Das Invasões Bárbaras à Invasão Zumbi, num tempo pós Covid-19, por Eliska Altmann

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Na atualização de hoje da série Pandemia, Cultura e Sociedade a socióloga Eliska Altmann, professora da UFRJ, escreve sobre as utopias de um futuro pós Covid-19 a partir das reflexões sobre a crise feitas pelas disciplinas de humanidades e dos filmes As invasões bárbaras (2003) e Invasão zumbi (2016).

Pandemia, Cultura e Sociedade é uma parceria do Blog da BVPS com a revista Sociologia & Antropologia (PPGSA/UFRJ). Assine o blog para receber as atualizações e curta nossa página no Facebook.

Boa leitura!

 

Das Invasões Bárbaras à Invasão Zumbi, num tempo pós Covid-19

por Eliska Altmann [i]

 

“-…vivemos uma época terrível.

– Não especialmente terrível, de jeito nenhum. Ao contrário do que se diz, o século XX não foi particularmente sanguinário. Calcula-se que as guerras fizeram 100 milhões de mortos. Acrescente-se 10 milhões nos Gulags russos. Nos campos chineses, digamos, 20 milhões. Um total de 130, 135 milhões de mortos. Não é tão impressionante. No século XVI, espanhóis e portugueses, sem câmaras de gás nem bombas, fizeram desaparecer 150 milhões de índios da América Latina. Deu trabalho, irmã! 150 milhões de pessoas, a machadadas! Claro que sua Igreja os apoiou, mas segue sendo um grande feito. Por isso, a América do Norte, holandeses, ingleses e franceses se sentiram inspirados e degolaram mais 50 milhões. 200 milhões de mortos no total. O maior massacre da humanidade foi aqui, ao nosso redor. E não há nenhum museu desse holocausto. A história da humanidade é uma história de horror”.

O diálogo entre uma enfermeira freira e Rémy, “socialista e voluptuoso”, como ele mesmo se define, marca seus últimos dias de vida num hospital público canadense. O filme, As invasões bárbaras[1], realizado por Denys Arcand no início do século XXI (2003), é a sequência de O declínio do império americano, rodado quase 20 anos antes pelo mesmo diretor.

Numa inversão, à la Jean Rouch, os “bárbaros” aqui seriam os “civilizados”, que ergueram impérios à maneira como acima narra o professor de história (que acaba não contando as pestes e doenças regaladas pelos invasores às populações nativas). O câncer a invadir seu corpo traz à tona conflitos entre o pai “libidinoso, pervertido, bestial e lascivo” e seu filho, um “capitalista, ambicioso e puritano” do mercado financeiro de Londres. Contendas individuais, contudo, refletem estruturas sociais. E nessa mistura – entre o todo e o singular, o coletivo e o ator social – se impõe o instante único da morte, com seus medos e lembranças.

Deixados para outro momento assuntos psíquicos entre pais e filhos, maridos e mulheres – não menos importantes em tempos de isolamento social[2] –, conflitos de classe acentuados por Arcand podem ser relidos no filme de Yeon Sang-ho. O diretor sul-coreano criador de animes como O rei dos porcos (2011) estrela, junto a Bong Joon-ho, vencedor do Oscar de melhor filme deste ano com Parasita, a chamada South Korean New Wave. Seu longa Invasão zumbi (2016) tem como protagonista outro homo economicus, “especialista em deixar pessoas inúteis para trás”, como diz um personagem que se oferece ao sacrifício na trama.

A força simbólica dessas figuras dramáticas encontra-se no fato de que, no globo terrestre, do Canadá a Coreia do Sul, de Quebec a Busan, o que importa é o poder do dinheiro, sobretudo em tempos de invasão. Ou, pelo menos, era…

Les invasions barbares

Foi o filho capitalista – Sébastien – que concedeu um fim mais humano ao pai, e foi o pai capitalista – Seok Woo – que conferiu à filha a sobrevivência. No primeiro caso, negociações financeiras que burlavam burocracias do hospital público – onde corredores eram espalhados por leitos e instalações despencavam do teto – possibilitaram melhores condições ao doente terminal. No segundo, o vagão mais distante da classe econômica era um lugar de esperança.

No hospital em que Rémy esteve internado, pacientes esperavam de oito meses a um ano por exames, mas seu filho tinha milhares dólares e pôde levar o pai aos Estados Unidos para uma tomografia. A enfermeira lhe disse “tem sorte”. Já no trem, que serviu de cenário à invasão sul-coreana, ouvimos repetidamente sentenças como “agora é cada um por si” ou “pare de ajudar os outros e pense em si mesmo”. Assim, zumbis e sobreviventes lutavam uns contra os outros e também entre si.

