Simpósio 2 | Mundo Social e Pandemia

Mondrian 2

O Blog da BVPS publica hoje o segundo post do simpósio internacional Mundo Social e Pandemia, uma parceria com a revista Sociologia & Antropologia e a Sociedade Brasileira de Sociologia (SBS). A organização é de Andre Bittencourt (UFRJ e editor do Blog da BVPS) e Maurício Hoelz (UFRRJ e editor de S&A).

No simpósio, sociólogas e sociólogos do Brasil e do exterior responderam a um questionário com 4 perguntas, elaborado com a expectativa de indagar as diferentes dimensões sociais da pandemia e os desafios que ela representa para a sociologia. Mundo Social e Pandemia sairá às terças e quintas no Blog da BVPS, sempre com as respostas de 5 colegas. Clicando aqui você pode ler as respostas do primeiro post. As contribuições originalmente enviadas em inglês e francês serão disponibilizadas nesta página, que será sempre atualizado. Para acompanhar as atualizações do Blog, siga nossa página no Facebook.

Hoje teremos como convidados:

François Dubet, professor emérito da Universidade de Bordeaux e Directeur d’études da École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS) de Paris, França. Autor, dentre outros, de Sociologie de l’expérience (com tradução para o português) e Le travail des sociétés.

Maria Eduarda da Mota Rocha, professora associada do Departamento de Sociologia e do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Autora, dentre outros, de A nova retórica do capital: a publicidade brasileira em tempos neoliberais e Pobreza e cultura de consumo em São Miguel dos Milagres.

José Cláudio Souza Alves, professor titular do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Autor, dentre outros, de Dos barões ao extermínio: uma história da violência na Baixada Fluminense.

Elísio Estanque, professor da Faculdade de Economia e Senior Resercher do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, Portugal. Atualmente é Visiting scholar na Friedrich-Schiller-Universitat, Jena, Alemanha. Autor, dentre outros, de Discurso, trabalho e movimentos sociais e Classe média e lutas sociais.

Jacob Carlos Lima, professor titular do Departamento de Sociologia e membro permanente do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). É o atual presidente da Sociedade Brasileira de Sociologia (SBS). Autor, dentre outros, de Ligações perigosas: trabalho flexível e trabalho associado e As artimanhas da flexibilização: o trabalho terceirizado em cooperativas de produção.

Boa leitura!

 

1. Sociólogos/as e cientistas sociais, em geral, estão se mostrando mobilizados/as para produzir e compartilhar interpretações sobre os efeitos sociais e políticos da pandemia. A teoria sociológica está equipada para enfrentar o desafio de compreender/explicar o fenômeno?

François Dubet: Penso que a pandemia nos remete ao que podemos chamar de “sociologia clássica”. Com efeito, a principal questão que se coloca é a da integração e da solidariedade social face ao vírus. Essa questão se precipita sobre diversos temas. O primeiro é o da integração funcional das sociedades nas quais a divisão do trabalho é uma questão de sobrevivência: no quê as diversas atividades sociais são úteis à sobrevivência coletiva? Descobrimos que as profissões pouco valorizadas eram na verdade mais úteis à vida social que aquelas que são, no entanto, mais prestigiadas. A segunda questão é a da cultura cívica numa epidemia que obriga todos a “se comportarem bem” para proteger a si e aos outros. Por fim, a última questão é a do exercício do poder nas sociedades democráticas, da relação com a ciência e as fake news. A sociologia não explica a pandemia, mas analisa as respostas das sociedades que variam sensivelmente de acordo com os níveis de integração social e coesão democrática. As respostas da Suécia, Canadá, Estados Unidos, Brasil, China e vários outros países deverão ser estudadas, e com isso aprenderemos muito sobre a natureza das sociedades, sobre sua “solidez”.

Maria Eduarda da Mota Rocha: Penso que não. O esforço de construção dos objetos a partir das teorias é sempre a parte mais delicada do nosso trabalho, mas, diante de uma ruptura como a que estamos vivendo, as mediações que precisamos estabelecer são ainda mais complexas porque é como se estivéssemos testemunhando uma parte da vida social “em estado bruto”, como uma ferida que ainda não cicatrizou. Normalmente, as instituições sociais se sedimentam, se naturalizam e sua origem não se ativa na memória dos que vivem tais instituições. Uma parte da experiência social, talvez uma pequena parte, está se refazendo sob os nossos olhos e, em um curto espaço de tempo, vamos testemunhar o processo de institucionalização de algumas práticas, aquilo que o senso comum já nomeou de “o novo normal”, em luta com a tremenda força de inércia do já estabelecido. Então caberá a nós percorremos, junto com todo mundo, o caminho que vai da perplexidade rumo a alguma compreensão. Por outro lado, a perplexidade foi o que fez nascer a sociologia, que surgiu para tentar explicar as profundas mudanças trazidas com a modernização. De certa maneira, a ciência está sempre correndo atrás do prejuízo. Somos provocados pela realidade. Mas, felizmente, não respondemos a essa provocação a partir do zero. Temos uma disciplina muito rica, que oferece muitas pistas para pensar o que estamos vivendo.

