Simpósio 1 | Mundo Social e Pandemia

Mondrian 1

Em parceria com a revista Sociologia & Antropologia e a Sociedade Brasileira de Sociologia (SBS), o Blog da BVPS dá início hoje a um novo projeto dentro da série Pandemia, Cultura e Sociedade: o simpósio internacional Mundo Social e Pandemia, organizado por Andre Bittencourt (UFRJ e editor do Blog da BVPS) e Maurício Hoelz (UFRRJ e editor de S&A), que assinam esta apresentação.

No simpósio, sociólogas e sociólogos do Brasil e do exterior responderam a um questionário com 4 perguntas, elaborado com a expectativa de indagar as diferentes dimensões sociais da pandemia e os desafios que ela representa para a sociologia. Trata-se, é claro, de uma percepção produzida no “calor dos acontecimentos”, para evocarmos o Marx de O 18 de brumário de Luís Bonaparte. Contudo, como inclusive lembraram alguns dos colegas que nos acompanharão ao longo das próximas semanas, as ciências sociais parecem cada vez mais compelidas a lidar com a contingência e a dialogar com formas mais ágeis de comunicação.

Assim, mais do que propor análises sistemáticas e fechar diagnósticos sobre a Covid-19 (algo que seria, no mínimo, imprudente), Mundo Social e Pandemia visa formar um repertório de questões, provocações e referências de leitura que possa calibrar nossa bússola sociológica, funcionando como uma espécie de automonitoramento reflexivo da vida social dentro da pandemia. O simpósio constitui, portanto, uma tentativa de compreender a mudança social de múltiplas escalas desencadeada por um agente social não-humano, cujas consequências poderão ser temporárias ou permanentes. Essa a questão em aberto, cuja resolução dependerá das opções históricas de indivíduos e coletividades em meio à teia de processos e escolhas do presente. Ao final da leitura das mais de 50 respostas obtidas é provável que tenhamos aprendido mais sobre os impasses e as possibilidades que a sociologia enfrenta hoje do que sobre a pandemia em si – o que não é pouca coisa.

O convite para participação no simpósio buscou contemplar a diversidade da comunidade sociológica brasileira e internacional, levando em conta gênero, geração e outros marcadores sociais, além de filiação institucional e áreas de pesquisa e atuação a fim de olhar a crise em curso e sua relação com a sociologia por ângulos distintos. O simpósio será apresentado, a princípio, em duas postagens semanais, cada uma com as contribuições de 5 participantes. Nessa organização sempre procuramos levar em consideração, simultaneamente, o diálogo possível entre as respostas e a diversificação de pontos de vista.

Finalmente, gostaríamos de agradecer a todas e todos que, mesmo nestes tempos difíceis, aceitaram o desafio de interpelar este fenômeno que rompe a regularidade do nosso cotidiano e se dispuseram a socializar suas reflexões com o público. Também agradecemos as indicações recebidas e aos colegas que nos ajudaram a realizar alguns dos convites. A tradução da resposta de Olli Pyyhtinen foi feita por Lucas van Hombeeck, a quem agradecemos. As respostas originalmente enviadas em inglês e francês serão disponibilizadas neste post, que será sempre atualizado. Para acompanhar as atualizações do Blog, siga nossa página no Facebook.

No post de hoje do simpósio teremos como convidados/as:

Celi Scalon, professora titular do Departamento de Sociologia e do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia (PPGSA) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). É membro do Executive Committee da International Sociological Association (ISA) e foi presidente da Sociedade Brasileira de Sociologia (2009-2011) e coordenadora da área de Sociologia na CAPES (2014-2018). Autora, dentre outros, de Imagens da desigualdade e Handbook on Social Stratification in the BRIC Countries (em colaboração).

Clara Maria de Oliveira Araujo, professora associada do Departamento de Sociologia e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPCIS) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Autora, dentre outros, de Gênero, trabalho e família no Brasil contemporâneo (organizadora) e Gender Quotas in South America’s Big Three: National and Subnational Impacts (em colaboração).

Olli Pyyhtinen, professor da Faculdade de Ciências Sociais e do programa New Social Research da Universidade de Tampere, Finlândia, onde também dirige o Relational Studies Hub (RS Hub). Autor, dentre outros, de The Simmelian Legacy: A Science of Relations e More-than-Human Sociology.

José de Souza Martins, professor titular aposentado do Departamento de Sociologia e professor Emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). Foi eleito fellow de Trinity Hall e professor da cátedra Simón Bolívar da Universidade de Cambridge. Autor, dentre outros, de A aparição do demônio na fábrica e Linchamentos: a justiça popular no Brasil.

