Onde agonizam os mortos da pandemia?, por Sabrina Parracho Sant’Anna

The Triumph of Death

O Blog da BVPS inicia hoje uma série especial – Pandemia, Cultura e Sociedade – que toma como ponto de partida a atual pandemia de COVID-19. Seguindo a orientação da Biblioteca Virtual do Pensamento Social de estabelecer diálogos entre diferentes disciplinas e linguagens, nossos posts buscarão contemplar as contribuições múltiplas das ciências sociais, da história, da filosofia, da literatura e das artes, recuperando uma tradição de reflexão mais ampla sobre saúde, doença e sociedade que atravessa, mas não se limita, ao cenário recente. Nesse sentido, a BVPS se soma a outras iniciativas já em curso de pensar publicamente, com a colaboração de especialistas, as dimensões sociais, simbólicas e históricas envolvidas na atual crise que enfrentamos. Todos os textos ficarão agrupados na aba Colunas, sob a categoria Pandemia, Cultura e Sociedade, no topo do nosso blog.

Esta seção marca também uma parceria do Blog da BVPS com a revista Sociologia & Antropologia, publicação do Programa de Pós-graduação em Sociologia e Antropologia (PPGSA) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Os efeitos da pandemia na vida social, além de exigirem uma visão aberta e interdisciplinar dos processos em curso, também demandam novos modos de comunicação científica, mais rápidos e experimentais que os habituais. Em tempo oportuno, S&A reunirá os textos da coluna em uma publicação especial dedicada à pandemia e suas implicações sociais.

Em nosso primeiro post, Sabrina Parracho Sant’Anna, professora da UFRRJ e colaboradora do Blog da BVPS, reflete sobre os acontecimentos atuais a partir do imaginário literário e pictórico ocidental sobre a peste e a morte.

 

 

Onde agonizam os mortos da pandemia?

Por Sabrina Parracho Sant’Anna[i]

 

Trancados em casa com as mãos besuntadas de álcool gel, assistimos atônitos ao noticiário de todos os dias. No Brasil do século XXI, o termo quarentena volta à cena, com um sentido tão preciso quanto aquele com que foi cunhado há centenas de anos atrás. Na etimologia, quarentena provém, naturalmente, de quarenta. Segundo o Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa de Fausto Barreto e Vicente de Sousa: “Como profilaxia contra as pestes do Oriente na Idade média, estabeleceu-se o prazo de isolamento durante quarenta dias para os viajantes” (1955: p. 425).

No Japão, há cerca de um mês, acompanhamos o cruzeiro atracado em Yokohama fazendo valer os dias, reduzidos a quatorze, no isolamento imposto aos possíveis portadores da doença. Em terra, nas aglomerações metropolitanas, os quatorze já anunciam voltar provavelmente aos quarenta e, ao que parece, se estenderão ainda além paralisando a vida, que segue em suspenso.

Na estante da sala, reencontro A peste. Faço-o junto com tantos leitores que voltaram a fazer de Camus best seller, mais de 70 anos depois. Releio também o Decameron e noto, para minha surpresa, que a Primeira Jornada, justo onde consta a narrativa da epidemia que dá sentido à obra de Bocaccio, foi suprimida da bela seleção de capítulos, editada pela Cosac & Naify e organizada por Maurício Santana Dias, em 2013. Talvez naquele momento pouco interesse houvesse para uma geração que havia vencido a AIDS e atribuía o sentido de epidemia a males e doenças não contagiosos como o câncer ou a desnutrição.

Na atual conjuntura, insisto, no entanto, em Boccaccio. Encontro uma edição de bolso online. As narrativas parecem tornar, fazendo dobrar-se a realidade e colar 1348 a 2020:

E a peste ganhou maior força porque dos doentes passava aos sãos que com eles conviviam, de modo nada diferente do que faz o fogo com as coisas secas ou engorduradas que lhe estejam muito próximas. E mais ainda avançou o mal: pois não só falar e conviver com os doentes causava a doença nos sãos ou os levava igualmente à morte, como também as roupas ou quaisquer outras coisas que tivessem sido tocadas ou usadas pelos doentes pareciam transmitir a referida enfermidade a quem as tocasse. É espantoso ouvir aquilo que devo dizer: se tais coisas não tivessem sido vistas pelos olhos de muitos e também pelos meus, eu mal ousaria acreditar nelas, muito menos descrevê-las, por mais fidedigna que fosse a pessoa de quem as ouvisse.

Das recomendações que chegam pela imprensa e dos diagramas das redes sociais: a evitação, o medo das coisas que vêm das ruas, a assepsia e a desinfecção. Novas rotinas diárias. Nas narrativas que chegam da Itália, os cadáveres que se deixam ficar mais de dia aguardando a remoção, os caminhões abarrotados de caixões, os enterros e as cremações sem velório. A concretude da morte à espreita. A literatura pregressa antecipa o futuro, trazendo à memória a certeza de que a sobrecarga do sistema de saúde pode fazer a morte chegar aos borbotões. Retorno à barbárie. Ruína das previsões, que, à la Malthus, projetavam o futuro a partir do presente e faziam acreditar numa expectativa de vida num crescendo ad infinitum. Literatura e história informam o devir e mesmo quando ouço que devemos nos resguardar no conforto estatístico dos grupos de risco, ressoa a primeira morte de peste na Oran de Camus, atribuída a quem, de “peito fraco”, tinha o agravante de tocar o pistão. Hoje também, reservamos a morte aos idosos, aos hipertensos, aos tabagistas, aos fracos. Primeiro, o conforto das mortes justificadas, em seguida, a carnificina generalizada.