Por exemplo, a ideia do “taken-for-granted world”, de Alfred Schutz, se mostra muito poderosa nesse contexto. Como ficamos perdidos sem a rotina e as garantias ontológicas que ela parece nos oferecer! A pandemia revelou o profundo nível de naturalização que envolve a vida social, suas atividades corriqueiras, e o quanto isso é importante para a atribuição de um sentido imediato para a existência. Talvez por isso seja tão difícil abrir mão de certas atividades, especialmente aquelas ligadas à sociabilidade. É que entre a “realidade” da doença e a experiência vivida, se interpõem as maneiras de interpretar o mundo, e essa é uma lição preciosa da sociologia que muitos não conseguem entender. Entretanto, ao refletir sobre a pandemia, o que salta aos olhos no Brasil mais uma vez é a desigualdade social: as condições materiais e culturais de enfrentamento da doença são muito diferentes. A Covid-19 evidencia de modo brutal o quanto a distância em relação à necessidade tem um peso decisivo nas chances de vida das pessoas. Diretamente, determinando o acesso à informação de qualidade, ou se elas podem ficar em casa, e em que condições. Mas também de modo indireto, sob a forma de uma maneira de estar no mundo que as predispõe ou não a antever as consequências das medidas de prevenção e a levar a sério essas consequências. Bourdieu levantava a hipótese de que as classes mais vulneráveis costumam ser capturadas pelo presente, enquanto as demais internalizam a disposição de investir no futuro. É possível imaginar o impacto disso na relação com os riscos trazidos por uma pandemia.

José Claudio Souza Alves: Sim, a teoria sociológica vem crescendo na sensibilidade com relação a novos e diferentes temas sociais, formulando abordagens mais complexas, voltando-se para os grupos sociais mais vulneráveis aos efeitos da pandemia, isto é, os expropriados pelas classes dominantes do modelo capitalista: moradores de periferias e favelas, negros, indígenas e grupos étnicos segregados, imigrantes, desempregados, encarcerados, habitantes de áreas degradadas ou contaminadas por empreendimentos públicos e privados, bem como os movimentos sociais, movimentos sindicais e partidários por eles organizados. O avanço do modelo neoliberal associado a governos de extrema direita somou ao desmonte histórico das áreas da saúde, educação, seguridade, segurança e direitos humanos um discurso e uma ação marcados pela dissimulação e mentira, prejudiciais à luta contra a pandemia e que expõem os mais vulneráveis à contaminação e à morte, numa escala mais ampla da necropolítica do Estado. Sociólogos e cientistas sociais estão mergulhados numa reflexão e prática conectadas à vida desses mais frágeis, o que permite um conhecimento capaz de identificar as lacunas, as fragilidades e os comprometimentos das políticas de proteção e a continuidade das desigualdades e injustiças. Do lugar social que ocupam podem contribuir de forma ímpar na formulação de respostas mais eficazes no controle da pandemia e na redução dos efeitos mais graves na vida dos mais desassistidos. Geram um conhecimento solidário e protetor, questionador das condições sociopolíticas que favorecem o contágio e mascaram a dimensões do não cuidado e negligência com a vida dos desamparados, porque desinteressantes para os donos do poder político e do capital. Produzem, portanto, o sequenciamento genético das práticas sociais subjacentes à pandemia sinalizando os indicadores sociais que revelam os vetores de contágio e as respostas sociais e políticas necessárias ao fortalecimento do sistema imunológico dos grupos coletivos que foram desalentados pelo sistema e deixados à própria sorte.

Elísio Estanque: Creio que a sociologia detém um conjunto de ferramentas capazes de ajudar a compreender este mundo em convulsão, agora devido à pandemia de Covid-19. Enquanto especialidade académica vocacionada para compreender as sociedades complexas, a sociologia possui, desde Marx, Durkheim e Weber, os instrumentos teóricos, conceptuais e metodológicos que lhe permite desenvolver estudos sistémicos (ou intensivos) sobre a realidade que está neste momento a abalar o mundo. No entanto, não sendo uma ciência exata, as diferentes perspetivas e correntes teóricas que marcam o pensamento social conduzem naturalmente a diagnósticos e conclusões distintas e porventura conflituantes entre si. Os paradigmas do pensamento contemporâneo nas ciências sociais – entre as escolas clássicas, o positivismo, o marxismo, o weberianismo, etc. e entre os contemporâneos, o construtivismo, o pós-modernismo, a crítica pós-colonialista, etc. – continuam a influenciar a análise sociológica. Em especial, perante um problema social tão grave e tão dramático como este, é inevitável que a urgência da intervenção permita que os critérios académicos sejam contaminados pelas opções ideológicas dos seus intervenientes além de que a análise objetiva e sistemática dos fenómenos requer algum distanciamento temporal, ou seja, estudar o fenómeno enquanto estamos no centro do furacão dos acontecimentos é impossível. Tal não significa, contudo, que a nossa intervenção, enquanto cientistas sociais, e o contributo que poderemos disponibilizar para a compreensão dos efeitos sociais desta pandemia (e das medidas de confinamento), não sejam importantes. São sobretudo importantes se considerarmos que muitas das tendências em curso na economia, no mundo tecnológico, no campo laboral ou na esfera política, por exemplo, já estão em curso desde há décadas. As mudanças desencadeadas a partir do impacto da Covid-19 não ocorrem no vazio, mas sim incidem sobre dinâmicas e estruturas pré-existentes. Desde logo no plano da inovação, digitalização, teletrabalho e expansão das redes virtuais esta pandemia está sem dúvida a servir de catalisador e é provável o alcance desses meios na sociedade se torne mais evidente no curto prazo. Porém, a sociologia não faz futurologia.