Mokong Simon Mapadimeng, diretor  de pesquisa no Human Science Research Council, África do Sul. Foi membro do Executive Committee da International Sociological Association (ISA).  Autor, dentre outros, de Contemporary Social Issues in Africa (organizador) e Handbook Of The Sociology Of Youth In Brics Countries (em colaboração).

Boa leitura!

 

1. Sociólogos/as e cientistas sociais, em geral, estão se mostrando mobilizados/as para produzir e compartilhar interpretações sobre os efeitos sociais e políticos da pandemia. A teoria sociológica está equipada para enfrentar o desafio de compreender/explicar o fenômeno?

Celi Scalon: A sociologia tem fundamentos que permitem uma reflexão qualificada sobre o fenômeno da pandemia de Covid-19; conceitos como globalização, risco, desigualdade, vulnerabilidade, redes, para citar apenas alguns, podem embasar a compreensão do contexto atual. No entanto, qualquer análise nesse sentido demanda também ousadia e inovação. Essa não é uma situação nova para nossa disciplina. Como diz Weber, a sociologia tem o dom da eterna juventude, porque sua produção é marcada pela renovação, condição básica para o entendimento de processos que são dinâmicos e estão em constante mutação. A sociologia é a ciência da mudança, por isso, lidar com fenômenos novos e desafiadores está em sua própria natureza. Estamos diante de um processo único de mundialização, de cooperação/competição e de solidariedade que expõe as desigualdades crescentes nas sociedades contemporâneas que já vinham sendo apontadas desde a crise de 2008.

Clara Maria de Oliveira Araújo: Penso que em parte, está. As modalidades de trabalho remoto, as formas de participação política virtuais e ainda a emergência das formas não convencionais de interação social e afetiva são alguns dos aspectos que se exacerbaram nesta pandemia, e em relação aos quais as ciências sociais vêm dedicando espaço nas últimas décadas. Vale ressaltar que a sociologia tem incorporado mais as noções de contingência, imprevisibilidade e incerteza, como constitutivas da vida social. Isso inclui, também, eventos e processos definidos como “naturais”, mas que são objetos indiretos de intervenção humana. Como exemplos temos o problema ambiental e as mudanças climáticas. Nesse sentido, analiticamente, podemos estar preparados para investigar esta experiência.

Mas a intensidade e o ineditismo de aspectos da pandemia constituem novos desafios para o conhecimento sociológico. Em cerca de 3 meses a característica contingente e quase simultânea do evento obrigou metade da população a alterar, de modo radical, os padrões de sociabilidade, produção, convivência e lazer. A despeito da natureza provisória dessas práticas, provavelmente a sua intensidade e as incertezas terão desdobramentos na vida das pessoas. Citemos, por exemplo, o compartilhamento, em nível global e quase simultaneamente, das experiências de isolamento social, os novos e diversos usos do espaço doméstico ou ainda o trauma diante da privação dos rituais de passagem, sobretudo aqueles envolvendo a morte. As ciências sociais têm se desenvolvido muito com base em recortes temáticos, o que nos ajudará a compreender múltiplas faces do fenômeno. Mas, para compreendê-la em toda sua extensão, serão necessárias análises macrossociológicas da pandemia, das ações globais para detê-la e de suas consequências. Nesse caso, o método comparativo será fundamental, mas articulado com reflexões teóricas. Tenho dúvidas se os referenciais teóricos e instrumentos empíricos usados para explicar a modernidade em seus diferentes momentos e traços poderão ser simplesmente aplicados para compreender o que virá no pós-pandemia.

Olli Pyyhtinen: Eu penso que sim. Para mim, a tarefa política crucial da teoria sociológica é participar da tentativa de dirimir alguns dos desafios mais significativos e urgentes do nosso tempo. Desse modo eu vejo a teoria não apenas como um sistema de ideias, mas também – e essencialmente – como uma prática, como uma forma de se conectar e se importar com o mundo. E estou convencido de que a teoria sociológica tem muito a oferecer não só em termos de uma compreensão das consequências políticas e sociais da Covid-19, mas também do acesso a um senso da gênese e espalhamento do vírus e como ambos estão emaranhados em relações humanas no mundo dinâmico, parcialmente incontrolável, fluido e relacionalmente complexo em que vivemos. Em última análise, a teoria sociológica pode também nos ajudar a aprender com a Covid-19, não apenas sobre ela.

