Aletria – Dossiê 40 Anos de “Uma Literatura nos Trópicos”

Aletria

O Blog da BVPS divulga o lançamento do dossiê 40 Anos de Uma Literatura nos Trópicos: “Entre-Lugar”, “Cosmopolitismo”, “Inserção”, publicado em Aletria: Revista de Estudos Literários (v. 30, n. 1), da UFMG, e organizado por Eneida Maria de Souza, André Botelho e Rafael Lovisi Prado. Tomando o livro comemorado como um dispositivo de reflexão, o dossiê proporciona uma visão de conjunto da obra teórica de Silviano Santiago, apostando no potencial de comunicação interdisciplinar e intergeracional que suas ideias suscitam e permitem.

Para acessar o sumário, clique aqui.

Abaixo disponibilizamos a apresentação escrita pelos organizadores.

 

Silviano Santiago no entre-lugar

 

Eneida Maria de Souza (UFMG)

André Botelho (UFRJ)

Rafael Lovisi Prado (Pós-doc/CNPq)

 

Ao lembrar os 40 anos de publicação de Uma literatura nos trópicos (1978), de Silviano Santiago, o dossiê propõe o debate de um conjunto ainda central de temas e questões da literatura e da cultura brasileiras e latino-americanas. Se a tópica da “dependência cultural”, que define o assunto do livro em seu subtítulo, pode até parecer datada hoje, os problemas que ela colocava permanecem, em grande medida, em aberto. A chamada mundialização da cultura não parece estar, de fato, gerando exatamente relações multicêntricas ou mais equitativas. Assim, mesmo que não seja exatamente a mesma, continua a existir uma geopolítica mundial da literatura e da cultura com relações e trocas assimétricas e recriação de hierarquias de vários tipos.

Mas a atualidade do livro de Silviano Santiago não está apenas nos problemas substantivos com que lida, mas em como forja sua abordagem e análise. Seu poder de interpelação é também de ordem teórica, e pode ser testado na concepção, na fatura de texto e na análise crítica forjadas de um ponto de vista muito próprio num cerrado e criativo corpo-a-corpo com a literatura e com as outras linguagens artísticas e manifestações culturais. É particularmente para o campo teórico, portanto, que este dossiê propôs voltar a sua atenção. Buscamos ainda estimular a revisão de conceitos e abordagens do livro comemorado de modos não apenas contextualizados, mas também para articular categorias desenvolvidas em obras posteriores de Santiago, como “entre-lugar”, “cosmopolitismo” e “inserção”, por exemplo. Espera-se com isso proporcionar aos leitores uma visão de conjunto da notável obra teórica do autor mineiro.

Dados a estatura e os alcances teóricos da obra crítica de Silviano Santiago, nos pareceu crucial abrir o debate não apenas a diferentes disciplinas, de alguma forma já expressa na composição de sua organização e na filiação dos autores dos trabalhos acolhidos no dossiê, mas em direção a uma visão propriamente interdisciplinar. Interdisciplinaridade aqui, porém, não quer significar uma nova forma de “domesticação”, para recorrermos a uma categoria cara à gramática crítica de Silviano, das diferenças; não é um modo de tentar acomodar o diverso ou de aparar suas arestas. Queremos as arestas. Elas são importantes porque expressam lugares cognitivos de enunciação que são diferentes, mas o que nos interessa prioritariamente são as comunicações entre elas que podem, a despeito de toda improbabilidade, obter êxito. Apostamos no potencial de irritação mútua entre heterogeneidades e o diálogo novo que, desse modo, são capazes de criar. Acolhemos, assim, textos de autoria de sociólogos, antropólogos, teóricos da literatura de – o que é particularmente importante – diferentes gerações. As perguntas e as conversas não apenas interdisciplinares, mas intergeracionais que as ideias e a obra de Silviano Santiago suscitam e permitem são, talvez, o indício mais patente de sua centralidade na cultura contemporânea.

