“Claudia Andujar e a história em círculos”, por Pedro Meira Monteiro (Princeton University)

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Fonte: Pedro Meira Monteiro

Caros (as),

O Blog da BVPS tem o prazer de publicar o artigo “Claudia Andujar e a História em Círculo” de Pedro Meira Monteiro. Pedro analisa com fina sensibilidade a abertura da exposição da obra de Claudia Andujar dedicada aos Yanomami no Instituo Moreira Sales/Rio de Janeiro, com curadoria de Thyago Nogueira.
Pedro Meira Monteiro é professor titular na Princeton University, onde co-dirije o BrazilLAB e o Departament of Spanish and Portuguese.

Boa Leitura!

***

Na abertura da exposição de suas fotos sobre os Yanomami, no Instituto Moreira Salles do Rio de Janeiro, Claudia Andujar falou longamente com o público, ao lado de Davi Kopenawa. A mediação foi de Thyago Nogueira, curador da exposição cujo título é “Claudia Andujar: A Luta Yanomami”.

Aos 88 anos de idade e com alguma dificuldade de audição, lá estava ela, discreta, enquanto Thyago apresentava o projeto e Davi falava da luta do povo Yanomami. Inquirida sobre sua própria história, Claudia começou do começo: a infância na Transilvânia e a fuga da sombra terrível da Segunda Guerra.

Sua fala era circular. Quantas vezes, exatamente, ela voltou a contar que vivera em Oradea, na Romênia (cidade que tinha pertencido e voltaria a pertencer à Hungria), até que a família de seu pai fosse deportada e ela escapasse para a Suíça e depois Áustria? Confesso que fiquei temeroso, quando seu discurso se revelou circular: com pequenas variações, lá estávamos, num auditório lotado, seguindo a mesma estória, uma e outra vez, que nos levava de Oradea a Neuchâtel, passando pelo divórcio e pela mágoa do pai, até que a jovem menina fosse abrigada num convento que, sintomaticamente, ela chamou várias vezes de “convênio” católico. Ao fim de tudo, viria o reencontro com a mãe, quando o pai e o resto da família já haviam sido levados do gueto para morrer em Auschwitz e Dachau.

Por um instante, me compadeci de Thyago Nogueira, que mediava a conversa. Pensei com meus botões: Claudia vai repetir essa estória interminavelmente; nunca chegaremos ao Brasil e, na verdade, nunca sairemos de Neuchâtel. O que faz o moderador, num momento assim? Tenta dar rumo à conversa e acelerar a estória? Com absoluta elegância, Thyago decidiu não interrompê-la. Lá ficamos, por quase uma hora, diante daquela história circular.

Levei algum tempo até perceber que o segredo de sua arte estava ali, gritando diante de nós, naquele círculo a que nos sentíamos todos presos. Tratava-se da história de uma menina diante do genocídio: de onde se arranca a força da existência quando tudo em torno desmorona?

Mas a história seguiria seu passo, e nela se desenrolariam as estórias de Claudia Andujar, sem pressa alguma, numa narrativa tão apaixonante quanto pausada. Depois do fechamento do convento em Neuchâtel, ela ficou sob os cuidados da mãe, em Viena, sem que sua origem judia fosse descoberta. Em 1948, aceita o convite de um tio paterno que vivia nos Estados Unidos e se muda para Nova York, onde conheceria e se casaria com Julio Andujar, emigrado espanhol que, como ela, estudava no Hunter College, e que mais tarde se alistaria na Guerra da Coreia para conseguir a cidadania norte-americana. Nesse meio tempo, Claudia trabalhou como guia na sede das Nações Unidas, aproveitando o domínio de várias línguas, entre elas o húngaro, o romeno e o francês que ela falava quando criança.