No entanto, não vejo como as grandes teorias (grand theory) podem ser muito úteis nesse caso. E também não penso que podemos compreender as múltiplas escalas espaço-temporais do vírus e seus efeitos recorrendo a categorias sociológicas tão preconcebidas e costumeiras quanto agência e estrutura, micro e macro, ou indivíduo e sociedade. Para realmente ver o que está acontecendo, do que se trata a pandemia de Covid-19 e o que ela significa para nós individual e coletivamente, não podemos nos posicionar acima ou fora do mundo como ele era, mas sim cultivar nosso conhecimento e teorias a partir do engajamento com ele. E é claro que também precisamos prestar atenção em maneiras de fazer com que nossas vozes sejam ouvidas. É verdade que a sociologia está bastante marginalizada nas grandes discussões públicas sobre a sociedade e o futuro da humanidade. Ter algo a dizer não é o suficiente. Precisamos encontrar formas de alcançar as pessoas e falar para diferentes públicos.

José de Souza Martins: É possível encontrar, na teoria sociológica, pistas para a pesquisa e a interpretação das causas e desdobramentos sociais de pandemias, de desastres naturais, de guerras ou de intervenções dramáticas na realidade social. São ocorrências que provocam grandes rupturas e transformações na estrutura social. Essas rupturas acarretam verdadeiras convulsões sociais, que afetam o que é próprio de uma sociedade e de uma época. É o que já deve estar ocorrendo em diferentes sociedades. Mentalidades, valores, crenças tornam-se obsoletos e descabidos da noite para o dia ou, no mínimo, estão sendo colocados entre parênteses. A sociabilidade que daí resulta alimenta a consciência crítica e a revisão de modos de ser.

Justamente nessa pressuposição tem cabimento, mais uma vez, retornar aos clássicos, que são clássicos justamente porque desenvolveram métodos e linhas de interpretação sociológica que já contém abrangência para a análise do repentino, do inesperado, do surpreendente. É claro que a sociologia é também datada, mas não é tópica. Ela renasce quando se depara com o advento de ocorrências cujo tempo diverge de sua temporalidade de origem. Na linhagem da sociologia de Durkheim e na da sociologia de Marx as rupturas fazem parte da temática teórica essencial. Ainda que concebidas no marco do teoricamente previsível. A anomia é patológica. A contradição não é um defeito. São manifestações de “normalidade” da dinâmica social e do processo histórico. A crise da sociabilidade descontinuada pelo abrupto da pandemia já está lá. É claro que são rupturas cuja temporalidade é muito diversa da temporalidade própria de eventos como o que está ocorrendo agora. Tanto no plano “do durante” quanto no plano “do depois”. Não há, em casos assim, orientações prontas, como há em relação ao socialmente previsível do repetitivo e do irruptivo. Estamos, aqui, tratando de ocorrências que não se situam no âmbito das teorias do repetitivo, nem das da transformação social, mas de ocorrências socialmente imprevisíveis, inesperadas e abruptas, que criam estruturas sociais temporárias em função da emergência e da demanda de interpretações sociológicas de emergência.

Mokong Simon Mapadimeng: Tenho a tendência de acreditar que a sociologia é a mãe de todas as ciências sociais e que é uma disciplina que alcança amplo espectro e diversidade de especializações. Isso, como sabemos, inclui a subdisciplina sociologia da saúde e da doença, que por sua vez é respaldada pelas teorias gerais da sociologia (derivadas tanto do Sul quanto do Norte Globais). Essas teorias e suas metodologias auxiliares são bem desenvolvidas e estão preparadas para nos ajudar como sociólogos a compreender o que está acontecendo no momento atual com a pandemia que engoliu a maior parte senão a totalidade do globo.

 

2. Como a sua área de pesquisa especializada pode contribuir para a reflexão sobre diferentes dimensões desse fenômeno?

Celi Scalon: A pandemia de Covid-19 tornou evidente características extremas das desigualdades, não só aquelas registradas dentro dos Estados-Nação, mas especialmente as que existem entre eles. Mostrou a fragilidade do argumento liberal-meritocrático e a importância de um sistema de bens públicos, que chamamos de Estado de Bem-estar Social, promotor não só de equidade, mas também de solidariedade. Tornou-se comum ouvir que o vírus não distingue pobres e ricos, o que é um fato, mas os sistemas de saúde distinguem. Em países onde o sistema de saúde público convive com o privado, ficou claro o recorte de classe e racial das vítimas de Covid-19. É importante mencionar, também, que a crise econômica atingiu os estratos menos privilegiados de forma muito mais aguda do que os estratos superiores da pirâmide social – este é um fato em todos os países.