A literatura informa a experiência, garante sentido ao presente, cria expectativas para o porvir. Os quadros da memória voltam a Bocaccio e apresentam-se, portanto, na advertência da ONU ao G20, que trata de uma epidemia de “proporções apocalípticas”, e também nas manchetes da CNN sobre Nova York “when all hell broke loose”. As metáforas nos jornais retomam imagens que habitam o imaginário do Ocidente sobre mazelas sociais, genocídios, fome, epidemias.

Do ponto de vista imagético, no entanto, um silêncio grita. Duas imagens me vêm à mente ao lado de Bocaccio. Na primeira, dentro da tradição flamenca, muito mais tocado pela iconografia do medievo, que pelas técnicas do Renascimento, Pieter Bruegel remonta à narrativa do Juízo Final para apresentar o Triunfo da Morte, em c.1562. No quadro, pintado sobre madeira, a metáfora de um fim que atinge e irmana a todos num sofrimento compartilhado. Sobre a terra devastada, exércitos de esqueletos ceifam os últimos viventes. Chegam em carruagens e tocam trombetas anunciando o fim que não vê distinções. Os corpos se amontoam ao centro do quadro. A imagem remete às epidemias e aos genocídios. Imagem que se torna clássica, retomada séculos depois no quadro homônimo de Felix Nussbaum, em 1944, tematizando o holocausto.

A segunda imagem que retorna é o Hospital de apestados de Francisco Goya, de c. 1808-1810. Pintado em momento completamente distinto, o quadro de Goya, ao contrário de sua série de gravuras Caprichos, que retoma de algum modo uma iconografia compartilhada com Bruegel, apresenta a imagem laicizada da epidemia. Após a internação que o deixa entre a vida e a morte e, sabidamente marca a experiência do artista, o quadro apresenta moribundos encarcerados à espera do fim.  Não por acaso, o quadro ecoa na luz sombria de outra famosa tela de Goya, Uma cena da prisão, de 1814. Os enfermos trancados ao abrigo da luz e de toda convivência, aparecem caídos uns sobre os outros. No canto direito, um corpo jaz sobre o que parece ser um bebê. No canto esquerdo, uma figura com o rosto tapado se ergue com dificuldade para dar de beber ao que parece um quase cadáver. A imagem do isolamento no fim.

goya

As telas, mais do que conhecidas, habitam o imaginário do ocidente. O que chama a atenção, no entanto, é que, embora as narrativas da atual pandemia se colem a Bocaccio e Camus, o mesmo não se pode dizer das imagens que habitam o fotojornalismo hodierno. Raras são as filmagens borradas dos doentes hospitalizados e fotografias de caixões cerrados ou dos caminhões que os transportam.

A imagem da morte é marcada por tabu e vem substituída pela imagem heroica de médicos e enfermeiros paramentados. Na China, diante da ausência de casos de contaminação local, as equipes de Wuhan fazem o gesto de vitória. Máscaras, ambulâncias e equipamentos protagonizam a iconografia. O triunfo da técnica sobre a morte. Gráficos apresentam, ainda assim, índices assustadores. 10.000 mortos na Itália, de 29 de fevereiro a 28 de março. Números significativos, mas que despersonificam os dados e garantem que o risco possa ser posto entre parênteses para seguir em frente. Segurança ontológica, diria Giddens.

As imagens da agonia, tão presentes quando referidas ao outro, e restritas às advertências dos maços de cigarro, ou às imagens da desnutrição na África, estão ausentes agora. Substituídas por imagens marcadas pela distância da técnica, abrem caminho para as carreatas daqueles que dizem duvidar da ciência.  Milano non si ferma; O Brasil não pode parar. A saturação de imagens heroicas da medicina se expõe a uma crítica cujo cerne parece se prestar, não ao contrapoder, mas a um capitalismo sem peias e a um totalitarismo genocida.

Não por acaso, as primeiras imagens de choque nos vêm do Equador, onde, em Guayaquil, o colapso funerário deixa os corpos estendidos nas calçadas. Aliás, imagens da pandemia servem de advertência ao Estado liberal. Sem manifestações nas ruas, fazem sacudir o acordo com o Fundo Monetário Internacional e, como em outros países, trazem esperança de que o Covid-19 possa fazer ressurgir das cinzas um novo Estado de bem-estar social.

_________________

[i] Professora do Departamento de Ciências Sociais e do Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais da UFRRJ.

 

As imagens que ilustram o post são, na ordem:

Bruegel O Velho, Pietr. O triunfo da morte, 1562-1563. Óleo sobre tela, 117 x 162 cm. Museo del Prado, Madri.

Francisco de Goya. Hospital dos Apestados,  ca. 1808-1810. Óleo sobre tela, 32,5 x 57,3 cm. Colección Marqués de la Romana, Madri.

 

* Os textos publicados pelos colaboradores não refletem as posições da  BVPS.

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