Janelas, por Eneida Maria de Souza

Eugene Atget 4

No post de hoje da série Pandemia, Cultura e Sociedade a professora emérita e titular da UFMG Eneida Maria de Souza reflete, a partir da novela clássica de E. T. A. Hoffmann A janela de esquina do meu primo, sobre as novas relações entre interioridade e exterioridade implicadas na dinâmica de isolamento físico que vivemos.

Aproveitamos para anunciar que, a partir da semana que vem, o Blog da BVPS inicia um novo projeto dentro da série Pandemia, Cultura e Sociedade. Começaremos a divulgação, com dois posts semanais, do simpósio internacional Mundo Social e Pandemia, uma parceria da BVPS com a revista Sociologia & Antropologia (S&A) e a Sociedade Brasileira de Sociologia (SBS). Em cada post, cinco pesquisadores/as convidados/as responderão a quatro perguntas feitas pelos curadores do simpósio – Andre Bittencourt (UFRJ e editor do Blog da BVPS) e Maurício Hoelz (UFRRJ e editor executivo da S&A) – sobre os desafios que a pandemia impõe para a teoria e a pesquisa em sociologia. Os textos regulares do Blog continuarão, também semanais.  Para atualizações, sigam a nossa página no Facebook.

Boa leitura!

 

 

Janelas

por Eneida Maria de Souza[i]

 

A janela de esquina do meu primo (1822), última novela de E. T. A. Hoffmann, encena o diálogo entre dois primos, cujo protagonista encontra-se numa situação de total imobilidade, sem poder se afastar de casa. Consola-se em olhar, pela janela, o burburinho do movimento da feira instalada em sua rua. As personagens descrevem impressões sobre o panorama, o que resulta na construção da narrativa a partir da imaginação criadora de ambos. A observação da cena eufórica e vibrante do comércio, com seu jogo de trocas, de barganhas e excentricidades de vários tipos da sociedade alemã da época, contrasta com a vida reclusa e solitária do primo. O povo está aí representado pela diversidade de profissões, de nível social e de costumes, de conversas e malandragens próprias das feiras, vitalidade que, aos olhos dos primos, promove estórias imaginadas e pretéritas. Precursor dos relatos de Poe e Baudelaire sobre a multidão, Hoffmann inverte a função do flâneur que percorre as ruas da cidade, pela de voyeur, ao contemplar e produzir a ação da narrativa pelo olhar da janela, utilizando-se a imaginação ao recriar histórias das personagens que povoam a feira. Com a ajuda do binóculo, objeto que propicia a ampliação das imagens e ao mesmo tempo a percepção dos detalhes de cada cena, inaugura-se a arte do olhar como um dos dispositivos literários. Pela acuidade do detetive e a invenção de enredos, cria-se uma ficção que enaltece o cotidiano, a voz popular e os ruídos do povo. O toque irônico de todo o texto reside no contraste entre o espetáculo do ambiente da feira, com a profusão de bancas de carne, guloseimas e frutas as mais diversas, com a refeição frugal do enfermo, composta de sopa e um naco de carne e pão. A imaginação supera a carência, e é aí que se impõe a ficção.

Nasce, assim, a fisionomia da cidade moderna, formada pelo espetáculo da rua, pela captação da vida provisória e mutante. Nas palavras de Renato Cordeiro Gomes, pioneiro no estudo das cidades entre nós, “desta maneira, o primo ensina ao narrador a fixar um ponto de vista para aprender a ver corretamente; ensina-lhe a ‘arte de enxergar’, chamando a atenção para os detalhes engraçados que se oferecem aos seus olhares.” (GOMES, 2012: 6).