Clara Maria de Oliveira Araújo: Estudo as relações de gênero e seus efeitos sobre as relações sociais em geral. Nesta pandemia várias notícias mostram o acirramento das desigualdades de gênero. O aumento dos registros de violência doméstica contra as mulheres é um exemplo. As manifestações de estresse e depressão neste período mais frequentes nas mulheres, segundo a mídia, são outro exemplo. A sobrecarga de trabalho doméstico, ainda outro. O confinamento e o fato de o local de moradia se tornar lócus de diversas atividades de produção e reprodução – trabalho remoto, consumo, lazer –, expõe ainda mais esse problema. Mulheres, mais do que homens, mencionam o aumento da carga de trabalho, em especial se têm crianças, pois a suspensão de atividades escolares e de creches e o isolamento aumentam a necessidade de propiciar cuidado, lazer e atenção. Há também o efeito sobre o próprio emprego, inclusive porque as mulheres estão concentradas em trabalhos mais precários, que tendem a ser mais afetados. O trabalho remoto, a partir de casa, foi disseminado e merece pesquisas sobre como tem sido realizado por mulheres e homens. Há, portanto, vários indícios de que os efeitos e os desdobramentos na economia e no ambiente familiar poderão não ser iguais. Por exemplo, o acesso a tecnologias facilitou mais ou menos o trabalho doméstico? E na política, será que homens e mulheres com poder político e de gestão se comportaram de modo idêntico em suas decisões associadas com a pandemia? Sem dúvida haverá que se investigar as dinâmicas entre espaços públicos e vida privada antes, durante e depois da pandemia. As feministas são pioneiras em alertar para a interdependência humana como algo universal e para a incompatibilidade entre esta condição e os padrões capitalista e neoliberal vigentes. Há que se acompanhar se e em que medida tais questões poderão merecer outro status na agenda pública após essa experiência.

Olli Pyyhtinen: Meu próprio campo ou método de abordagem é o pensamento processual-relacional. Penso que as relações constituem muito da substância central da vida social; tudo o que acontece na vida surge de montagens, processos, fluxos e movimentos. Acredito que o pensamento relacional pode contribuir de maneira significativa para o nosso entendimento da gênese, natureza e efeito do vírus. Analogamente ao que o sociólogo italiano Pierpaolo Donati chamou de “bens relacionais”, a Covid-19 é uma espécie de risco relacional na medida em que tem a ver com relações. Ela não pode ser explicada por meio de referência a agentes individuais e seus objetivos, intenções ou ambições. De fato, independente de suas possíveis boas intenções (ou empatia pessoal), indivíduos podem infectar inadvertidamente um grande número de outras pessoas e espalhar a doença. O vírus é absolutamente relacional: ele se originou, ao que parece, de relações entre humanos e animais, é transmitido por gotículas (e possivelmente via partículas de aerossol) no contato humano ou pelo contato com superfícies contaminadas, e também nos força a impor medidas protetivas sobre relações humanas, como quarentenas, lockdowns e distanciamento espacial.

O pensamento relacional também pode ajudar a nos reconciliar com a natureza simultaneamente local e global do vírus. A pandemia de Covid-19 mostrou como antigos pressupostos microssociológicos a respeito da autonomia de interações locais e seu confinamento a um espaço demarcado simplesmente não são adequados. Nossos contatos sociais são simultaneamente constitutivos de formações sociais globais e afetados por elas. A pandemia é produzida e organizada por meio de contatos aparentemente minúsculos, insignificantes e locais assim como pela mobilidade de pessoas entre lugares. Isso também significa que ela deixaria de existir caso esses contatos localizados fossem eliminados ou temporariamente suspensos com sucesso. Entretanto, o fato de que esse não foi o caso mostra como a vida não pode ser contida, uma vez que a nossa subsistência depende do vazamento.

José de Souza Martins: São várias as situações sociais novas, decorrentes da pandemia, provisórias e temporárias, que desafiam a competência dos pesquisadores: o confinamento, nele o isolamento; a internação hospitalar, sem a presença da família; a segregação na UTI; a solidão na proximidade da morte; a restrição de presenças em velórios e sepultamentos, o que fere costumes e tradições. A morte sem sentido porque os costumes caíram no rol do proibido pelas autoridades sanitárias ou pelo medo. Sobretudo a enorme repercussão mutilante e dessocializadora que tudo isso tem na vida social dos grupos de referência da vítima. Alguns pesquisadores poderão experimentar na carne essas situações. Outros poderão experimentá-las no respectivo grupo familiar ou no grupo de referência. Outros, ainda, na observação própria ou alheia de dolorosas situações de ausências repentinas e definitivas.