Jacob Carlos Lima: Sem dúvida. A teoria sociológica tem acompanhado e contribuído para o debate sobre as mudanças no capitalismo desde seu surgimento enquanto disciplina. Do industrialismo e suas consequências na estruturação das classes, aos conflitos sociais, às ideologias, às crises políticas, guerras e pandemias, situações essas que sempre estiveram, de alguma forma, interconectadas. Podemos ilustrar tratando o contexto da primeira guerra mundial, marcado por revoltas, revoluções, crises econômicas, violência política, ascensão de ideologias autoritárias, desigualdade social e o caráter mortífero assumido pela gripe espanhola, talvez a primeira pandemia globalizada. Um conjunto de transformações marcaram o século XX a partir de então, e a sociologia sempre buscou acompanhá-las, aprimorando seus instrumentais teóricos e conceituais. Dentre elas, questões estruturais como: a)  a luta de classes como substrato da dinâmica social, em suas distintas perspectivas teóricas, negando-a ou afirmando-a, e os grandes marcos do século: o socialismo, o nazi-fascismo, o Estado de bem-estar social, o neoliberalismo, a globalização, as crises ambientais e o questionamento de modelos de desenvolvimento econômico marcados pela exploração de recursos não renováveis, os desastres do mundo físico e social; b) a hegemonia capitalista do final do século XX e início do século XXI, a revolução tecnológica representada pelo digital, a flexibilização da produção, dos mercados e do trabalho, que perde continuamente os direitos sociais conquistados; c) a precarização crescente da vida, as novas pandemias, sempre presentes, mais ou menos circunscritas. Podemos nos referir à meningite no Brasil dos anos 1970, encoberta pela ditadura, o HIV de caráter mundial, o ebola, a gripe aviária e outras, sempre vinculadas às mudanças ambientais e à persistência da desigualdade social. No contexto da atual pandemia, a mais virulenta dos últimos cem anos, sociólogos e cientistas sociais do mundo inteiro têm buscado compreender os impactos do distanciamento social, das perdas humanas, das consequências econômicas, sociais e políticas acerca de suas duração, superação e convivência com novas situações. E têm contribuído para a análise da crise pandêmica que também é social, política e econômica, assim como para combater seus efeitos, que, embora atinja todas as classes sociais, o fazem de formas diferentes conforme as estruturas sociais vigentes.  O modo como estados e governos enfrentam a pandemia, a informação da população, o descaso com o conhecimento científico, a saúde pública e a educação são exemplos de processos sociais complexos que a sociologia busca explicitar a partir de seu instrumental teórico e metodológico não estanque, sempre em movimento, indicando o caráter interdisciplinar do conhecimento sociológico e sua importância para a compreender a crise que vivemos.

 

2. Como a sua área de pesquisa especializada pode contribuir para a reflexão sobre diferentes dimensões desse fenômeno?

François Dubet: Minhas próprias pesquisas não tratam da sociologia dos riscos e da saúde. Estou mais interessado nas desigualdades sociais e suas transformações nas sociedades pós-industriais da América do Norte e da Europa ocidental. Na maioria desses países, especialmente os mais liberais, as desigualdades sociais aumentaram, mas, o que é mais fundamental, elas mudaram de natureza. Nós passamos de um regime de desigualdades definidas em termos de classes sociais para um regime que eu chamo de desigualdades múltiplas: os indivíduos são definidos por uma variedade de desigualdades relativamente heterogêneas. Nós somos “desiguais enquanto” trabalhadores, mulheres, homens, jovens, velhos, com ou sem diploma, negros ou não, minoria sexual… A lista é infinita e cada um vive as desigualdades como uma experiência singular e como uma forma de desprezo.

Essa experiência de desigualdades não encontra expressão política organizada pelos partidos de esquerda e pelos sindicatos, porque cada um se compara aos mais próximos de si e se sente vítima. Há uma hostilidade aos que estão acima e aos que estão abaixo. Consequentemente, o ressentimento e o ódio levam aos movimentos populistas, que opõem um povo supostamente unido às elites supostamente homogêneas e aos estrangeiros. Evidentemente, essa configuração social e política é particularmente inquietante e perigosa face à pandemia, que exige uma confiança nos outros, na solidariedade, na “razão” e na ciência, ao invés da denúncia de bodes expiatórios.

Maria Eduarda da Mota Rocha: Eu trabalho com temas da sociologia da cultura e, preferencialmente, da comunicação. A produção artística e intelectual que são objeto dessas áreas temáticas são lugares privilegiados de elaboração dos sentidos das experiências vividas. E por conseguinte, das disputas sobre esses sentidos. O campo midiático onde circula essa produção poderia fornecer amplo material para a compreensão desses conflitos no presente. Como as diferentes classes sociais e grupos políticos estão respondendo à questão sobre o que está acontecendo no Brasil hoje? À primeira vista, ele evidencia o aprofundamento de uma primeira clivagem que já vinha se desenhando desde pelo menos as eleições de 2018, entre as redes sociais que o então candidato Bolsonaro usava intensamente para estabelecer uma “relação direta” com o núcleo duro de seu eleitorado, e a mídia tradicional, cuja posição naquele momento era menos definida do que parece ser durante a cobertura da pandemia. Agora, temos claramente o telejornalismo da Globo questionando de maneira direta o comportamento do Presidente, de um lado, e apresentadores como Ratinho e Datena, do SBT e Bandeirantes, respectivamente, apoiando a posição de Bolsonaro. Os discursos em disputa parecem se organizar de modo bastante binário, em torno de oposições centrais como “religião versus ciência”, “economia versus vida”. A ênfase em cada um dos polos tem rebatimentos no plano da concepção da  gravidade da pandemia e do lugar que ela deve ocupar em termos da hierarquia de prioridades do governo federal. Seria muito interessante aprofundar a análise da organização do campo da oferta de opiniões político-ideológicas e de sua articulação com o campo político propriamente dito, por exemplo, a partir da oposição entre o Presidente Bolsonaro e as demais instâncias do poder federal, como o Congresso e o STF, de um lado, e os governadores dos estados mais afetados ou mais atuantes, de outro. O caso atual abre a oportunidade para outro plano de análise que já vem sendo estudado e que diz respeito às diferentes portas de entrada nesse campo de oferta de opiniões político-ideológicas, em que cada vez mais a mídia tradicional parece ter que lidar com a concorrência de atores situados nas redes sociais e que, eventualmente, podem balançar as hierarquias consolidadas nas instituições mais consagradas, inclusive as universidades. No plano propriamente midiático, mas não somente, as instâncias tradicionais têm tentado resguardar a sua autoridade na luta com os difusores de “fake news”, demarcando uma posição como os que podem dizer o que é ou não notícia. É como se em vários subcampos da produção cultural, os pólos dominantes estivessem sendo obrigados a lidar com um tipo novo de concorrente, menos disposto a respeitar o “valor supremo” em disputa (a verdade científica, as regras do fazer jornalístico etc.), que a possibilidade de uso massivo das redes sociais introduziu na luta por legitimidade diante de um certo tipo de público não especializado. De todo modo, o que me parece crucial é que a sociologia brasileira abra mais espaço para os temas ligados à mídia que foram de certa forma delegados às pós-graduações em comunicação, mas sobre os quais nossa formação especializada tem muito a dizer.

