O corpo (ainda) dança em verde-amarelo, por Sabrina Parracho Sant’Anna (UFRRJ)

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O Blog da BVPS publica hoje um novo texto da coluna Arte e Sociedade. Nele, Sabrina Parracho Sant’Anna (UFRRJ) nos apresenta uma original leitura do Grupo Corpo, especialmente de seu último espetáculo de dança, enquanto forma de interpretação do Brasil.

“Arte e sociedade” é uma de nossas seções fixas, ao lado de “Interpretações do Brasil e política”, coordenada por Leonardo Belinelli (USP), “Interpretações do Brasil e musicalidades”, sob a coordenação de Pedro Cazes (CPII e IESP/UERJ), e “Interpretações do Brasil e poéticas”, coordenada por Lucas Van Hombeeck (PPGSA/UFRJ). Os textos podem ser lidos na aba Colunas, no topo do blog.

 

 

O corpo (ainda) dança em verde-amarelo

Por Sabrina Parracho Sant’Anna[i]

 

No Theatro Municipal do Rio de Janeiro, o Grupo Corpo exibiu em meados de setembro a estreia de sua nova coreografia, baseada em obra de Gilberto Gil. Diante da casa cheia, antecedeu o espetáculo o discurso do representante da associação de amigos do Corpo. O texto lido no palco, com as cortinas ainda cerradas, retomava trecho de Luiz Fernando Veríssimo, que na abertura da edição da Cosac Naif sobre a companhia dizia sentir-se patriota toda vez que assistia a um espetáculo do Grupo Corpo. E continuava com o pedido de adesões ao financiamento coletivo, apelando ao apoio da sociedade civil e fazendo ecoar mais fortemente a voz da gravação que anunciaria, ao fim do discurso, o apoio do Ministério da Cidadania ao espetáculo. A estranheza do apoio da pasta de Osmar Terra, em lugar da tradicional menção ao Ministério da Cultura, fazia ressoar em alguns ouvidos a atuação de Gil quando à frente do MinC e, mais ainda, lembrava que se estava ali diante de uma acirrada disputa pelas interpretações do país.

O programa consistia em duas peças. Gil, que dava nome ao libreto, era precedido de Sete ou oito peças para um ballet, montado pela primeira vez em 1994, e que parecia especialmente escolhido como abertura para o espetáculo de estreia. A coreografia de Rodrigo Pederneiras, com música de Philip Glass e do grupo Uakti, estreara há um quarto de século, mas parecia tomar sentido renovado em 2019.

Em meados dos anos 1990, a parceria com Philip Glass ganhara a imprensa, chamando a atenção para o minimalismo da montagem, expresso tanto na paisagem sonora, quanto na cenografia de Fernando Velloso. Após a colaboração com Gerald Thomas na ópera Mattogrosso de 1989, Phillip Glass experimentava com o grupo Uakti novos arranjos que, coreografados por Rodrigo Pederneiras, pareavam o Corpo com as grandes companhias internacionais. Num país que abria sua economia e se globalizava, o discurso expresso na dança parecia retomar do modernismo uma interpretação de Brasil que tomava a cultura nacional como contribuição central à civilização mundial. No ballet abstrato, a percussão e o sopro dos instrumentos do Uakti, ao lado da dança orgânica de Pederneiras, eram acionados como contraponto ao piano de Phillip Glass, e às referências a Martha Graham e Twyla Tharp. Sensualidade e hibridações apareciam, sem discussões sobre lugares de fala, como identidade e contribuição fundamental do país. No press release da própria companhia:

O componente obsessivo, frio e exato dos temas especialmente criados para o balé pelo ícone maior da música minimalista norte-americana, leva Pederneiras a orquestrar repetições de movimentos que beiram o automatismo, executados, no mais das vezes, em solo, em contraposição a movimentos orgânicos de grupo, carregados da sensual latinidade intrínseca à sonoridade única produzida pelo Uakti.

