Ensino público: antes, durante e depois da quarentena, por Eduardo Coelho

Anna Maria Maiolino

Na atualização de hoje da série Pandemia, Cultura e Sociedade, Eduardo Coelho, professor da faculdade de letras da UFRJ e coordenador do Laboratório da Palavra/PACC, escreve sobre o cenário da educação diante da crise do coronavírus e coloca algumas perguntas e possibilidades de ação surgidas no contexto de atividades de extensão universitária no ensino básico.

Pandemia, Cultura e Sociedade é uma parceria do Blog da BVPS com a revista Sociologia & Antropologia (PPGSA/UFRJ). Assine o blog para receber as atualizações e curta nossa página no Facebook.

Boa leitura!

 

 

Ensino público: antes, durante e depois da quarentena

por Eduardo Coelho [i]

Para Camilla Oliveira, in memoriam

 

A Coalizão Global de Educação da Unesco está monitorando a crise do ensino referente à pandemia da covid-19. Seus dados estatísticos sobre o fechamento de escolas revelam que 91,4% dos alunos de todo o mundo estão sendo afetados. Audrey Azoulay, diretora-geral da Unesco, declarou que “nunca antes havíamos testemunhado a interrupção educacional em uma escala como esta”.[1]

Sem dúvida, a educação formal atola numa crise sem precedentes, cujas implicações, até o momento, não foram sequer listadas suficientemente no Brasil, algumas por falta de comunicação, articulação e competência técnica do poder público e outras por estarmos no olho de um furacão emocional, moral e político que nos abala profundamente. Contudo, é importante destacar, a crise do ensino público brasileiro estava mais do que escancarada antes do surgimento da covid-19, que apenas agrava desigualdades. Embora tenhamos uma situação de crise global, os países subdesenvolvidos revelam um colapso da educação sobreposto a outro, anterior à pandemia, que se observa em diversos aspectos.

A Defensoria Pública do Rio de Janeiro recomendou, em 13 de fevereiro deste ano, a proibição de ações das forças de segurança nas áreas próximas de creches e escolas, especialmente nos horários de aula. Conforme dados coletados pela própria Defensoria, os tiroteios levaram unidades de ensino municipais a fecharem pelo menos 700 vezes no ano passado. Em certas áreas das zonas Norte e Oeste da cidade, alunos perderam até 59 dias de aula (quase três meses). Portanto, a suspensão de aulas já fazia parte da realidade de estudantes do ensino público de áreas carentes como Vila Kennedy, Cidade de Deus e Complexo do Alemão, que apresentaram, respectivamente, 103, 92 e 83 tiroteios nas imediações de creches e escolas durante o ano de 2019.[2] Afinal, o menosprezo pela educação e pela vida caminham lado a lado, como este país não cansa de reiterar.

Em relatório divulgado no início de 2019 pelo Tribunal de Contas do Município do Rio de Janeiro, sabe-se que 72,96% das escolas municipais da cidade funcionam sob condições “precárias”, consistindo no pior resultado desde 2008, quando a primeira avaliação desse tipo foi realizada pelo TCM-RJ. Em 11 anos, essas escolas pioraram quase 60% na sua infraestrutura, como apontou o site G1 a partir do relatório mencionado.[3] Em “boas condições”, não há nem mesmo uma escola municipal da rede pública fluminense, que conquistou, nesse quesito, o vergonhoso índice de 0%. Marcos Vinícius Pinto da Silva, técnico do TCM-RJ, esclareceu na CPI das Escolas, no ano passado, que os recursos destinados à manutenção das unidades de ensino municipal “despencaram”, fora outras carências observadas, como a falta de merendeiras, agentes administrativos, agentes educadores, professores, serviço de limpeza e equipamentos adequados.[4] Nada disso, que fique claro, se circunscreve apenas ao âmbito municipal, mas se constata igualmente em todos os setores do ensino, como atestam a tecnologia defasada dos institutos técnicos, cortes de luz em universidades federais, laboratórios inoperantes devido à falta de investimentos, suspensão de bolsas de pesquisa, entre outros efeitos da desidratação do potencial do ensino público.

Já escolas, faculdades e universidades privadas buscaram ações imediatas contra a crise, adotando o ensino a distância como solução para manter as aulas e a cobrança das mensalidades. Por meio dessa estratégia, executada com urgência e descuido, observamos a reprodução da mania conteudística, tornando-se, porém, ainda menos suportável no contexto digital. Deve-se levar em conta que o ciberespaço e as novas tecnologias se relacionam às noções de autonomia e interatividade, ambas em falta ou ausentes das metodologias conservadoras de ensino, por sinal igualmente atuantes na esfera pública. Nesse processo, observam-se alunos e professores extenuados, enquanto pais questionam a péssima qualidade das aulas que seus filhos estão recebendo.

