramente não creio que a crise, na verdade, qualquer crise, abale inteiramente os alicerces da sociedade. O capitalismo não irá desaparecer, a China não deixará de lado suas ambições geopolíticas, os Estados Unidos continuarão a conhecer um declínio relativo em relação à sua hegemonia mundial, a desigualdade social permanecerá. Poderíamos elencar diversos outros temas, mas a ideia subjacente ao argumento é que “gostaríamos de voltar aos tempos normais”. Ou seja, recuperar o que foi gasto em energia e paixão no momento anterior à crise. A menos de sermos hegelianos – toda crise é sinônimo de um avanço do Espírito Absoluto – é perfeitamente possível imaginarmos a permanência deste mesmo mundo, talvez, com problemas mais graves. Não digo que tudo permanecerá idêntico a si mesmo, imóvel; é plausível esperar a revisão de algumas políticas públicas, sobretudo em relação às área da saúde e da ciência. O combate à pandemia pode mudar alguma coisa nesse plano. É também possível avançarmos em relação à nossa perspectiva predadora a respeito da natureza: o vírus como limite à expansão humana. Essa era uma questão anteriormente levantada pelos ecologistas, a natureza como barreira ao progresso. Nesse sentido, abre-se a possibilidade de uma consciência maior dos problemas do meio ambiente, que são globais e exigem uma estratégia global para serem enfrentados. Mas há também ambiguidades. Espera-se da ciência a cura de nossos males. Paradoxalmente, a crença no progresso da ciência se fortalece, ela ganha inclusive legitimidade enquanto arma política no combate à pandemia. Não quero minimizar as mudanças, certamente ocorrerão; entretanto, parece-me exagerado imaginar uma nova era: numa perspectiva otimista, o reencontro harmônico entre os homens (um mergulho nos valores civilizatórios perdidos ao longo da história); noutra pessimista, um mundo distópico devorado por suas próprias contradições (uma espécie de Prometeu desacorrentado). As estruturas sociais são duras, não se dobram facilmente aos diagnósticos apressados.

Bila Sorj: Creio que é muito cedo para avaliarmos os efeitos da crise. Em geral, os sociólogos são cautelosos na hora de produzir prognósticos sobre os deslocamentos do mundo social. É necessário mais tempo para podermos vislumbrar o que vem por aí. As incertezas econômicas e de saúde e a condição de confinamento podem levar as pessoas a se questionar sobre o tipo de vida que levam e o tipo de sociedade em que vivem. Dessa reflexão pode surgir uma percepção da importância de certos bens e da inutilidade de outros, até agora tão valorizados. Pode emergir um forte desejo de mudança de modelo econômico, de redução das desigualdades sociais, de valorização dos serviços públicos e da segurança social, temas que estão aparecendo, com vigor, na mídia. Mas, depois de viver alguns meses numa situação de perigo iminente, as pessoas também podem desejar voltar ao já conhecido, ao “normal” e tendências autoritárias podem vir a se fortalecer.

 

4. Que obra(s) da sociologia e das demais ciências sociais podem nos ajudar a compreender e a conversar sobre os desafios em curso?

