Bacurau não é para principiantes, por Glaucia Villas Bôas (UFRJ)

Bacurau - Placa

O Blog da BVPS publica hoje artigo de Glaucia Villas Bôas, professora titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro e integrante do Programa de Pós-graduação em Sociologia e Antropologia da mesma instituição. O texto traz uma original e instigante contribuição ao debate sobre o filme Bacurau, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, situando-o em questões do tempo presente e no diálogo com o pensamento social brasileiro, especialmente a obra de Maria Isaura Pereira de Queiroz.

Uma boa leitura!

 

Bacurau não é para principiantes

Por Glaucia Villas Bôas [i]

 

Considera-se o Bacurau (2019) de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles um Tropa de Elite de Esquerda, um filme à moda Tarantino, um elogio à barbárie e à violência. Bacurau é ainda filme pretencioso, tentativa fracassada de retrato do Brasil dos últimos tempos. Obra datada. Esses comentários[ii], creio, não atentam para certas sutilezas. Bacurau não é filme que mereça leitura rápida nem ao pé da letra. Chamar a evocação dos jogos eletrônicos representados pela ação mortífera dos “estrangeiros” ou “turistas” – (que põem a cidadezinha fora do mapa) – de apelo ao ultrapassado imperialismo norte-americano é no mínimo ingenuidade ou má fé. Basta ver os jogos que entretêm tantas crianças diariamente no Whatsapp. Ou apreciar em Fortnite a alegria de Ramirez, a destruir os “inimigos” com sua picareta. A estética da matança altamente tecnologizada e comandada por drones é o que os diretores efetivamente introduzem no filme como alegoria da violência, que se não vivemos corpo a corpo e cotidianamente, olhamos com um misto de espanto, naturalidade e indiferença nas imagens dos jornais ou filmes de TV. Os war games não me parecem datados.

O filme exibe a população de uma cidade do nordeste brasileiro que representa outras cidades daquela região, símbolo de um Brasil encurralado. Uma população de várias cores de pele, gorda, magra, feia, bonita, de prostitutas, professor, médico, criança, dona de birosca, bandido gay, bandido hétero, prefeito, curandeiro.  Finalmente um filme que mostra um conjunto de pessoas e não apenas um ou dois personagens contando histórias de si mesmos. Bacurau é história de comunidade isolada dos grandes centros, que simplesmente não tem água mas celulares. Imagine-se um bairro de zona sul carioca sem água porque seus moradores não tem acesso a uma represa recém construída pelo poder público e a pequena coletividade fica à espera de um caminhão de água potável, que não fosse a proteção de um bandido, poderia levar uns tiros e deixar de abastecer o local. Nem se concebe imaginar isso.  Mas é o que ocorre em Bacurau. A entrada difícil do caminhão numa estrada esburacada e tortuosa é cena preciosa em que o espectador se sente entrando ele também em Bacurau,  situada num fim de mundo sem água, a depender da proteção de um bandit d’honneur (Pereira de Queiroz 1968). A distância e a dificuldade em entrar na cidade denota a recusa hoje frequente no horizonte intelectual de se observar um conjunto, uma coletividade, uma unidade. Acostumou-se a ver ruínas e fragmentos.  Em seguida, a cena de muitos braços levantando a mala trazida por Teresa (Barbara Colen) com vacinas e remédios para guarda-la em lugar seguro evidencia a coesão dos moradores de Bacurau. Isolados mas coesos.  Logo de início, o espectador intelectualizado se surpreende com a unidade que estrutura o filme, com a coesão do povo da cidadezinha.

Bacurau reatualiza a tradição forte de filmes sobre o Nordeste brasileiro, como disse Angela Leite Lopes (2019), e relembra também uma tradição importante de estudos sociológicos sobre a região e sobre o Brasil – de Os Sertões (1902) de Euclides da Cunha ao Mandonismo Local na vida política brasileira e outros ensaios (1976) de Maria Isaura Pereira de Queiroz.  Evidencia a falência do poder público ao focalizar a miséria de municípios brasileiros numa nova interpretação da realidade nordestina. Miséria de cara nova sem a figura do grande proprietário de terras e da antiga e infalível presença do padre católico a ele aliado. Sem pau de arara procurando caminhão à beira de estrada em direção ao sul nem casa de pau a pique exibindo criança de pé no chão desidratada.  Só a figura do prefeito permanece,  modernizado em suas vestimentas, equipamento, carro e linguajar. Ela  incorpora a  fraqueza do sistema político local (estadual e federal), cujos representantes só aparecem em tempo de eleição para trocar cabotinamente remédios com prazo de validade vencido e livros atirados ao chão pelos votos dos habitantes locais. A cidade padece da violência material e simbólica imposta pelo sistema político que, no filme, metaforicamente, tem o apoio dos donos de drones, portadores de armas vintage e roupas que se reconhecem em qualquer joguinho eletrônico,  dispostos a matar,  manipulando os dispositivos eficientes de seu game.