À feição do primo que se encontra paralisado e sem acesso à rua, estamos, contudo, privados do olhar e do movimento em direção à cenada multidão, exilada para dentro das casas e sem perspectiva de futuro. A enfermidade atinge os movimentos para o exterior, a paralisia instaurada pelas portas fechadas contenta-se em abrir as janelas, escancará-las, para que entre o ar das ruas, não suas vozes. O interior nunca foi tão valorizado e desprezado, se considerado sob vários pontos de vista, como única moeda de troca, na falta do outro, na comunicação entre pares. Mas as duas instâncias espaciais não deverão ser tomadas em separado, uma vez que o exterior é inerente ao interior, e vice-versa. O cuidado obsessivo com o corpo, em momentos de pandemia, compreende o movimento que vai da assepsia ao cuidado narcísico contra o contágio, do isolamento físico à promessa de enriquecimento – ou enfraquecimento – espiritual. O fora se imiscui no dentro, a superfície das relações entre eu e o outro torna inócuas todas as fronteiras, sejam elas particulares ou coletivas, pois o movimento está enclausurado e só resta a invisibilidade do inimigo comum, o vírus. Diante do “pânico imobilista de hoje”, segundo Guilherme Wisnik, o contágio é, portanto, democrático e igualitário.

As janelas do presente abrem-se para a cidade virtual, cuja multidão se esforça em encontrar alento no burburinho esquizofrênico de vozes, consoantes ou discordantes, aproximadas e distanciadas, mas em busca da saída, até então inexistente. O comércio eufórico do capitalismo, das feiras agora canceladas das ruas e do consumo desenfreado dos povos limita-se ao delivery, à invisibilidade das prateleiras e ao contato asséptico com o outro. A sensação de se estar na condição do homem comum, daquele que prima pelas ações pequenas do cotidiano, do cuidado da casa, do trabalho braçal, seria um alerta às vaidades e às vidas exemplares das pessoas ilustres? A literatura tem o mérito de reavivar situações protagonizadas pela vida simples e secreta de suas personagens, desprovidas do apelo à exterioridade e ao outro, por desconhecer a separação entre o fora e o dentro.

As janelas e o silêncio das ruas sinalizam o impasse do movimento para o exterior e a paralisia imposta pelas circunstâncias, naturalizando as relações entre interior/exterior, como se a imobilidade dependesse de critérios alheios à vontade do sujeito. Na verdade, a reclusão assume ares de prisão, dentro de sua própria casa, em que a liberdade individual se vê ameaçada pela iminência da morte. Mas esta situação não constituiria o habitual sentimento de pessoas acostumadas a conviver com o silêncio, a solidão, o isolamento como estilo de vida, cujas janelas são abertas conforme seu desejo e necessidade? O trabalho exercido nos interiores seria, para muitos, sinônimo de conversa consigo próprio e afastamento voluntário de uma saudável convivência diária com seus interlocutores? A escolha de uma vida reclusa tem, contudo, limites e não obedece a ordens alheias, uma vez que sua duração é controlada pelos sujeitos.

No momento, lavar as mãos está sendo a lei universal que comanda o corpo e seus desejos, assim como fechar as portas e abrir as janelas.

 

Referência:

Gomes, Renato Cordeiro. “Janelas indiscretas e ruas devassadas: duas matrizes para a representação da cidade”. Revista Dispositiva, PUC-MG, 2012.

 

Nota:

[i] Professora titular em Teoria da Literatura e professora emérita da UFMG.

 

A imagem que ilustra este post é:

••• Eugène Atget.  Vieille Cour, 22 rue Quincampoix. 1908 ou 1912. Fotografia, Papel albuminado.

 

* Os textos publicados pelos colaboradores não refletem as posições da BVPS.

1 comentário

  1. Eneida: que sensacional texto anti-solidao. No vaivém dentro e fora fa-me lembrar meu irmão já em cadeira de rodas e eu mesmo a trocar posições com ele, no parlamentar desencontro de vidas impossíveis de compartilhar janelas. No restauro das velhas aberturas e no sol a pino das verdades pressentida permaneço grato a sua pena (ou a seu digitar) regurgitadora de volteios vitalícios. Beijo a vc e a sua irmã de quem não me esqueci pela delicadeza. Seu admirador Rogério Zola Santiago em quarentena obrigatória.

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