 José Claudio Souza Alves: Os estudos sobre grupos de extermínio e milícias vêm mostrando a formação de micro estados de exceção, organizados pelo próprio Estado, através do controle militarizado de territórios. Neles, agentes públicos de segurança passam a regular e monopolizar vários mercados de bens e serviços: terrenos, imóveis, água, gás, acesso clandestino a sinal de TV e internet, taxas de segurança dos comerciantes e acesso a consultas e exames médicos em hospitais públicos, entre outros. Matadores e milicianos, a partir desses empreendimentos, consolidam trajetórias políticas bem sucedidas, por meio do controle das votações dessas regiões. Por se tratar de favelas e periferias de grandes metrópoles, ali se encontram os grupos sociais mais vulneráveis à pandemia, em decorrência do sistema de saúde mais precarizado, do fluxo de relações manipuladas por grupos criminosos com suas conexões políticas e do favorecimento daqueles vinculados a eles. É nesse ambiente que cresce a subnotificação de mortes causadas pela Covid-19, através da não realização de testes e o fornecimento de laudos médicos atribuindo à insuficiência respiratória a causa da morte de um número crescente de pessoas. Há, portanto, uma relação direta entre a atuação de grupos de extermínio e milícias na manutenção das áreas socialmente mais desprotegidas e atingidas pela pandemia. Desses grupos também parte a pressão política para o fim do distanciamento social e a volta ao funcionamento do comércio, a fim de voltarem a cobrar taxas de segurança dos que não estão abrindo seus negócios. A pandemia reconfigurou o funcionamento dos mercados criminosos dos grupos citados ao mesmo tempo em que vitima mais duramente os que são subjugados por eles. Essa contradição está no cerne das relações sociais brasileiras atravessadas pela pandemia e que determinam sua amplitude, os que serão vitimados, os que serão beneficiados e fortalecidos politicamente, bem como o futuro da construção de políticas públicas capazes de minimizar os danos.

Elísio Estanque: Nas áreas temáticas em que venho desenvolvendo meus trabalhos nas últimas décadas (relações de trabalho, classes sociais, movimentos sociais) haverá seguramente muitas transformações e nalguns casos elas já se fazem sentir. A crise económica brutal, o disparar das taxas de desemprego, a aceleração da digitalização e das plataformas de prestação de serviços, a multiplicação de atividades onde as redes de comunicação à distância são decisivas, o aumento e das redes de ativismo virtual, campanhas de solidariedade e intervenção cívica etc., etc., são alguns dos domínios a ser atingidos no imediato e no curto prazo. Desconhecem-se ainda as consequências no médio prazo, tal como se desconhece o real alcance e duração da pandemia na escala global. Vivemos um momento de grande perplexidade quanto ao futuro. Mas perante o volume de população atingida (na data de hoje 17.04.2020, a plataforma Johns Hopkins revela 2.169.062 contaminados – 08:16am em Brasília – e 146.071 mortes de Covid-19)[i] e atendendo ainda às orientações de alguns líderes “negacionistas” (Bolsonaro e Trump são os piores exemplos) é previsível que também no plano político haja consequências importantes no rescaldo desta pandemia viral.