Maria Isaura, uma das primeiras mulheres sociólogas, investigou no início dos anos 50, em trabalho de campo no município de Santa Brígida, as mudanças que ocorriam nas coletividades pobres e dominadas do interior baiano. Ela teve a coragem de levantar a hipótese ousada de que os grupos sociais considerados subalternos eram capazes de se organizar e liderar movimentos em favor da melhoria de suas condições de vida. Ao formular sua hipótese, Maria Isaura   invertia a crença, até hoje comum, de que aqueles grupos são incapazes de ação em benefício próprio uma vez que se acredita que estejam naturalmente presos ao imobilismo, à espera de um movimento que os retire das duras condições em que vivem, iluminando suas mentes. Nas pesquisas que compõem o livro O Mandonismo local na vida política brasileira e outros ensaios (1976), o leitor percebe que, para a autora, os grupos e indivíduos dominados, sujeitos ao poder de mando, tinham capacidade de discernimento e, no limite, sabiam das condições estreitas de suas escolhas.

Maria Isaura, 1957
“Mulheres e crianças de Santa Brígida, carregando pedras para a construção da Igreja, 1957”. Foto retirada do livro Os cangaceiros, de Maria Isaura Pereira de Queiroz. São Paulo: Duas Cidades, 1977.

Relembro as pesquisas de Maria Isaura porque noto que os moradores de Bacurau também não se prendem ao imobilismo nem esperam a chegada de um salvador à cidade.  Retirados do mapa e cercados por atiradores assassinos eles fazem uso da melhor de suas tradições de luta, das armas do cangaço, de seus bandidos de honra, das técnicas de luta guardadas no museu da cidade.  Defendem-se legitimamente. O espanto do espectador com o fazer justiça com as próprias mãos (que se inscreve em algumas das críticas ao filme) resulta de sua desatenção, primeiro, à situação de violência que levaria ao massacre da população da cidade, segundo, à capacidade de discernimento dos moradores de Bacurau numa situação extrema. Resulta ainda do costumeiro temor (compreensível, aliás) da desordem, do excesso de rebeldia dos dominados e  da balbúrdia que causam mal estar e insegurança às camadas médias urbanas.

Finalmente, há  um desconhecimento profundo do Museu de Bacurau. O filme é uma evocação das lutas populares e tradicionais, dos quilombos, dos movimentos messiânicos, Canudos, Contestado, do cangaço, do Maria Bonita, das Ligas Camponesas. A violência que essas lutas retratam só se compreende quando se ilumina a violência entranhada nas vísceras à qual estão sujeitos há séculos os seus personagens. Compreensão indispensável para a formulação de um juízo que não se limite a  concordar ou discordar da atitude dos moradores de Bacurau nem a comparar Bacurau aos westerns norte-americanos.

Se considerarmos que falar de unidade e coesão, ou do discernimento das camadas comuns da população e de sua capacidade de lutar por melhores condições de vida é coisa do passado, Bacurau é filme datado. Se considerarmos  ainda que falar da memória das lutas populares por uma vida melhor não é adequado porque, finalmente, elas retratam uma coletividade coesa que não mais tem relevância para a construção de uma memória nacional (também porque já não existe nação) neste, caso sim, Bacurau é filme ultrapassado. Mas se houver alguma condescendência com os esforços recentes de se buscar uma nova interpretação do Brasil em meio a todas as fragmentações, vale a pena ver o filme de novo.

27 de novembro, 2019

 

Referências:

Chiarelli, Tadeu. (2019). Bacurau “, o cinema, o cinemão e a “video-arte”.      https://artebrasileiros.com.br/opiniao/bacurau-o-cinema-o-cinemao-e-a-videoarte/, 16 de outubro.

Escorel, Eduardo. (2019). Celebração da Barbárie, https://piaui.folha.uol.com.br/bacurau-celebracao-da-barbarie/, 28 de agosto.

Leite Lopes,  Ângela. (2019). Depois de assistir Bacurau… Texto publicado no Facebook.

Musse, Ricardo. (2019) Sobre Bacurau, https://revistaforum.com.br/cultura/sobre-bacurau-por-ricardo-musse/, 8 de outubro.

Pereira de Queiroz, Maria Isaura. (1976) Mandonismo Local na vida política brasileira e outros ensaios. São Paulo: Alfa Ômega.

__________ (1968). Os Cangaceiros: les bandits d’honneur brésiliens. Paris: Ed. Juilliard.

 

Notas:

[i] Professora Titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Integra o Programa de Pós-graduação em Sociologia e Antropologia (PPGSA/UFRJ) e colabora com o Programa em Artes, Cultura e Linguagens da Universidade Federal de Juiz de Fora. Publicou, dentre outros, Mudança Provocada (2006), A Recepção da Sociologia Alemã (2006), A Vocação das Ciências Sociais (2007) e Um vermelho não é um vermelho. Estudos sociológicos sobre as artes visuais (2016), além de artigos diversos em revistas especializadas.

[ii]Ver críticas de Escorel (2019), Musse (2019) e  Chiareli (2019)

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