Gilberto Hochman: Retomar a análise de Norbert Elias (O processo civilizador) sobre a sociogênese do Estado pode ajudar a produzir um esquema analítico e uma interpretação sobre o surgimento de arranjos coletivos de proteção social e produção de bem-estar a partir da emergência e impactos das epidemias. Em primeiro lugar, um elemento-chave para a compreensão da coletivização do bem-estar é a ideia de configuração de Norbert Elias definida, em Introdução à sociologia, como um padrão estruturado e mutante de dependências recíprocas entre seres humanos. Seria um instrumento conceitual para se escapar do antagonismo indivíduo versus sociedade e a interdependência de indivíduos, grupos e instituições, a condição prévia para a formação e identificação de uma configuração. Na passagem do mundo tradicional para o moderno (industrialização, urbanização) ocorreu um alargamento da complexidade das cadeias de interdependência que se tornaram opacas e incontroláveis por parte de qualquer indivíduo ou grupo. Isso impossibilitaria explicar uma configuração a partir das propriedades dos seus componentes, segundo Elias. Nessa perspectiva o desenvolvimento e a dinâmica histórica dessas cadeias de interdependência social geram consequências sociais não antecipadas ou mesmo não desejadas por qualquer indivíduo/grupo que as compõem. E, ao mesmo tempo, são resultados do entrecruzamento das motivações e ações desses mesmos indivíduos e grupos. Um segundo ponto a ser ressaltado é que a caracterização e a análise de configurações complexas só podem ser feitas através dos elos de interdependência que as constituem. Os elos de interdependência demandariam formas de coletivização do cuidado com adversidades temporárias ou permanentes, são os efeitos externos negativos, isto é, as consequências indiretas das deficiências e adversidades de uns indivíduos sobre outros que são imediatamente atingidos (apesar de não sofrerem desses agravos). Por exemplo, a ameaça da doença de alguns sobre os demais membros da sociedade que poderia potencialmente produzir uma consciência sobre essa mesma interdependência. Desse modo, a epidemia seria o paradigma da interdependência social uma vez que, a princípio, ninguém poderia dela escapar. Todavia, o caminho das respostas coletivas (estatais ou voluntárias) às epidemias é objeto de pesquisa sociológica e histórica. Historicamente não foram trajetórias unidirecionais e, por isso, de difícil previsibilidade na experiência atual pandêmica da Covid-19. Como indiquei em The sanitation of Brazil – Nation, State and Public Health, epidemias no século passado produziram formas públicas e perenes para lidar com os agravos, mas, sociologicamente, as respostas podem ser variadas e, apesar do meu desejo, não apontam necessariamente para expansão do Estado no campo da saúde.

Andrew Linklater: Sociólogos do processo argumentaram pela adoção da perspectiva de longa duração para lidar com os arranjos sociais e seus desafios. Eles não ignoraram o impacto das epidemias nas figurações humanas. Stephen Mennell recentemente chamou atenção para um artigo magnífico sobre saúde pública e processo civilizatório de autoria do falecido Johan Goudsblom, publicado no The Milbank Quarterly em 1986. Esse ensaio discute como os padrões de autodomínio mudaram em resposta a epidemias. É fascinante no atual contexto a referência a expectativas da que na Idade Média os leprosos deviam manter-se a uma distância 6 pés (1.82m) das pessoas saudáveis. Goudsblom associa essas suposições sobre padrões necessários de autodomínio com o curso geral do processo civilizador europeu. O artigo é uma introdução fabulosa à perspectiva de longa duração no mundo social, que é a marca distintiva da sociologia do processo. Ele convida os leitores a refletirem sobre a relação existente entre o processo civilizatório e as atitudes ligadas ao corpo, à saúde e à higiene.

O livro de Elias Envolvimento e alienação tem importância atual tendo em vista que as pessoas lutam para orientar-se diante de novos desafios e perigos. Ali, o autor ressalta que frequentemente é o medo que domina as respostas às crises e, portanto, compõe as dificuldades humanas. A questão é até que ponto as sociedades podem adquirir um nível de alienação que contribua para um maior entendimento e controle dos processos que as dominam.De novo, é o equilíbrio entre forças complementares que importa. Nos últimos tempos, líderes nacional-populistas têm disparado escárnio sobre os especialistas. Trump, como se sabe, rapidamente rotula verdades inconvenientes como fake news. Tem havido uma corrupção do discurso público. Comunidades científicas são hoje amplamente vistas como provedoras de conhecimento autônomo, com potencial de ajudar as sociedades a encontrar seu caminho para além da crise. Grande parte do foco está na humanidade como um todo, antes que nos interesses de uma nação. Envolvimento e alienação oferece uma perspectiva de longa duração sobre tais tensões e sobre as dificuldades que as sociedades têm em perceber-se para além dos vínculos nacionais quando lidam com os desafios que demandam ampliar a aprofundar as interconexões globais.

Sergio Ocampo: Ante la complejidad de la coyuntura he tratado de contar con un menú de bibliografía amplio y de actualizarlo permanentemente, sin estrechar la lectura a literatura sociológica y de teoría social. Esto se debe a que no considero prudente que en esta coyuntura, como científicos sociales, nos desentendamos de los avances y debates en virología, infectología, inmunología, epidemiología y demografía relativos al SARS-CoV-2 y a la Covid-19. Ya adentrándonos en la bibliografía de las ciencias sociales encuentro de mucha ayuda tres menús bibliográficos: la literatura del riesgo y del peligro, la literatura sobre sociedad mundial y sobre organizaciones, la literatura de la sociología de la salud y, me permito subrayarla, la literatura historiográfica sobre epidemias.