Jacob Carlos Lima: A sociologia do trabalho, como subdisciplina da sociologia, tem estudado as transformações sociais das últimas décadas e suas consequências sociais a partir das alterações nas relações capital e trabalho e sua tendência crescente de desregulação. Embora distinta nos diversos países, essa desregulação tem em comum a desvinculação dos contratos de trabalho dos direitos sociais dos trabalhadores, que passam a ser responsabilizados por sua própria reprodução social. Para as empresas, esses direitos significam taxas a serem recolhidas pelo Estado,  consideradas um custo a mais para o capital. Assistimos então a uma precarização crescente do trabalho em termos de condições, jornadas e direitos sociais, instaurando um cenário de instabilidade e imprevisibilidade. Reformas trabalhistas e reformas dos sistemas previdenciários são a ponta do iceberg da precarização da vida social como um todo, marcada pelo risco, pelo imponderável, pela instabilidade e pela impossibilidade de um futuro minimamente programado. O aumento da exploração do trabalho vincula-se à exploração dos recursos naturais e à crise ambiental, decorrente de modelos de desenvolvimento econômico que ameaçam a vida na Terra, e as pandemias podem ser consideradas uma das suas consequências. E essa pandemia não atinge a todos da mesma forma. Quando falamos em trabalho, estamos falando em classes sociais e em acesso a bens materiais e simbólicos que se vinculam à capacidade do indivíduo prover sua subsistência. E essa capacidade é diferentemente distribuída em função das formas como as sociedades se organizam econômica, política e culturalmente. No capitalismo, a concentração de renda e de poder faz com que o acesso à riqueza social se distribua desigualmente, no acesso à vida e ao bem estar social. O trabalho, a saúde e a educação, nas últimas décadas, conhecidas como neoliberais, foram secundarizadas em nome da rentabilidade do capital, e o resultado disso fica evidenciado pela atual pandemia e sua virulência. Assim, a sociologia do trabalho auxilia na compreensão da pandemia no contexto geral da precarização da vida, no qual o trabalho mantem sua centralidade enquanto possibilidade de subsistência da população. Basta observarmos que, no meio dessa pandemia, o congresso nacional discute mais uma reforma trabalhista como forma de desonerar empresas e  retirar ainda mais direitos dos trabalhadores em nome da criação de empregos, falácia demonstrada na reforma de 2017, que apenas precarizou mais o já existente, sem brecar o crescimento do desemprego. Apesar de os dados evidenciarem o contrário, continua na agenda política nacional (e internacional) o debate sobre o que deveríamos privilegiar: a vida ou a economia. Isso tudo justificado ideologicamente como uma preocupação, que nunca existiu entre nossas elites empresariais: a fome e o desemprego. Numa conjuntura de pandemia, busca-se precarizar ainda mais a já fartamente precária vida da maioria da população.

 

3. A pandemia estaria provocando mudanças sociais, políticas e/ou culturais profundas? Ou acelerando tendências já em curso? Se sim, é possível vislumbrar os contornos das sociedades pós-Pandemia?

François Dubet: Na França, a pandemia provocou uma dupla reação. A primeira é um desejo de solidariedade e igualdade que veio com a revelação da utilidade coletiva de um grande número de atividades. Muitos também compreenderam que a mundialização descontrolada era perigosa e, de maneira mais geral, que as sociedades humanas deveriam contar com a natureza. Existe também uma vontade de redução dos excessos do consumo e um reforço da consciência ecológica. Estes são os aspectos positivos da pandemia. Mas há uma reação muito mais perigosa diante das consequências econômicas da pandemia: desemprego em massa, empobrecimento geral e multiplicação dos conflitos e acusações. Se essa tendência prevalecer podemos ter que nos preocupar com violências sociais como as dos “gilets jeunes”, um aumento da insegurança, um ódio dos estrangeiros e de outros países… Nesse caso, as sociedades mais democráticas podem sair da crise com regimes autoritários. E assim voltaríamos à sociedade de antes, mas piores.

Parece-me que, hoje, os atores políticos têm responsabilidades consideráveis. São eles que escolherão entre a solidariedade e o ódio. Me preocupo que muitos escolham o ódio. O mesmo raciocínio pode ser feito em nível internacional. Ou inventamos outras maneiras de regular a mundialização ou caminhamos em direção à guerra econômica, como parecem querer hoje Trump e o governo chinês. E, por que não, em direção à guerra tout court. Mas o pior não é sempre necessário.

Maria Eduarda da Mota Rocha: Vejo muitos discursos em circulação que apontam para o “nada será como antes”. Mas durante a pandemia, os mesmos atores sociais disputam um jogo que já vinha sendo jogado, agora em um novo contexto. Se pensarmos, para simplificar, em uma combinação tripartite entre “mercado”, “estado” e “comunidade”, como faz Boaventura de Sousa Santos em Toward a New Common Sense, a conjuntura joga a favor dos dois últimos em detrimento do primeiro, de um ponto de vista simbólico que pode se refletir no plano político a médio prazo. A crise sanitária global tende a desacreditar os defensores de políticas neoliberais, uma vez que respostas individuais como as propostas pelo mercado aos problemas gerados pelo coronavírus são praticamente inócuas. Virou passatempo para internautas colecionar frases de neoliberais convictos, dentro e fora do Brasil, afirmando a importância do sistema público de saúde, das políticas de renda mínima e de proteção social, mesmo que isso seja uma medida de urgência.

No Jornal Nacional, o quadro “Solidariedade S./A” mostra ações de empresas de ajuda no combate aos efeitos da crise sanitária, em nome da responsabilidade social. Mostrei que essa tendência se desenha na publicidade brasileira desde os anos de 1980, articulada ao avanço do neoliberalismo, como uma resposta ao enorme poder social e político do capital na sociedade, em nível global e nacional, e ao descontentamento que esse poder provocava. Esse esforço retórico é uma tentativa de atenuar uma contradição profunda, que ele obviamente não resolve, e que a pandemia põe a nu porque muitos são os discursos críticos que estão tentando fazer dela um momento de aprendizado coletivo acerca das insuficiências do mercado no tratamento de questões humanitárias urgentes, muito além do coronavírus, como a miséria, a violência, a crise ambiental. Esses discursos tocam no velho problema da alienação. A pandemia é a forma mais violenta e direta de nos lembrar que existimos como espécie, ao contrário da crença firmada em uma sociedade capitalista de que somos exclusivamente indivíduos que se relacionam através da troca de mercadorias.

