Resenha de “Enlaces. Estudos de folclore e culturas populares”, por Lucia Lippi Oliveira (CPDOC/FGV)

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Dando continuidade ao post com a entrevista de Maria Laura Cavalcanti (UFRJ) e Joana Corrêa (UFRJ), organizadoras do livro Enlaces, divulgamos hoje resenha inédita da Profa. Lucia Lippi Oliveira (CPDOC/FGV). Além de percorrer diferentes  artigos de Enlaces ligando-os à tradição sociológica brasileira, Lucia Lippi traz as resenhas lançadas à época sobre o livro Projeto e Missão: o movimento folclórico brasileiro 1947-1964 de Luiz Rodolfo Vilhena, trabalho fundamental sobre cultura popular e folclore.  Agrademos à Profa. Lucia Lippi pela contribuição ao Blog da BVPS.

Resenha: Enlaces. Estudos de folclore e culturas populares. Maria Laura Cavalcanti e Joana Corrêa (organizadoras). Rio de Janeiro: IPHAN, 2018.

Lucia Lippi Oliveira (CPDOC/FGV)

O livro Enlaces, publicado em 2018, reúne expressivo conjunto de artigos e vem revelar o quanto o antropólogo, ao lidar com a cultura popular contemporânea, se torna partícipe de encontros, mediações e imbricações, atuando em campos já visitados anteriormente pelos estudiosos do folclore brasileiro. Ao fazê-lo supera a dicotomia que, por tanto tempo, apartou as ciências sociais dos estudos de folclore enfocando os elos existentes entre expressões culturais populares e seus importantes intérpretes e pesquisadores que, no passado como no presente, as documentaram, registraram e pesquisaram.

O livro homenageia a obra de Luis Rodolfo Vilhena e celebra os 60 anos do Centro Nacional de Folclores e Cultura Popular e Museu de Folclore Edison Carneiro, hoje vinculados ao Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. A Introdução de Maria Laura Cavalcanti ao livro intitulada “Por uma Antropologia dos estudos de Folclore” nos oferece uma reflexão competente e um importante panorama dos estudos sobre folclore e sua inserção como uma vertente da formação das ciências sociais no país. Retorna aos tempos iniciais do projeto “Os estudos de Folclore e as Ciências Sociais” que recebeu um financiamento da Finep e que foi desenvolvido no Instituto do Folclore a partir de 1987 por um grupo de jovens Mestres em Antropologia oriundos do Programa de Pós-graduação em Antropologia Social o Museu Nacional (PPGAS) da UFRJ.

Vou dar destaque a um dos possíveis ângulos de leitura do livro Enlaces, aquele que privilegia a análise dos procedimentos de institucionalização dos diferentes campos disciplinares envolvidos nas pesquisas sobre as culturas populares. Retomarei mais adiante aos primeiros resultados da pesquisa e revisitarei resenhas publicadas à época sobre o livro Projeto e Missão de Luis Rodolfo.

Entre os 18 capítulos que compõem o livro, destaco aqueles que falam do ensino  da disciplina, da pesquisa no campo do folclore e da troca sistemática de informação e de formação de redes intelectuais. Registro o artigo de Cecília de Mendonça  “Os estudos de folclore musical na Universidade”, que destaca o papel de Luiz Heitor Corrêa de Azevedo; catedrático de Folclore (1939 a 1947) na Escola Nacional de Música; responsável pela inserção do folclore no ensino no campo da música. Este tema também é contemplado por Felipe Barros em “A música folclórica nas pesquisas de Luiz Heitor Corrêa de Azevedo”. Já Ana Teles da Silva, em “Publicações do Folclore nos anos 1960 a 1970”, destaca o papel da Revista Brasileira de Folclore como espaço de debate, de construção de conhecimento, de definição de quem está dentro/fora do campo. Destaco o uso das revistas como fonte privilegiada, capazes de nos informar sobre as dinâmicas dos grupos, sobre as relações de força, poder e prestígio no campo da cultura. Há, ainda, o de Renata Sá Gonçalves e Catarina Ribeiro da Silveira, intitulado “Prêmio Sílvio Romero. Breve Panorama de 1960 a 2015”.