A trama em que se misturam guerra e línguas é por demais evidente. O resto de sua trajetória, ouviríamos logo em seguida: a mãe migrou para a América do Sul e, mais tarde, já divorciada, no meio da década de 1950, Claudia se estabeleceria no Brasil e viajaria pela América Latina, onde começaria a fotografar. A fotografia, segundo ela, era uma forma de conhecer as pessoas e vencer a barreira da língua.

Quando trabalhava para revistas comerciais, conheceu Darcy Ribeiro, que a levaria aos povos indígenas. Nesse meio tempo, conheceria Dom Helder Câmara e a efervescência da Teologia da Libertação. Em 1971, já casada com George Love, conhece os Yanomami, com quem viveria por um longo tempo, amparada em bolsas da Guggenheim e da Fapesp. No fim da ditadura, enquadrada pela Lei de Segurança Nacional, é obrigada a retornar a São Paulo, onde, com o missionário italiano Carlo Zacquini (que estava na plateia do IMS, na primeira fila) e outros, passa a advogar pela causa Yanomami.

Claudia mencionou diversas vezes o desejo de ficar um “tempo indefinido” entre os índios. Aquilo me pareceu bonito, mas também um pouco misterioso. Por que “indefinido”? Como um tempo se define como não tendo fim?

Aos poucos fui entendendo, ou penso que entendi o que estava sendo dito. No círculo da memória, que nos prendera longamente à Transilvânia e nos fizera, por assim dizer, “parar” um bom tempo na Europa do leste cercada pelo nazismo, antes que nos fosse dado avançar e migrar, com ela e sua imaginação, para os Estados Unidos, e de lá para a América do Sul e a Amazônia – antes que chegássemos ao remate de sua trajetória, precisávamos entender, afinal, o drama da menina que vivera no meio do genocídio, sempre perto da extinção. Sua aproximação do mundo Yanomami é em certo sentido a mesma estória, contada de outra forma, agora por quem podia, finalmente, salvar aqueles que não foram salvos antes.

É o que disse cristalinamente Laymert Garcia dos Santos, em 1998, ao comentar a abertura da exposição de Andujar na Bienal de Fotografia de Curitiba:

Para entender a natureza da obra de Claudia Andujar dentro da arte contemporânea vale a pena evocar a de Joseph Beuys. Piloto da Luftwaffe até que seu avião caiu em 1943 na Crimeia, Beuys, gravemente ferido, foi socorrido pelos tártaros e tratado por seus xamãs. O episódio foi decisivo em sua vida, em sua opção pelo trabalho artístico e em sua própria concepção da arte, que ele fundia com a vida. Como o artista alemão, Claudia Andujar também encontra os Yanomami na condição de sobreviventes de um desastre. Judia, tivera seu pai e toda a família paterna exterminados nos campos de concentração. Mais do que um simples trauma, Auschwitz teve um impacto devastador na sensibilidade e na consciência contemporâneas, que Primo Levi dolorosamente apontou e ainda não foi totalmente compreendido por nós. Era essa herança familiar e histórica que Claudia Andujar trazia consigo quando encontrou os Yanomami. E, assim como Beuys teve a sua vida salva pelos tártaros, também ela foi “curada” pelos índios: com os Yanomami se abria a possibilidade efetiva de voltar a acreditar na humanidade. Ora, esse bom encontro decisivo estrutura o eixo de seu trabalho e de sua vida e transpira em todas as fotos, bem como em sua incansável luta em prol dos Yanomami.[i]

É também o que lembra igualmente Thyago Nogueira, ao comentar a série Marcados, em que retratos numerados identificando os indígenas para fins de controle de saúde lembram outros tipos de enquadramento:

