As vozes de Campos do Jordão de Oracy Nogueira, em tempos de Covid-19, por Maria Laura Cavalcanti

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O Blog da BVPS dá prosseguimento à série especial Pandemia, Cultura e Sociedade, que toma como ponto de partida a atual pandemia de COVID-19. Nossos posts buscam contemplar as contribuições múltiplas das ciências sociais, da história, da filosofia, da literatura e das artes, recuperando uma tradição de reflexão mais ampla sobre saúde, doença e sociedade que atravessa, mas não se limita, ao cenário recente. Você pode acompanhar nossas atualizações também no Facebook clicando aqui.

Esta seção marca uma parceria do Blog da BVPS com a revista Sociologia & Antropologia, publicação do Programa de Pós-graduação em Sociologia e Antropologia (PPGSA) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Em tempo oportuno, S&A reunirá os textos da coluna em uma publicação especial.

No post de hoje, Maria Laura Viveiros de Castro Cavalcanti, professora titular da UFRJ, reflete sobre a pandemia atual e as dimensões socioculturais das doenças a partir de um livro pioneiro das ciências sociais brasileiras, Vozes de Campos do Jordão: experiências sociais e psíquicas do tuberculoso pulmonar no Estado de São Paulo, de Oracy Nogueira, cuja primeira publicação completa 70 anos em 2020.

 

As vozes de Campos do Jordão de Oracy Nogueira, em tempos de Covid-19

 Por Maria Laura Viveiros de Castro Cavalcanti[i]

 

Sabemos pouco sobre o vírus Covid-19, causador da atual pandemia que espalha dor e tristeza no mundo. Mas entendemos claramente seu imenso escopo de contágio que indica o isolamento social como a única prevenção possível no momento, de modo a ampliar as condições de mitigação dos efeitos danosos da doença por parte da saúde pública. Sabemos também que o vírus ataca especialmente os pulmões e leio, em boletim divulgado em 24 de março pela Organização Mundial de Saúde, o quanto são particularmente vulneráveis aqueles que têm os pulmões enfraquecidos pela tuberculose.

Em nível epidêmico, a tuberculose foi controlada no Brasil, embora o número de casos tenha crescido nas últimas décadas. Na minha experiência próxima, nos últimos anos, quatro alunos e uma jovem amiga adoeceram, precisando submeter-se ao intenso tratamento de seis meses com a combinação de quatro antibióticos, descobertos entre os anos 1950 e 1960. Mais de um milhão de pessoas ainda morrem da doença no mundo, diz o mesmo boletim da OMS. Meu pai, no início dos anos 1960, contraiu tuberculose, e nos vimos, eu e minha irmã mais nova, encaminhadas para a casa de nossos tios durante as semanas iniciais de seu tratamento. Pouco se falava sobre isso, o desejo de suprimir uma doença que a todos assustava escondia o assunto nas zonas turvas do silenciamento daquilo que tanto incomodava. Mas as ciências sociais apostam no valor do conhecimento e insistem teimosamente na busca de como formular os problemas que nos inquietam em termos que nos ajudem a compreendê-los, dimensioná-los e quiçá sobre eles atuar de modo construtivo.

Em 1936, o sociólogo Oracy Nogueira (1917-1996), natural de Cunha (SP), então com 19 anos de idade, foi diagnosticado com tuberculose e afastou-se do convívio familiar para tratamento em São José dos Campos. Quando retornou, já na capital paulista, começou a formação para tornar-se professor primário seguindo a carreira de seus pais; até que, em 1939, um Anuário da Escola Livre de Sociologia e Política caiu-lhe às mãos e levou-o no ano seguinte ao bacharelado em ciências sociais naquela instituição; e logo ao mestrado, para o qual elegeu como tema de pesquisa a tuberculose como experiência social, nesse caso em Campos do Jordão. Em 1945, ele concluía, sob orientação de Donald Pierson, o precursor trabalho Vozes de Campos do Jordão: experiências sociais e psíquicas do tuberculoso pulmonar no Estado de São Paulo (Rio de Janeiro: Ed. Fiocruz, 2009).

O contágio fácil do Covid-19, o perigo do contato físico, a ameaça que o convívio com as crianças pequenas, por sorte assintomáticas ou imunes, passaram a  significar para os mais velhos (avó de 5 netos, e um por chegar em breve, sinto diariamente a estranheza do afastamento), o isolamento social em suma, são elementos que ressoam na experiência social da tuberculose pulmonar, sobre a qual Oracy Nogueira lançou nos anos 1940 o olhar inovador das ciências sociais que também aqui se iniciavam.

