“Um sábado no CMAHO ou a crítica em site specific”, por Sabrina Parracho Sant’Anna (UFRRJ).

Imagem Post BVPS

O Blog da BVPS publica hoje o segundo texto da coluna Arte e sociedade. Nele, Sabrina Parracho Sant’Anna (UFRRJ) narra suas impressões e experiências ao visitar as exposições em exibição no Centro Municipal de Artes Hélio Oiticica (CMAHO), no centro do Rio de Janeiro.

 

 

Um sábado no CMAHO ou a crítica em site specific

Por Sabrina Parracho Sant’Anna[i]

 

Encravado entre o SAARA e a Praça Tiradentes, o Centro Municipal de Artes Hélio Oiticica se ergue, no sábado, como uma ilha em meio ao cenário distópico de projetos de intervenção urbana incompletos. Ao chegar ali, no fim de semana quente de final de inverno, atravessam-se as ruas desertas de um centro que ainda silencia aos sábados. Mesmo no Corredor Cultural dos sucessivos mandatos municipais que se ocuparam da cidade, são raras as conversas na calçada ou os catadores que carregam os despojos da véspera em sacos de latinhas para reciclagem. O cuidado com a vida das ruas, tão prezado por Jane Jacobs (2011), ali mais uma vez parece falhar, ainda que há mais de meio século tenha sido incorporado às discussões do planejamento urbano.

O esforço de musealização e patrimonialização da cidade iniciado por Augusto Ivan, quando à frente do Instituto Pereira Passos, foi desde fins da década de 1970 um marco na transformação do Rio de Janeiro. No entanto, ainda que os projetos da prefeitura tenham se inaugurado por aquele trecho da cidade, “o SAARA continuou do jeito que estava, ótimo, e é claro que cheio de problemas”, como disse o próprio Augusto Ivan em entrevista concedida a projeto de pesquisa, em 2018. O processo de reformulação do centro por meio da cultura se espraiou – consequências inesperadas da ação –, não pelo Saara, que em 2019 permanece esvaziado aos sábados, mas pela Praça XV, que se tornou o modelo de sucesso do Corredor Cultural, com a adesão de outros atores sociais do Governo Federal e da iniciativa privada.

Assim, o Centro Municipal de Artes Hélio Oiticica, esse espaço fundado em meio à intervenção urbana inacabada, encravado em distopias de gentrificação não realizada, vem se colocando na arte contemporânea carioca como espaço de crítica institucional, desde o período em que esteve sob direção de Izabela Pucu, entre 2014 e 2016. O espaço, junto com outros museus e centros culturais da cidade, acentua o turvamento das fronteiras entre arte e vida ou, como vem chamando a atenção Ana Carolina Miranda, enfatiza a “construção social do cotidiano como utopia” (Miranda, 2017: 3). Nesse cenário, novos discursos artísticos, formulados no bojo dos movimentos de ocupação que agitaram a cidade no último decênio, se materializam com vigor e dão novo sentido ao espírito das vanguardas, tão incorporado por Hélio Oiticica.

Ao entrar no prédio, o projeto curatorial do Centro de Artes dirigido por Alice Alfinito, fica evidente. Na primeira sala, o encerramento da Exposição Aberta com curadoria de Geisa Lino dá vida ao ambiente. Resultando de residência artística realizada por seis semanas no CMAHO, as obras se ligam por fios tênues que pouca relação estabelece entre os trabalhos. Durante a exposição, o público circula em meio às obras e contempla duas mulheres sentadas ao chão no (contra-)ofício feminino da performance Bordado Não Opressor, do coletivo Açafrão.  Na parede ao fundo, se destacam a palavra Liberdade escrita ao inverso e uma faixa com palavras de ordem que, em letras garrafais, deslocam o sentido das manifestações que têm grassado na cidade. Ao fim de expressões desconexas – “eu quero votar para presitentx”, “essa mamada vai acabar”, “bunda livre” -, uma frase chama especialmente a atenção: “autoria é cafona, fé é elegância”. De fato, a crítica à autoria remete às discussões que a exposição, ao evitar a identificação dos trabalhos, enseja, mas também se inscreve em um conjunto de obras e discursos da arte contemporânea que têm na diluição do sujeito a principal qualidade de seus trabalhos. O ato político de recusar posse e propriedade dá, nesse primeiro andar, o tom da crítica que tem marcado a instituição.