Em 1994, o projeto de cultura brasileira apresentado pelo Corpo estava imerso na abstração internacional e irrompia em referências à nacionalidade na percussão da música de Marco Antônio Guimarães e, sobretudo, na escolha das cores de cenografia e figurino: o corpo dançava verde-amarelo. Em 2019, no entanto, a paleta que remetia à bandeira nacional e que podia se pôr apenas como referência brasileira ao expressionismo abstrato de um Rothko à la Donald Judd, parece ganhar nova conotação. Quando as cores do país parecem de mais a mais associadas a hostes de camisa da Fifa que tomam as ruas e a grupos políticos que fizeram delas bandeira excludente, o figurino de Freusa Zechmeister pode ser visto como tomada de posição. Assim também, o ponto alto da peça se torna o abraço dramático das duas cores, inscrevendo na narrativa da nacionalidade a cisão de um país conflagrado. Ao caminhar para a conclusão, a cartela cromática é eloquente ainda mais uma vez no aparecimento de uma terceira cor. Quando um novo grupo de dançarinos se une aos demais e traz no corpo um azul de profundo contraste – azul Yves Klein talvez –, mas que ali, sob a luz de Paulo Pederneiras, parece de quase-roxo-quaresmeira, flor das ruas de Belo Horizonte de sentido inequívoco. Luto de morte anunciada, fim das narrativas do país cuja eficácia discursiva dependia do mito de união pela mestiçagem. De fato, retomar Sete ou oito peças para um ballet no atual momento reforça a ruptura que se seguirá em Gil.

Com efeito, é na segunda peça que novas interpretação do Brasil parecem surgir. O espetáculo estreia em momento particular: nas últimas semanas os jornais noticiaram que, na Escola de Música da UFRJ, alunos evangélicos se recusam a tocar o Xangô de Villa Lobos, rejeitando as referências à religião de matriz africana. É, contudo, à deidade do candomblé que Rodrigo Pederneiras se refere para explicar a obra que estreia no Municipal: “Gil é filho de Xangô e usei como ponto de partida o movimento associado à presença do orixá, onde uma das mãos do bailarino bate no peito e a outra, nas costas. E assim o balé começou a se construir”. A referência a orixás e rituais afro-brasileiros já havia permeado Gira, obra anterior do grupo, apresentada pela primeira vez em 2017.  A menção reaparece agora nas novas versões das músicas de Gile nos gestos dos dançarinos que remetem aos ritos africanos. Ainda que a música, em mixagem eletrônica e parceria com Bem Gil, retome o repertório consagrado do compositor, e com sutileza utilize recursos digitais para encontrar novos ritmos em referências a Erik Satie e sons orientais, a mensagem imagética é clara e o que salta aos olhos na peça são as alusões à poética afro-brasileira.

De fato, em Gil, é tecido com destreza um conjunto de imagens em que o amarelo solar do cenário se põe como pano de fundo para apenas destacar os corpos vestidos de negro no primeiro plano. A cor, atribuída à personalidade do compositor, é disposta no fundo infinito da cenografia, apenas recortado pelas emendas que reforçam contraste, como nos cortes de Lucio Fontana. A iluminação de show, que se move continuamente com os bailarinos, cria novas formas e faz dançar o amarelo, enchendo o palco de alegria dramática. A cor que se destaca da escuridão contrasta continuamente com o traje negro do figurino de Freusa Zechmeister, inspirado no trabalho de Joana Lira. A cor preta das linhas, que acompanham as ilustrações da designer e fazem sobressair a paleta vibrante de seus trabalhos, foi transposta para o traje negro com aplicações coloridas que remetem a elementos da cultura popular, mas também à iconografia geométrica dos cultos afro. O trabalho da designer que, de 2001 a 2011, marcou a identidade visual do carnaval de Pernambuco, também ilustrou a publicação das Metas do Plano Nacional de Cultura do MinC em 2012. Inspirado na cultura popular, o trabalho de Joana Lira, descrito a partir da temática multicultural, uma vez acionado no figurino de Zechmeister, faz retornar interpretações contemporâneas do país.

De fato, a coreografia e a escolha iconográfica, que enfatizam a herança africana, acabam por diluir outras referências sonoras, como que a recusar o mito das três raças. Mais do que o cadinho de culturas, o Brasil do Grupo Corpo aparece agora como um dos mundos urbanos que se tocam sem se interpenetrar. É, portanto, no palco que o corpo dança resistência e apresenta narrativas alternativas, o reconhecimento da não-identidade e a impossibilidade do discurso uníssono.

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[i] Professora do Departamento de Ciências Sociais e do Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais da UFRRJ.

 

* A foto que ilustra o post foi retirada do site do Grupo Corpo:
http://grupocorpo.com.br/pt-br/obras/23/sete-ou-oito-pecas-para-um-ballet

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