Uma providência que sociólogos e antropólogos deveriam adotar, nessa hora, é a de pedir ao maior número possível de pessoas conhecidas e do próprio relacionamento a elaboração de um diário do confinamento. Sem dar-lhes instruções prévias, para preservar o próprio modo de observar e de eleger os temas da observação de quem narra. Um caderno de impressões e confissões. Este é um momento propício para se revalorizar a observação participante, do tipo que praticava Oscar Lewis, sem os abusos que, depois, se tornaram conhecidos. O pesquisador fazer-se observador próximo ou, mesmo presente naquilo em que a circunstância o envolve diretamente, como o vírus “dentro de casa”. Observar a realidade a partir “de dentro” ou de testemunhas que estão vivendo a experiência da doença no interior do grupo social por ela alcançado. É nessa situação que pode ser documentada a consciência crítica e revisora da sociabilidade costumeira, aquela que a enfermidade invalida.

Mokong Simon Mapadimeng: Nos últimos tempos, a maior parte da minha pesquisa tem se dedicado a garimpar, divulgar e contribuir para o desenvolvimento e expansão dos conhecimentos indígenas africanos, os quais cobrem todos os aspectos da vida social humana, incluindo origem africana da filosofia e conhecimento sobre governança, medicina, manejo ambiental, economia, agricultura, arquitetura, educação e ensino. No momento, estou trabalhando na edição de um livro que examina as legislações e políticas estatais na África do Sul visando determinar se elas permitem ou impedem os Sistemas de Conhecimento Indígena Africanos, bem como suas implicações para intervenções futuras. Um dos capítulos do livro tem relevância direta para assuntos relacionados a doenças e curas similares à pandemia da Covid-19, intitulado “O tesouro oculto da vida oceânica do desenvolvimento das medicinas indígenas africanas – seguindo pistas das medicinas terrestres. Acredito que os ricos insights e anseios que perpassam os Sistemas de Conhecimento Indígena Africanos, se bem explorados, teriam muito a contribuir no sentido da aspiração de africanos encontrando soluções autenticamente africanas para problemas africanos. Isso pode parecer utópico, mas trata-se de uma utopia necessária.

 

3. A pandemia estaria provocando mudanças sociais, políticas e/ou culturais profundas? Ou acelerando tendências já em curso? Se sim, é possível vislumbrar os contornos das sociedades pós-Pandemia?

Celi Scalon: A Covid-19 certamente trará mudanças significativas para as relações sociais, aprofundando processos em curso e, também, mudando o curso de alguns processos. No primeiro caso, posso mencionar que a crise econômica que se estabelece com a pandemia vai aprofundar as desigualdades na distribuição de bens e riquezas que já vinham se avolumando, e também pode reforçar tendências nacionalistas e xenófobas, que vinham sendo manifestadas por alguns segmentos sociais em todo o mundo. Refletindo sobre o revés de processos em curso, ou seja, no que mudam de direção, creio que haverá mais desconfiança em relação aos processos de globalização, em especial da divisão de trabalho entre países, que era uma marca do século XXI. Cabe, ainda, apontar as consequências para a pirâmide demográfica, uma vez que o vírus causa maior fatalidade entre os mais idosos; desse modo, a tendência de envelhecimento das populações, em especial na Europa, pode ser interrompida, com perda de indivíduos nos coortes mais velhos de idade. Um saldo positivo desta crise deve ser a maior adesão a um modelo de Estado de Bem-Estar Social, que reforce o papel das instituições públicas em atividades essenciais para a população em geral, como saúde, pesquisa e educação. Está havendo uma revalorização da ciência, da saúde, da educação, bem como de auxílios como renda básica e apoio a pequenos empreendimentos. Em todos os países, parece haver uma crítica construtiva que aponta os limites do modelo liberal e privatista.