Se as respostas que virão a essa “revelação” serão as que esperamos, é uma outra questão. A crise sanitária e social que vivemos deverá acirrar as disputas entre constelações de valores organizadas em torno da solidariedade e do individualismo extremo, que já vinham desenhando clivagens políticas fundamentais por todo o globo. Mas a questão mais importante é saber quais as forças sociais que sustentarão a luta em nome desses valores. No Brasil, já tínhamos a estranha situação de insatisfação crescente com o desmonte das políticas públicas e a dificuldade de articulação das forças de oposição, sobretudo na interlocução entre a sociedade civil e o sistema partidário. Enfim, a profundidade da crítica social despertada pela experiência da crise não será um reflexo imediato da história, mas dependerá, mais uma vez, da capacidade coletiva de transformar o sofrimento em impulso de transformação.

José Claudio Souza Alves: As mudanças sociais, políticas e culturais produzidas pela pandemia ainda estão se processando e dependem das respostas que os diferentes grupos sociais estão elaborando. Se, por um lado, há ações de solidariedade e ajuda aos mais vulneráveis, existe também a negação dos efeitos perversos na vida dos mais desprotegidos, por outro. As respostas dos governantes nesse cenário têm sido decisivas. No caso brasileiro, a atuação do governo de extrema direita de Bolsonaro e seus apoiadores acentua a tendência de abandono e desamparo dos mais afetados, lançados no dilema de terem que trabalhar para sobreviver e, com isso, se expor à contaminação. A negação da pandemia, a manipulação dos dados, o discurso da inevitabilidade das mortes e a utilização política dos seus efeitos para ameaçar opositores com soluções autoritárias aprofundam os ataques às instituições democráticas presentes no governo, com destaque para o não investimento nas universidades públicas e na ciência e o desmonte dos órgãos reguladores de proteção à saúde e ao meio ambiente dos mais pobres. A sociedade pós-pandêmica vai delineando traços reforçadores da segregação de vários grupos sociais sacrificados em nome da obtenção de ganhos de grandes grupos econômicos e do projeto político dos que garantem esses ganhos à custa da morte e sofrimento. Grupos criminosos e ilegais, emergentes na prática e no discurso dos atuais governantes do país, ampliam sua presença, alçando projetos políticos mais amplos, em nome do fim da violência que eles próprios fomentam. A ignorância pela desinformação se torna instrumento importante para dissimular intenções e permitir a manipulação das opiniões pelo atual governo, possibilitando a aprovação de medidas nefastas para a sobrevivência dos setores mais indefesos, eles próprios enredados na produção de mentiras e na sustentação dos seus algozes, travestidos em heróis. O cenário é, portanto, de continuidade no agravamento das contradições sociais atualmente vividas.

Elísio Estanque: Em muitos aspetos, como referi atrás, trata-se de uma aceleração de tendências já em curso desde pelo menos o início do milénio. Porém, desconhece-se ainda os efeitos de tudo isto na questão ambiental. O susto coletivo que estamos a passar, o confinamento prolongado, com o ressurgir das prioridades mais simples e básicas criam todo um novo clima psicológico, que favorece uma restruturação de subjetividades e do sentido identitário das comunidades. Comunidades virtuais desterritorializadas e reinventadas? É possível que ganhem maior expressão. Mas também os apelos da terra, da agricultura familiar, da economia solidária venham a relançar o mundo rural de um modo inovador. Evidentemente que as opções ideológicas alinhadas com o neoliberalismo (e em geral combinadas com populismo de direita) tendem a minimizar o problema e a dar prioridade às atividades económicas, aparentemente menosprezando as implicações de suas decisões no aumento da mortalidade. Aqui se jogam modelos económicos opostos e, em especial na Europa, está em jogo o futuro da União Europeia, ou o seu eventual desmantelamento ou o possível reforço do Estado providência, sobretudo considerando a intervenção salvadora dos recursos públicos no auxílio a esta calamidade. Para além dos milhares de mortes de coronavírus, haveria certamente muita gente a morrer de fome nas ruas (ou no isolamento familiar) não fora as medidas urgentes adotadas por vários Estados europeus de auxílio aos trabalhadores e pequenas empresas que entraram em lay-off ou simplesmente encerraram. No contexto da UE, acredito que, apesar das dificuldades e resistências de alguns países do Norte, haverá medidas de mutualização das dívidas públicas dos estados membros. Por outro lado, dependendo do balanço final que venha a ser feito e tornado perceptível pelos cidadãos, é previsível que os líderes populistas (nomeadamente nos EUA e Brasil) venham a ser politicamente penalizados e/ou eventualmente destituídos.