Já no segundo piso, três diferentes salas qualificam as questões da relação arte/política sugeridas no andar de baixo. Na primeira exposição, a individual Fluxos de Luiz Baltar apresenta montagens fotográficas do percurso do artista pela cidade. As cenas das paisagens fotografadas da janela do ônibus, são sobrepostas em instantâneos panorâmicos e, através da técnica de múltipla exposição, tornam contemporâneos eventos que ocupam o mesmo espaço, mas tempos distintos. As fotos sem moldura são coladas direto nas paredes formando como que uma única e comprida imagem e dando ao observador a sensação de, também ele, fazer um percurso.  Nivelando lazer e violência policial, os gestos discursivos apresentam um outro Rio de Janeiro, e recolocam no centro da narrativa o cotidiano da Maré. Longe das imagens dos cartões postais, mas também sem referências diretas aos clichês das páginas policiais dos jornais, a mostra apresenta a dor e a delícia da vida cotidiana que resiste.

Na sala ao lado, é Denilson Baniwa, indicado ao Prêmio PIPA de 2019, quem traz para a mesa o tema que ocupa o noticiário da semana. No centro da sala, uma instalação em referência à Primeira Missa de Victor Meirelles, faz sangrar uma cruz encravada em sacos de açúcar guarani. Nas paredes, as obras trazem a marca do artista indígena em repertório pop e referências à arte urbana, e colocam na exposição discussões sobre a resistência dos povos nativos e a crítica ao agronegócio. Em tempos de Amazônia em chamas, a exposição ganha caráter premente.

Finalmente, ainda no mesmo andar, a exposição da artista italiana Laura Burocco “Gentrilogy – Trilogia da Gentrificação” traz para a ordem do dia os processos de gentrificação denunciados pela classe criativa mundo afora. Aqui se faz evidente o paradoxo de processos de intervenção urbana que afirmaram a arte como peça central de uma nova economia da cultura e se tornaram, ironia das ironias, alvo da crítica daqueles que deveriam ser os principais agentes desse processo. Laura Burocco, como outros, se nega a simplesmente agregar valor à urbe e fazer circular um capital de difícil mensuração. Sua obra se coloca como contra-discurso a processos que se espraiam de Milão a Rio de Janeiro e Johanesburgo, incorporando a especulação imobiliária aos projetos urbanísticos, mas não sem encontrar resistência.

Ainda subindo as escadas, as duas últimas salas do centro se dedicavam à temática da diáspora africana. Naquele sábado, a exposição-cena Pretofagia, de Yhuri Cruz, convidava Taísa Machado para executar seu ritual em que “O corpo preto se ocupa e investe recursos criativos e materiais para desenvolver ritos e rituais em louvação aos Orixás, Caboclos e Eguns”. Em especial naquele dia, contudo, o ritual conjurara, sem que nem todos percebessem, uma performance que deixava o visitante em dúvida se ela pertencia ou não ao projeto da mostra. Exu se materializara ali no corpo negro de uma figura andrógena, chegada da rua, cartola na mão, pés descalços. Colado à cartola que ostentava em seu interior uma nota de R$2,00, havia uma folha de papel: tridente desenhado, ao lado de valores de R$10,00 e R$20,00, cuidadosamente detalhando daquela obra, seu valor de troca. Os dentes maltratados, o cheiro do corpo, as mãos de dias passados ao relento, indicavam que a essa performance, de autoria anônima e delicada, era preciso pagar. Sua presença, seu estar ali, era o indício concreto de que os discursos impressos nas paredes fundiram finalmente arte e vida.  Com efeito, a entidade ali encenada bem poderia ter saído de outras performances exusíacas tematizadas na arte contemporânea brasileira. No entanto, nosso Exu saiu do mesmo modo que entrou, com os pés descalços no paralelepípedo, provavelmente rumo ao próximo espaço de arte em que pudesse transfigurar uma nota de R$2,00 em duas de R$10,00. Em nenhum outro lugar, no entanto, a entrada da efetiva vida nas ruas, livre da ação de seguranças, faria tanto sentido quanto ali.

 

[i] Professora do Departamento de Ciências Sociais e do Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais da UFRRJ.

 

*A imagem que ilustra o post foi retirada do site do CMAHO: https://www.cmaho.com/post/exposi%C3%A7%C3%A3o-cena-pretofagia-apresenta-o-ritual-do-corpo-no-pr%C3%B3ximo-s%C3%A1bado-31-08

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