Clara Maria de Oliveira Araújo: De início parece-me que vem acelerando tendências, mas há muito o que observar. A pandemia tem obrigado boa parte da humanidade a conviver com cotidianos muito distintos daqueles com os quais vem convivendo nos últimos duzentos anos. A separação entre público e privado, entre casa e trabalho, espaço de produção e de reprodução constitui um traço identificador do que se convencionou chamar de modernidade. De forma abrupta, cerca de metade da humanidade – segundo estimativas da mídia – se vê obrigada a circunscrever muitas das atividades realizadas em diversos espaços às fronteiras físicas da casa; e a desenvolvê-las em situação de distanciamento social e de interações profissionais, afetivas e políticas virtuais. Algumas são mudanças em curso que foram aceleradas, como por exemplo os encontros virtuais com amigos e familiares, assim como trabalhos em certas ocupações. Mas a ausência forçada de encontros presenciais, o uso diverso e constante do espaço doméstico e o exercício da deliberação política de modo virtual, por exemplo, não eram aspectos tão proeminentes no mundo pré-pandemia.

É possível vislumbrar uma sociedade menos presencial e mais virtual, com a intensificação de nossa percepção de proximidade e distanciamento não mais tão marcada pela presença física. Mas esta é questão de investigação da sociologia desde o início da década de 1990. Por outro lado, a crise econômica decorrente da pandemia e a necessária ação pública estatal para enfrentá-la podem alterar de forma mais profunda a percepção sobre o Mercado e sua atual natureza predatória. A desigualdade social que estrutura a sociedade capitalista tenderá a se agravar no curto prazo. E as questões do acesso e da distribuição social dos bens e dos mecanismos políticos que facilitam ou dificultam tais acessos, ou seja, da desigualdade, tenderão a ser centrais no debate público. No momento, é possível vislumbrar uma coletividade mais crítica a essa situação. Resta investigar qual será a extensão e profundidade dessas mudanças.

Olli Pyyhtinen: A pandemia é certamente uma catástrofe global no que toca a todos e cada um: não apenas a cada um individualmente, mas a todos em conjunto, todas as nossas ações e tudo o que nos acontece, possivelmente toda a ordem mundial como a conhecemos. Mas ela não nos afeta a todos da mesma maneira. Para pessoas razoavelmente privilegiadas como eu, que têm podido ficar em casa durante esse tempo todo, a vida tem sido bastante segura e protegida. Mas também estou absolutamente consciente que essa não é a realidade de muitos outros, como enfermeiros, enfermeiras ou médicas e médicos fazendo o melhor que podem todos os dias para salvar as vidas de pacientes infectados; imigrantes apertados em apartamentos pequenos; e pessoas sem teto que não têm onde praticar o auto-isolamento. E há muitos outros para quem a casa não é um ambiente seguro por conta da violência doméstica, por exemplo.

Consequentemente, ao mesmo tempo em que somos todos afetados pela pandemia, não estamos exatamente juntos ou unidos por ou contra ela. Parece que estamos testemunhando uma colisão violenta de duas realidades. Alguns, como eu, vivem numa realidade de contenção, em que tudo fica paralisado e o mundo inteiro parece que entrou em pausa, o que produz uma estranha sensação de calma. O espaço fechado do contêiner protege os habitantes do caos exterior (tão ilusório quanto a sensação de segurança e proteção produzida nesse caso, dado o vazamento inevitável). No entanto, para além desse mundo há uma realidade fluida habitada por pessoas em desvantagem. Essa é uma realidade de que não é possível se abster, uma realidade em que as coisas flutuam, se misturam e mudam incontrolavelmente, uma realidade de encontros incontroláveis e involuntários, contágios potencialmente fatais, e transformações. No geral, a pandemia parece mais amplificar divisões sociais existentes que criar novas divisões, mas definitivamente precisamos de pesquisa empírica sobre isso para saber se esse é de fato o caso. De qualquer forma, o que acontece depois do estado de exceção é decisivo para a ordem mundial pós-pandemia.

José de Souza Martins: A pandemia anula a validade, ao menos temporária, de boa parte da pauta de conduta das relações sociais cotidianas. Todos estamos sendo ressocializados nas referências de uma estrutura social provisória, de emergência, referida a uma cultura de confinamento. A sociabilidade reduzida ao espaço escasso, das poucas e pequenas coisas. Nesse sentido, estamos sendo também dessocializados. “Acordaremos” lá adiante para descobrir que, além de parentes, também amigos e conhecidos já não estão mais aqui. A trama de relações sociais será outra dominada pela figura do ausente. Teremos que conhecê-la e interpretá-la para nos situarmos socialmente. Será um tempo de busca e inovação.