Jacob Carlos Lima: A pandemia está evidenciando a falência de uma proposta política e econômica, chamada de neoliberal, na qual o mercado prevalece frente à sociedade e o Estado atua apenas para atender interesses empresariais em nome do funcionamento da economia. O Estado como elemento regulador das relações capital-trabalho, num momento como este, é fundamental para a coordenação das medidas de proteção social e de combate ao vírus, como tem sido amplamente reconhecido por governantes de diversos países e de distintas orientações ideológicas. Não basta dinheiro, se não houver movimentos coordenados de combate à pandemia, os quais, sem sistemas públicos de saúde robustos, no entanto, têm dificuldade de dar conta do desafio. Discursos políticos de questionamento da saúde pública têm sido substituídos por outros evidenciando a necessidade de sua coordenação para mitigar as consequências. Por exemplo, o isolamento social como forma de evitar o colapso do sistema público de saúde. Recupera-se em amplos setores da sociedade a defesa da ciência – ultimamente percebida como supérflua – enquanto instrumento fundamental para combater a pandemia e a necessidade de investimentos contínuos na pesquisa como garantia de sobrevivência humana. Isso vai na direção oposta daquela pregada por elites toscas, políticos oportunistas limitados e mal intencionados, encastelados no aparelho do Estado. A esses juntam-se profetas de uma religiosidade tacanha, que encontram soluções no achismo e em crendices, mas com forte apoio de uma população desinformada por uma mídia venal, comprometida com essas mesmas elites. Além das fake news que se reproduzem nas redes sociais, disparadas por esses mesmos grupos. E isso não apenas no Brasil, mas em vários países do mundo, o que dificulta vislumbrar a vida social pós-pandemia. Afinal, os discursos de vários chefes de Estado sobre a pandemia reforçam a ideia de que o importante é recuperar a economia, mesmo que morram milhares. É o darwinismo capitalista que não sabemos como irá se manter ou se transformar após o período pandêmico. Algumas vozes mais otimistas apontam mudanças sociais e ambientais que indicam que nada será como antes. Efetivamente não será; falta, contudo, saber se as mudanças serão civilizatórias ou o seu contrário.

 

4. Que obra(s) da sociologia e das demais ciências sociais podem nos ajudar a compreender e a conversar sobre os desafios em curso?

François Dubet: Há algumas décadas a sociologia é uma disciplina em queda. Ela perdeu sua influência política, ela não atrai mais os melhores estudantes, ela se desintegrou em uma infinidade de objetos e pontos de vista. Ela está satisfeita com uma crítica rotineira das desigualdades e discriminações… Ela não influencia mais as elites fora do campus. Não é apenas por causa do neoliberalismo que a economia se tornou a ciência social mais importante, mas pelo rigor dos seus métodos, sua imaginação e muitas vezes por sua vontade crítica de propor soluções aos problemas que não são somente econômicos, como da educação, saúde, meio ambiente, democracia… Há economistas de direita e economistas de esquerda, mas todos estão de acordo sobre os princípios da sua ciência, enquanto os sociólogos multiplicam studies, e frequentemente falam apenas consigo mesmos e com os pequenos grupos dos quais são especialistas e, muitas vezes, porta-vozes.

Eu acredito que a pandemia pode ser uma oportunidade para a sociologia se a nossa disciplina encontrar uma parte da sua vocação: a de ser uma teoria dos conjuntos sociais, da sociedade, do funcionamento, dos sistemas e dos conflitos. Hoje, nós precisamos de teorias da sociedade que sejam também filosofias políticas e morais, dizendo como “manter” as sociedades, como elas podem ser relativamente justas e habitáveis, sociologias engajadas mais do que sociologias que hesitam entre a expertise e a denúncia da injustiça do mundo, o que não é uma revelação. É necessário relermos Durkheim, Marx e Weber e, talvez,… Parsons. Da mesma maneira que os sociólogos construíram teorias das sociedades modernas, devemos hoje retomar este trabalho porque nós temos a escolha entre sociedade ou barbárie.

Maria Eduarda da Mota Rocha: Theodor Adorno e Max Horkheimer, Dialética do Esclarecimento; Pierre Bourdieu, A distinção e O senso prático; Teresa Caldeira, Cidade de muros: crime, cidadania e segregação em São Paulo; Florestan Fernandes, A Revolução burguesa no Brasil; Gilberto Freyre, Sobrados e mocambos: decadência do patriarcado rural e desenvolvimento do urbano; Erving Goffman, Quadros da experiência social; Francisco de Oliveira et al, Os Sentidos da democracia: políticas do dissenso e hegemonia global; Alfred Schutz, Fenomenologia e relações sociais; Boaventura de Sousa Santos, Toward a new common sense: law, science and politics in a paradigmatic transition; Jessé Souza, A construção social da subcidadania; Charles Wright Mills, A elite do poder.

José Claudio Souza Alves: As obras de Mike Davis, com destaque para Cidade de quartzo e Ecologia do medo, nos permitem entender os processos urbanos de segregação e poder a partir do medo, da violência e das disputas sociopolíticas. A obra Coronavírus e a luta de classe atualiza as reflexões de Davis juntamente com as análises de David Harvey, cuja obra sobre os movimentos sociais e lutas urbanas recentes vem se destacando, além de agregar autores como Alain Badiou, Slavoj Zizek, Alain Bihr e Raúl Zibechi. A obra de Giorgio Agamben sobre o homo sacer, principalmente o livro Estado de exceção, nos ajuda a compreender a construção atual de uma dimensão totalitária e assassina do Estado dentro da democracia e as implicações no fortalecimento dos grupos de extermínio e milícias, predominantes nas periferias e favelas. O livro Cidades sitiadas: Novo urbanismo militar de Stephen Graham aprofunda as dimensões geográficas e espaciais que passam a dominar o mundo, em que aqueles identificados como inimigos são sujeitados pelas políticas de segurança, traduzidas no caso brasileiro pela lógica da execução sumária. Desnecessário dizer que são nessas áreas que o coronavírus congraça. Achille Mbembe na sua obra Necropolítica aprofunda a percepção da política de extermínio do Estado, incluindo a dimensão do genocídio racial praticada contra negros. As políticas de desproteção social dos negros e de favorecimento do contágio e morte dos mesmos, em áreas segregadas, sem serviços de saúde nem acesso a recursos seriam uma atualização que a pandemia traz para essa necropolítica. Por fim o livro de Charles Tilly Coerção, capital e Estados europeus e o artigo de Juan Albarracín “Criminalized electoral politics in Brazilian urban peripheries” aprofundam as percepções de como o crime organizado se enraíza na estrutura social e passa a controlar populações e territórios, algo decisivo na atual etapa da pandemia no Brasil.