Nosso autor buscou compreender como os indivíduos se tornavam socialmente “doentes” e examinou todo o processo do “tornar-se doente”, do diagnóstico à almejada cura, passando pelo internamento com a separação do doente de seu círculo próximo, ou seja, pela segregação que, nos anos 1940, acompanhava o tratamento geralmente prolongado da tuberculose.  O livro transpira o conceito de estigma com que mais tarde Erving Goffman batizaria a forma de demarcar a distância social, também expressa no comportamento social relativo aos tuberculosos.

Para além da causa orgânica responsável pelo desenvolvimento da doença e das práticas terapêuticas adotadas para combatê-la, interessavam a Nogueira as representações, os significados e estereótipos atribuídos à doença que informavam as condutas sociais. Atitudes e ideias integravam, na visão do autor, um complexo cultural que se impunha tanto aos sãos quanto aos doentes. O ponto de vista dos doentes, no entanto, foi seu principal foco por meio do convívio com um grupo de 104 pessoas “portadores de tuberculose pulmonar”, isolados para tratamento em uma estação de cura em Campos do Jordão, a sua Montanha Mágica.

Oracy Nogueira (no centro) em Itapetininga. 1948

Na estação de cura, os doentes tornavam-se um grupo social característico cuja interação regulava a conduta de seus membros com verdadeiros ritos de passagem e gíria característicos, por meio dos quais os novos integrantes socializavam-se naquele novo ambiente, feito de ideias, atitudes e valores muito próprios. Esses doentes, por sua vez, encontravam-se imersos em um complexo processo de negociação da realidade por meio da interação cotidiana com enfermeiros, médicos, internos e sãos, e com a própria população local que se afastava dos circuitos urbanos por onde a circulação dos internos era permitida. A pesquisa associou aos métodos quantitativos – quadros estatísticos e preocupação com a objetividade do conhecimento produzido – a métodos qualitativos –observação participante, entrevistas de histórias de vida, questionários e exame de documentos íntimos, como os diários e correspondências de alguns doentes cedidos ao autor. O livro teve expressiva recepção quando de sua edição em 1950 e parte das análises recebidas, encontradas no Fundo Oracy Nogueira (*), foram incorporadas à edição de 2009 do livro que organizei para Ed. Fiocruz. Luiz de Castro Faria, que foi meu professor em cursos de pós-graduação no PPGAS do Museu Nacional/UFRJ, referia-se ao livro como “um clássico esquecido”. Não mais.

Nogueira inovou ao propor ao olhar sociológico perguntas até então inusitadas: como os indivíduos recebem o diagnóstico da doença? Como seus familiares o fazem? Como a passagem da condição de são à de doente afeta a subjetividade da pessoa envolvida? Como a discriminação e os estereótipos relacionados à doença são introjetados pelos próprios doentes? Como um recém-chegado se socializa na estação de cura? Como médicos, enfermeiros, doentes e sãos se confrontam na experiência do dia a dia? O “ambiente tuberculoso” revelou-se então com seus grupos, suas regras, seus valores e representações próprios, com seus conflitos e suas formas de controle social, e com seu repertório próprio de modos de pensar, sentir e agir. O livro nos aproxima dessa experiência, desfaz preconceitos, redimensiona a doença como experiência vivida, qualificando como também decisivas para sua compreensão as dimensões socioculturais.

A tuberculose ainda preocupa embora a conduta terapêutica da segregação e sua dimensão epidêmica tenham sido superadas. Campos do Jordão é hoje uma cidade de turismo ecológico. Mas a criatividade, acuidade e empatia com que Nogueira registrou suas vozes permanecem convidando novas gerações de leitores a ouvi-las. E elas parecem soar mais alto em nossos tempos de Covid-19.

 

___________

[i] Professora Titular de Antropologia na Universidade Federal do Rio de Janeiro, docente e pesquisadora no Programa de Pós Graduação em Sociologia e Antropologia (PPGSA/UFRJ).

(*) Oracy Nogueira nos legou seus arquivos, hoje reunidos no Fundo Oracy Nogueira, sob a guarda da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz, onde se encontra aberto à consulta (www.arch.coc.fiocruz.br).  O inventário do Fundo e diversos trabalhos do autor podem também ser encontrados no site: https://marialauracavalcanti.com.br/

 

As imagens que ilustram este post pertencem ao Fundo Oracy Nogueira.

A primeira é um recorte da divulgação de Vozes de Campos do Jordão, que pode ser vista inteira aqui. A segunda é uma foto de Oracy Nogueira (no centro) em Itapetininga, 1948.

 

* Os textos publicados pelos colaboradores não refletem as posições da BVPS.

2 comentários

  1. Vivemos atualmente a pandemia do NOVO Coronavírus. Mas, o trabalho do Dr. Oraci comentado aqui nos mostra que o passado e a história podem nos fazer ver que as angústias humanas frente às doenças e à morte não são novas. Puderam ser percebidas por ele naquela época e precisam ser percebidas também no momento atual.
    Seu comentário me fez querer conhecer o artigo, obrigada.

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