Anos depois, quando reviu as imagens, Andujar lembrou da primeira vez que pensou que alguém pudesse ser marcado para morrer: fora na Transilvânia, quando, aos 13 anos, vira sua família paterna e seus amigos de escola carregarem a estrela de Davi costurada no peito. Entre os amigos, estava também um jovem garoto chamado Gyuri, de quem Andujar recebeu o beijo que lhe apresentou o amor. Gyuri morreu em Auschwitz em 1944, mas viveu num retrato que Andujar manteve por muito tempo pendurado no pescoço, em um medalhão. “É esse sentimento ambíguo que me leva, 60 anos mais tarde, a transformar o simples registro dos Yanomami na condição de ‘gente’ – marcada para viver – em obra que questiona o método de rotular seres para fins diversos”, explica.[ii]

Resta pensar no efeito de circularidade que a fala de Claudia Andujar no IMS sugeriu, de forma tão clara. Ao ver a exposição e folhear o catálogo, fiquei me perguntando se haveria algo de circular igualmente em suas fotos. Talvez sim, já que em algumas delas o círculo se faz mais ou menos evidente. Mas não se trata de simples transposição da geometria às imagens. Suas fotografias são também uma reflexão sobre o tempo, e nelas a “exposição” ganha um sentido especial.

É bastante conhecido o fato de que a escuridão no interior da floresta fez com que Claudia experimentasse com filmes mais sensíveis e exposições mais longas, que levariam às famosas distorções de luz que nos permitem, por assim dizer, ver os espíritos. Fotografar o mundo xamânico reclama sensibilidade e técnica. Seriam sucessivas experimentações com a revelação, o infravermelho, a múltipla exposição, vaselina aplicada às lentes etc. Tudo para criar uma aproximação inusitada com o universo da espiritualidade.

Na exposição se dá um jogo delicado de abertura continuada e insistente, numa metáfora muito sugestiva, como se o encontro da luz dependesse de uma espera paciente e não completamente planejada. Claudia, no caso, não teme levar ao limite a exposição, ciente de que assim pode penetrar algo que é inacessível ao olhar.

A circularidade, em suas fotos, é também de outra ordem, que talvez tenha a ver mais diretamente com o ritmo distendido do discurso, que se nega à realização final. Não que o tempo da narrativa se prolongue infinitamente, numa circularidade sem fim. Na verdade, trata-se de estender o tempo “indefinidamente” – como o período que ela imaginava passar entre os indígenas, e que acabaria passando de fato entre os Yanomami. Como se o tempo de fechamento do sentido se prolongasse, sem prometer a eternidade, para ficar apenas flutuando. A flutuação é, sem sombra de dúvida, uma das sensações fortes causadas por algumas das mais impressionantes fotos de Claudia Andujar.

É o que talvez esteja sugerindo Bruce Albert, em outro texto. Nele, o antropólogo comenta o valor da “terra-floresta” que, originada pelo antigo céu caído no tempo das origens, segundo o pensamento xamânico, nomeia a associação que reúne os Yanomami em defesa de sua terra.

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Fonte: Pedro Meira Monteiro

Sua vitalidade dependeria da afirmação de uma territorialidade muito distante da noção de posse absoluta. A posse definitiva nos prenderia eternamente ao mesmo lugar na terra; seria o mundo infinito, mas não indefinido:

Essa resiliência desafiadora da “terra-floresta” e da “terra-mundo” Yanomami sob o espaço escrito da burocracia de Estado é, a meu ver, impregnada de um ensinamento crucial. O da possibilidade de existência de uma terra “leve”, evocada por Nietzsche, tecida de multiplicidades móveis, onde, como escreve J. Rajchman, “se torna um ‘nativo’ […] somente quando se sabe ‘mudar de lugar’.” No fundo, talvez tenha sido essa alternativa luminosa ao peso mortífero do “solo natal” (Heimatboden) heideggeriano que tanto cativou e aproximou Andujar e o autor destas linhas, vindos de percursos tão diferentes, tortuosos e remotos (da Suíça e do Marrocos) para encontrarem, há mais de quatro décadas, uma improvável forma de afinidade e familiaridade junto ao povo Yanomami no Brasil.[iii]

O peso “mortífero” de uma concepção das raízes fixas e profundas ainda assombra este nosso mundo, já bem entrado o século XXI. Mas é bonito pensar que a luminosidade capaz de se deslocar indefinidamente possa ser uma alternativa brilhante ao pesadelo que o século XX nos legou, e que parece não querer desaparecer.