Semelhanças entre ficções cinematográficas e o mundo concreto invadido pelo Corona não pareciam, até então, meras coincidências. Imagens que marcaram o início da invasão do vírus mostravam verdadeiros combates entre consumidores de papel higiênico, álcool gel e alimentos não perecíveis. Quem estocaria mais? No início de abril, novas matérias sobre o tema “cada um por si” passaram a povoar jornais nacionais e internacionais. Diziam elas sobre desigualdades exacerbadas pela pandemia; infectados e profissionais de saúde estigmatizados; e, ainda, desvios de equipamentos e materiais hospitalares pelos EUA que iriam para outros países, como o Brasil.

Na tentativa de compreender consequências sociais da Covid-19, especialistas dos campos das humanidades têm aventado hipóteses plurais que não deixam de fora a ordem do capital. Dessas leituras, não são poucas as que defendem uma nova era mundial, um renascimento de sociedades (e quiçá do próprio sentido de humanidade) a ilustrar paisagens anticapitalistas. De Slavoj Zizek a Ailton Krenak e Bruno Latour, análises dizem sobre o ocaso de dogmas neoliberais e uma reinvenção do comunismo baseada na confiança das pessoas e da ciência. Na transformação de uma globalidade destrutiva em regenerativa, lutas contra a exploração, a desigualdade e a dominação estariam apaziguadas. A integração social falaria mais alto que investimentos militares, surgiriam novas formas mundializadas de solidariedade e inclusão, e seria feita uma grande revisão sobre nossa autodestruição rumo a uma conscientização ecológica, finalmente sustentável. Aí, quem sabe, estaria a chance do mundo respirar livremente. Estariam esses cientistas a profetizar um futuro utópico em meio à distopia virológica tardia da virada de 2020?

Curiosamente, tais imaginações encontram eco nas últimas cenas de ambos os filmes. [Atenção, spoilers finais]. Depois da morte de Rémy, o livro História e Utopia, do romeno Emil Cioran, aparece enquadrado na tela grande de sua biblioteca. Em outra chave, depois de Seok Woo virar zumbi, uma esperança é depositada no bebê por vir e na criança que atravessa a cantar um túnel escuro. Haveria uma luz utópica depois dele?

Num tempo pós-pandemia, como cientistas sociais analisariam condutas de antigos Estados liberais e nacionalistas? E governos autoritários, que flertavam com ditaduras em momentos frágeis, como serão avaliados? Que recursos metodológicos seriam acionados para a compreensão de mentalidades monetárias do passado? Quais sistemas epistemológicos se apresentariam a pesquisadores? E cineastas, que filmes criarão sobre as distopias pré Covid-19? Que imagens conceberão sobre práticas egoístas e utilitárias de outrora? Se, para cientistas sociais clássicos e contemporâneos, a modernidade instaurou uma ruptura com a tradição, seria o Corona a mais nova interrupção com ordens modernas ainda vigentes?

Em Admirável mundo novo, Aldous Huxley escreve que a “revolução verdadeiramente revolucionária deverá ser realizada não no mundo exterior, mas sim na alma e na carne dos seres humanos”. Não obstante o caráter multiforme da História e a complexidade das mudanças humanas, tal tour de force talvez só se concretizasse por meio de um ativo e organizado pessimismo, como uma vez nos ensinou Walter Benjamin.

Notas

[i] Professora do Departamento de Sociologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

[1] A co-produção franco-canadense foi vencedora do Oscar de melhor filme estrangeiro de 2004, além de outros prêmios, como o de melhor roteiro em Cannes, 2003.

[2] Desse contexto, vale notar consequências na esfera privada. Por exemplo, “Xi’am, de 12 milhões de habitantes, capital da província de Shaanxi, região central da China, registrou um recorde no número de pedidos de divórcio nas últimas semanas, segundo o jornal chinês em língua inglesa The Global Times”. BBC News Brasil, 24 de março de 2020 – “Coronavírus: após confinamento, cidade na China registra recorde em pedidos de divórcio”. Para uma discussão sobre a violência doméstica, que têm aumentado exponencialmente no Brasil a partir do mesmo mês e ano, ver Patrícia R. Moura Costa: “Violências contra mulheres em tempos de COVID-19”. Boletim n. 10; Cientistas sociais e o coronavírus – ANPOCS.

 

As imagens que ilustram o post são:

Quadro de Les invasions barbares, Denis Arcand, 2003.

Poster de Train to Busan, Yeon Sang-ho, 2016.

Texto enviado pela autora em 8 de abril de 2020

 

* Os textos publicados pelos colaboradores não refletem as posições da  BVPS.

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