Já a postura do ministério da Educação foi conservadora e elitista, como era de se esperar. Afinal de contas, desconsiderou que o ensino a distância, na esfera pública, radicaliza a desigualdade por falta de equipamentos, internet e/ou privacidade em residências onde vivem alunos carentes. Se não bastasse, o ministério da Educação se mantém absolutamente distante de qualquer possibilidade de escuta em relação às demandas que “atores” do ensino manifestam neste momento: é o caso dos secundaristas, que se veem submetidos à manutenção da data do Enem no meio de uma pandemia, intensificando ainda mais as desigualdades entre os ensinos público e privado.

Por outro lado, abrir mão de recursos tecnológicos sob as circunstâncias de uma pandemia e fechamento de unidades de ensino talvez consista no aprofundamento de obstáculos futuros, alguns dos quais participam ativamente da história da educação pública nacional, como o déficit cognitivo, que daqui a poucos anos deve alcançar uma escala nunca vista. É relevante incluir no debate, também, que as tecnologias digitais não precisam ser aproveitadas, necessariamente, como meio substitutivo da sala de aula, que na sua dinâmica entre corpo e espaço é insubstituível. Trata-se de um fator que muitos estudantes estão percebendo agora, de casa, mantendo-se durante horas conectados aos professores, mas sob níveis de interação ainda menores do que os da sala de aula. Em contraponto, o uso de novas tecnologias no ensino pode servir a políticas econômicas que buscam reduzir o papel da coisa pública e sua participação no bem-estar social.

O quadro é dramático, até mesmo trágico, porque as perdas são irremediáveis. Existem, no entanto, muitas perguntas – e elas descortinam alguns começos no meio de tantas incertezas. O momento exige, dos profissionais da educação, uma abertura em suas práticas metodológicas, de modo a compartilhar as perguntas e ampliar o seu debate no campo democrático. Além do lugar de fala, precisamos, mais do que nunca, valorizar a escuta, investigando, de maneira horizontal, alternativas para os impasses contemporâneos e impactos decorrentes indiretamente da pandemia, como o aumento exponencial da violência doméstica. Ou não se faz nada ou se experimenta em sentido laboratorial, sem esquecer que, em qualquer um dos casos, a desigualdade entrará em cena, assim como os traumas. Aliás, a crise é tamanha que as experimentações metodológicas podem se manifestar como única forma de sobrevivência neste momento. Por que não mudar?

Algumas perguntas devem ser colocadas o quanto antes, referentes ao presente mais imediato e ao futuro próximo, seguidas de um plano de ação realista, que não desconsidere a continuidade ou aprofundamento da precariedade relatada pelo TCM-RJ. É neste sentido – do levantamento de questões propositivas e de um plano de ações para o retorno às aulas – que o Laboratório da Palavra/PACC está se articulando com unidades públicas de ensino através de uma equipe multidisciplinar, formada por estudantes, professores e pesquisadores de dentro e de fora da universidade, compreendendo todos os segmentos da educação formal.

Nesse contexto de tantas incertezas, algumas perguntas já se tornam fundamentais: como combater a desigualdade no ensino numa situação em que o próprio MEC manifesta indiferença ao problema? como retornar às aulas? como acolher os profissionais e alunos das unidades de ensino público? como viver junto numa sociedade que tem se caracterizado pela intolerância e pela violência sistêmica? como reformular nossas práticas, de modo a minimizar o estado de desorientação e trauma generalizado, bem como o desinteresse pelas metodologias vigentes de ensino?

 

___

Notas

[i] Eduardo Coelho é professor da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde atua no setor de Literatura Brasileira do Departamento de Letras Vernáculas e no Programa de Pós-Graduação em Ciência da Literatura. Coordena o Laboratório da Palavra/PACC com Heloisa Buarque de Hollanda e Luciana di Leone.

[1] Cf. “Coalização Global de Educação”, Unesco. Disponível em: <https://pt.unesco.org/covid19/globaleducationcoalition&gt;. Acesso em: 19 abr. 2020.

[2] Cf. “Defensoria do Rio de Janeiro pede proibição de ações policiais perto de escolas”, site Consultor Jurídico. Disponível em: <https://www.conjur.com.br/2020-fev-14/defensoria-rio-proibicao-acoes-policiais-perto-escolas&gt;. Acesso em: 19 abr. 2020.

[3]Cf. “Mais de 70% das escolas municipais do Rio estão em condição precária, aponta levantamento do TCM”, site G1, 16 abr. 2019. Disponível em: <https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2019/04/16/mais-de-70percent-das-escolas-municipais-do-rio-estao-em-condicao-precaria-aponta-levantamento-do-tcm.ghtml>. Acesso em: 19 abr. 2020.

[4] Cf. “Técnicos do TCM prestam esclarecimentos à CPI das Escolas”, site da Câmara Municipal do Rio de Janeiro, 22 ago. 2019. Disponível em: <http://www.camara.rj.gov.br/noticias_avisos_detalhes.php?m1=comunicacao&m2=notavisos&id_noticia=14696>. Acesso em: 19 abr. 2020.

 

 

A imagem que ilustra o post, gentilmente cedida pelo Studio A M Maiolino, é:

Sem título, da série Vida Afora, 1981

Fotografia em preto e branco

Foto: Henri Virgil Stahl

 

* Os textos publicados pelos colaboradores não refletem as posições da BVPS.

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