O impulso de morte se reatualiza hoje como força motriz do que pode ser o fim do planeta. Já a cura, se existe, está na resiliência diante do poder da morte.

Em 1975, num artigo de jornal, Claudia Andujar lembraria o medo da morte que a perseguiu desde a infância, e o sentimento de culpa que levam aqueles que sobreviveram ao extermínio. O pesadelo da infância é recordado, diante da doença e da aparente proximidade do fim:

O medo da morte me perseguiu muitos anos. É um pensamento que trouxe da infância: sem dúvida, sentimento de culpa. Durante a guerra, meu mundo foi arrasado de um dia para o outro. Fiquei viva enquanto os outros morreram. Morreram meu pai, morreu minha avó, minhas amiguinhas e um amiguinho que me emocionou e me acordou dos sonhos da infância.

Os anos passaram. Era madrugada: exausta de dores, apoiei a nuca no travesseiro com gelo na testa. Me senti deslizar no limbo. Estava passando muito mal com a malária. Descobri que a dor era mais terrível que a morte. Meu único desejo era que a dor parasse. E um dia parou: perdi o medo da morte. As folhas podres no solo da floresta, as caminhadas no mato fechado, o encontro comigo nos momentos raros que a vida me propôs num momento de entrega, é o que está comigo, está no meu trabalho. Trabalho que pode se resumir na fotografia, no tratar de um doente, na comunicação, em mil coisas, todas interligadas, porque sou sempre a mesma pessoa com a mesma procura.

O jipe chegou, me levou. Durante a viagem para Caracaraí, me acalmei, sabia que o que tinha feito era certo. Certo para os demais que deixei para trás e certo para mim [iv].

A lembrança da dor se alivia no presente, numa espécie de proximidade negociada e delicada com a morte. Penso aqui nas experiências extáticas e no cerimonial Yanomami que conhecemos pelas lentes de Claudia Andujar.

Como disseram os alunos do seminário que oferecemos no IMS, logo após visitar a exposição: na granulação e na falta de foco se dá a “autenticidade do momento”, o que talvez seja uma forma de falar da sagração da vida. A imperfeição da imagem naquelas fotos projeta um encontro possível e necessariamente precário, em que se reacende o horizonte do humanismo.

O espaço em que mergulhamos, nas fotos que vimos com os alunos, abre-se como uma angular em que se descobrem os outros. Ou melhor, a abertura aponta para a duração em que foi possível se relacionar e se humanizar, preservando o que é frágil diante da ameaça da destruição. O incrível é que essa aproximação se dê num tempo sempre lento, exigindo uma paciência bastante rara nos dias de hoje.

Foi preciso paciência para perceber que o discurso de Claudia Andujar não era um círculo sem fim, ou pura repetição. Ele apenas nos reafirmava a origem e a potência secreta das imagens que íamos ver.

[i] Laymert Garcia dos Santos. “A experiência pura”. Folha de S.Paulo, 16 ago 1998, mais!, n.p. Consultado online, 24 jul 2019.

[ii] Thyago Nogueira. “Claudia Andujar: A luta Yanomami” in Claudia Andujar: A luta Yanomami. São Paulo: IMS, 2018, p.242.

[iii] Bruce Albert. “Um mundo cujo nome é Floresta: homenagem a Napëyoma” in Thyago Nogueira (org.). Claudia Andujar: A luta Yanomami. São Paulo: IMS, 2018, p.111.

[iv] Claudia Andujar. “Relação: homem pra homem” in Thyago Nogueira (org.). Claudia Andujar: A luta Yanomami. São Paulo: IMS, 2018, p.101.

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