Estamos bloqueando valores e referências que nos orientavam na vida cotidiana e que já não nos servem. Ao fim da crise, já teremos tomado alguma consciência individual e coletiva dos imensos rombos que a doença terá deixado no modo como a sociedade estava organizada. A família será outra, toda uma geração de crianças e adolescentes sairá dela socialmente mutilada e desafiada a inventar novos parâmetros de conduta, a religiosidade será revigorada, o cenário religioso mudará, a ciência ganhará espaço na apreciação do homem comum, os hábitos alimentares serão alterados, a literatura será valorizada, o jardim doméstico voltará a ser valorizado, brincar terá outras características, crianças descobrirão que havia pais ocultos na casca modernosa da paternidade, as profissões dos simples serão valorizadas: enfermeiros, faxineiros, coveiros, motoqueiros, entregadores de comida. Mapa que acaba de ser preparado pela Prefeitura de S. Paulo mostra que o índice de mortes por total de infectados é muitíssimo maior do que no bairro mais rico da cidade. O vírus subversivo expõe as tripas da sociedade de classes: a morte é um instrumento das desigualdades sociais.

Mokong Simon Mapadimeng: Não há dúvidas de que essa pandemia impôs novos modos de vida para as sociedades, tendo particularmente perturbado a ordem socioeconômica e política do capitalismo neoliberal e suas instituições. O conceito de distanciamento social já rompeu a norma de organização do trabalho nos espaços físicos, a qual exigia que os empregados se reunissem em um determinado lugar a fim de executar suas respectivas atividades, mesmo que interligadas. Isso, de certo modo, reforça a tendência de adesão às novas tecnologias de comunicação e informação, ainda que com alguns sinais de precaução como por exemplo a preocupação de que as inovações 5G possam contribuir para as mudanças climáticas e para surtos de doenças transmitidas por vias aéreas, tais como a Covid-19. Isso pode ser uma típica contradição interna que, na visão de Marx, define a ordem econômica do capitalismo. Ou talvez implique que essa ordem econômica jamais será a mesma, ou seja, pode ser que venhamos a testemunhar grandes mudanças na direção de uma ordem econômica mais ou menos significativamente modificada. Alternativamente, pode ser que a ordem social que prevaleceu desde o período pós-guerra se reconfigure, como o fez no passado, para sobreviver às atuais perturbações causadas pela Covid-19. Do modo como as coisas estão ainda não é possível saber exatamente como será a ordem emergente. Para aqueles de nós no Sul Global que temos pouca ou nenhuma fé na atual ordem hegemônica do capitalismo neoliberal, desdobramentos como a Covid-19 apresentam uma oportunidade para nossas nações reavaliarem suas economias e sistemas sociais de um modo que possa garantir relevância e substância ao nosso jeito próprio (cultural, religioso,  político e econômico). É uma oportunidade de desenhar nosso próprio destino autônomo sem depender mais das economias das chamadas nações desenvolvidas. A China mostrou-nos como isso pode ser feito. Acredito que nossas nações, especialmente na África, possam se sair ainda melhor sem replicar os modelos chineses. Na África, temos agora a oportunidade de reexaminar nossas relações com as sociedades da Europa Ocidental e da América do Norte (especialmente os EUA) para forjar relações mutuamente benéficas (por exemplo, priorizar o comércio interno africano antes de negociar com o mundo exterior, e com relação a este último ter como segunda prioridade as nações do Sul Global). Temos diante de nós uma oportunidade de nos rever e encontrar novos modos de fortalecer nossos sistemas de governança política para uma maior transparência e responsabilidade para com os cidadãos. Isso também ajudaria a acabar com a maldição do fim dos recursos naturais, por meio de um processo visando a industrialização local e a autossuficiência. Não há melhor oportunidade que essa.

 

4. Que obra(s) da sociologia e das demais ciências sociais podem nos ajudar a compreender e a conversar sobre os desafios em curso?

Celi Scalon: Creio que todas as obras que tratam das desigualdades econômicas e sociais pós-crise econômica de 2008, em especial as que tratam de temas como riqueza, não se limitando a simples análises de distribuição de renda; consumo; urbanização/metrópoles; imigração e políticas públicas. E, sem dúvida, as obras de Ulrich Beck que apresentam e discutem o conceito de “sociedade de risco”.