En cuanto a la literatura del riesgo y del peligro, me alegra sobremanera que la saga de trabajos de Ulrich Beck haya sido devuelta a la discusión pública y constituye una referencia ineludible dentro del contexto que atravesamos. Pero por esas mismas razones recomiendo con mucho entusiasmo revisitar la fuente de la que abrevó Beck, una fuente más caudalosa y más turbulenta: la sociología del riesgo y del peligro de Niklas Luhmann. En escritos como “Comunicación ecológica” o los dedicados al riesgo, Luhmann mostró que no se trata sólo de amenazas estáticas, latentes o efectivas, sino de una dinámica de riesgos, pero también de peligros en referencia a las amenazas. Entre los términos del esquema riesgo/peligro vira continuamente el sentido de las alarmas, las protestas, las catástrofes y los futuros.

En cuanto a la literatura sobre sociedad mundial y sobre organizaciones, encuentro un gran soporte y una irritación permanente en los trabajos de Luhmann, que son insoslayables en ambas materias. También resulta provechoso leer a Rudolf Stichweh y a Aldo Mascareño problematizar y optimizar la tesis de la sociedad mundial, y a Marcelo Arnold y Darío Rodríguez devanando las decisiones organizacionales, que enfrentan un escenario fuertemente contradictorio por estos días. También encuentro mucho sustento y apoyo en la visión de la sociedad en investigaciones hechas sobre ellas desde otras perspectivas y concentradas en sistemas específicos como las de Anwar Shaikh y de Rolando Astarita sobre la globalización del capital o las de José Mauricio Domingues y de Mathias Albert sobre la política, el Estado y las relaciones internacionales regionalmente diversificados.

La bibliografía de la sociología de la salud es vasta, pero encuentro mucha información relevante y confiable en las producciones locales, un gran ejemplo de ellas son las investigaciones llevadas a cabo por el equipo de Graciela Biagini en la UBA.

Reservo el último lugar, pero no en orden de importancia, a la historiografía de epidemias. La lectura de investigaciones historiográficas sobre la peste negra, la gripe española o el SARS-CoV-1 ofrece hallazgos y sorpresas que provocan corrosivamente una profunda reflexión teórica y conceptual sobre la complejidad de la indagación de tendencias en Ciencias Sociales. Me permito señalar a título personalísimo que en ella encontré mucha más riqueza sociológica y actualidad, por caso en las clásicas publicaciones del equipo de Ma. del C. Carlé sobre peste negra, estructuras y procesos hispanomedievales, que en los resonados debates públicos entre filósofos políticos consagrados al capitalismo y/o al Estado post-pandémico/s.

Renato Ortiz: Não creio que sejam tanto as obras sociológicas que contem para nosso entendimento dos fatos. A situação de crise traz uma dimensão que habitualmente temos dificuldade de perceber, ela nos retira do conforto do quotidiano. Nesse sentido, estimula a imaginação e o pensamento. Os fenomenólogos diziam que para se pensar com profundidade era preciso nos colocar “entre parêntesis”, isto é, cultivar uma distância em relação à imanência dos fatos. O isolamento forçado, a quebra da rotina que se impõe, é uma espécie de suspensão do tempo, vivido numa restrição do espaço. Somos projetados numa situação na qual a normalidade das coisas é interrompida por algo extraordinário. Essa é uma dimensão crucial para o trabalho intelectual, retirar-se do mundo, de nossas certezas, para melhor apreendê-lo em sua “essência” (diriam os filósofos).

Bila Sorj: Joan C. Tronto, Who cares?: How to reshape a democratic politics; Arlie Russell Hochschild, The commercialization of intimate life: notes from home and work; Pascale Molinier, Le travail du care.

 

Nota

[i] As questões discutidas neste simpósio foram extraídas do livro do autor, The Idea of Civilization and the Making of the Global Order, que será publicado pela Bristol University Press, e são reproduzidas aqui com sua permissão.

 

 

A imagem que ilustra este post é:

••• Piet Mondrian, Pier and Ocean 1, 1914. Stephen Mazak & Co, New York.

 

 

Logos

 

* Os textos publicados pelos colaboradores não refletem as posições da BVPS.

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