Esse conjunto revela como os estudos de folclore lutaram para construir seu objeto, desenvolver sua metodologia segundo os critérios de cientificidade dos anos 1950/1960. Fracassaram em seus esforços de institucionalização nas universidades. Lutaram para  ganhar visibilidade,  abrangência para além da comunidade acadêmica universitária. Tiveram sucesso, foram bem sucedidos em montar uma rede de estudiosos que se dedicou à criação de museus e de bibliotecas. Se a Sociologia recusou o campo dos estudos de folclore, a Antropologia irá  recebê-lo mais adiante, em especial a partir dos anos 1990 com a expansão de seu campo de interesses.

Retornando aos primeiros resultados da pesquisa “Os estudos de folclore e as ciências sociais” cabe o registro do artigo de Maria Laura Viveiros de Castro Cavalcanti e Luís Rodolfo da Paixão Vilhena intitulado “Traçando Fronteiras: Florestan Fernandes e a marginalização do Folclore” publicado originalmente na revista Estudos Históricos (vol. 3, n. 5, 1990, p 74-92). Este artigo mapeia o processo de institucionalização dos campos do Folclore, da Sociologia e da Antropologia nos anos 1950 quando se coloca a questão de uma discussão conceitual da noção de folclore (a noção de arte popular); a criação de curso sobre o folclore; a defesa da inclusão do folclore no currículo dos cursos de Ciências Sociais, de Geografia e História nas Faculdades de Filosofia e Letras. Luís Rodolfo Vilhena deu continuidade à pesquisa com o livro Projeto e Missão: o movimento folclórico brasileiro 1947-1964, publicado postumamente em 1997. Os diversos capítulos de Enlaces, agora publicado, assinalam a presença e a relevância do trabalho de Vilhena para a renovação das pesquisas atuais sobre as culturas populares cujo estudo no passado se viu com frequência imbricado com os estudos de folclore.

O livro Projeto e Missão foi muito bem recebido por ocasião de sua publicação dando origem a pelo menos três resenhas importantes que valem ser revisitadas. A primeira é a da socióloga Gláucia Villas Bôas, “Em busca do sentido nacional do folclore” publicada na revista História, Ciências, Saúde-Manguinhos, em 1999. A autora valoriza ter o autor retomado um dos temas polêmicos de nossa tradição – a ideia de nação – investigando qual o sentido que os folcloristas davam aos estudos das tradições populares, voltados para a preservação de um bem considerado arcaico, resquício, sobrevivência do passado. Isto se dá no momento mesmo em que se privilegiava a modernização do país através da qual estaria se encerrando os resquícios e as sobrevivências do mundo tradicional. Para ela, o livro questiona problemas relevantes da vida intelectual ao discutir as escolhas feitas pelos cientistas sociais ao excluir o campo do folclore do rol da ciência. A socióloga, por outro lado, não poupa os folcloristas, faz a ressalva dizendo que eles não conseguiram “formular uma ideia da cultura brasileira a partir das tradições populares que estudavam”. Conseguem sim validar a “pluralidade regional das expressões folclóricas”, valorizando sua espontaneidade, seu caráter comunitário e sua oralidade que, em seu conjunto expressariam uma maneira brasileira de ser. O Movimento Folclórico se fez representar em 18 estados da federação, produziu documentos, organizou congressos, tudo isto para proteger o folclore. Em sua visão, fez isto congregando basicamente “intelectuais de província” – desejosos de conhecer, registrar, preservar e proteger a cultura popular definida por sua oralidade em reatualização constante através do tempo, como se nela se encontrasse a “força viva da brasilidade”.