A maioria dos artigos que compõem o dossiê contempla a elucidação do conceito seminal de “entre-lugar”, desenvolvido no primeiro ensaio do volume de Uma literatura nos trópicos. Sua vitalidade e atual ressonância no campo das ciências humanas se expande para o reconhecimento do pensamento social, o que enriquece seu valor e eficácia, atestado pelos artigos de especialistas na área. Destaca-se ainda a importância de Silviano Santiago para a abertura da crítica literária à crítica cultural e cosmopolita, ao renunciar à perspectiva nacionalista e se integrar à conscientização global e heterogênea das manifestações. A saída para o terceiro termo da equação, o “entre”, o “terceiro olho” ou o “terceiro espaço” o situa como precursor e coautor tanto de teóricos/escritores como Julio Cortázar, Jorge Luis Borges, Ricardo Piglia quanto de teóricos pós-colonialistas como Edward Said e Homi Bhabha. Com efeito, os textos aqui reunidos puderam explorar algumas das principais órbitas desenhadas por um livro multifocal e de disposição fundadora, cujos traçados revelam não só a intercessão junto a autores de um amplo espectro geográfico e temporal, mas também as prolíficas associações entre produções de campos discursivos diversos. No que diz respeito ao plano teórico propriamente dito, ao citar, exorbitar e suplementar pensadores como Michel Foucault, Jacques Derrida, Gilles Deleuze e Claude Lévi-Strauss, Silviano produz gestos de força inaugural no pensamento latino-americano, haja vista as leituras que confrontam a linearidade histórica, apontam os limites e amarras do estruturalismo há pouco em voga e desrecalcam aspectos que legitimam as mais variadas formas de supressão do Outro. Neste sentido, há ao mesmo tempo a insurgência de uma mirada metodológica desemparelhada das linhas sociologizantes e historicistas de análise, que possibilita e prioriza as implicações da diferença (para além da dependência) em suas investigações.

Mesmo se considerássemos apenas a crítica literária de Silviano, o papel que ele confere aos seus “temas”, as abordagens inovadoras forjadas e as análises desenvolvidas têm interesse muito mais amplo. Suas realizações de crítica literária são simultaneamente realizações de crítica estética, da ordem da concepção e fatura das obras; de crítica da cultura, pois se indaga sobre o lugar dessas obras num sistema cognitivo ou simbólico mais amplo; e também política, pois lhe interessa o sentido assumido pelas obras na tradição literária, para os seus leitores e noutros contextos; e alcançam em cheio o debate público na sociedade contemporânea, mesmo quando escreve sobre o passado – o que também acontece frequentemente, embora, seja, com razão, mais lembrado como um crítico dos mais atentos e perspicazes sobre o contemporâneo. Talvez tudo comece com o fato de que, mesmo sendo ele um especialista rigoroso nas chamadas letras e no pensamento estético, de que sua formação, atuação, vasta produção e orientações acadêmicas são exemplares, Silviano também é um reconhecido ficcionista, de que são prova seus amados romances entre leitores e críticos. Sabemos que essa estranha combinação entre as atividades do romancista e as do crítico literário não é trivial, sobretudo, quando ela é reflexiva e bem-sucedida. No fio da navalha, Silviano estende e perscruta os códigos de uma em relação à outra, explorando as comunicações entre o ficcional, o histórico e o crítico. Mas isso não é tudo. Sendo realizações rigorosas em seus respectivos campos, o interesse que elas despertam ultrapassa-os. A relevância e o sentido das realizações de Silviano não se fecham neles, não se extinguem neles.

Justamente porque o mérito não é nosso, enquanto organizadores, mas dos autores que tivemos a ventura de acolher, podemos assumir publicamente nossa alegria, a tal prova dos nove de que falava um poeta modernista, na realização do dossiê que entregamos agora às leitoras e leitores de Aletria. Sem dúvida, o conjunto dá um passo considerável na rearticulação analítica de categorias e momentos diferentes da obra de Silviano. Ainda que não tenha derivado do seminário “Uma literatura nos trópicos: 40 anos. Dependência cultural e cosmopolitismo do pobre”, ocorrido em setembro de 2018 na UFRJ, UFMG e Unicamp (com curadoria de André Botelho, Mariana Chaguri, Maurício Hoelz e Roberto Said), este dossiê se comunica de diversas formas com ele. Daí a necessidade de consignar nossos agradecimentos aos autores do dossiê, mas também aos expositores naquele seminário.

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