Elísio Estanque: Boaventura de Sousa Santos acaba de publicar um novo livro onde difunde suas posições de textos de reflexão relacionadas com a pandemia, e obviamente no âmbito do quadro teórico que vem desenvolvendo há várias décadas fundado na premissa das tensões Norte-Sul Global e nos vetores que considera definirem o sistema global de hoje (capitalismo, patriarcado e colonialismo). É seguramente uma leitura estimulante, porque estimulante e criativo é o seu pensamento crítico, aqui fica a referência: A Cruel Pedagogia do Vírus. Coimbra: Almedina  (publicado no Brasil pela Boitempo Editorial). Para além disso, recomendaria a releitura de obras já clássicas de crítica do mercantilismo capitalista, por ex. Karl Polanyi, A grande transformação (1944), que continua atual em muitas matérias e que, em diálogo com Marx, nos ajuda a um entendimento das perversidades da mercadorização capitalista. Acrescentaria ainda três referências que creio vão ao encontro dos problemas atuais: 1. Erik Olin Wright, How to be an anti-capitalist in the 21st century,  2. Klaus Dörre, S. Lessenich & H. Rosa, Sociology, capitalism, critique; e 3. Sonia Livingstone & J. Sefton-Green, The class living and learning in the digital age.

Jacob Carlos Lima: Podemos elencar numerosas obras da sociologia para compreender o que está se passando, dos autores clássicos aos mais contemporâneos. Desde os pais fundadores da disciplina, Marx, Weber, Durkheim e Simmel, temos análises das crises e suas possibilidades de superação, embora de formas distintas. As classes e a desigualdade social e os conflitos decorrentes; a compreensão subjetiva dos processos sociais como orientação da ação; a importância da sociabilidade na estruturação dos comportamentos e suas implicações na vida social; a solidariedade social como formuladora de políticas sociais e de integração social. No século XX, estudos sobre ideologia, mídia e cultura indicaram a importância da superestrutura nas formas de manutenção da dominação social. Nesse sentido, podemos indicar autores como Adorno, Horkheimer, Benjamin e a Escola de Frankfurt, além de Gramsci e Althusser; os interacionistas da Escola de Chicago, como Becker e Gofmann, que tratam d forma como os indivíduos reagem a situações específicas flexibilizando posturas deterministas sobre comportamento individual e social, da estigmatização e dos preconceitos. Bourdieu e a síntese dos clássicos, na análise do contemporâneo, demonstrando a importância do habitus no comportamento social e sua estruturação, acompanhado por Elias analisando historicamente os processos civilizatórios e contra-processos descivilizadores, o que nos permite situar o Brasil hoje. Os chamados pós-modernos (que dificilmente aceitariam essa classificação) que atualizam os clássicos e estudam a sociedade de risco, como Beck, introduzindo a questão ambiental e dos desastres, além de Sennett, Bauman, Habermas, discutindo o capitalismo flexibilizado e suas consequências na frágil, líquida, impermanente sociabilidade moderna, ideia que recupera a célebre frase de Marx, “tudo que é sólido desmancha no ar”. Isso para ser breve, mas que indica como a sociologia dispõem de um instrumental teórico e metodológico em permanente renovação, sem descuidar dos clássicos que evidenciam seu caráter enquanto clássicos em sua permanência, relida, reinterpretada.  A sociologia, enquanto ciência, surge da crise e tem nela seu objeto permanente, que exige da disciplina um renovar-se constante. A rapidez das transformações sociais a partir do final do século XIX exigiram um conhecimento sistemático das relações e conflitos sociais, do modo como se estruturam e são percebidas pelos diversos atores sociais. O século XX foi, de forma permanente, palco de revoluções sociais, políticas, culturais, econômicas, científicas e tecnológicas através de guerras, desastres, conflitos, revoluções. A sociologia e suas várias subdisciplinas acompanham essas transformações, analisando suas consequências: do crescente desequilíbrio marcado pelo aumento do efeito estufa, pela queima das matas e de combustíveis fósseis, até as pandemias que vão aparecendo e se alastrando num mundo no qual tempo e espaço se comprimem, distâncias desaparecem e as mobilidades aumentam vertiginosamente. Da mesma forma que acompanha utopias sociais, seus sucessos e fracassos, a sociologia observa e denuncia o autoritarismo político permanentemente à espreita; a precarização da vida e o aumento exponencial da desigualdade social; os fundamentalismos religiosos que ora parecem que vão desaparecer, ora reaparecem de forma renovada em busca de um reencantamento do mundo; o ressurgimento de um conservadorismo cultural que pensávamos superados. Enfim, a sociologia como conhecimento científico sistematizado evidencia a sua importância na compreensão da crise sanitária, social, econômica e política que se espraia, contando para tanto com um referencial teórico e metodológico que possibilita contribuir significativamente para o entendimento de suas várias dimensões e possíveis desdobramentos.

 

Nota

[i] Os números atualizados (14/05/2020) já são, segundo a mesma plataforma: 4.369.410 contaminados e 297.682 mortes (N.E.).

 

A imagem que ilustra este post é:

Piet Mondrian. Ocean 5. Carvão e guache sobre papel de polpa de madeira, colado a painel Homasote, 1914. The Solomon R. Guggenheim Foundation Peggy Guggenheim Collection.

 

 

Logos

 

 

* Os textos publicados pelos colaboradores não refletem as posições da BVPS.

 

1 comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s