Clara Maria de Oliveira Araújo: Na Sociologia clássica, destaco duas obras que me parecem importantes para compreendermos características e sentidos mais amplos de mudanças sociais. A de Émile Durkheim A divisão do trabalho social possibilita compreender a ideia de cooperação e interdependência, sem a qual não há sociedade; o clássico Manifesto Comunista, escrito por Karl Marx e Friedrich Engels, nos faz perceber a natureza dinâmica e fluida da vida social, inclusive de instituições que, aparentemente, são sólidas e percebidas como imutáveis. No meio-termo entre clássico e contemporâneo sugiro o livro de Norbert Elias, O processo civilizador, que nos mostra a força dos hábitos, mas também como contextos mais amplos de mudanças políticas ou econômicas respondem pelo que designamos de modo genérico como “cultura”. Na teoria contemporânea algumas obras podem ser muito úteis para o momento. Sugiro a leitura de As consequências da modernidade, de A. Giddens, que apresenta um diagnóstico atual das dimensões estruturantes da vida moderna e contemporânea, além de abordar dois aspectos mencionados por mim na primeira resposta: a ação humana como produtora de transformações e conhecimento e as incertezas e contingências que surgem dessa ação. Outra sugestão é o livro de Göran Therborn, Los campos de extermínio de la desigualdade – uma análise sociológica primorosa sobre as estruturas atuais de desigualdades. Com uma perspectiva mais feminista sugiro a obra de Silvia Federici intitulada O calibã e a bruxa, uma análise histórica sobre o trabalho das mulheres no capitalismo, suas responsabilidades com as atividades do cuidado e a importância do trabalho invisível e não pago feito por elas para a reprodução do capital.

Olli Pyyhtinen: Para além do tipo de sociologia processual-relacional que eu já mencionei, a análise de redes sociais também pode ser muito frutífera, assim como os estudos globais (global studies), a sociologia da desigualdade social, a sociologia da saúde, a sociologia do espaço, novos materialismos, novas abordagens vitalistas, o estudo das mobilidades… pode escolher. Acho que os recursos teóricos e metodológicos mais úteis dependem das perguntas que fazemos, ao mesmo tempo, é claro, em que as ideias, conceitos e perspectivas que usamos em larga medida modelam os problemas que colocamos.

José de Souza Martins: Aqui, as ciências sociais abandonaram a prontidão para o inesperado de situações como a da pandemia. Cito algumas obras que podem ser úteis. Uma referência bibliográfica relevante no estudo sociológico de enfermidade contagiante, e do confinamento decorrente em sanatório, é o livro de Oracy Nogueira, Vozes de Campos do Jordão, sobre tuberculosos. Ele próprio foi tuberculoso na juventude, tratado num sanatório de São José dos Campos. Outra é o estudo de Florestan Fernandes sobre a sociabilidade no campo de batalha, com base no depoimento de Paulo Duarte, que participou da Revolução Paulista de 1932. É um dos capítulos de Mudanças sociais no Brasil. No plano teórico mais amplo, dois livros de Ágnes Heller: Para mudar a vida e La Théorie des besoins chez Marx, neste último as reflexões sobre as necessidades radicais. O tema já havia aparecido, no contexto teórico apropriado, no livro de Henri Lefebvre, La Proclamation de la Commune, um estudo sobre o cotidiano da Comuna de Paris. As necessidades radicais como necessidades de transformação social no corpo da repetição, no meio da guerra civil. O livro de Harold Garfinkel, Studies in Etnomethodology, é dos mais indicados pelo método do autor de provocar estados de anomia e observar a reação da “vítima” no restabelecimento da ordem. Esses livros podem definir uma linha de interpretação sociológica da pandemia na circunstância brasileira peculiar. Alguns dos livros de Erving Goffman virão para o primeiro plano no estudo da pandemia: Manicômio, prisões e conventos, Estigma e A representação do eu na vida cotidiana, referências para compreensão da sociabilidade decorrente do confinamento e da técnica autodefensiva da manipulação de impressões para definir identidade. A sociologia de Alfred Schutz e Thomas Luckmann, em The structures of life-world, faz a ponte entre a compreensão weberiana e a vida cotidiana, que é o âmbito no qual a epidemia faz seus maiores estragos.

Mokong Simon Mapadimeng: Acredito que a rica literatura atual sobre sociologia ambiental e sociologia da saúde e da doença, bem como os ricos e ainda não explorados sistemas de conhecimento indígenas (aqui na África nós denominamos Sistemas de Conhecimento Indígenas Africanos), tenham muito a contribuir tanto para a compreensão do que está acontecendo quanto para a busca de caminhos para sair dessa crise que é um desafio à nossa própria sobrevivência e das futuras gerações.

 

A imagem que ilustra este post é:

Piet Mondrian. Pier and ocean. Óleo sobre tela, 1915.

 

 

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* Os textos publicados pelos colaboradores não refletem as posições da BVPS.

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