Destaca-se também a resenha da antropóloga Elizabeth Travassos, publicada em Mana: estudos de antropologia social 4(1) p. 186-188, em 1998. Travassos reconhece que o “movimento folclórico” é bastante amplo e abrange uma série de empreendimentos, entre eles o que lutava para ter o reconhecimento do folclore como saber científico.  Ressalta que a explicação mais comum da recusa consiste em apontar as debilidades teóricas e metodológicas do saber produzido pelos folcloristas. E sua incapacidade de conquistar espaço nas universidades teria a ver com o caráter pré-científico do saber produzido por folcloristas. Segundo Travassos, a tese central de Vilhena é a de que o sucesso do folclore como ação mobilizadora foi a outra face da moeda do seu fracasso como ciência. Vilhena examina o estudo do folclore a partir das categorias internas e reconstrói o ethos dos folcloristas, seu modo de agir a partir da organização de congressos. Igualmente valoriza a expansão da rede por meio de comissões estaduais de folclore que angariou colaboradores locais, mesmo que fossem diletantes. Os organizadores do movimento consideravam que a falta de especialização profissional seria minimizada pela intimidade com a cultura rural. O espírito comunitário do povo estaria espelhado na prática do pesquisador local, ele mesmo um homem “simples” que se identifica com a realidade que estuda. Diz a autora que a estratégia de mobilização de intelectuais espalhados em todo o território nacional correspondia  ao empirismo documental  que dava  ênfase à coleta em detrimento da conceituação.

As duas resenhas e a Apresentação de Cláudia Márcia Ferreira e Maria Laura Cavalcanti ao livro Projeto e Missão podem ser consideradas como textos que abriram caminhos e horizontes para  estudos contemporâneos a respeito de folclore.

Vale mencionar ainda a resenha de Isabela Tamazo, intitulada “O Movimento Folclórico Brasileiro: uma ritmada de conquistas e fracassos” publicada no Anuário Antropológico/1997, p. 305-313. A autora explora o tema da mobilização da opinião pública estabelecendo a relação entre o tema da identidade nacional e a cultura popular, esta entendida sobretudo pelos “folguedos populares”. Destaca o olhar antropológico do autor e o uso do conceito de “ethos” para dar conta do procedimento comum aos encontros e congressos dos folcloristas. Vilhena opera com a noção de “continuidade” como chave para  analisar a tradição folclórica destacando entre seus traços a oralidade, a visão da identidade nacional como continuidade da diversidade regional e a institucionalização na criação da Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro que não objetivou uma separação entre “diletantes” e intelectuais especializados. A autora destaca ainda o que se apresenta como um novo olhar: uma correlação entre o sentido missionário de salvação da cultura nacional presente na criação do Serviço de Patrimônio Histórico Nacional (SPHAN) em 1937 e o discurso dos folcloristas como “lastro” da identidade nacional.

Para concluir gostaria de sinalizar que nos tempos heroicos do IPHAN valorizaram-se os bens de “pedra e cal”, quando os arquitetos foram artífices fundamentais. Agora, após a Constituição de 1988 e a  institucionalização da política pública de patrimônio imaterial tornada lei a partir de 2000 os chamados “bens imateriais” passam a ser registrados nos livros dos Saberes, das Celebrações, das Formas de Expressão e de Lugares. Com isso as pesquisas sobre as culturas populares no Brasil foram ampliadas demandando o inventário e a salvaguarda do patrimônio imaterial, espaço este que passou a ter no antropólogo um relevante mediador entre os grupos produtores das expressões populares e o próprio processo de registro dessas expressões como patrimônios culturais brasileiros.

O livro Enlaces revigora e atualiza as conquistas das pesquisas iniciadas nos anos 1980,  interessa aos pesquisadores universitários de diferentes formações e a esse amplo campo de atuação que renova os encontros, as mediações e imbricações que configuram as culturas populares contemporâneas.

(Rio de Janeiro, 26/02/2019)

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